
Para pensar 53

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Já não tenho lágrimas:
estão caídas
longe, em vagas margens,
qual mornas ovelhas
recém-nascidas.
Longe estão caídas,
entre esses montes
de saudades vivas,
de figuras frias,
ai, de que horizontes!
Suspirosos montes!
Porém, agora,
talvez não me encontrem.
Pois a alma se esconde,
porque já nem chora.
(Imagem: banco de imagens Google)

Fotos. Que antes eram fotografias. E, antes ainda, retratos.
Em músicas, filmes, romances, sempre há o recurso da foto para voltar ao passado. Seja de forma figurada ou literal dentro da ficção. E, na vida real, fotos são lembranças vivas, fazem o passado sempre presente.
Conseguimos nos desfazer de muitas coisas ao longo da vida, mas não temos coragem de rasgar fotos e jogar no lixo. A não ser algumas, que foram rasgadas com raiva e molhadas de lágrimas.
Assim, vamos acumulando fotos e mais fotos. Álbuns e mais álbuns. E, nos dias de hoje, com a facilidade da foto digital, as temos aos milhares.
Vejo antigas fotos (não as chamo velhas – ou seria eu também velha por as possuir…).
Elas me trazem de volta meus vinte anos. No milênio passado. Não poderei nunca mais ter vinte anos, mas me posso ver nessa idade. E outras pessoas com quem convivi naquela época.
Fico a lembrar de tantos acontecimentos, tanta leveza, uma vida livre e despreocupada.
Meus pais ainda jovens, fortes, nossa casa tão cheia de amigos, nossa vida tão cheia de festas e encontros.
Tudo se perdeu. Tudo ficou nessa caminhada árdua que a vida se tornou de repente.
A memória é algo fabuloso. Deus a deu aos homens para tornar mais leve a realidade. Basta fecharmos os olhos e relembrarmos o que já foi, deixar fluir o pensamento. Reviver os melhores momentos. E, para isso, as fotos são magníficas. Porque não mostram nossa decadência física. Elas nos guardam naquele momento, em que a juventude brilhava em nossos olhos e tonificava nosso corpo.
E Deus foi tão bom com os homens, que, para aqueles que a memória machuca no final da vida, ela se perde na bruma da velhice.
Olho para mim mesma em uma antiga foto. E confiro no espelho com a imagem que me tornei.
E entendo, sim, o que pensava Wilde com seu Dorian Gray…
(Imagem: do acervo pessoal da autora)

Um dia eu quis esquecer você…
Para tentar esquecer, comecei a lembrar
tudo aquilo que eu precisava esquecer.
Lembrei-me então desse seu olhar
que sempre me atravessava e enxergava
o que ninguém mais via em mim.
Esses olhos profundos, esse olhar firme
esse brilho de paixão que nenhum outro tem.
E então eu me lembrei do seu sorriso, tão meigo
tão amigo, animador. E lembrando agora essa boca
como não pensar naquele primeiro beijo
e na paixão que explodia como estrelas de fogo.
Para esquecer sua boca, pensei em seus braços,
em suas mãos, no abraço apertado em seu peito…
e me lembrei de noites de amor, de manhãs floridas
de tantas loucuras sonhadas, de verdades confessadas,
de alguns segredos partilhados, de desejos realizados
de muitas risadas e até de algumas lágrimas…
e assim, ao tentar esquecer, mais e mais eu me lembrava
E senti saudade, muita saudade, de tudo que vivemos
Lembrando de você ao tentar esquecer, eu percebi
o quanto, para mim, você é inesquecível…
(Imagem: banco de imagens Google)

O que está escrito no caderno da sua vida?
No dia em que você nasceu, recebeu um caderno com as folhas em branco e uma caneta, que deveria ser usada para nele escrever. Mas só poderia escrever o dia presente.
A cada dia, deve-se, com a caneta do livre arbítrio e a ações diárias, escrever uma página. Ao final, estará pronto o relato da sua vida, que deverá ser levado de volta quando for para sua solitária viagem sem retorno.
Não é possível voltar e corrigir nada nas folhas dos dias passados, e, da mesmo forma, uma trava impede de se ir adiante do dia presente e até mesmo de se ver quantas folhas existem no caderno da vida.
O que se escreveu, está escrito para sempre. O que se realizou, está realizado.
É permitido reler, à vontade, todas as folhas passadas.
Ver os erros, os acertos, as tristezas, as alegrias, as vontades satisfeitas e os desejos pendentes.
Muitas vezes, na iminência de repetir um erro, reler uma página leva a se mudar a vontade e a ação. Mas aquele erro passado, esse não há como se apagar nem mudar.
E a releitura do passado traz conforto emocional, saudades, lembranças.
Disso é feita a vida – o conforto de se ter a certeza da solidez dessa vida, as saudades de tantas pessoas que passaram por todos e cada um, e se perderam em cadernos alheios, e as lembranças de coisas, situações, cidades, tudo aquilo que se viveu buscando apenas ser feliz.
Quando se percebe, a parte preenchida já é bem mais volumosa do que a parte reservada ao futuro. É preciso aceitar a passagem do tempo, saber que há muitos mais ontens do que amanhãs.
E não se pode escapar dessa realidade: só restam algumas poucas páginas para escrever. Então se começa a tentar escrever mais devagar, fazer cada página render, colocando mais critério nas vontades, nas ações, nos desejos.
Até que um dia um vento qualquer abre o caderno em uma folha de um passado distante, mas que nunca passou de verdade, e a saudade obriga a se deixar tudo e buscar esse passado, não importando mais quantas folhas ainda restam, desde que se resgate aquele momento. E se tenha, então, a melhor parte da vida para escrever.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Será que o mundo já esqueceu?

O menino deitado na areia
Adormeceu
Espera por seu pai
De quem se perdeu.
O menino deitado na areia
Fugiu de sua pátria
Fugiu da guerra e do horror
Fugiu da fome e da violência.
No vento frio da noite
Segurava na mão de seu pai
O menino deitado na areia
Tinha pai, tinha mãe e irmão.
No vento da noite o balanço do mar
No frio da noite as ondas imensas
No escuro da noite seu corpo no mar.
Não viu onde foi seu irmão
Não ouviu mais a voz de sua mãe
Não achou mais a mão de seu pai.
E as ondas do mar levaram o menino
E o deixaram na beira da praia.
Adormecido ali ficou o menino.
O pequenino na areia da praia.
Rostinho virado de lado não viu
A cem metros estava seu irmão
Deitado na areia da praia
Dormindo na beira do mar.
Não mais se deram as mãos
Não mais se viram os rostos.
O menino deitado na areia
Deixou um planeta chocado
Sacudiu o conforto de todos
Arrancou lágrimas de dor
Porque não brincava o menino
Não aproveitava a alegria da praia
O menino deitado na areia
Fugindo do horror e da guerra
Não dormia o menino na areia:
Estava morto o menino
Deitado na areia da praia
Morrera nas ondas do mar.
(para Alyam Kurdi, 2015)
(Imagem: banco de imagens Google)