Dia de poesia – Débora Zanon

Se atire em mim

Como em um voo rasante.

Um suicídio.

Sem qualquer trava de segurança.

Sinta o medo

E o prazer

Do caminho sem volta.

Que pode significar o concreto.

Sem rede de proteção

Despedaçado no chão

Sem ter como colar nenhum pedaço

Se atire em mim.

Como em um precipício.

Com um profundo mar

Distante e irreal.

Como loucura.

Insanidade.

Sinta o frio na alma.

De se desvencilhar.

Do que foi concebido.

Ou vivido.

Que pode significar.

Chegar ao ponto sem volta.

Que pode ser um mergulho doce.

Em águas profundas

Penetrado por sentimentos.

Contraditórios

Revolucionários.

O enlace no mergulho

No vazio.

Preenchido de emoção

Calor.

Nossos corpos unidos.

Em comunhão imperfeita.

Mas em doce fusão.

Em busca do limite extremo da carne.

Dá alma.

Dá euforia.

Dá dor.

Vivos…

Sem entorpecimento.

Ou entorpecidos em nós mesmos.

Tanto faz..

Mergulhe no que não conhece.

Mergulhe em mim.

Que te acho.

Tristes memórias (anual)

Naquele dia “12 de abril de 1945” eu vi meu primeiro campo de horrores. Ficava próximo à cidade de Gotha. Nunca fui capaz de descrever minhas reações emocionais quando encarei pela primeira vez a evidência inquestionável da brutalidade nazista e o desrespeito cruel a qualquer senso de decência. Até então eu só conhecia aquilo em termos gerais ou através de fontes secundárias. Estou certo, no entanto, de que jamais, em qualquer momento, experimentei uma sensação de choque igual. Visitei cada canto e esconderijo do campo pois senti que era meu dever estar em posição, a partir de então, de testemunhar em primeira mão sobre aquelas coisas, caso em algum momento surgisse a crença ou hipótese de que “as histórias de brutalidade nazista foram apenas propaganda”. Alguns integrantes da equipe de visitação foram incapazes de prosseguir com o suplício. Eu não só o fiz como, assim que retornei ao quartel-general de Patton naquela tarde, mandei mensagens a Washington e Londres requisitando que ambos os governos enviassem instantaneamente à Alemanha um grupo aleatório de editores de jornal e grupos de representantes das legislaturas nacionais. Senti que a evidência deveria ser apresentada imediatamente aos públicos americano e britânico de uma maneira que não deixaria lugar para dúvidas cínicas.

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A evidência visual e o testemunho verbal da fome, crueldade e bestialidade foram tão esmagadores que me deixaram um pouco enjoado. Em um determinado cômodo, eles haviam empilhado vinte ou trinta homens nus, mortos de fome, e George Patton não foi capaz nem de entrar. Ele disse que ficaria enjoado se o fizesse. Eu fiz a visita deliberadamente, com a intenção de ser capaz de dar um testemunho em primeira mão dessas coisas caso no futuro surja uma tendência em atribuir essas acusações à mera “propaganda”. (Dwight D. Eisenhower), Comandante Supremo das Forças Aliadas).

Hoje, 27 de janeiro, é o dia dedicado à lembrança dos horrores da Segunda Guerra. Fixado nessa data, na qual, no ano de 1945, os soviéticos libertaram os prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. 

Mas não um dia de comemoração. Porque nada há a ser comemorado. Só muita lembrança triste. Opressiva.

Convivi com sobreviventes de alguns desses lugares. Chorei todas as vezes em que ouvi suas histórias.

Um traço comum entre todos era contar a história diversas vezes e mostrar o número tatuado no braço, como se tivessem medo que não eu não acreditasse. Eu sempre acreditei. Essa página horrível da história sempre me tocou profundamente, como se eu tivesse participado de tanto sofrimento.

E os relatos eram sempre assemelhados – crianças, ainda, levados com a família, não sabiam para onde estavam indo. Não havia nenhum tipo de divulgação do que viriam a sofrer, a que seriam submetidos. Ao chegarem, as famílias eram separadas – homens para um setor, mulheres para outro. Era a última vez em que se viam.

A maioria relata que a mãe não aguentou muito tempo, morrendo logo, de fome, fraqueza ou doenças ali existentes.

Outros relatam que sobreviveram porque eram os mais jovens da família e viram o pai / a mãe / irmãos ou irmãs mais velhos morrerem ou serem mortos.

Quando da chegada dos aliados, esses sobreviventes (sobreviventes?????) foram encontrados em condições indescritíveis, de acordo com seus salvadores.

Por isso 27 de janeiro não é dia de comemoração.

É dia de recolhimento, meditação. De pensarmos como a humanidade pode assistir a tal horror. E lutarmos para que o holocausto não seja esquecido e muito menos negado, e sempre lembrado nesse dia dedicado à memória das vítimas.

Marian Turski, 93 anos, judia polonesa sobrevivente, nos adverte : ”Auschwitz n’est pas tombé du ciel soudainement, Auschwitz trottinait, marchait à petits pas, se rapprochait, jusqu’à ce qu’il arrivât ce qui est arrivé ici” (Auschwitz não caiu do céu repentinamente, Auschwitz trotou, andou a passos pequenos, aproximou-se, até que aconteceu tudo o que aconteceu aqui), e termina suplicando aos políticos, poderosos e ao povo: “Não sejam indiferentes!”

Nunca estaremos totalmente livres de outro regime de horror. Mas se não negarmos que já existiu, se estivermos alertas aos primeiros passos (desde a abjeta substituição da bandeira de um país pela bandeira de um partido político nas manifestações públicas, por exemplo), unidos no bem e em nome do bem, conseguiremos evitar se repita.

Mas – volto a afirmar – hoje não é dia de comemorar nada, exatamente nada.

Vivendo (Memória)

Viver é ir. Lançar-se. Em todas as direções. Alcançar outras dimensões. Literais ou figuradas. Não é possível viver sem sair do lugar. Ainda que o corpo não possa se mover, que a mente se desloque. Conheça novas realidades. Outros cantos do mundo.

Voando rumo ao norte, alcançar a costa leste da Europa, e ver o sol nascer atrás da África, na direção do fim do deserto. Vermelho, como se pusesse fogo no céu do outro lado do mundo. Não existe espetáculo mais lindo. Tantas vezes quantas se avista esse amanhecer, tantas outras desejamos ver. Porque aquele nascer do sol abrasador, magnífico, é um nascer da vida que ficará eternamente gravado em nossa memória.

E de grandes e pequenos momentos as viagens enriquecem nosso viver. Um colar de pérolas de luz aos pés do vulcão, em noite clara do golfo sorrentino. Uma cerveja espetacular em um entardecer na linda Praga. A alegria e hospitalidade da família cigana que nos recebe para um típico jantar em Budapeste. E a neve atapetando Paris na noite de Réveillon.

As meninas armadas andando despreocupadas pelas ruas de Jerusalém. E as tâmaras frescas colhidas diretas da árvore nos jardins do hotel no Cairo…

E Portugal? Terra linda, acolhedora. Sentar no penhasco que ficava no fim do mundo, local no qual, segundo Camões, em Os Lusíadas, canto III, “Eis aqui, quase cume da cabeça da Europa toda, o Reino Lusitano,  onde a terra se acaba e o mar começa (…)*, ponto este localizado no Cabo da Roca…

E sentir a vida no mesmo idioma, ainda que em outra linguagem, pelas ruas da linda Lisboa…

São tantos países, tantos lugares acolhedores, maravilhosos.viver não cansa se a vida é vivida por aí, entre descobertas e viagens, novas cores, novas paisagens… Basta ir. Leve e de alma aberta. E ver a cor do sol e dos telhados. E ver a chuva mansa e a neve fria nas ruas. E receber o sorriso de tantas pessoas diferentes. Andar pelo mundo. Sem compromisso. Sem preconceito. Apenas para conviver. Experimentar as comidas, brindar com as mais diferentes bebidas. E simplesmente andar nas ruas vendo a vida de outro ângulo.

Mas também viajar mesmo sem se deslocar no espaço.

A imaginação é mais forte do que a realidade. E podemos ir longe dentro de nós mesmos. Isso se chama sonhar. Soltar as cordas da fantasia e navegar.

Atravessar fronteiras e barreiras. Chegar em outros mundos, outros planetas.

Se possível, viajar fisicamente.

Se não, viajar através dos livros.

E, ainda e sempre, viajar nos sonhos que nos é dado sonhar…

Quem está parado não está vivendo.

A vida é não ficar. Não permanecer.

Viver é movimento.

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Angela Caboz – Não é bem o amor que me mata

Não é bem o amor que me mata.

O que acaba comigo é esta distância que não nos separa.

Esta distância que nos aproxima. A distância que eu encurto de cada vez que dou comigo a sonhar-te, e que, o sonho me parece tão real que até há espaço para um abraço.

O que me mata é ter apagado os milhares de quilómetros que o mundo desenhou entre nós para te sentir junto a mim em cada segundo que passa.

O amor é assim, é um veneno que nos torna viciados nessa necessidade de o termos sempre por perto. O amor é o alimento que nos tira a fome, para nos dar vontade de vivermos nos braços de quem amamos.

O amor mata-nos e obriga-nos a continuarmos vivos e com o eterno desejo de o celebrarmos a cada minuto das nossas vidas.

E no entanto, eu morro de amor por ti todos os dias.

Morro de amor, todos os dias quando procuro agarrar-me a esta paixão avassaladora que me mata, por te desejar tanto.

E esta morte dá-me vida.

É tão bom morrer todos os dias para te poder continuar a amar no dia seguinte. Para poder continuar a sonhar com tudo o que ainda não vivemos e que eu vou desenhando nos nossos sonhos.

O amor é o melhor veneno que a vida me ofertou.

É o alimento que sacia sem me dar peso, pelo contrário desde que descobri este amor tenho tanta leveza que consigo viajar até ti a toda a hora.

Este amor é o renascer de uma vida esquecida. É a morte anunciada de uma solidão que nunca foi desejada.

É o final de um drama que nunca quis escrever.

Este o amor é o primeiro passo para deixar que tudo possa recomeçar a viver.

(Imagem: banco de imagens Google)

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 15 – Lamartine

“Admiramos o mundo através do que amamos.” – Alphonse de Lamartine.

Alphonse Marie Louis de Prat Lamartine (Mâcon, 21 de outubro de 1790 – Paris, 28 de fevereiro de 1868) foi um escritor, poeta e político francês. Seus primeiros livros de poemas (Primeiras Meditações Poéticas, 1820 e Novas Meditações Poéticas, 1823) celebrizaram o autor e influenciaram o Romantismo na França e em todo o mundo.

Em 1820 lançou seu primeiro livro, “Meditações” (Les méditations), inspirado num breve amor por Julie Charles, que morreu prematuramente.

Aclamado pela crítica, ingressou na carreira diplomática, o que lhe proporcionou viagens para Nápoles, Florença e Londres.

Frustrado, com a ascensão de Luís Filipe ao trono da França, em sua intenção de ingressar na carreira diplomática,  retornou à poesia com Harmonias Poéticas e Religiosas (1830), Jocelyn (1836) e A Queda de um Anjo (1838).

Foi membro do governo provisório e ministro do Exterior em 1848. Depois de sua malsucedida candidatura às eleições presidenciais, escreveu apenas narrativas autobiográficas, terminando a vida em difícil situação financeira.

No fim da vida, o governo o socorre com uma renda vitalícia de 21 mil francos, a título de recompensa nacional. Lamartine morre em 1869, em uma casa que lhe fora doada.

“Admiramos o mundo através do que amamos.” – Alphonse de Lamartine.

Seus poemas são caracterizados por profunda melancolia, cujos temas frequentes são religião e amor. Sua influência no Brasil pode ser encontrada em poetas como Castro Alves e Álvares de Azevedo. (Fonte: Wikipédia)

O Lago

Assim, sempre impelidos a outro litoral,
Arrastados na noite eterna e sem voltar,
Não podemos jamais no oceano ancestral
Um só um dia ancorar?
Lago! Mal findou o ano seu curso diário
Junto às ondas amadas a que ia rever,
Mira! Sento-me aqui na pedra solitário
Onde viste-a deter-se!
Tu bramias assim sob essas rochas fundas;
Ferias-te em ilhargas delas laceradas;
Lançava o vento assim a escuma dessas ondas
Em seus pés adorados.
Uma tarde, recordas? vogando em silêncio;
Longe, sobre onda ouvia-se e sob esses céus,
Só um som dos remadores em sua cadência
Os belos fluxos teus.
De repente sinais a nós desconhecidos
Enlevo ao litoral, ecos a percutir;
Fluxo atento; deixou a voz que me é querida
Tais palavras cair:
“Ó tempo, suste o vôo! e vós, horas propícias,
Suspendei vossa via!
Permite-nos gozar as rápidas delícias
Do mais belo dos dias!
“Muitos desventurados aqui vos imploram:
que deslize, deslize
Por eles e que dome os medos que os devoram;
Esquecei os felizes.
“Mas peço em vão alguns momentos para agora,
Foge o tempo a escapar;
E digo à noite: “Seja lenta”; e vai a aurora
A noite dissipar.
“Amar então, amar! nesta hora que desliza,
Depressa ao prazer, vamos!
O homem nunca tem porto, o tempo nem baliza;
Desliza e nós passamos!”
Tempo de inveja, instantes desta embriaguez,
Onde em alta onda o amor verte-nos a ventura,
Voam longe de nós na mesma rapidez
Como dias de agrura?
Pois quê! não fixaremos nem mesmo o sinal?
Quê! idos para sempre? quê! todos perdidos?
Esse tempo que os deu, tal tempo dá final,
Não os terá trazido?
Passado, Eterno, Nada, abismos bem sombrios,
Que fizestes dos dias que vós devorastes?
Falai: nos dareis vós sublimes desvarios
Com que nos encantastes?
Ó lago! rochas mudas! grutas! mata escura!
A vós que o tempo acolhe e pode remoçar,
Desta noite, guardai, guardai bela natura
Ao menos o lembrar!
Que seja em teu repouso, ou em tuas voragens,
Lindo lago, e no ver as risonhas vertentes,
E nos negros abetos e em rochas selvagens
Sobre as águas, pendentes!
Que ele seja no zéfiro que freme e passa,
Nos ruídos das bordas, em bordas repetidos
No astro de fronte prata a aclarar tua face
Com seus brandos luzidos!
Com o vento a gemer, a cana que suspira,
Como em ti, leve aroma em teu ar perfumado,
Como tudo que se ouve, ou vê-se ou se respira,
Dizem: tinham amado!