
Para pensar 65

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

A beleza que seduz poucas vezes coincide com a beleza que faz apaixonar. (José Ortega y Gasset)

Vejo as esquálidas modelos da semana da moda de São Paulo. Sei que fotos e câmaras “aumentam” visualmente o equivalente a uns cinco quilos. Então constato que elas são ainda mais magras do que aparentam.
Que crueldade essa ditadura da magreza extrema.
Para elas, que sonham com o estrelato das passarelas e se submetem a exigências antinaturais, que contrariam a própria essência de sua humanidade, que é a total negação do prazer do paladar.
E também cruel para todas nós, as outras. Porque vivendo uma vida normal, em um mundo onde há abundância de comida, cômodos meios de conservar essas comidas – já não temos medo da seca nem do inverno, porque sabemos que nosso alimento não faltará mais, não atravessamos épocas de escassez nesta parte do mundo, o que é uma conquista do homem do XXº – é totalmente impossível, se formos saudáveis, mantermos essa magreza.
No século XIX o norueguês Knut Hamsun escreveu o livro Sult (Fome), uma história sobre um jovem escritor sem teto, incapaz de arranjar trabalho e morrendo de fome vagando pelas ruas da Christiania (atual Oslo). Apesar de suas roupas estarem em farrapos e de sua aparência famélica, ele consegue manter sua dignidade e seu toco de lápis. Durante a narrativa ele vaga pelas ruas da cidade e eventualmente tem seus artigos publicados por jornais locais. Percebendo a queda de seus cabelos e já não mais conseguindo manter no estômago suas poucas refeições duramente conseguidas, ele acaba indo como marujo num navio russo a caminho da Inglaterra.
Enquanto você lê esse livro tem remorso de se alimentar. A fome do protagonista é tão aguda, tão doída, que faz você se sentir mal por não compartilhar tamanha privação. E mostra a crueldade da fome, e a luta do jovem para não perder sua dignidade em razão da total falta de recursos e perspectiva.
Mas nós, cidadãos do século XXI, habitantes de um país onde a comida não falta, temos motivo para passar fome, somente porque os organizadores de desfiles de moda endeusam os esqueletos e detestam as carnes?
A extrema magreza ou é fruto de doença ou de privação de alimentos. Não é natural.
Então porque fazermos moda para cabides de arame (nem podem ser equiparadas aos gordinhos cabides de madeira) que se movem?
Sei que os trajes ali mostrados não servem para a rua, mostram tendências, idéias e delírios de criadores inventivos.
Mas o festival de ossos pontudos não atrai.
Da mesma forma as fotos femininas em revistas – nunca, jamais, teremos aquela perfeição. Porque mesmo aquelas mulheres ali retratadas não a possuem.
Antigamente era fita crepe e retoque a caneta. Hoje, mais práticos, os photoshops da vida se encarregam de criar uma perfeição virtual.
E as mulheres, em sua grande maioria, se desesperam, frequentando massagistas malucas, clínicas clandestinas de cirurgias plásticas, se deformando e até perdendo a vida em busca de uma perfeição inatingível e inexistente.
Será que não sabem que os homens não diferem celulite de estria, gordura localizada de celulite, e assim por diante? Veem o conjunto da obra, mas não analisam centímetro a centímetro o material? Na verdade, o carrasco são as outras mulheres, essas sim, que se comprazem em enxergar defeitos nas outras.
Uma mulher normal – nem gorda, nem magra, sem excessos – que se ama e se aceita, sensual sem vulgaridade, alegre e de bem com a vida é atraente por natureza.
A excessiva preocupação com a aparência somente tem gerado, de um lado, infelicidade para as mulheres, e de outro, lucros astronômicos para homens e mulheres que se aproveitam desse desespero.
Por isso, quando surgem nas passarelas aquelas mortas-de-fome pálidas e com cara de infeliz, preparo minha taça de frutas com uma generosa porção de sorvete, e aproveito as noites do verão para curtir esse prazer. Sem medo de ser feliz.
(Imagem criada por IA)


Tempo. O que é Tempo? Ou o tempo? Acredito que apenas Tempo, substantivo masculino, singular e eterno.
Tempo dispensa artigo definido. E dispensa também qualquer numeral bem como pronome demonstrativo. Não há O tempo. Nem Um tempo, ou Esse tempo. Apenas Tempo.
Seria Tempo um círculo? Continente de tudo mais que existe? Porque o círculo – forma mais perfeita conhecida – termina exatamente no ponto em que começa e não mostra qualquer alteração em seu existir, pois que indefinidamente analisado, estará sempre imutável, fechado, sem começo e sem fim.
Há luz sem Tempo? Ou Tempo sem luz? Tem-se a noção da existência do tempo através dos ciclos da luz? Que são os responsáveis pelos ciclos da natureza – brotar e morrer e pelos ciclos do mar – maré alta e maré baixa… será que realmente o Tempo influi em tudo isso, ou nem existe nessa eterna alternância dia/noite, claro/escuro/vida/morte, ordem/caos?
Tudo o que existe contém matéria ou representação. Mas Tempo não – é sem substância, sem imagem…
O céu – que não existe – é visível a quem olha para cima ou para o horizonte. E o vento, invisível, pode ser sentido.
E Tempo? Não pode ser visto, sentido, tocado, representado nem apreendido.
Talvez nem mesmo exista. Talvez seja, mesmo, apenas a ilusão que nos foi imposta, no entender de Schopenhauer.
Mas, inexplicavelmente, paira, domina e controla tudo.
Reina, absoluto, desde o princípio e estará depois do fim.
Nunca passou, não passa nem passará.
Porque é fleumático e impassível.
Já estava aqui antes de tudo. Presenciou o início. O desenvolver. O brotar e o florescer de tudo. E estará aqui quando tudo for passado, destruído.
Só ele – Tempo – ficará.
Existe vida fora do tempo?
Tempo, fragmentos da eternidade, com seus momentos luminosos e seus instantes sombrios.
Tão generoso quanto escasso, tanto nos falta quanto nos sobra. Tudo nos tira daquilo tudo que nos dá.
É o tempo. Apenas tempo sendo tempo.
Esse ser concreto e invisível que nos precede e nos sucede, nos mostra a nossa precariedade. Imóvel em seu eterno passar.
Coerente sem coerência. Acelerado sem pressa. Vagaroso sem pausa.
Tão contraditório, impenetrável, amigo e assustador.
Tudo e todos passamos. E ele permanece.
Não existe, para nós nenhum tempo. Apenas nossos momentos.
Do conjunto de nossos momentos podemos imaginar o tempo. Mas não podemos avaliar sua dimensão.
Poderemos, sempre, contemplar uma nanopartícula de sua existência, mas não a compreender nem nela penetrar.
Um dia passaremos. E, para nos enganarmos, na arrogância de nossa mortalidade e de nossa reduzida importância, diremos “O tempo passou…”
Porque não temos a noção de que nós, sim, estamos passando, não o tempo.
E passaremos.
Inúteis e supérfluos perante o Tempo.
Séculos, milênios e eras se sucederão indefinidamente, em seu interminável desfile perante o senhor de tudo isso.
Quem nos dera ser o Tempo – aquele que vê tudo passar, envelhecer e desaparecer, mas continua, ele próprio, sempre o mesmo, imune a todas as mudanças…
(Imagem gerada por IA)
Texto classificado em 3° lugar – Categoria prosa – no concurso literário internacional – Antologia Tempo, promovido pela A.C.I.M.A. – Itália, 2026
