Uma simples coisa

L’importance soit dans ton regard, non dans la chose regardée. (André Gide)

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Na alucinante correria de todas as manhãs, não teve tempo para verificar por que se sentia tão estranha.

Levantou-se num salto, trocou-se sem tempo de se olhar no espelho. Arrumou a mesa correndo enquanto pilotava o fogão, preparando a preferência de cada membro da família.

Não que alguém fosse perceber tudo isso, mas, se algo faltasse, seria notado de imediato. Enquanto tudo funcionava como sempre foi e como achavam que sempre deveria ser, ninguém a notava nem a incomodava também.

Realmente só era notada pelo não fazer, pelo mau funcionamento; nunca pelo fazer, pelo proporcionar algo à família. Só se dirigiam a ela para cobrar: – Cadê minha bolsa / meus óculos / minhas chaves? Ou – Você NÃO comprou meus cereais / NÃO lavou meus tênis / NÃO passou minha camisa?

Fora ela própria, há muito coisificada no relacionamento familiar, porém não se importava – doera intenso, mas agora pouco incomodava.

Entretanto, nessa manhã em especial, continuar a se sentir de forma estranha. Era como se ninguém a enxergasse.

Tentou ir até a janela. Não conseguiu sair do lugar. Estava presa ao batente. Duas ou três dobradiças a prendiam.

O Filho tentou passar e se sentiu ameaçado por sua posição; violentamente, empurrou-a com o pé.

– O que foi? – perguntou o Pai.

– Esta droga dessa porta que nem abre nem fecha, fica no meio do meu caminho, até parece minha mãe… – respondeu o Filho.

– Acerte-lhe um bom chute, que ela logo encontra seu lugar – disse o Pai.

Quis chorar, mas não conseguiu, ao descobrir que amanhecera transformada em porta. Portas abrem e fecham; portas não choram…

Do mar a Nelson Rodrigues, passando por orcas e cães…

O mar é lindo. Sempre. Qualquer que seja o nome que lhe deem, ou o ponto do globo terrestre onde se encontra.

Mas, em alguns lugares é especialmente espetacular. Na Patagônia, em especial o conjunto de mar, praias e falésias da Península Valdés é de uma beleza ímpar.

Naquele remoto lugar um biólogo e pesquisador – Beto Bubas – vivia como guarda-fauna. Por algum motivo não explicado, as orcas que ali habitam desenvolveram dois comportamentos totalmente diferentes de sua espécie: buscavam seu alimento na praia, caçando quase na faixa de areia, com uma habilidade única em vista de seu peso e tamanho. E – ainda mais extraordinário – estabeleceram um relacionamento com um ser humano, o próprio Bubas.

Esse fato, único por si, despertou a inveja e a ira de outros responsáveis pela manutenção da vida selvagem local. E Bubas foi tirado do local onde, por mais de dez anos, estudava as orcas e seu peculiar comportamento.

Transformada em filme – O farol das orcas – a história, aliada à deslumbrante paisagem, tem encantado os telespectadores.

 Bubas foi punido porque não deveria se aproximar das orcas, nem tocá-las.

Mas as orcas vinham até Bubas. Ele era um membro da família delas. Brincavam com o biólogo, jogando algas na areia para que ele jogasse de volta, como se brinca com cachorro, ao qual se joga uma bola ou um pedaço de pau.

Ele nadava com as orcas. Elas acorriam ao toque de sua gaita.

Enfim, os animais, mesmo selvagens, interagiam com esse homem, que ficou conhecido como o “encantador de orcas”.

Como puni-lo por amar os animais pelos quais deveria zelar?

Aí está a questão que ponho, comparando a realidade da situação desses animais – livres, soltos, selvagens, que se aproximaram de um ser humano – e só dele – e de outros animais, capturados, torturados, vivendo em cativeiro, para dar lucro a homens sem princípios morais, sustentados pela ignorância dos frequentadores desses lugares?

A atitude respeitosa de Bubas pelas orcas não as expunha a risco nem descaracterizava sua natureza. São animais imensos, pesados, belíssimos, sociáveis, que devem ser preservados. Mas os mesquinhos quiseram convencer o mundo que Bubas não podia ter amizade com os animais.

E esse mesmo mundo, ainda mais mesquinho, tolera circo com animais, aquários onde baleias, golfinhos e orcas vivem em cativeiros, nem sempre adequados, sendo adestrados muitas vezes com dores e torturas, apenas para divertir humanos que não entendem que prender um animal é contrariar sua natureza.

Que orcas e golfinhos não existem para divertir quem pode pagar para entrar nesses tanques e tocar nos animais. Isso é insano. Primitivo. Remonta ao começo da humanidade, quando a diversão dos homens era judiar dos animais e de outros homens.

Quando há um “acidente”, como aqueles que envolveram a orca Tilikum, que, em ocasiões diferentes, matou três treinadores, fazem várias reportagens espalhafatosas para chamar público e depois continua tudo igual.

Os casos de golfinhos que atacam turistas nos tanques são abafados para não prejudicar a arrecadação.

Os animais vivem estressados, isolados, não têm liberdade nem convivência com outros de sua própria espécie. Mas tudo bem. Dá dinheiro, a maldição da humanidade. Então pode.

É algo tão surreal ver um homem ser punido por respeitar os animais enquanto outros são pagos para fazer o contrário.

Da mesma forma, não entendo seres humanos que dizem adorar seus animaizinhos de estimação como se fossem seus filhos.

De se deixar bem claro que um animal nunca foi, não é, nunca será nem pode ser filho de seres humanos.

Amamos os filhos, se temos a infelicidade de perder um filho, choraremos eternamente essa morte, esse vazio que nada poderá preencher estará sempre presente na ausência do filho que se foi.

No entanto, quando o animalzinho “amado como filho” morre, o dono corre para comprar outro e colocar no lugar. Não é preciso dizer mais nada. Nem comentar.

Amamos nossos filhos e trazemos amiguinhos para que brinquem junto. Colocamos em escola e atividades extracurriculares para que se socializem. Levamos em festas, e os buscamos de madrugada, porque é importante que tenham amigos e convivam com pessoas da mesma idade.

Mas segregamos um animalzinho em nossa casa e o mantemos em cativeiro sem qualquer possibilidade de convivência com seres de sua espécie.

Amamos nossos filhos e os ensinamos a andar. A serem independentes. A pensarem por si. A viverem a própria vida e trilharem o próprio caminho.

E carregamos no colo um animalzinho perfeito, apto a andar sozinho e viver a própria vida.

Ou seja, os humanos são animais egoístas, egocentristas e não se preocupam o mínimo com o bem dos animais que dizem amar e preservar.

Porque amar é respeitar. Dar liberdade. Ajudar a crescer.

Não se divertir às custas de.

Nem descontar as próprias carências em um ser indefeso que não tem sequer como se rebelar.

Certos estavam Ronaldo Golias quando dizia que “a civilização não se comportou bem”, ou o grande Nelson Rodrigues com seu conceito de que “a humanidade não deu certo”…

Verso e reverso

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Se um dia sou pura paixão,

No outro apenas sou tédio

Tempero o frio e o fervendo

Mas não deixo o morno vencer

Se a vida é corda bamba

Dispenso rede de proteção

Meus riscos, eu os corro todos

Não fujo de nenhum perigo

Muitos até preciso enfrentar

Porque sei que só verei o arco-iris

Se esperar a tempestade acabar

Não tenho rotina nem sou previsível

Do que a vida oferece, bebo até a última gota

Porque se hoje transbordo paixão

Amanhã serei apenas saudade

Velho ou novo?

O segredo da mudança está em focar toda sua energia, não em lutar com o velho, mas em construir o novo. (Socrates)

 

Será tão fácil como prega o filósofo? Quando temos a certeza que o velho já deve ser deixado de lado, não compensa mais lutar por ele – ou com ele?

Sejam conceitos, trabalhos, relacionamentos, amores ou pessoas?

Quando o que temos na mão se torna velho? O que é ser velho?

Essas questões são suficientes para atormentar a mente de qualquer vivente. Porque o que amamos nunca se torna velho nem ultrapassado.

O que nos dá prazer nunca é velho.

O trabalho que nos sustenta não pode ser deixado de lado.

As pessoas que estão à nossa volta devem ser preservadas, mais valiosas quanto mais o tempo passa…

Construir o novo é, sim, uma necessidade. Porque tudo se renova.

Nossa missão é exatamente construir – ou possibilitar que seja construído – o mundo novo que deixaremos quando partirmos.

Mas equilibrando com a permanência do que já está aí e ainda é positivo, é útil, é fonte de amor. Acredito que o grande problema do mundo atual é exatamente essa ideia do descartável – se faço ou tenho (ou posso ter) outro mais novo, deixe o velho largado, desfaça-se dele…

Não. Não o deixe, mas tempere-o com o novo. Esse é o segredo.

Quando for partir

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Deixe todo o peso, todo o excesso para trás e parta

Tudo o que faz mal, tudo o que angustia deve ficar

Não leve a poeira de antigas paixões já vividas

Nem a tristeza de tudo que morreu antes de florescer

 

Não leve nada do que nunca mais usará na vida –

Sejam amizades vencidas, amores rompidos, roupas apertadas,

Cadeiras desconfortáveis, louças quebradas, perfumes usados.

Faça uma nova bagagem, leve e prazerosa, do que é necessário

 

Leve apenas essa alegria e essa sede infinita de viver que você tem

Leve ainda as cobertas que sempre afastaram o frio e aqueceram sua alma

E também as lembranças de todos os momentos felizes que viveu

 

Se é para uma nova vida, a partida é um verdadeiro rompimento.

Lembre-se de deixar livre um espaço para um novo amor apaixonado

E faça, com toda sua força, desse momento um renascimento.

Minha Bandeira

Bandeira do Brasil / Ninguém te manchará
Teu povo varonil / Isso não consentirá

Bandeira idolatrada / Altiva a tremular
Onde a liberdade / É mais uma estrela a brilhar.

(Fibra de Herói – Música de Teófilo De Barros Filho e Cesar Guerra Peixe)

 

Dia de faxina de documentos no escritório.

Olho pela janela. Vejo a Bandeira Nacional.

Não na sua tradicional forma retangular de fundo verde, sobreposto por um losango amarelo e um círculo azul, no meio do qual está atravessada uma faixa branca com o lema nacional em letras maiúsculas verdes, na proporção 7:10.

Mas outra forma, que a natureza traz à minha janela:

 

Contra o céu azul malhado de nuvens brancas, uma sibipiruna coloca estrategicamente sua folhagem de um verde forte, salpicado de delicadas flores de intenso amarelo.

Fico a olhar longamente esse enquadramento. E vejo a Bandeira do Brasil.

A verdadeira.

Aquela que representa um país que foi às ruas para evitar que nossa bandeira se tornasse vermelha, sendo substituída pela bandeira de um partido esquerdista e oportunista, que estava destruindo a economia da nação e tirando a dignidade de um povo.

Não sei o quanto investi nessa luta. Não sei quantas centenas de e-mails e mensagens. Não sei quantas dezenas de vezes ouvi dos céticos e omissos “Ah, isso não vai dar em nada…”. Não sei quantos milhares de passos caminhei pela Avenida Paulista, sol ou chuva, cansada ou disposta, doente ou sã.

Mas estava lá. Não ganhando, mas até mesmo pagando. Porque meu ideal era maior que qualquer desânimo, qualquer dificuldade, qualquer perigo. E, nesses dias, não apenas a Paulista ou São Paulo era verde e amarelo, mas um país de dimensões continentais se revestia com suas cores e se transformava em imensa Bandeira viva.

Fui pioneira ao cunhar a expressão “A minha Bandeira jamais será vermelha”, que se transformou em “A nossa Bandeira jamais será vermelha”. Sinto orgulho quando a ouço nos quatro cantos do país.

Foi uma grande alegria ver que o país – pela primeira vez em sua História – se uniu em um objetivo comum, de recuperação, reconstrução e democracia. Um povo que no máximo se unia para torcer em jogo de copa do mundo de futebol.

É uma alegria ver que a mobilização não acabou, o povo não se dispersou.

Conseguimos, como efeito colateral, despertar a consciência política. A população se interessa pelo que acontece na vida do país. Se une para pedir, reclamar, boicotar, agir para melhorar. E isso é lindo. Muito lindo. Isso é o pleno exercício da cidadania.

Chegamos lá? Claro que não. Ainda falta muito.

Mas o primeiro passo foi dado, e, como em uma maratona, ninguém mais conseguirá segurar nossa caminhada rumo ao Brasil Verde-e-Amarelo que sonhamos. Agora é realidade.

Noite-e-dia

Pela centésima milionésima vez, ontem vi novamente o filme O feitiço de Áquila. Do livro Ladyhawke, de Joan D. Vinge. Vale a pena ler. Vale a pena assistir.

A história – realismo-fantástico – gira sobre uma maldição lançada por um bispo sem vocação contra um casal de namorados – o Capitão da guarda, Etienne de Navarre (vivido pelo ator neerlandês Rutger Hauer) e sua amada Isabeau d’Anjou (estrelada pela belíssima Michelle Pfeiffer).

Quando descobriu que sua eleita amava o capitão, e que ambos haviam fugido de Áquila, o bispo invocou as forças do mal e os amaldiçoou de forma que nunca mais se encontrassem como homem e mulher. Ele, de dia o garboso cavaleiro, trazia consigo um falcão. Depois do por do sol, ela, a linda mulher, caminhava pelas florestas com um lobo negro. “Sempre juntos, eternamente separados”. Ou seja – ele se tornava lobo ao mesmo tempo em que ela voltava a ser mulher, o que impedia que se encontrassem. Ele era o dia, e ela, a noite. E a maldição só seria quebrada se os dois – Navarre e Isabeau, ficassem, ambos na forma humana, de frente para o bispo e este os encarasse.

Entretanto, o maldoso bispo não contava que existe, sim, “dia sem noite e noite sem dia” – quando ocorre o fenômeno do eclipse solar.

Mas, não vim aqui para contar o filme e sim para comentar a distância que a perda ou separação impõem àqueles que desejam estar juntos, mas são condenados a viverem separados.

A perda, pela morte, é irremediável. A morte é o maior mistério da vida. Onde estão as pessoas que morreram? Devemos alimentar a esperança de estarmos todos um dia novamente juntos, ou a morte é, simplesmente, o fim de tudo? Então qual seria o sentido da vida, se tivermos apenas esses poucos anos na Terra?

Indagações que rendem textos e mais textos, filosofia pura e também filósofos de mesa de buteco…

Apaixonar-se, amar, desejar, querer, e estar separado. Essa a grande questão de hoje aqui no post.

Quem nunca?

Pois é…

A separação é reversível? Nem sempre. Muitas vezes reveste-se de uma definitividade que não admite contra-argumentos.

Outras vezes, quando revertida, mostra-se inviável.

Tal como a máxima que um homem não mergulha duas vezes na mesma água de um rio, voltar pode nos levar a outro lugar, a outra pessoa, agora diferente do que deixamos. Porque o tempo passou para os dois. Nem sempre o reencontro é agradável ou duradouro.

Ah, mas todo mundo merece uma segunda chance…

Sei!

A vida não é uma ciranda de danças, que você vai trocando de par até chegar no primeiro novamente e tudo continua igual…

Pode ser que os vícios, os defeitos, tudo que separava tenha se agravado com o tempo…

Ainda que um revival seja sempre uma tentação, nem sempre é a solução…

Mas, voltando ao ponto central: o sofrimento de estar separado quando as almas estão juntas.

O pensamento dia e noite em quem está distante, não há como encontrar, tocar, estar junto… ainda que a tecnologia tenha conseguido suprimir algumas arestas da separação – temos hoje comunicação audiovisual instantânea – podemos conversar vendo o outro.

Mas o âmago da saudade está em mais que ver e ouvir: tocar, abraçar, amar…

E isso não existe.

Quando a separação abrange, ainda, fuso horário e enquanto para um é dia, para o outro é noite, aí fica ainda mais difícil. Nem mesmo a comunicação audiovisual é fácil…

Medida em milhas ou quilômetros, a distância é o desespero dos que se amam.

Os sonhos trazem o outro, mas não satisfazem o que o corpo e a alma esperam.

A voz através do telefone até aquece o coração, mas não silencia a saudade.

A interação audiovisual não supera a ausência física.

As lembranças se avolumam, tornam-se doces.

E, por incrível que pareça, por outro lado, a convivência não é garantia de felicidade. Essas mesmas pessoas, se colocadas para viverem o dia-a-dia na mesma casa, dormindo juntos todas as noites, fazendo em comum as refeições, dividindo sonhos e problemas, contas e alegrias, talvez não consigam permanecer juntas. Porque a rotina mata a paixão. A intimidade anula o respeito. A facilidade do contato abafa o desejo.

Paradoxal…

A solução? Não a tenho. Mas penso que o melhor caminho é viver relações como se fôssemos, ao mesmo tempo, as pipas e as mãos que as empinam. Darmos toda a linha para a distância necessária, mas segurarmos com a firmeza suficiente para que não se afaste muito, nem se vá para sempre…

Cultivarmos as asas, uns dos outros, para que todos possam voar livres. Mas firmarmos suas raízes junto de nós para que sempre voltem.

Porque sempre haverá o momento do eclipse, em que os encontros encantados acontecerão, e a paixão dominará…