O preço da verdade

Qual o preço da verdade? Por que nunca admitimos nossos erros e nos recusamos a assumir a responsabilidade e pagar esse preço?     

Por mais escura que seja a noite, haverá um amanhecer luminoso. E tudo será exposto, tudo será visto, a verdade conhecida e restabelecida.     

Não adianta tentar se esconder, como a lua por trás das nuvens, porque o vento a desnudará.     

Guardamos dentro de nós comportamentos infantis, como acreditar que se cobrirmos nossos olhos com as mãos, estaremos invisíveis. Mas, nunca estivemos nem estaremos.      Há pessoas que mal enxergam o que está à frente dos próprios olhos. Há outras que nem precisam dos olhos para enxergar. Simplesmente sabem o que está acontecendo, captando no ar o que lhe tentam esconder.     

Fugir nunca foi solução. Porque sempre se pode fugir. Mas nunca haverá um lugar para permanecer escondido.

E disfarçar a culpa é ainda pior. Porque a cara da criança que quebrou o pote mostra claramente o que aconteceu. Ainda que se tenha tentado esconder os cacos.     

Diz-se – com muita propriedade – que se pode enganar alguns por muito tempo, e muitos por algum tempo. Mas não se pode enganar todos o tempo inteiro. É verdade. E, se alguém é enganado, isso não aconteceu porque o outro é mais esperto. Mas porque o enganado acreditou, confiou ou amou demais.     

Enganar é apenas se aproveitar da confiança e da boa-fé do outro, e não significa ser mais esperto nem mais intelegente.     

Acredito que para ser considerado adulto, o primeiro passo é assumir os erros. Ainda que o preço da verdade seja alto e implique até mesmo em rompimentos sofridos. Mas seria uma forma de se demonstrar um mínimo de dignidade.

De novo, na praia

Depois de mais de sete meses ausente, aguardando a reabertura da vida, ontem consegui ir à praia. Encerrei meu involuntário isolamento. Saí na estrada. E ninguém mais vai me segurar.     

Cheguei na praia, fiz minha saudação ao mar, amor maior na minha vida. E perguntei: sentiu minha falta? O que você tem para mim? E ele me mandou o primeiro presente.   

  

A praia sem a fedentina dos fritadores de pastel e camarão estava bem mais agradável. Continua proibida a permanência com cadeiras, barracas, guarda-sol… então as pessoas caminham, algumas se sentam na areia, mas há uma outra dinâmica. E a limpeza da água é algo que faz pensar que, de certa forma, essa peste ajudou em alguma coisa.     

Não há mais montanhas de lixo na areia no final do domingo. Infelizmente, porém, alguns abestalhados não entenderam e levam seus fedidos cães para a praia, para o mar. E vemos cocô de cachorro na areia.       

Esse povo precisa de fiscalização e penalização. Não basta a regra. Só o chicote funciona.     

Fiz uma longa caminhada.       

Sem usar máscara. Coloquei essa indecência para descer no elevador e atravessar a rua. Chegando na praia, tirei. RESPIREI! Vi pessoas caminhando de máscara. Nada tenho contra. Tem bobo para tudo na vida. Mas minha rinite alérgica praticamente desapareceu em dois dias. 

Arrastei cinco quilômetros esse mar, até sentir a musculatura reagir. Aí caminhei o restante pela areia. Em seguida, para encerrar, tomei um longo banho de mar – que, curiosamente, mesmo sendo inverno, não está gélido, mas agradável. Em alguns pontos até quentinho.   

Renasci.     

Hoje, voltei à praia, o sol mais forte, bem menos pessoas, tudo mais bonito.     

E o mar, feliz de me ver, trouxe vários presentes: 

Faltam dois, com os quais presenteei duas garotinhas – um de cerca de um ano e meio que abriu um lindo sorriso quando passei perto dela. E outro, dei para Giovana, uma morena que mais parecia uma boneca se mexendo, por volta de três anos de idade que encontrei perdida e a ajudei a encontrar a mãe.       

Depois fui para o mar.      

E lá fiquei até cansar.      

A areia me acolheu, o mar me aquietou, o sol me aqueceu e Deus me abençoou. Porque aqui, nesta praia, é o único lugar do mundo onde me sinto realmente abençoada. Onde meu corpo e minha alma ficam em paz.     

Um dia eu voltarei a morar aqui. O mar sabe disso. E vai me esperar.

Dia de Poesia – Christina Rossetti – Remember

Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando não te tiver mais a meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afeto que em mim viste,
– Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

(Tradução por Manuel Bandeira)

Nesse dia dos pais

   

Amanhã, domingo, 09.08, será comemorado o Dia dos Pais.

Nada tenho nem terei a comemorar.

A não ser que seja também o Dia da Saudade.      

Há pouco mais de um ano vi meu amado pai partir para a casa do Senhor.     

Um homem amoroso, sério, íntegro, inabalável, trabalhador,  católico, excelente marido, pai maravilhoso.    

E faz falta, tanta falta.      

Por isso, hoje, minha homenagem e toda a minha saudade a meu pai.         

“Pai, há dezessete meses o senhor nos deixou. No dia mais triste de toda a minha vida. Porque eu não estava preparada para me tornar órfã. Sabíamos que sua ida era iminente, mas ainda o tínhamos aqui. Com seu carinho, sua presença.    

O senhor sempre foi nossa força, nosso incentivador, o centro de nossa família. E, de repente, não está mais aqui.      

Seu lugar vazio na mesa da casa de nossa mãe dói. Muito.

Chegar lá e não ter o senhor para me receber é de uma tristeza indescritível.

Onde está seu sorriso acolhedor? Onde estão seus lindos olhos amorosos? Por que tínhamos de nos separar assim?    

Tantas lembranças, tantas, que não cabem em um só coração.   

Meu lugar na mesa era a sua esquerda. E o senhor sempre teve um jeito todo próprio de manter a mão esquerda sobre a mesa. E eu, muitas vezes, deixava meu talher e pegava na sua mão. O senhor abaixava os olhos, olhava fixamente nossas mãos unidas. Depois olhava para mim e sorria.    

Ah, pai, o que eu não daria para ter novamente seu sorriso.

O senhor sempre sorria: sorria de alegria, sorria de galhofa, quando fazia suas brincadeiras, e seus olhos sorriam junto. Tenho tanta saudade de seu olhar, pai…  

Suas rimas, que podiam até irritar a mamãe, mas divertiam os filhos e netos – especialmente a Carolina – “espera aí, vovô, fala de novo que vou escrever…”… Suas paródias… “… a tal da angélica, moça…” … “…un automobile, naquela esquina…”…    

Sua voz, pai, explicando seu ponto de vista, sempre ponderado, nos dando um norte, sendo um farol para nosso pensamento, ainda ecoa dentro de mim.    

As histórias de sua infância, da onça, dos tiros, as lembranças de meu avô, (primeiro pai que perdi)… Invernadinha, Negro Dionísio, Tio Ary saltando de guarda-chuva, Romeu montando no burro… tantas histórias, tantas risadas. Ninguém nos conta mais histórias, pai. Ninguém mais conhece o Guilherme J. Kuhll…    

Lembra-se da estrada para Morro Agudo? Quantas vezes encravamos para aqueles lados em dias de chuva. Hoje nem se sabe mais o que é encravar. O que é pneu lameiro. O que são correntes… E o senhor nos tirava de todos os embaraços.      

E quando o senhor perdeu a paciência com a tal da Odila ou Otília, não me lembro mais do nome, só da feia cara da funcionária de mau humor, na faculdade Toledo de ensino de Presidente Prudente e me mandou de volta para terminar a faculdade em Ribeirão Preto. Sofri, pai, porque eu não queria morar em pensão, não queria morar em outra cidade. Mas fui. E assim que peguei meu canudo vazio das mãos do Dr. Pessini, voltei para casa.

Estou aqui, pai, nesse final de dia, vendo o mar que o senhor tanto amava e nos ensinou a amar também, e tomando meu whisky “regulamentar” como o senhor dizia. E me lembrando de quantos whiskies tomamos juntos – foi o senhor quem me ensinou a gostar do single escocês. E tantas outras coisas na vida que o senhor me ensinou. Só se esqueceu de me ensinar como continuar sozinha, sem sua valiosa opinião, seu apoio incondicional e seu amor de pai.    

Não vou comemorar, pelo segundo ano seguido, o dia dos pais. Porque nada tenho a comemorar – só a saudade que tenho do senhor, só a falta que eu sinto de um abraço de pai, que nunca mais terei.     

Sei que não serei merecedora de ir a seu encontro na eternidade, mas queria muito, pai, pelo menos uma vez, de relance que seja, vê-lo e abraçá-lo. Mesmo que fosse por uma única vez.       

Saudade, meu pai. Muita saudade, e tristeza nesse dia dos pais, e meu eterno amor de filha.”

(obs. – na foto acima, meu pai, Carlos, com a bisneta Helena)

Um gato de porcelana

Corrientes, tres cuatro ocho, segundo piso, ascensor, no hay porteiros ni vecinos, adentro cocktel de amor…

Assim começa uma das canções mais conhecidas e tocadas do século XX, o belo tango “A media luz”, imortalizado por Gardel. Você escuta desde pequeno, automatiza a letra na memória, e a deixa lá por muito tempo.

Um dia, já adulto, em uma viagem para a Argentina, depois de uma noite de tango e vinho em Buenos Aires, distraidamente anda pela bela cidade, quando avista a placa com o nome da via: Corrientes. E, como num estalo, a letra do tango vem à mente.

Por pura curiosidade, você olha o número da primeira construção e começa a procurar o 348.

Sente aquela ansiedade infantil de abrir o papel colorido do presente de Natal. Pensa em um lugar discreto, ninho de amores furtivos, garçonnière…

E vai caminhando, imaginando as delícias do famoso Corrientes 348.

Até chegar lá.

Trata-se, apenas, da entrada de um simples estacionamento. Não tem segundo piso, nem ascensor, nem coquetel de amor e muito menos um gato de porcelana…

O jeito é dar uma risada e continuar caminhando, voltar aos próprios interesses, depois de um malogrado episódio de detetive frustrado.

Quantas vezes na vida nos imaginamos na iminência de descobrir algo fantástico, um segredo guardado a sete chaves, um tesouro escondido… e tudo isso somente existe na nossa imaginação, na nossa ânsia de viver algo extraordinário, do cansaço da vidinha arroz-com-feijão que 99,8% da população vive.

Tudo e todos iguais: estudar, trabalhar, sofrer, amar, chorar, ganhar, perder… e sonhar.

Sonhamos com a saúde, com a riqueza, com o grande amor, com a paixão arrebatadora, com a nossa Corrientes 348.

Quantas pessoas no mundo que ouviram esse tango puderam ir pessoalmente conferir o endereço? Mas todas esperam um dia entrar na sua Corrientes 348.

Muitas chegam lá. Em sentido literal ou figurado.

E têm, então, a grande decepção.

Não encontram nada do que esperavam, não há riqueza, não há paixão, não há segundo piso… apenas um típico estacionamento para automóveis.

E, no entanto, em algum lugar teimoso de nosso sentir, continuamos sonhando com o gato de porcelana…

Dia de poesia – Cecília Meireles – Lua adversa

Quais são as fases da lua, e como elas influenciam na Terra?

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…