Dentro do seu abraço

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Dentro do seu abraço há um mundo inteiro

Todas as luzes e todas as cores que existem

Da mais pura paz do branco ao branco-azulado,

ao azul esverdeado alusivo a tantos mares acolhedores

Cores frias, cores quentes, tantas são as cores,

do veemente amarelo que acende todas as outras

aos mais intensos tons da paixão do vermelho e do roxo

E o repouso do preto total e aconchegante.

Dentro do seu abraço há um mundo inteiro

Todos os sons e notas musicais que existem

Da harpa celestial dedilhada por anjos do céu

quando me recosto em você no aconchego da paz

às melodias que cantam e choram amores idos e perdidos

 e aos mais estridentes e dissonantes acordes do rock

passando pelos convites do Bolero, tão fortes

à paixão dos acordes da Fantasia Improviso e ainda

aos mais intensos sons dos gemidos da paixão em brasa.

Dentro do seu abraço existe um mundo

Mais que apenas um simples mundo, mas muitos mundos

Mundos desconhecidos, sonhados, mundos conhecidos e vividos

da criança que um dia fomos e ainda a procuramos dentro de nós

dos jovens sonhadores esmagados pela dura realidade da vida

dos adultos que se pretendiam onipotentes e invencíveis

E hoje, já no nosso outono existencial, apenas conscientes

do nada que somos e do pouco que fizemos por nós.

Dentro do seu abraço existe um mundo

O mundo que nos resta neste final de vida

Que traz aconchego, reacende brasas adormecidas

Espalha as cinzas que cobriam o coração

E reaviva a paixão que ainda existe em nós.

Basta, para tanto, braços abertos e um sorriso verdadeiro

Que dizem: “vem” na acolhida apaixonada que

Cria todo esse mundo de encanto, que só existe

Dentro do seu abraço.

Quarentena

Que coisa horrível esse isolamento social! Não aguentava mais ficar dentro de casa na companhia do marido. Resolveu ir embora. Aliás, a ideia já não era tão nova.

Ligou para a melhor amiga.

– Acabo de tomar uma decisão. Vou sair de casa. Acabar de vez com esse casamento.

– Calma. Essa quarentena mexe com os nervos de todos. Não seja precipitada, você pode se arrepender.

– Arrepender de que? Há tempos venho pensando em sair de casa. E a decisão foi tomada.

– OK. E por que você me telefonou? Quer vir para cá? Tudo bem, mas estamos em quarentena cerrada.

– Não, não é isso. Preciso de ajuda, mas diferente.

– Fala! Qual sua dúvida?

– Quantos pares de sapato você acha que devo levar?

– Pelo amor de Deus, amiga!!!! Você está fugindo de casa e pensa em sapatos?

– Claro, não vou viver descalça. Ah, tchau, você hoje está do contra.

– Tchau. Manda notícias. Se precisar de mim de verdade, é só chamar.

Desligou e recomeçou a juntar o que pretendia levar na fuga.

Esse casamento fora um erro. Logo completaria um ano de casada com um homem que já não amava mais.

Há meses vinha pensando em terminar a relação.

E agora, essa convivência forçada, isolados do mundo na mesma casa. Enlouqueceria se continuasse assim.

 Pegou mais alguns objetos, fechou a mochila e saiu do quarto. Torcendo para que ele estivesse com a porta do escritório fechada. A porta estava aberta, mas ele não estava lá.

Foi rapidamente para o hall de entrada, onde estavam as chaves da casa e do carro. Pendurado, junto com sua chave, havia um bilhete.

Pegou o papel e desdobrou para ler.

Sentiu o chão sumir sob seus pés em uma vertigem incontrolável.

“Querida, nosso casamento nunca foi o que esperávamos. Tentei o máximo que consegui. Mas esse tempo isolamento social compulsório mostrou que não possível continuar a conviver com você. Acho melhor terminar tudo. Fui.”

Começou a chorar. Como assim, “esse tempo de isolamento”? afinal, estavam apenas no segundo dia da quarentena…

Conversa com meu avô – nº 11

Eita, vô, falamos há menos de uma semana e o senhor está tão aflito para conversar… algum problema?

Pandemônio? Não, vô, é pandemia – uma epidemia que atingiu todos os países do mundo – por isso pandemia, por um vírus chinês.

Por que chinês? Porque apareceu lá na China. E se esparramou rapidamente, contagiando as populações em progressão geométrica incontrolável.

Não é um vírus perigoso, é uma mutação do nosso conhecido coronavírus. Um filamento envolto em uma camada de gordura. Mininanomicroscópico. Segundo dr. Beny Schmidt, patologista, esse vírus não é patogênico.

Então, qual o problema? Pois é vô, o problema é que não há como frear a progressão e o intenso contágio. Ou seja, aparentemente enquanto todos os habitantes da Terra não forem contaminados, o vírus não desaparecerá.

Ele sozinho, em organismos jovens e saudáveis, geralmente não provoca nada. Em pessoas com algum problema de imunidade pode provocar uma reação semelhante a uma gripe, mas também problemas respiratórios. O perigo são os mais idosos e quem já tem outras doenças, porque associado a isso, o vírus pode matar. Complicadinho, não é? Por isso o isolamento social, o fechamento do comércio, e, consequentemente, teremos uma quebradeira generalizada. Essa nossa imprensa podre esparramando o pânico descontrolado na população, o povo abestalhado fazendo um barulhão, achando que todos vão morrer.

Como assim, vô, isso tudo o senhor já está ciente? Então qual sua dúvida?

Pandemônio, vô? Que pandemônio?

Os governadores? Quais, como assim? Doria, Witzel, Caiado e mais alguns?

Ah, sim, agora entendi.

Realmente, vô, o senhor tem razão – com esses palhaços é o pandemônio!

16º dia

Horas de preguiça, dias vadios, vida inútil. O tempo se arrasta como no pêndulo do velho relógio da sala que já não consegue marcar os segundos com exatidão.

O tempo parou.

No décimo-sexto dia do isolamento social compulsório já não mais se ouve nem o cantar dos pássaros. À falta de alimentos e do contato humano, eles desapareceram.

Tudo é silêncio. Tudo é indolência.

Há tantos dias fechadas as janelas, paira no ar um cheiro de pó e mofo.

Foi olhar o pratinho do gato – estava ali, intocado, há dias. O bichano desaparecera. Talvez morrera por aí, talvez algum faminto o transformara em pastéis. Nesses tempos horríveis impera o vale-tudo.

Pensou em tomar um café – amargo, porque já não tinha mais açúcar em casa. Tentou ferver a água, mas o gás acabou antes.

Mastigou as últimas bolachas de um pacote. Olhava para o telefone, antes tão útil e agora ali, mudo, há uma semana.

Dias e noites se sucediam em uma cadeia de tédio e desânimo. Indiferente se era verão ou inverno. Se chovia ou fazia sol. Dentro de casa é sempre a mesma hora, a mesma estação, a mesma condição meteorológica.

Sentou-se novamente na poltrona, de onde mal saía. Até mesmo dormir era ali. Sentia-se como parte da mobília ou da própria casa. Era matéria, tijolo, ferro, cimento, madeira, verniz… a alma se fora. Não conseguia mais suportar o passado ecoando em seus ouvidos. Ouvir apenas o silêncio. Compartilhar apenas ausências.

Cochilou. A fome veio para impedir o sono.

Levantou-se, tentando ouvir algum sinal de vida. Nada. Talvez mesmo o mundo tivesse acabado lá fora, e, por se manter nessa clausura sem fim, nada percebeu.

Foi até o quarto e abriu a gavetinha.

Ela estava ali, linda, limpa, perfeita e municiada. A arma que fora sua companheira tanto tempo, era fiel.

Deitou-se de forma relaxada e confortável. O estampido foi o único som que se ouviu naqueles dias.

Delírios de quarentena

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Todas as janelas permaneciam fechadas e as portas não se abriam. Nas ruas não havia pedintes, nem crianças nem mesmo cães vadios.

Nenhuma loja aberta. Era o longo feriado mundial nunca visto antes – 9º dia de confinamento compulsório, em razão da grande peste que assolava todos os países.

Já nem se preocupava em abrir janelas, nem acender a luz, muito menos se alimentar. Às vezes ainda se obrigava a tomar um copo de água.

Pensava no seu amor, pego em país tão distante, quase no dia do retorno. Talvez nunca mais voltasse. Talvez nunca mais se vissem. Talvez morressem em terras distantes. Talvez… talvez… talvez. Não havia mais certezas. Somente talvez…

Contou novamente quantas pregas existiam na densa cortina da sala.

Ouviu o som de um soluço abafado. A vizinha não aguentava mais a pressão de ficar sozinha com seus pensamentos e agora chorava o dia inteiro. Ou já seria noite? Também não importava. Dias e noites se tornaram exatamente iguais.

Realmente, não havia mais nenhuma certeza. Nem mesmo que ainda vivesse. Mas não fazia diferença. A vida e a morte começavam a ter a mesma face.

Sentiu saudade do mar. Há quantos anos deixara de ir para o litoral, olhar para o mar que tanto amara em sua juventude… não imaginava que a vida acabaria assim, na penumbra de uma sala deserta, em completa solidão.

Depois do terceiro ou quarto dia cessaram os carros e motos na rua. Nem uma buzina. Depois as sirenes. Não havia mais doentes a serem transportados. Nem cadáveres a serem resgatados. E não eram diferentes, os doentes não passavam de pré-cadáveres, tirados das casas para que a moléstia não se disseminasse

ainda mais. Deixados em algum lugar para que morressem, porque não havia cura.

E o mundo foi silenciando.

No começo se assustava quando ouvia o som do sangue circulando nos ouvidos, quando ouvia as batidas do próprio coração. O silêncio era tanto, tanto, que ensurdecia, incomodava, causava dor.

Mas se acostumou.

O relógio parou por falta de corda. Não se preocupou, porque as horas eram todas iguais.

Também o sino da igreja se calou. Talvez o moleque que se pendurava nas cordas tivesse morrido de peste. Ou o próprio padre, e levou no bolso da batina a grande chave do templo.

E as pessoas foram se distanciando. A ponto de perderem o sentido comunitário, de não mais conseguirem sentir compaixão.

E as portas se fecharam definitivamente.

E cada um tornou-se ilha e muralha de si mesmo, em uma solidão amarga e indesejada.

Não mais amanhecia nem anoitecia.

Imaginou então, que era o começo do fim do mundo.

Quando Brecht é salvação

Sem vontade de escrever. Sem inspiração. Sem motivação. Não pelo isolamento social, porque isso é até bom. Mas por motivos outros, de outra ordem de problemas pessoais. Às vezes fica difícil escrever. Para tentar voltar o pensamento ao normal, despertar a criatividade, “colocar a cabeça no lugar”, preciso ler.

Porque ler distrai a mente, tira o foco do problema. Imersa em um livro, deixo de pensar por mim e então eu me transformo no que leio.

Hoje resolvi voltar em Bertolt Brecht. Quando há muitas nuvens, muito peso no meu céu, o cérebro se recusa a repousar, leio Brecht. A força de sua poesia acaba provocando o temporal que fará o céu da mente desaguar completamente, clarear, voltar o sol e voltar a lua em seus ciclos de emoção e criação.

A cada releitura de seus poemas, renovação emotiva. Vejo as mesmas frases como se fossem outras. Vejo suas dúvidas como se fossem minhas. Sua indignação como se fosse hoje.

Vou transcrever aqui dois pequenos poemas, que fazem pensar e hoje os vi como se não os conhecesse. São pequenos em extensão, mas não em intensidade:

  • O cordão partido

 

O cordão partido por ser novamente atado

Ele segura novamente, mas

Está roto.

 

Talvez nos encontremos de novo, mas

Ali onde você me deixou

Não me achará novamente.

 

 

  • Sobre a esterilidade

 

A árvore que não dá frutos

É xingada de estéril. Quem

Examina o solo?

 

O galho que quebra

É xingado de podre, mas

Não havia neve sobre ele?

 

Vamos ler e meditar. Interiorizar. E deixar o pensamento se desenvolver, chegar ao fundo do pensamento desse fabuloso poeta.

Um dia trarei seus poemas de guerra, mostrando a crueza da vida, a maldade dos homens…

 

Conversa com meu avô n° 10

Vô, que saudade!!!! Faz tempo que não conseguimos conversar… As coisas estão acontecendo em uma velocidade tão louca no mundo que está difícil acompanhar até para quem está vivendo aqui.

Não, vô, ninguém quer o impeachment do atual Presidente da República. Ele é um cara bom, Capitão do Exército, reformado, sério, segue a máxima “não rouba e não deixa roubar”.

E isso está incomodando muito. Os políticos fisiológicos, useiros e vezeiros em meter os dedos podres no dinheiro público, hábito muitas vezes passado de pai para filho, estão extremamente revoltados. Simplesmente não tem negociata para aprovação de emendas. Por isso, vô, essa queda de braço entre executivo e legislativo. Simples assim.

A manifestação foi para o povo demonstrar seu apreço e seu apoio ao Presidente da República. E, ao mesmo tempo, o repúdio aos presidentes da câmara, do senado e do supremo tribunal federal, extensivo a vários membros dessas casas.

Claro, vô, que eu estava lá. Com exceção de uma das manifestações, ocorrida no ano passado, que o senhor sabe bem que eu não tinha a menor condição de deixar a situação lá em casa e vir para São Paulo, eu estive em todas.

Sei que é uma bagunça. Tem gente de todas as tribos – aparecem monarquistas, intervencionistas, todo tipo de istas. Mas faz parte. Porque são todos brasileiros. E querem, cada um a seu jeito, de acordo com seu entendimento, o melhor para o país.

É tão intenso esse sentimento, vô, que para tentar atrapalhar soltaram todos os tipos de boatos, proibiram manifestações, o próprio Presidente da República veio pedir ao povo para não ir, e fomos.

Sem movimentos organizados, sem líderes, nada. Sem pagamentos, brindes nem nada. Apenas o povo. Espontaneamente. Nem uma lixeira quebrada. Nem uma flor pisada nos canteiros.

E mandaram abrir para o trânsito a Avenida Paulista, aqui em São Paulo, que há anos fica fechada aos domingos. Na maior paz o povo a ocupou e a fechou aos carros. A polícia militar, fortemente presente, ali permaneceu garantindo nosso direito de manifestação.

Foi lindo, vô. Não foi a maior manifestação. Mas muito emocionante. Nosso povo finalmente acordou. E o maus políticos não conseguem mais dormir.

Sabe, vô, o que é mais surpreendente?

Há um ano e dois meses não tempos um único escândalo de roubo, desvio, abuso, nada, com relação ao Executivo

Isso é o MÁXIMO. Por isso votamos nesse Presidente.

O que mais o senhor queria entender melhor?

Ah, sim, o tal Corona vírus.

Apareceu uma epidemia disso aí na China. Falaram que era transmitido pelos morcegos. Ou cobras. Também cães. Não sei dizer ao certo a origem.

Da China foi espalhando. Pessoas de idade principalmente, e portadores de doenças crônicas morreram.

Aí, de repente, chegou na Europa e acabou com a Itália. Ficou completamente fora de controle. Forçou o fechamento das fronteiras. Mesmo assim já estava disseminado pelo mundo todo.

Foi considerada pandemia pela OMS, levando todos os países a tomarem medidas e adotar providências, porque há grande demanda por leitos de UTI, respiradores etc. E nenhum – NENHUM – país do mundo está preparado para essa emergência. Nem rede pública, nem rede particular.

Aqui em São Paulo está, de um lado – da população – uma histeria coletiva completamente exagerada. E de outro – da funcionalidade da cidade – uma beleza, sem trânsito, sem aglomeração, maravilha. E faltando tudo nos mercados. O povo acabou até com os estoques de papel higiênico. E pense que a epidemia é tipo gripe e não diarreia. Pois é…

Vamos ver mais falências do que falecimentos.

Uma crise econômica de dimensão universal. Todas as bolsas de valores com  quedas históricas e devastadoras. Menos a China. Que está saindo da crise que criou bem maior do que entrou. Não sei, vô, como eles fazem isso, não sou economista nem golpista. Não entendo muito dessas coisas.

As principais ocorrências são essas, vô; no mais, continua tudo igual.

Qualquer coisa que quiser saber, o senhor sabe: é só me chamar.