Pelo dia dos (e)namorados

No dia dos namorados

Queria uma carta de amor

Uma carta escrita com carinho

Cheia de palavras de amor

Que viesse em um papel delicado

Com letra tremida de paixão

Tinta carregada de ternura

E perfume de muita saudade

Que aquecesse meu coração

Alegrasse minha existência

E que me provocasse

Na boca um terno sorriso

Enquanto dos olhos escorresse

Uma lágrima de emoção,

Trazida com muito cuidado

No bico de um rouxinol.

Mas se não puder mandar a carta

Se não gostar de escrever

Se não tiver esse papel, nem essa tinta

Se não souber essa letra e nem tiver

De emissário um rouxinol, não faz mal

Venha então pessoalmente

Para me dizer essas palavras

Com voz de muita paixão

E nos olhos muita ternura

Nas mãos não quero flores

Nem mesmo quero presentes

De nada que há em lojas eu preciso

Quero apenas mãos trêmulas de desejo

E um abraço que mate toda essa saudade.

Poesia da casa – de saudade

Sou feita só de saudade. 
Não sou massa nem sou visível.
Esse corpo fraco que ocupo não é meu.
Pairo sobre os mortais preocupados em viver.
Não tenho esses sentimentos de apego à vida
E muito menos de ter medo da morte.
Flutuo, leve, em um mundo de pesos-pesados
Não sei lidar com os humanos. 
Nem com suas vontades.
Porque minha essência é a saudade
Sou apenas sentimento.
E um único sentimento.
De saudade me alimento.
Com saudade adormeço
Por saudade amanheço
Só de saudade eu vivo
E de saudade hei de morrer.

(Imagem: banco de imagens Google)

(in)Competência em tempos modernos

Aparentemente a burrice veio para ficar, instalada nos cérebros humanos como se fosse um programa de computador – que, principalmente aqueles que mais o utilizam, enchem a boca para dizer “software”.

A cada dia que passa, as relações humanas – principalmente no campo das relações comerciais, se tornam mais difíceis.

A internet – computador, celular, redes sociais etc., só demonstra o encolhimento da massa cinzenta correspondente ao cérebro dos seres humanos.

Chego no caixa da padaria. Ele me dá a conta: “R$ 18,10”. Pego uma nota de R$ 20,00 e uma moeda de R$ 0,10 e tento pagar.

De imediato ele devolve a moeda. E pergunta: “Tem trocado?”, respondo “Não.”

A pessoa olha para a nota, olha para a tela, pega uma calculadora, liga, mexe, mexe e pergunta: “Tem dez centavos?”

Eu pego de volta a mesma moeda que foi devolvida e coloco na mão da criatura, que a pega novamente, e pega também a nota de vinte reais, liga de novo a calculadora para ver qual o troco

Vou a uma loja de material de iluminação procurar uma peça para reposição. Escolho uma dourada e pergunto para a criatura que grudou nas minhas panturrilhas desde que pisei no show room:

“Tem de outra cor, que não seja dourado?

“Tem.”

“Quais cores você tem?

“Que cor a senhora quer?

“Prateado.”

“Não tem.”

“E quais as outras cores que você tem?

Ele, com toda a pompa, vai até uma mesa, mexe no computador, olha atentamente para a tela e responde:

“Tem ouro, cobre, prata, branco, preto e vermelho.

“OK, quero prata.”

“De que material?”

“Do que tiver.”

“Que cor?”

“Prata”

“De prata nós não fazemos”

“Pode ser de outro material que vocês fazem”

“De que cor?”

“Prata”

“Alumínio ou aço?”

“De qualquer material que tiver, desde que seja na cor prata.”

O cidadão, ainda imbuído de ostentação, abre um armário sob a mesa e pega algumas amostras – quadradinhos de uma liga com metal, de várias cores. Escolhe algumas e me mostra:

“Temos essas cores.”

Escolho uma amostra, na cor prata.

“Quero dessa cor.”

“Ah, a senhora quer escovado.”

“Escovado?”

“Sim, esta cor se chama escovado.”

“OK, então eu quero escovado” (E nem tinha essa cor no rol que ele leu duas vezes no computador).

“Mas a senhora não queria prateado?”

“Tem prateado?”

“Não.”

“Tudo bem, se não tem prateado, levo o escovado.”

“De que cor?”

É muito para mim. Desisto. Chega. Vim embora sem comprar nada…

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Ana Acto

Tenho os pés feridos
Doridos...
Do caminho percorrido
Não esquecido
Mas passado 
Desci tantas vezes descalça 
Sobre afiadas escarpas 
E caminhei em plantas 
sobre silvas bravas
E ferida
Continuei...
Trilhei só 
Em caminhos cerrados 
E de coragem em braços 
Os desbravei
Desbastei mato bravio
E em lama me afundei
Mas cada etapa 
Cada prova 
Que se me deparou
Superei...
Tenho os pés feridos 
Doridos
Do caminho percorrido
Sentidos...
Mas cicatrizaram
E calejaram 
E mais fortes 
Seguem seu destino
Da vida a sorte
Na esperança o caminho