
Dia de poesia – Eugénio de Andrade

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Por vezes me surpreendo a pensar em quantas pessoas já passaram pela minha vida, deixando alguma marca.
Sei que muitas outras passaram, mas não lembro sequer a feição. Quem se lembra de todos os colegas de todos os anos de escola? Ou do cobrador do ônibus que pegava diariamente para ir ao colégio? Ou dos funcionários da faculdade? E assim tantas pessoas que não nos marcaram.
Em compensação, algumas passaram e nos deixaram tantas marcas, tantas lembranças, que é impossível não sentir saudade. Uma saudade gostosa, de um tempo que passou e sabemos que não voltará, mas que valeu a pena ter vivido.
Tudo era tão simples, dois ou três amigos de cada irmão chegavam no final da tarde, todos se uniam e se dividiam ao redor da mesa de pingue-pongue, e a festa era quase diária, regada a muita limonada feita em casa.
Um lanche reforçado quando a noite chegava, e a roda de bate-papo. Resolvíamos todos os problemas do mundo. Aí um pegava um violão, e não tinha mais fim. Em algum canto dois jogavam xadrez, compenetrados, em outra dimensão.
Pergunto-me, hoje: onde estão esses amigos do tempo passado? Que fizeram da vida? que fazem hoje? Será que todos conseguiram seu lugar ao sol? são felizes? Quantos já morreram, antes de viverem plenamente?
A vida é um contínuo ir, nunca se volta, apenas se vai, nunca se para, a não ser na morte. Há até algumas pausas – doenças, cirurgias – quando temos a impressão de que o tempo parou. Mas só parou para nós, lá fora tudo continuou.
A maior vantagem de ter uma família grande e unida é esse não-se-perder-de-vista jamais. Irmão é bicho que gruda. Não é preciso se encontrar todo dia, mas há um canal de notícias em família que mantém as informações atualizadas diariamente, como se ainda vivêssemos na mesma casa.
Não importam os quilômetros que nos separam, porque para quem ama não existe distância. E os sobrinhos, suas descobertas, seus caminhos, tão interessantes, tão surpreendentes, a se revelarem a cada dia…
Também os primos – espécie de irmãos – cuja amizade deve ser cultivada com muito carinho, sempre mantendo o contato.
Mesmo os que foram morar longe – alguns muito longe mesmo, muito, muito longe – sempre dão um jeito para um encontro. As festas reúnem todos, e parece que festa sem primos não é festa.
Esses, ainda que distantes, nunca se separaram da família, é possível manter um contato, acompanhar a vida de cada um, o crescimento dos filhos…
E os amigos que chamamos agregados – aqueles tão queridos que parecem pertencer à família – mandam notícias constantes, tudo tão facilitado pelo instantâneo dos encontros no ciberespaço e que também sempre estão nas festas, trazendo os filhos e, quiçá, logo alguns trarão netos.
Essas pessoas com quem foi possível manter contato tornam a vida mais leve, mais animada.
Então volto a pensar: e todos aqueles dos quais já me esqueci? Será que também já me esqueceram?
(Imagem: banco de imagens Google)


Quando o cansaço da vida a venceu
Não conseguiu continuar.
Deitou-se e pediu ao céu
Que tivesse misericórdia.
O céu, gentilmente, a cobriu
Com uma chuva de pétalas
Devolvendo com tanto carinho
As tantas flores que oferecera em vida
E então sentiu o frescor
Das gotas que o céu lhe enviava
Devolvendo com todo cuidado
As tantas lágrimas que derramara em vida
Não mais suportando toda a dor
Fechou os olhos, e, docemente, partiu
(Imagem: banco de imagens Google)


A gente não sabe quando, nem onde, mas sabe: um dia acontece. Um dia, a vida coloca na tua frente alguém que não parece novidade. Parece reconhecimento. Você conversa e existe uma familiaridade estranha em alguém que acabou de conhecer. O assunto não precisa ser puxado, o silêncio não vira constrangimento e você não sente necessidade de calcular o que dizer para continuar interessante. É como se alguma parte sua já soubesse descansar ali. Não é paixão fabricada pela pressa de viver alguma coisa. É perceber quantas coisas ficam simples perto daquela pessoa. Você não precisa diminuir seu jeito, esconder o que sente ou interpretar cada mensagem para descobrir qual lugar ocupa. Existe desejo, mas também tranquilidade. Existe saudade, mas não insegurança. E o mais bonito é que essa pessoa não chega para completar uma vida pela metade. Ela encontra você vivendo a sua e faz nascer vontade de dividi-la. Um café que você tomaria sozinho ganha outra cadeira. Uma viagem que já estava nos planos começa a admitir dois bilhetes. Uma terça-feira qualquer termina com você querendo contar como foi o dia. Um dia, você conhece alguém e entende por que tantas outras conexões precisavam de esforço para parecer profundas. Com essa, você não encontra a metade que faltava. Encontra alguém diante de quem pode continuar inteiro e, ainda assim, querer construir um nós.