Dia de poesia – Ser poeta – Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

Felicidade

Tenho certeza que a felicidade está chegando. Há tanto ela se foi, que já é hora de estar voltando. E há de chegar logo aqui.

Todas as portas estarão abertas. Ela entrará sem pedir licença, apenas surgindo aqui da mesma forma que um dia se foi sem se despedir. Vamos brindar dias e dias, noite após noite. Embriagados por todo esse sentimento, dançaremos e cantaremos a alegria da volta da felicidade.

Faz tanto tempo que ela foi embora, não disse que era para sempre nem que demoraria tanto a regressar a nossa casa. E ficamos esperando, a cada dia, a cada hora. E a espera foi tanta que até nos esquecemos como é viver com felicidade. Fomos, aos poucos, nos acostumando a viver sem ela. E nem notamos como nossa vida se acinzentou na tristeza que tomou todos os espaços deixados para trás pela felicidade.

A saudade da felicidade se tornou angústia e depois esquecimento.

Mas agora eu sei que ela está voltando. Já sinto sua vinda, ao longe, porque as luzes estão mais claras, as cores mais nítidas, o coração sobressaltado, derramando adrenalina a cada toque do telefone, a cada alarme de mensagem. Eu sei, tenho certeza, é a felicidade que está voltando.

A tristeza ainda tenta se agarrar a cada pedacinho de mim, como se avisasse que não me deixará jamais. Ela até pode ficar, mas ocupar apenas seu pequeno espaço do meu mundo, porque quando a felicidade chegar, vai inundar meu ser, todos os poros, todas as células e moléculas. E eu serei a própria imagem da felicidade.

A felicidade sempre volta. Basta esperarmos e nos abrirmos para sua chegada.

Da paixão

 

As tempestades não duram a eternidade. Assustam, destroem, mudam a paisagem, mas passam. Nada – nem ninguém – tem o poder de deter o vento. É uma das manifestações da natureza mais assustadora que existe.

Da mais suave e agradável brisa, até as grandes tormentas, furacão, ciclone, tornado, tufão… o homem, em toda sua arrogância, ainda não descobriu como amainar o vento. Não evoluiu nada em relação aos primatas das cavernas que temiam a natureza e não a entendiam. Hoje sabemos tudo sobre a natureza, menos como conviver harmonicamente com ela. Conseguem até prever a intensidade dos ventos, sua trajetória e seu potencial destruidor. Mas não passa disso. E a humanidade continua enfrentando e temendo vendavais.

Mas chega um momento em que o vento se vai. Para onde? Não sei. Como não sei de onde veio tanta fúria, tanto arrebatamento. Ele vai ganhando força. Vai tomando tudo, dominando, carregando, destruindo… de repente, passou! Vamos ver os estragos e tentar recuperar as perdas.

Assim é uma tempestade: surge do nada, de um lindo céu claro, do mais profundo azul. Nuvens brancas e fofas, de algodão, tudo paz. Do nada, do mais completo nada, uma brisa se torna vento. Esse vento se fortalece, alimentado sabe-se lá do quê, e começa a tempestade. Que, por mais assustadora, é, paradoxalmente, fascinante. Nada mais lindo que o vento dobrando árvores, raios marcando o céu, nuvens passando apressadamente para chegarem a lugar nenhum.

Em um momento, tudo se assossega. E volta a calma, o domínio, cada coisa recupera seu lugar, tudo retoma à anterior normalidade, como se nunca tivesse existido essa tormenta.

Assim é a paixão.

Chega como uma brisa. Mas toma força de vento. E venta. E arrebenta reservas, comportas e janelas. E se torna mais forte, como um furacão remexeu todos os cantos de cada ser. Derruba conceitos e telhados. Abala bases e alicerces. Revirando tudo o que havia dentro da alma.

De uma simples palavra, de um gesto banal, um sentimento que é menos que uma brisa, toma o peito de assalto, torna-se um temporal indomável, domina o pensamento, o sentimento, o querer, e faz querer viver.

Mas passa. E faz querer morrer. Faz-se, então, o rescaldo e para ver o que sobrou dentro do peito, o que ainda resiste. Porque tanta ternura se perdeu, que nunca mais poderá ser recuperada.

É hora de se separar cacos de peças recuperáveis. Tentar remontar um bem-querer para ter algo, ainda, a oferecer, ou a perder na próxima tempestade. Que virá. E de novo fará bagunça, misturando sentimentos, destruindo o que parecia forte e resistente. Mas também passará… a capacidade de se apaixonar de novo é admirável.

Toda a dor é esquecida e se fica pronto para o novo arrebatamento, da mesma forma que a natureza se recupera e perde a memória do vento antes da próxima tempestade.

A paixão é a tormenta da alma.

9 de julho

Hoje é nove de julho – data que tem dois significados para mim. Um cívico, de muito de orgulho. E outro de encantamento e paixão eternas

9 de julho. Alguns conhecem essa data pelas ruas e avenidas assim nomeadas em diversas cidades do Estado de São Paulo.

Mas a razão nem todos conhecem. Em 1932 o povo paulista se levantou contra o desmando e a ditadura, exigindo que fosse promulgada uma Constituição para o país. O símbolo dessa revolução armada – M.M.D.C. inicial dos nomes dos mártires do Movimento Constitucionalista de 1932 – refere-se aos quatro primeiro mortos por tropas ligadas ao governo federal, na cidade de São Paulo: Martin, Miragaia, Dráusio e Camargo, cujos corpos repousam no Mausoléu dos Heróis de 32, localizado no Obelisco do Ibirapuera.

O Mausoléu:

O Obelisco:

 

 

A simples leitura de uma frase em homenagem aos mortos, inscrita em uma das faces do Obelisco, causa profunda emoção:

“Viveram pouco para morrer bem
morreram jovens para viver sempre.”

Conheci alguns combatentes. Nossos verdadeiros Heróis!

Quanto à Bandeira que simboliza São Paulo e tanto orgulho nos causa:

De acordo com sites oficiais: A bandeira do estado de São Paulo, juntamente com o brasão e o hino, constituem os símbolos oficiais do estado de São Paulo, no Brasil.[nota 1]

Idealizada pelo filólogo e escritor Júlio Ribeiro em 1888, tinha como objetivo servir de bandeira ao regime republicano, que fora efetivamente proclamado em 15 de novembro do ano seguinte. Para materializar graficamente sua ideia, Júlio Ribeiro convidou seu cunhado Amador Amaral, gráfico e artista plástico que desenvolveu o layout da bandeira paulista.

A bandeira possui treze listras variando entre branco e preto que representam os dias e as noites em que os bandeirantes exploraram o interior do país. O pavilhão possui um retângulo vermelho na horizontal, que representa o sangue derramado pelos bandeirantes, alinhado no topo à esquerda, tendo dentro um círculo de fundo branco e o mapa do Brasil em azul, sendo o azul a cor da pujança. Há também quatro estrelas amarelas na parte interna dos quatro cantos do retângulo.

O pavilhão tornou-se de fato símbolo paulista a partir da Revolução Constitucionalista de 1932, mas que só foi oficializada em 27 de novembro de 1946, sob o Decreto-Lei estadual nº16.349, com base no parágrafo único do Art.195 da Constituição Federal de 1946, que devolveu aos estados e municípios o direito de cultivar símbolos próprios.

 

A Revolução Constitucionalista, data máxima dos Paulistas, engrandeceu nossa Bandeira, deu-lhe a dimensão do orgulho de um povo.

 

 

E o grande poeta paulista – ele, também, um combatente, que entrou para a História como “o poeta da Revolução”, cujos restos mortais estão no Mausoléu do Ibirapuera junto de outros heróis – Guilherme de Almeida, dedicou-lhe o mais belos poema que poderia ser escrito para um símbolo:

NOSSA BANDEIRA

Bandeira da minha terra,

Bandeira das treze listas:

São treze lanças de guerra

Cercando o chão dos paulistas!

 

Prece alternada, responso

Entre a cor branca e a cor preta:

Velas de Martim Afonso,

Sotaina do Padre Anchieta!

 

Bandeira de Bandeirantes,

Branca e rôta de tal sorte,

Que entre os rasgões tremulantes,

Mostrou as sombras da morte.

 

Riscos negros sobre a prata:

São como o rastro sombrio,

Que na água deixara a chata

Das Monções subido o rio.

 

Página branca-pautada

Por Deus numa hora suprema,

Para que, um dia, uma espada

Sobre ela escrevesse um poema:

 

Poema do nosso orgulho

(Eu vibro quando me lembro)

Que vai de nove de julho

A vinte e oito de setembro!

 

Mapa da pátria guerreira

Traçado pela vitória:

Cada lista é uma trincheira;

Cada trincheira é uma glória!

 

Tiras retas, firmes: quando

O inimigo surge à frente,

São barras de aço guardando

Nossa terra e nossa gente.

 

São os dois rápidos brilhos

Do trem de ferro que passa:

Faixa negra dos seus trilhos

Faixa branca da fumaça.

 

Fuligem das oficinas;

Cal que a cidades empoa;

Fumo negro das usinas

Estirado na garoa!

 

Linhas que avançam; há nelas,

Correndo num mesmo fito,

O impulso das paralelas

Que procuram o infinito.

 

Desfile de operários;

É o cafezal alinhado;

São filas de voluntários;

São sulcos do nosso arado!

 

Bandeira que é o nosso espelho!

Bandeira que é a nossa pista!

Que traz, no topo vermelho,

O Coração do Paulista!

São Paulo é minha Pátria, não apenas o Estado onde nasci.

 

 

 

 

 

Por outro lado, também é a data de morte do poeta Vinicius de Moraes. Escritor, poeta, cronista, compositor, dramaturgo, diplomata, ele era tudo e mais um pouco! Hoje são 39 anos de sua morte.

São dele os sonetos mais românticos do século XX escrito em língua portuguesa.

Poemas, canções, Vinicius marcou minha geração, com encontros com universitários, com ideias cativantes, com seu jeito carismático de ser e de viver.

Sou profunda e eternamente apaixonada por sua obra. Leio, releio e volto a ler. Porque Vinicius, chamado Poetinha, foi e sempre será o nosso Grande e Maior Poetinha.

Uma pequena amostra:

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

 

Brilhos da noite

Final de tarde. As lâmpadas da praça se acendem. Automaticamente.

Para onde foram os acendedores de lampiões? Será que estão jogados em pátios de materiais obsoletos descartados, juntamente com os lampiões?

Quando o céu perde toda a luminosidade do dia, a lua acende as estrelas – muito, muito antes dos obsoletos e descartados lampiões, a lua já acendia as estrelas. Desde sempre, quando anoitece, a lua vem com um pacote de pirilampos, e os solta no veludo escuro do céu noturno. 

Se estivessem mais perto das destruidoras mãos humanas, já não mais existiriam – nem lua nem estrelas. Teriam sido substituídas pelas aberrações criadas por mentes perversas, que pensam substituir a natureza com plásticos e sintéticos.

As noites já não são as mesmas – não se ouvem corujas nem grilos. Só se ouvem gritos, sirenes e tiros. Vagalumes ou pirilampos? Nem se sabe mais o que é isso. Os pisca-piscas hoje são artificias, neon, led e outras bobagens, que somam montanhas de lixo pelo mundo afora. É tanta luz artificial, que as estrelas não brilham.

Saudosismo? Não. Apenas vontade de ver estrelas brilhando

E disse Fernando Pessoa:

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

 

vida

Pedras runas invertidas

Seja perht ou seja ehwaz,

São o contrário da sorte

Mostram que a vida tem avesso

Se no jogo da bugalha

Conseguir passar as cinco

Não se arrisque mais na vida

Tudo pode dar errado

Mas pular amarelinha

É brincadeira de criança

Quando adulto a diversão

É gastar dinheiro à toa

Crescer é não brincar mais

Crescer é ver a vida perder o encanto

Na verdade o castigo da humanidade

Foi crescer e se tornar adulto na vida

A realidade fica cinzenta

A esperança vai-se esgarçando

Tudo vira um perigo

Nada mais é espontâneo

Quando criança se chora

Até pela bolinha de gude perdida

Quando adulto não se chora

Mesmo que o amor se vá embora

Adulto descobre disfarces

Para não ser censurado

Sorri com a alma chorando

Não mostra a ferida que sangra

Não brinca, não corre, não dança

Disfarça a dor que o destrói

Da mesma forma que as gotas da chuva

Tornam seu pranto invisível

Somos apenas peças

 

 

Às vezes é tão difícil escrever! Não falta vontade nem inspiração, mas não há tempo para ir até o computador.

O tempo é curto, os afazeres são muitos. Problemas a resolver, contas a pagar.

A cada dia parece que as horas encolhem.  A cabeça não descansa, o corpo se cansa.

E um novo amanhecer, um novo anoitecer e nada muda.

Por que temos de dar conta de tanta coisa?

Por que não posso, simplesmente, me sentar na varanda e apenas olhar o céu? sem pensar, sem ler notícias, sem ter absolutamente nada mais para fazer?

Somos peças de uma grande engrenagem chamada realidade. Apenas os dentes das correias e das rodas dentadas. Que, caso falhem ou não se encaixem perfeitamente, tudo se arrebenta. E, na verdade, se não estivermos mais aqui, não faremos falta. Outra peça será colocada para nos substituir, porque, temos de reconhecer, o que importa, é que a máquina funcione perfeitamente, e não os componentes que a fazem funcionar.