O fim

Sei que um dia morrerei. Nem cedo, nem tarde, nem antes nem depois. Apenas na hora marcada, no momento exato. 

Mas não me será dado o castigo de viver eternamente. 

A morte coroa a vida, como uma bênção.  

Há aquele tempo determinado que não podemos ultrapassar, ainda que não tenhamos a mínima ideia de qual é nosso tempo. 

De alguns, são minutos, de outros horas, dias, semana, meses e anos. Há ainda aos que são reservadas décadas e, para poucos, século.  

A todos, o mesmo fim – um dia hão de morrer.    

Tenho muitas décadas. Portanto, a cada novo sol, a cada nova lua, menos tempo tenho para continuar aqui, pois mais e mais me aproximo da curva no meu caminho.    

Esse é o destino – ou a sorte – de todos e de cada um.  

Não me furto, não me escondo, não penso muito nisso.    

Quero viver intensamente todos os dias da minha vida.  

Aproveitar todas as horas.  

Viver, apenas isso: viver. Viver como quem sabe que um dia morrerá.    

Não sei quem estará a meu lado quando chegar o momento de minha partida.   

Ou se estarei completamente sozinha – afinal, a maior parte da minha vida eu vivi sozinha.   

Se terei das mãos de alguém um pouco de amor e um gole de água para morrer acolhida.  

Não importa.   Nada disso importa.  

A única coisa que levarei comigo para onde eu for será essa paixão pela vida que sempre comigo esteve.  

A certeza que estive viva todos os minutos que vivi.  

Só isso.

(Imagem – Banco de imagens do Google)

O canto do canário

Foto de Canary Bird Inside Cage e mais fotos de stock de Animal - iStock
Era uma casa – um lar – vazia de amor e preenchida de gritos.   

A mãe, histérica e infeliz, gritava dia e noite com todos. O pai, quando em casa, colérico e egoísta, só falava aos berros.

Os filhos, crianças acuadas, de olhos amedrontados, só sabiam falar muito alto – ou não seriam ouvidos.

Até o coitado do cachorro latia em altos brados dia e noite. Quando, por um instante, ali se fazia silêncio, era possível ouvir, então, o doce canto de um canário.

Todos – com exceção do canário – incomodavam a vizinhança.

Mas ninguém reclamava. Afinal, além de ser recebido aos berros por qualquer um da família, além da ameaça de ataque do grande pastor alemão que guardava o quintal, a reclamação só faria aumentarem os gritos e as brigas.

Assim, em paz vivia a vizinhança, convivendo com a guerra daquela família.

Um acordo tácito unia a vizinhança: ignorar completamente a existência da infeliz família. Não havia como ajudar, então o melhor era não tentar interferir.

Vinha o inverno rigoroso, vinham as chuvas das monções, todos fechavam alegremente as janelas, pois ficariam livres da intensidade da interminável balbúrdia da casa vizinha.

Já nas tardes longas de verão, quando se queria gozar da fresca do anoitecer, vinha, de brinde no mesmo pacote, a gritaria sem fim. E, às vezes, por alguns momentos, o doce canto do pequeno canário.

E os anos se passaram.

O cachorro, já velho, morreu. Uma parte do barulho se foi.

As crianças, já mais crescidas, dedicavam seus dias aos estudos e à escola, e quase não se ouviam mais suas vozes. O que calou uma parte da algazarra.

A mãe, sem ter com quem gritar, passava boa parte do dia calada. O alarido diminuía dia a dia.

Assim, uma relativa paz reinava nas redondezas, sendo possível, apenas, ouvir o doce canto do pequeno canário em sua gaiola.

Entendi, então, que não era o doce canto do solitário canário, mas os gritos de desespero da pequena e doce – ela sim, doce – criatura, bradando contra as grades que a prendiam. Seu canto não era a liberdade de comemorar o silêncio reinante. Mas o grito pela própria liberdade.

Tédio dominical

3 coisas para fazer no tédio. – Overdose BG

Por que os domingos são dias tão chatos? Dia comprido, interminável…

Sem a vibração do sábado, sem o agito da segunda-feira, é um dia feinho, espremido, sem graça.

Todos marcam compromissos descompromissados para o sábado – o clube, a partida de tênis, ou de golfe, o passeio de moto, o churrasco com os amigos, até levar o carro para lavar. Ou compromissos sérios para segunda-feira – o advogado, o cartório, o médico, as compras… mas ninguém, ninguém mesmo, marca nada para domingo.

No máximo, vai-se à missa (quando não se consegue ir no sábado no final da tarde…)

Festas, bares, reuniões, tudo o que é bom acontece nos sábados… Casa-se, de regra, aos sábados, não aos domingos.

Acho que nunca fui a um casamento no domingo. Mas, aos sábados, já precisei escolher a qual iria, porque havia mais de um para comparecer.

Domingo é dia de levantar tarde por falta de opção. Almoço sem graça. Tarde sem atividade.

De vez em quando aproveita-se o domingo para se telefonar para familiares e cumprir obrigações. Nem prazer nem compromisso. E, se conseguir, dormir cedo porque na segunda-feira serão inúmeros afazeres e o dia deve começar ao amanhecer para se dar conta de tudo…

Todos os dias nos lembramos do que fizemos durante a jornada e conferimos se deu tempo de fazer o que era preciso.

Tudo o que fazemos no sábado fica na memória por um bom tempo pelo prazer que proporcionou, tornando cada sábado um dia único.

Em compensação, no domingo… não acontece nada, nem de bom, de ruim, nada para ser lembrado nem nada para ser esquecido.

Enfim, um tédio.

Mas o domingo, coitado… o que se quer, mesmo, é que acabe logo...

(Imagem: Banco de imagens do Google)

No dia dos namorados

E chega o Dia dos Namorados. Pergunto a uma pessoa: “O que você vai fazer para comemorar o Dia dos Namorados?” Resposta: “Nada. Absolutamente nada. E falei para ele que vou dormir cedo, não quero sair e nem pretendo encontrar hoje.”

Outra: “Acho que estourar pipoca e ver Netflix, na minha casa ou na dele.” E eu digo: “Isso não é nada romântico, não parece comemoração do Dia dos Namorados…” e ela: “Pois é, mas no ano passado cancelamos viagem, ficamos em casa, eram oito horas eu pedi um jantar e só foi entregue depois da meia-noite. Dia dos Namorados e restrição do isolamento não combinam. Esse ano nem planejei nada.”

No mesmo sentido ouvi as respostas de tantas…

Será que o Dia dos Namorados morreu? Era tão comemorado, tão romântico, floriculturas esvaziadas, joalherias animadas, restaurantes com reservas antecipadas, motéis lotados…

Agora o Dia dos Namorados é de pijamas e pantufas, comendo pipoca… nada contra a pipoca, que eu adoro, mas… no Dia dos Namorados?

Cadê a paixão, aquela paixão de adrenalina, os presentes lindamente embrulhados, quanto menores mais irresistíveis…

As frases, as poesias, as serenatas, cadê os namorados?????

Até isso essa maldita peste conseguiu: acabar com o Dia dos Namorados. As pessoas estão depressivas, desiludidas, mal-humoradas, tentando recuperar os prejuízos dos sucessivos lockdwns, sem qualquer resquício de romantismo.

Acho, que no próximo Natal, deveremos pedir ao bom velhinho que nos traga uma pitada de paixão, uma medida de romantismo, e sonhos, muitos sonhos. Para muitas, inclusive, ele podia trazer até mesmo um namorado…

Por ser uma incurável romântica, ainda que não tenha namorado, deixo aqui uma canção do Poeta, o grande Poetinha Vinicius, que é pura paixão: