Texto de Viviane Mendonça – Árvores do tempo

Árvore do Cerrado, Pau-Santo,Kielmeyera coriacea - Sucesso Vital

Sou galho que brota de antigas árvores de raízes profundas.
Árvores que brotaram do chão ressequido do cerrado goiano.
De tempos difíceis de chão batido, de poeira produzida pelas boiadas nas estradas rústicas do passado.
Do cheiro gostoso da comida feita no fogão à lenha e do café torrado e moído no velho moinho.
Dos bordados de rosas produzidas pelas mãos ásperas e delicadas no bastidor de madeira.
De velhas cristaleiras, com guardanapos de rendas delicadas que escondiam louças e porcelanas que “apareciam” apenas para visitas ou em dias de domingo.
Da máquina de costura de pedal e roca de fiar o grosso algodão encardido.
Das visitas inesperadas e muito bem recebidas, das conversas e causos que encantavam ou arrepiavam.
De rezas, benzeções, chás milagrosos, missas, terços, quermesses e procissões
De trabalhos árduos e incansáveis, de mãos calejadas, suor e fadiga.
Das produções infindáveis de bolos, broas, doces, biscoitos, farinha e polvilho para saciar a fome de quem por ali passasse.
Do tempo em que o tempo não era cronometrado, mas vivido e aproveitado.
Onde a lua e as noites estreladas eram contempladas.
Apenas um simples galho de árvores fêmeas… mulheres fortes, simples, porém doutoras.
Mulheres do cerrado, mulheres sábias, de traços suaves e delicados, mas de presença forte e altiva que sabiam a arte de educar apenas com o olhar.
Ardósias fundidas, presas no moinho do tempo e da memória, que ainda vivem dentro do baú de meu coração.
Sou galho dessas árvores de raízes profundas que tanto me inspiram a continuar acreditando no tempo, na espera e na força dessas mulheres.
E nessa certeza, continuo regando essa árvore para que suas raízes se mantenham vivas e que no tempo certo, as flores brotem em meus galhos para continuar a vida enfeitar e perfumar.

(Foto: Árvore do Cerrado – Kielmeyera coriacea – Pau-Santo)

Que venham novos tempos

Que essa semana passe rápido, essa quinzena se finde e esse mês acabe. Não começou bem e não acabará melhor. O que começa torto acaba torto ou mais torto ainda. O que começa errado acaba errado ou mais errado ainda. Portanto, um mês que começou ruim não acabará bom, será ruim ou pior ainda.

Que novos meses venham com mais leveza e alegrias. Que novos ventos nos tragam boas novas, e estejamos sempre preparados, portas e janelas abertas para a felicidade que há de chegar. Um dia tudo muda na vida de cada um. E o barco toma o rumo inverso. E se tivermos força remaremos rumo ao arco-íris que anuncia o fim da tempestade.

Basta estar pronto e atento.

A maior arte da vida é saber se levantar. Porque cairemos. Sempre. Cairemos sozinhos ou seremos empurrados. Cairemos porque tropeçamos ou porque alguém nos passou uma rasteira. Mas cairemos.

Quem sabe se levantar e seguir adiante não ficará caído. Viver é a arte de se adaptar, de se renovar, de se levantar depois de cada tombo, de se apaixonar e sobreviver ao fim da paixão.

Aprendemos, desde o momento do nascimento, à nos adaptarmos. Porque ao nascer já nos adaptamos a respirar sozinho, à luz, aos ruídos, aos movimentos bruscos, ao mundo frio, feio, claro, barulhento e hostil. E, adaptados, sobrevivemos.

E muito cedo já começamos o aprendizado da renovação – perdemos pessoas amadas, mudamos de casa, de escola, de amizades e a cada mudança é necessária a capacidade de se renovar, por mais difícil que seja a nova realidade.

Muitas vezes cairemos, por isso somos incentivados a conseguirmos voltar a ficar de pé depois do tombo – sermos capaz de nos levantarmos, sozinhos, a cada tombo, nos torna invencíveis.

Ainda, ao longo da vida, nós nos apaixonaremos diversas vezes.

E isso nos fará sofrer quando terminar.

Por isso devemos nos preparar. Para a paixão e para o pranto. Sabendo que ambos passarão.

E quando o coração, cansado de bater sozinho, nos pedir um par, que estejamos prontos, preparados e com as portas abertas para a nova paixão.

E o círculo se repetirá inúmeras vezes enquanto vivermos.

E então podemos dizer que estamos vivos.

Chuva no entardecer

Previsão do tempo é de chuva e frio para a região Centro-Oeste MG neste  final de semana

Chove.

Chove muito nesta sexta-feira que amanheceu ensolarada.

Desde sempre eu gosto de chuva, de andar na chuva, de ver a chuva.

Adoro dias chuvosos.

Num de repente o céu escureceu, no final da tarde, as nuvens pesaram e veio uma tempestade.

Raios, trovões e muita água. Como se estivesse lavando a terra toda.

Depois amainou. Ensaiou se acabar, parecia que ia sair, mas resolveu ficar. E continua chovendo mansa, suave e docemente.

Foi como uma paixão tardia, que não se esperava mais.

E, num de repente da vida, nuvens se juntam e a paixão, inesperada, explode.

Como uma tempestade, com vendavais, raios, faíscas e tudo o que se tem direito.

Quando se pensa que tudo vai acabar, a paixão está amainando, ela se fortalece e se recusa a nos deixar.

E com aconchego, ainda muitas trovoadas e ventos fortes, a paixão resolve ficar para sempre.

Isso chamamos de amor.

E ela continua, mansamente, a embalar nosso viver, como se fosse a chuva calma, que garante a noite tranquila.

Nada melhor que uma chuva no final do dia, um paixão no final da vida e uma noite tranquila sempre.


	

Até quando?

Site prevê datas para o fim da pandemia do coronavírus - TecMundo

Às vésperas de se completar um ano do início do isolamento social, uso de máscaras, alcoolgel, fique-em-casa, lave-as-mãos, hospitais de campanha fechados sem uso, bilhões de reais transferidos do governo federal aos Estados, estamos na estaca zero.

Hospitais lotados. Doentes à espera de leitos. Falta de respiradores.

Vemos o mesmo filme de oito meses atrás quando a epidemia chegou para valer – embora já estivéssemos meses antes em isolamento.

As falências continuam.

O desemprego só aumenta.

A miséria anda a passos largos.

Não é possível que em 2021 teremos a mesma realidade de 2020.

Pensei já ter esgotado o assunto. Que estávamos superando a doença.

Alardearam tanto a vacina e agora dizem que ela não protege de novas variantes que já atacam a população.

Não há o que se comentar. Só lamentar.

A Terra, doente, agoniza lentamente enquanto ainda respira.

E duas perguntas não se calam:

1 – onde é o circo? Porque há muitos palhaços por aí…

2 – quo usque tandem?

Memória – de um ano atrás – Para quem tem paixão (porque minha paixão nunca esmorece)

 
  ESTRELA DA TARDE
 (José Carlos Ary dos Santos)
  
 "Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
 Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
 Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
 Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

 Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
 E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
 Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
 Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

 Meu amor, meu amor, minha estrela da tarde
 Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
 Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza
 Se tu és a alegria ou se és a tristeza

 Meu amor, meu amor, eu não tenho a certeza

 Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
 Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
 Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
 E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

 Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
 Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
 Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
 E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

 Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
 É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
 Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
 Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

 Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!" 

Texto de Germana Facundo – Saudades do que nunca viveu

Que saudades
Como pode alguém sentir saudades do que nunca houve
Como pode alguém sentir saudades do que nem viveu
É como estou hoje
Com saudades
Morrendo de saudades dos sonhos que criei
Chorando de saudades das horas que imaginei
Das histórias que sonhei
Hoje estou assim
Querendo que o tempo vá para onde eu quero
Para onde ele nunca esteve
Mas a saudade é tanta que me paralisa
É muita saudade
E nem aconteceu
E nada eu vivi
Como se pode sentir saudades de uma época que não existiu
De fantasias e de promessas que nunca se concretizaram
Por que sentir saudades de um futuro inventado
Quando há um presente imenso para se viver
Mas não se manda no coração
O coração é pretensioso e quase sempre faz o que quer
A razão até tenta dominar
Mas raramente consegue
E por causa do coração a gente faz um monte de besteira
E fica esperando, esperando
Esperando que tudo volte a ser como antigamente
Ou pior
Que tudo seja como criamos em nossos sonhos mais recorrentes.