Poesia da casa – Sonhos (Memória)

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado montado num cavalo branco
Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado de carroça ou a pé
Já nem precisa ser encantado, nem mesmo príncipe... apenas encantador
Mas se não puder ser encantador, que seja apenas atencioso
O tempo passou e levou todos os sonhos da juventude
E a vida não deu mais tempo para construir novos sonhos
E o tempo não parou para que alguém notasse a falta deles
E a vida seguiu sem sonhos, só na dura realidade que não deixa pensar
O tempo da diversão deu lugar ao tempo da responsabilidade
A leveza da juventude cedeu sua vez à intensidade da maturidade
E a vida se tornou um parque de responsabilidade, deveres sem direitos
Um dia ao longe a vida mostra um lindo príncipe em um belo cavalo branco
Impossível alcançá-lo ou ser notada por ele no borralho da realidade
Então vem à mente a vontade já indisfarçável de fugir. Não com o príncipe
Mas montar seu próprio cavalo e finalmente com as rédeas em suas mãos
Simplesmente ir...

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Walt Whitman – A um ser estranho


Estranho ser que passas! não sabes com que ansiedade ponho
meus olhos em ti,
bem podes ser aquele que eu andava buscando ou aquela que
eu andava buscando
(isso me ocorre como num sonho),
algures certamente eu já vivi contigo uma vida de alegrias,
tudo é lembrado ao passarmos um pelo outro, fluidos,
afeiçoados, castos, amadurecidos,
cresceste junto comigo, foste menino comigo ou menina comigo,
comi contigo e dormi contigo, teu corpo não se fez exclusivo
nem meu corpo ficou meu exclusivo,
tu dás a mim o prazer de teus olhos, rosto, carne, ao cruzarmos,
tomas-me a barba, o peito, as mãos, em troca,
eu não estou para falar contigo, mas para pensar em ti quando
me sento sozinho ou quando à noite desperto sozinho,
estou à espera, não duvido de que estou para encontrar-te outra vez,
com isso estou por ver que não te perco.

(Imagem: banco de imagens Google)

de “Confissões da miúda gira”

Tantas vezes, a vida lhe roubou sorrisos!

Tantas vezes, a ilusão a despiu, para de seguida, a vestir apenas de recordações.

Viveu a vida de outros a quem amou.

Esqueceu-se da cor dos seus sentimentos, para dar cor aos dias de quem não a amou.

Deu amor a quem pouco lhe acrescentou.

Recebeu dos outros a dor que o passado lhe deixou.

Tantas vezes, olhou para o futuro e implorou à vida umas migalhas de felicidade.

Por vezes, cruzava-se na rua com as sombras da sua própria tristeza. Ou então, cruzava-se com aqueles que lhe desejavam o corpo, sem nada terem para lhe oferecer.

Ela recusava receber essas esmolas, de quem não tinha tempo para a conhecer.

Sorria para a tentação desses olhares.

Mas negava-se a entregar o seu corpo, a quem não lhe saberia aquecer a alma.

Sim, porque era a alma que lhe gelava a vida. Vivia sem o calor do amor. Sonhava com a possibilidade de dividir uma paixão calorosa com alguém.

Fazia rascunhos de vidas. Ensaiava alternativas para os seus dias cinzentos.

E, sempre que procurava as cores para colorir esses desenhos, percebia que já alguém se antecipara. Já alguém lhe roubara a tinta da alegria. Os desenhos ficavam na sua mente, porque o pintor já se tinha instalado noutros braços.

A vida continuava a negar-lhe sorrisos. Não lhe dava explicações. Ela não encontrava razões, mas tão-somente desilusões.

Até ao dia, que poisou na linha do amor e viu a cor da paixão a tocar-lhe a alma. Até ao dia, que sentiu o frio do desejo na sua pele.

Só que na hora de tocar a realidade, viu que quem estava à sua frente era um anjo da guarda. O anjo que a vida lhe tinha reservado.

Então, recuperou espaço para caminhar na estrada da esperança. Assustou os seus medos. Fez o mesmo com alguns fantasmas que a perseguiam.

Era um anjo a dar-lhe a mão, mas para o seu coração parecia-lhe a porta da perdição. A sua sede de amor era tanta, que os seus olhos viram ali a tentação. O seu sonho insistia em dizer-lhe que aquele anjo já não tinha asas e podia ser a sua salvação.

@angela caboz

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Gesiele Kamikawachi – Às vezes

Às vezes você consegue me deixar tão feliz a ponto de eu me esquecer de todos os meus problemas; começo a achar que sou única e perfeita pra você, que você me ama cegamente como nunca amou outro alguém, a ponto de dar sua vida pela minha.

Às vezes quando não estou bem, um simples olhar acolhedor e um abraço seu já me confortam de alguma forma e me trazem calmaria, e, às vezes, eu acho que você nem percebe que tão pouco, naquele momento, para mim significava muito. Coincidentemente, às vezes com uma simples palavra você consegue me magoar tanto a ponto de eu criar dúvidas sobre mim mesma, e eu fico me martirizando a madrugada inteira, enquanto você tem uma boa noite de sono e, às vezes, você nem percebe o quão eu estou cansada pois na noite passada não consegui dormir porque você foi o motivo da minha insônia.

Às vezes quando estamos brigando você me olha, e seu olhar acaba comigo, me desestabiliza, às vezes até me envergonha, e, durante a madrugada eu me pergunto: eu sou forte o bastante? Eu sou boa o bastante? O que tem de errado comigo?

Às vezes, quase sempre, acabo me culpando por tudo que acontece, eu não sou perfeita, eu só queria que você me achasse perfeita.

Às vezes, eu me pergunto, será que você realmente me ama ?

Às vezes você é tão frio comigo, que eu fico em dúvida, eu tento conversar, eu tento fazer o certo, eu tento fazer tudo como você me pede, mas você nunca vai enxergar isso, por mais que eu te mostre.


Às vezes eu me sinto tão sozinha, sem ninguém pra poder desabafar e a única coisa que eu queria era poder me sentar com você e me abrir verdadeiramente, queria que você me entendesse, sem me julgar ou me condenar, me ouvir apenas.

Às vezes você diz que vai mudar, que está passando por uma fase difícil, que precisa de ajuda, e eu te ajudo, sempre tentei te ajudar, muita das vezes você não quis me ouvir, afinal eu sou muito ingênua quando se trata de sentimentos, e às vezes você não vê que eu estou me perdendo de mim para tentar chegar até você, eu não estou bem, eu estou cansada de tentar sempre sozinha, mas mesmo assim eu estou sempre a sua disposição, não por obrigação, e sim porque eu te amo e, infelizmente, não escolhemos quem amamos.

Às vezes eu acho que o problema é que eu sou muito intensa, em todos os quesitos, e você é muito raso, nunca soube me responder o porque me ama..

Às vezes eu acho que você nem sabe o que é amor, e a única coisa que eu sei é que pra suportar tudo isso eu tenho que te amar muito, mais do que a mim mesma.

(Imagem: banco de imagens Google)

O menino das meias vermelhas – Carlos Heitor Cony

O nome dele era complicado, passou a primeira semana sem que ninguém o chamasse para brincar. Até que repararam que sempre usava meias vermelhas e ele ficou sendo o “menino das meias vermelhas”. Vivia pelos cantos, quase não falava, quase não existia. Apesar disso, não parecia infeliz. Era apenas solitário: era o Menino das Meias Vermelhas.

Um dia perguntaram: “Menino das Meias Vermelhas, por que você sempre usa meias vermelhas?” Ele respondeu como se não fosse com ele: “No dia dos meus anos, minha mãe levou-me ao circo e colocou-me meias vermelhas. Eu reclamei, com aquelas meias chamaria a atenção dos outros, todos zombariam de mim. Mas ela explicou: ‘É que lá vai ter muita gente, se eu me perder de você, olharei para baixo e será fácil encontrá-lo.’”

E todos os dias lá vinha o Menino das Meias Vermelhas com suas meias vermelhas, com seu silêncio, sua solidão, como se esperasse alguma coisa ou como se tudo já houvesse acontecido com ele. Ninguém dava mais importância ao menino nem às suas meias vermelhas. E era isso o que ele parecia desejar.

Sentava em cima de uma pedra, nos fundos do campo onde os outros jogavam pelada ou soltavam pipas. Até que veio a tarde de chuva e os meninos não puderam jogar pelada nem soltar pipas. Como distração, resolveram provocar o Menino das Meias Vermelhas.

“Você não está no circo! Tire essas meias vermelhas, elas são ridículas!”

O Menino das Meias Vermelhas não ficou aborrecido. Depois de algum tempo, falou, como se falasse consigo mesmo: “Eu vou continuar usando meias vermelhas. É que minha mãe foi embora. Um dia, talvez ela passe por mim em algum lugar, verá minhas meias vermelhas e me reconhecerá.”

O sol apareceu de repente e os outros meninos foram jogar pelada e soltar pipa. 

(Imagem: banco de imagens Google)