Entre almas – Rosita


Essa noite sonhei com você, um sonho incomum
Não de amor, nem sobre todas as paixões cegas, foi um sonho só.
Do limiar que nos entristece, como a dor de uma estúpida solidão
Não foi sobre flores desencontros ou qualquer desculpas.
Neste meu pensar, você não mora mais, não vive, perambula pelos cantos do meu coração
Contei nos dedos aqueles que em comum passaram pela minha vida
Em todos levaram um pouco do meu coração
Sob em cada pedaço um lembrança
Porque todo amor é amor
Das mais leves ondas, do mais alto das emoções.
É, eu tive um nobre sonho com você
Sob todas as coisas, poemas, versos em cada estrofe
Foram rumores, toda sorte que nos manteve
Tão bem como todo sentido nos fez
Mas não foi só por sonhar, como um acordo de almas, quão andava perdida por aí
A vagar, e nela sensações inevitáveis
Até bucólicas
No anoitecer em você meus pensamentos
Do mais durador que seja, do que fomos no amanhecer
Ali, não tivemos nenhuma garantia das inúmeras paixões inventadas
Fomos uma questão quase despercebidas
Um amontoado de dúvidas
Ah, como sonhar este sonho que um dia foste realidade
Tão sentida, frágil por deveras coração partido que ainda se lamenta
Foste perda, inquietações
Do amor, ao desastre final
Em contra partida, você aqui no meu sonho celestial
Que belo presente dos deuses gregos que eu fiz a merecer afinal
Sou pobre poetisa sem inspirações, sem nada mais a querer, pensar
Como tão estranho sonhar, deste significado amor que não era mais amor
O que fica, marca nas memórias, tende a ficar
Não foi Sobre todos os sentidos, palavras que nos deixamos o amor se calar
Todo silêncio foi falho, perturbador .
Entre versos seus ainda vivo, por mais voltas que o mundo dá
Sob fantasias, deslumbre na alma, ilusões desenfreadas o amor ainda continua lá.
Onde se encontra, se diz, desfaz, se repousa
Em todos os verbos, linhas
Onde o amor, que era para ser amor
Em meu sonho, sei que for preciso
Vou ter que acordar
De você tenho recordações
Nos quais, eu ainda sei que nos teus sonhos
Eu estarei sempre lá …

(Imagem: banco de imagens Google)

O pássaro e a laçada

Quando a moça o viu pela primeira vez, apaixonou-se. Era o pássaro mais lindo que já vira, de canto mais doce que já ouvira.

Deixou-se ficar, enlevada, à janela, olhando para ele como hipnotizada. Ele a notou. E cantou ainda mais bonito para fixar sua atenção. E pousou na janela, tão perto quanto uma ave chegaria de alguém.

Quando imaginou que ele viria até ela, ele, simplesmente, voou para longe e desapareceu.

Ela não mais o viu nem ouviu. Mas nunca o esqueceu. Tinha certeza que ele voltaria.

Então teceu um cordãozinho fino, com delicada laçada, onde o prenderia quando ele estivesse novamente ali.

O cordãozinho ficou guardado em uma caixinha de porcelana ao lado da janela. Muito tempo se passou.

Ela, já nem tão moça mais, um dia ouviu novamente o canto que a encantou. Chegou até a janela e o viu, na árvore mais próxima. Ele cantava em direção à janela.

Quando a viu, voou até o batente e mostrou toda a beleza de suas cores e de seu canto. E entrou na casa, ali ficou.

Ela guardou o cordão da laçada, acreditando que ele viera por vontade própria e ali ficaria para sempre, onde era tão amado.

Não o prendeu. Nem mesmo tentou prender. Deixou-o livre como nascera. Feliz por ele estar ali.

Até o dia em que ele voou. Desapareceu. Nunca mais ela viu o pássaro nem ouviu seu canto. Mas não o esqueceu.

Ela, ainda hoje, já senhora, é vista na janela, olhando para a árvore, segurando, nas mãos, um fino cordãozinho do amor com uma delicada laçada da paixão.

(Imagem: “A janela”, de Maria Alice)

Dias de vento, tempos de pipas

Hora sagrada – largar as tarefas e ir para a rua soltar pipa

Ventos de agosto. Pipas no céu sem nuvens.

Alegria da meninada. Quem empinava melhor a linda pipa?

Quanto mais alto vai a pipa, maior o risco de perdê-la.

Quanto mais alto vai a pipa, mais perfeito seu feitio…

Rabiolas ao vento. Balé de cores. Papéis, colas e varetas…

Olhos encantados se voltam para o infinito, ainda puros dos humanos sofrimentos

Saudade da infância, dos irmãos, dos amigos…

(Imagem: pintura de Cândido Portinari – “Meninos soltando pipas” – banco de imagens Google)

Neblina

Por um momento ela o encarou
Como se ainda estivessem vivos
Viu o mesmo olhar, a mesma intensidade
Mas era tarde demais, o tempo deles se fora
Levantou-se em meio à névoa que se formara
E viu tudo sumir diante de si, se esvaindo na neblina
Agora já estavam definitivamente mortos
Morreram há muito tempo um para o outro
Na distância, na ausência, no abandono

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Ventos de agosto

Pipas no ar, em um céu sem nuvens

Tom de azul, do mais profundo azul

Pleno inverno, as árvores se despem

E as folhas brincam e correm nas ruas

Ruidosamente em secas risadas.

O mundo descansa quase em plena paz

Acreditando no poder do vento

Em levar consigo toda tristeza

Em varrer o pó de todos amores

Em limpar da vida o que não fica

Em trazer de volta a chuva que falta.

Dando adeus ao passado, as árvores

Balançam os galhos agora sem ninhos

Os pássaros, em bandos já se foram

Aves de arribação, fugiram do frio;

Velhos amores também se foram

Deixando abertos os corações em sangue

Pulsando na espera de novas paixões.

Venta, agosto, venta, que é sua missão

Ventar limpando a terra e a vida,

Deixando limpos os caminhos e atalhos

Para tantas novas caminhadas,

Novos amores, novos sorrisos,

De mãos dadas pela vida afora

Seguindo o vento que a todos levará

Ao final que em algum ponto espera.

Redemoinhos de vento na terra

Luzes no céu, estrelas no nada

São os ventos do mês de agosto

Prenúncio de nova primavera

(Imagem: banco de imagens Google)