Algumas reflexões

A escuridão cobre a luz, mas a luz transcende qualquer escuridão.

E o momento mais escuro da noite é aquele que precede o alvorecer.

Se para cada dia há o descanso de um anoitecer, ao final de cada noite vem a alegria de um amanhecer.

E é exatamente no momento em que fraquejamos e quase desistimos, encontramos em algum lugar secreto de nós, a força que nos faz tudo superar e seguir adiante. Chama-se esperança.

Sempre há um recomeçar em todas as situações que levam a um limite. E, se não consequências, são causas das transformações. Como a metamorfose da larva em crisálida e desta em borboleta. O fim de uma é o surgimento da outra. O mundo novo só pode começar quando desaparece por completo o anterior.

Se a crisálida se recusa a surgir e deseja continuar larva, nunca haverá a borboleta.

É preciso romper com o passado, com a situação atual, para que possa começar o futuro.

Agarrar-se ao que já foi, amarrar coisas, fatos e pessoas que já não fazem mais parte de nossa vida impede que se vá adiante. Um navio não navega depois de lançar a âncora. Fica preso em um ponto no meio da imensidão e perde sua essência, que é flutuar de um porto ao outro.

Não evoluir equivale negar nossa natureza humana, de seguir, fazer um caminho e chegar ao lugar que nos espera. Só o descobriremos se não desistirmos nem ficarmos amarrados no passado.

Entender que tudo passa, que precisamos romper com o passado e deixar o presente fluir para nos sentirmos vivos.

Diferenciar sensações e sentimentos. Valorizar apenas o que importa e não ter medo do desconhecido. Não olhar para trás. Ter a saudade como referência de onde viemos e para onde não devemos nunca voltar.

Libertar a alma para que voe livre e nos sinalize o caminho a ser trilhado, com a certeza de que, por mais escuros que sejam alguns momentos, encontraremos luz e alegria logo adiante. Nascemos para a luz, a alegria, o amor e a paixão. O restante é resultado da presença destes na nossa vida.

A luz – ainda que pequena, tem o poder infinito de romper qualquer escuridão. A alegria é o sal da vida. E, se o amor é pétala, a paixão é êxtase.

Conversa com meu avô – nº 13

Oi, vô, que saudade de nossas conversas.

Pois é, tudo corrido, nem parece que sou uma aposentada de quarentena, não é? Como assim, que vergonha, ter neta aposentada?????? Foram praticamente 40 anos de serviço, por mim até ficaria mais um ou dois anos, mas as circunstâncias não permitiram, vô, o senhor sabe. Noblesse oblige.

Nossa! Hoje o senhor trouxe uma lista de dúvidas, por escrito? Não sei se adiantará, porque eu que estou aqui, vivendo nesse Brasil velho de guerra, não estou entendendo nada também.

Diga lá, qual a primeira?

Complicada, mas não difícil, a resposta para essa questão.

O Presidente da República é um autêntico democrata. Por isso o senhor não o ouve falar a palavra democracia e não o ouve falar em estado democrático de direito. Porque esses termos são usados pelos comunistas. Simples assim.

Claro que não, vô, nenhum comunista esquerdopata é democrata. Mas só falam em democracia. Lembra-se da cartilha comunista, quando recomenda “acuse-os do que você é”? então, vô, essa é a tática.

Eles colocam dez idiotas na Av. Paulista para carregar faixas de democracia, os políticos de esquerda falam em preservar a democracia, enganam mais uma vez o povo, ignorante e lobotomizado, e posam de democratas santinhos. O que eles querem é tomar o poder e depois implantar o autoritarismo.

Exatamente, o que o senhor está vendo ocorrer na Argentina é o que pretendem aqui. Nossa última trincheira antes do comunismo é o atual Presidente da República. Se ele falhar, estamos perdidos.

Sei, até ministros de cortes superiores estão com essa conversinha mole de democracia. Mas tudo falsidade. Democracia é esse Presidente deixar esse Congresso aberto e essa corte existir.

Por que ainda estamos em isolamento?

Bem, vô, isso é uma longa história.

Quando essa doença apareceu na China e começou a se esparramar para o ocidente, o Presidente da República entendeu que deveríamos ter uma quarentena, enquanto o país se preparava para enfrentar a epidemia, que parecia ser inevitável.

Mas era começo de fevereiro, então o carnaval teria de ser cancelado. Claro que os governadores que lucram com essa besteira se posicionaram contra e a câmara federal não apoiou.

Veio o carnaval e uma intensa disseminação do vírus pelo país.

Aí os idiotas acordaram e começou a bagunça.

Um ministro do stf entendeu que só os governadores e prefeitos deveriam cuidar da epidemia – claro, com o dinheiro da União. E afastou o Presidente da República de qualquer decisão a esse respeito.

A quarentena inicial – isolamento horizontal – se destinava a dar tempo para os Estados se prepararem, com hospitais para atender os pacientes com o vírus, enfermarias, utis etc.

As verbas foram enviadas e quase nenhum hospital foi efetivamente preparado. Por isso até hoje não acabou a quarentena. Por incompetência ou outro motivo pior por parte dos governadores e prefeitos. Eles acham que qualquer dia o vírus vai pegar o navio de volta para a China. E a situação se agrava dia a dia.

Se continuar nesse andamento, ficaremos de quarentena para a eternidade. E ainda estamos obrigados ao uso de máscaras. Ridículo. E eu, com minha rinite alérgica, respirando gás carbônico, se não morrer de covid vou morrer de usar máscara…

Como assim, chega e não quer ouvir mais nada, vô? Cadê sua lista, lê a próxima dúvida.

Por que chega?

Concordo, dá nojo ver tudo isso. Mas tem coisa pior, por exemplo, ver os noticiários na tv, piorando mais ainda a situação.

Volta, vô, volta aqui e vamos continuar…

Ok, fica para outro dia, quando eu tiver notícias melhores, então.

Mas não suma, tá? Sinto falta de nossas conversas.

Pontas em laço

Não prenda, não aperte e não sufoque. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço. (Mário Quintana)

Quantos laços buscamos, desejamos, sonhamos, cavamos nesta caminhada finita… porque somos apenas uma ponta, precisamos encontrar nosso outro lado e dar a laçada do carinho, do amor, da coexistência. Na família, nos amigos, nos amores… e queremos conseguir completar o laço da paixão.

Porém não é fácil, no meio de tantos caminhos paralelos, perpendiculares, cruzados, interrompidos, achar onde está nossa outra ponta. Quantas vezes nos enganamos e tentamos dar um laço com a ponta errada e fazemos confusão, porque a ponta não é nossa, há uma outra ponta nesse embaraço.

Até que um dia cismamos que encontramos nossa ponta. E vamos, aos poucos, chegando nela, tentando laçar, e ela foge, escorrega, desaparece, se mistura com outras pontas, deixamos de ter a certeza de que é a nossa.

Se puxarmos, ela grita que está sufocada.

E não é isso que queremos. Porque também não gostamos quando somos sufocados.

Deixamos correr mais frouxo, damos todos os espaços, sem perdê-la de vista. Vemos quando se enlaça em outras pontas, que não a nossa.

Muitas vezes nos encolhemos, enrolando-nos em nós mesmos, como um bicho ferido que se enrola em si próprio, tentando desistir, mas descobrimos que só conseguiremos ser laço se tocarmos a outra ponta.

Então insistimos. Um dia, por cansaço, desilusão, desesperança, algum motivo não revelado, ela se entrega. E nos enlaçamos. Suavemente, lindamente, como deve ser um laço.

Com todo o cuidado para não virarmos um nó.

Texto de Martha Medeiros – Strip-tease



Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.

Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.

Primeiro tirou a máscara: “Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto”.

Então ela desfez-se da arrogância: “Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história.”

Era o pudor sendo desabotoado: “Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou”.

Retirava o medo: “Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei”.

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: “Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui”.

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.

Dia de poesia – Mia Couto – Pergunta-me

Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo 
se acendes ainda 
o minuto de cinza 
se despertas 
a ave magoada 
que se queda 
na árvore do meu sangue 

Pergunta-me 
se o vento não traz nada 
se o vento tudo arrasta 
se na quietude do lago 
repousaram a fúria 
e o tropel de mil cavalos 

Pergunta-me 
se te voltei a encontrar 
de todas as vezes que me detive 
junto das pontes enevoadas 
e se eras tu 
quem eu via 
na infinita dispersão do meu ser 
se eras tu 
que reunias pedaços do meu poema 
reconstruindo 
a folha rasgada 
na minha mão descrente 

Qualquer coisa 
pergunta-me qualquer coisa 
uma tolice 
um mistério indecifrável 
simplesmente 
para que eu saiba 
que queres ainda saber 
para que mesmo sem te responder 
saibas o que te quero dizer 

Hoje, a minha “cententena”

O governo decretou o isolamento.

A cidade foi parando. Os compromissos sendo cancelados ou adiados.

Os carros aos poucos deixaram de circular. O comércio baixou as portas.

Quinze dias, era o que se pensava.

Eu estava viajando. Antecipei meu retorno. Deixei tudo para daí uns vinte dias. Alguns dias depois, comecei a minha quarentena. E completo, hoje, cem dias de isolamento. Uma centena – a cententena. Interminável. Uma eternidade.

Comércio e indústria contando os prejuízos. Empregados perderam seus empregos. As coisas foram mudando de cor. Um alegre e dourado país tropical está cinzamente entristecido.

E todos se perguntam: o que restará depois que esse horror acabar? Escolas fecharão por falta de alunos. Formaturas adiadas porque os calendários letivos não foram cumpridos. Pacientes sem acesso a médicos porque clínicas fecharam.

Médicos morrendo do vírus chinês, por se tratar de moléstia desconhecida. E todos dão palpite. E ninguém sabe do que se trata de verdade.

O Brasil, tão grande, com tantas diferenças, agora igualado na desgraça de uma peste, que uniu norte, sul, leste e oeste. Desinformação, medo e mortes em todos os cantões do país.

Por vezes um iludido diz que a humanidade sairá melhor dessa situação. Por que isso aconteceria?

Quem era ruim antes do covid19 continuará ruim depois; quem era bom assim o será. Os que eram corruptos aproveitaram a deixa e roubaram descaradamente as verbas destinadas ao controle da pandemia. Os que sonhavam com golpes e ditaduras passaram a agir ostensivamente nesse sentido.

Se tudo estava complicado na vida política, piorou pelo menos 5.000%.

A democracia oscila, o mundo todo balança. A podre mídia aproveita para espalhar terror e pânico histericamente.

A tristeza de estarmos, inertes, assistindo nosso mundo desmoronar. Nada do que era antes será novamente. A insegurança total com relação a um futuro, agora mais incerto do que nunca.

Há cem dias presa nesta casa, sem nenhuma expectativa de ter minha vida de volta. Pessoas sãs desesperadas para voltarem a trabalhar. Pessoas doentes morrendo porque não é covid, mas servem para inflar as estatísticas. Pessoas se suicidando porque perderam o pouco que tinham em razão do insano e não justificado isolamento horizontal.

Muito sofrimento para pouca causa. Até agora não se apresentou uma explicação segura para justificar tudo isso. Mas a população está vibrando, até que enfim tem uma desgraça à imagem e semelhança da Europa e dos Estados Unidos, para rechear os maliciosos noticiários.

No meio de tudo isso, vejo meu povo, meu pobre povo, caminhando bovinamente rumo à miséria total.

Não consigo imaginar como será depois que isso acabar.

Mas, nesse centésimo dia de isolamento, eu tenho um medo.

Um medo absurdo de sentir, depois, saudade dos tempos de isolamento.

Descobrir que hoje estávamos em situação melhor do que estaremos no futuro…