Dia de Poesia – Fernando Pessoa – Na véspera de nada

Na véspera de nada

Ninguém me visitou.

Olhei atento a estrada

Durante todo o dia

Mas ninguém vinha ou via,

Ninguém aqui chegou.


Mas talvez não chegar

Queira dizer que há

Outra estrada que achar,

Certa estrada que está,

Como quando da festa

Se esquece quem lá está.

(Imagem: Ilustração de Ilustr. S. Hee – Correia do Sul, 1963)

Momento de poesia – Victor Hugo – Demain, dès l’aube

Quando um pai não supera a morte de uma filha…

Demain, dès l’aube, à l’heure où blanchit la campagne,
Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m’attends.
J’irai par la forêt, j’irai par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.

Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.

Je ne regarderai ni l’or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j’arriverai, je mettrai sur ta tombe
Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.

Memória – Poesia da casa – De passagem

Veio com brisa tão leve
- Uma pluma a flutuar
Não tinha nenhum destino
Só um desejo: passar

E como se fosse um beijo
Roubado sem um abraço
Deixou o rastro apertado
De um nó onde fora laço

Se não podia ficar
Se era só de passagem
Por que ficou tanto tempo
Antes de seguir viagem?

Não há antes nem depois
Só o instante da magia
Daquele beijo furtivo
Mas dado com maestria

Uma passagem tão breve
Deixou a fieira de pena
Que traz de volta a saudade
Ao sentir a brisa serena 

Passou o tempo cruel 
E o trinco da madrugada, 
Chegado o fim do caminho 
Então não resta mais nada

(Imagem Wattpad)

Poesia da casa – O nada

Um turbilhão vindo de lugar desconhecido
Turvou-me a alma, tirou-me o chão, fez o escuro.
Tumulto no sentir, no pensar, sem ação.
Uma vida esboçada que não aconteceu.
Um botão de flor morto sem desabrochar.
Eu fui nada, fui espera e fui amor.
Agora novamente não sou nada.
Nada sou, nada espero, nada amo.
Sou a escuridão que precede a luz que não vem.
Sou a eterna madrugada onde nunca amanhece.

(Imagem: banco de imagens Google)

Para meu padrinho, Joaquim Élcio Ferreira

Ele partiu. Tão doce e suavemente como viveu.

Há muitos anos, tornei-me sua estagiária. E instantaneamente ele se tornou meu ídolo – Promotor de Justiça, sério, dedicado, idealista, era tudo o que eu queria ser também.

Ele me guiou. Com paciência de santo e amor de pai, foi me preparando para ser uma Promotora de Justiça.

Eu, em minha mesinha ao lado de sua grande mesa, sentada a sua direita no gabinete do Fórum em Presidente Prudente, mês após mês, fomos nos tornando amigos. Ele era leve, engraçado, cheio de histórias para contar. Era professor na Faculdade de Direito e exercia essa função comigo, ensinando tudo o que eu precisava aprender para trabalhar ali e me preparar para o concurso.

Levou-me para sua casa. Sua esposa – minha querida dona Glória – acolheu-me com amor. Uma grande amizade floresceu. Tornaram-se meus padrinhos.   

Foram décadas de convivência, algumas festas, viagens, conversas sérias e nem tão sérias. Muitas risadas. Algumas lágrimas. Muitos abraços e muito amor.

Ontem eu fui até lá para vê-lo. Ele não me viu. Mas sei que me ouviu. Ainda tive a alegria de ficar um pouco com ele.

Mas, antes que hoje amanhecesse, ele se foi. Cercado pela esposa, filhos e netos.

Pela segunda vez em um mês de maio eu me vi órfã. Há três anos meu pai nos deixou. Hoje foi a vez de meu padrinho, meu segundo pai. Agora estou definitivamente órfã de pai.

A dor é grande. Sei que sentirei falta de sua alegria, seus conselhos, suas observações… e de todo aquele carinho que ele sempre teve comigo.

Um dia estaremos novamente todos juntos, uma só grande família, ainda que em outro plano. Uma vida só foi pouco para tanto amor.

(Imagem: foto pessoal do arquivo de Maria Alice)

Texto de Antonio Carlos A. Gama – Cogitações vadias


“Entendo!” disse a Rainha, que nesse meio tempo estivera examinandoas rosas. “Cortem-lhes as cabeças!” e o cortejo foi adiante, três dos soldados ficando para trás para executar os desventurados jardineiros, que correram para Alice em busca de proteção.
“Vocês não serão decapitados!” disse Alice, e os enfiou num grande vaso de flores que estava ali perto. Os três soldados andaram ao léu por um ou dois minutos, à procura deles, e em seguida saíram tranquilamente atrás dos outros.
“Cortaram-lhes as cabeças?” gritou a Rainha.
“As cabeças rolaram, para o deleite de Vossa Majestade!” os soldados gritaram em respostas.
“Muito bem!” gritou a Rainha. “Sabe jogar croqué?”
(Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll)

Segundo nos ensinam os velhos compêndios escolares, o homem é um mamífero bípede, composto de cabeça, tronco e membros.
De acordo ainda que com aquelas lições, o homem se distingue dos outros animais pela sua racionalidade, vale dizer, o homem é o único animal que pensa (ou pensa que pensa).
“Penso, logo existo”. A famosa máxima cartesiana bem expressa a importância atribuída à racionalidade ou racionalismo do homem, que compreenderia dois componentes básicos: a alma e o corpo.
A alma seria uma “substância pensante em extensão” (“res cogitans”), da qual o corpo seria apenas “extensão no tempo e no espaço” (“res extensa”).
E por dar tanto valor à capacidade de pensar, o homem considera como a parte mais importante da sua anatomia a cabeça, que é onde se concentram os órgãos e sentidos nobres, como o cérebro, a visão,
audição, o olfato e outros. A cabeça seria, pois, a sede da razão, do pensamento, da memória, da imaginação, das sensações.
Haja vista o sem número de locuções formadas a partir do vocábulo “cabeça”: aquele dotado de talento ou inteligência tem “cabeça forte” ou “boa cabeça”; o que sabe manter a serenidade e a calma é “cabeça fria”; o que é desatento e distraído vive com a “cabeça no ar ou na lua”; quem se porta com altivez e nada tem do que se envergonhar pode andar de “cabeça erguida”; ao contrário, aquele que é submisso e subserviente vive de “cabeça baixa”; o triste e acabrunhado está de “cabeça inchada”, enquanto o teimoso e casmurro tem a “cabeça dura”; quem está confuso ou atrapalhado “não sabe onde tem a cabeça” e o que toma um prejuízo ou sofre alguma perda “leva na cabeça”. O chefe ou o comandante de uma instituição ou grupo, de objetivos lícitos ou criminosos, é o seu “cabeça”, (atenção: qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência). O marido ou varão já foi legalmente considerado como “cabeça do casal”, função essa que não mais se justifica nem sustenta diante da justa paridade reconhecida às mulheres, que alguns têm o mau gosto de chamar de “varoa”. Até mesmo a parte principal de um dispositivo de lei é o seu “caput” ou “cabeça”.
Em razão disso, o homem tem verdadeiro pavor de “perder a cabeça”, seja literalmente, o que redundaria no fim da sua existência terrena, seja no sentido metafórico, de não se controlar e se deixar arrebatar até a prática de atos impensados. Isso talvez explique a vetusta tradição dos colarinhos duros e abotoados, das gravatas atadas ao pescoço, como forma de assegurar que a cabeça não se desprenda e saia voando por aí como um balão. Se bem que — como o próprio Freud explica — às vezes uma gravata é só uma gravata.
Como é livre o pensar, direito esse consagrado pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e pelas Constituições democráticas contemporâneas, fico cá a meditar com meus botões sobre a importância de, pelo menos de vez em quando, perder a cabeça. Por mulher, livro, música, pintura, comida, bebida ou mera vadiação.
Melhor ainda seria ter várias cabeças e poder trocá-las, como a um chapéu, conforme as vicissitudes da vida. Antes de sair de casa, iríamos até o armário ou cabide e escolheríamos a cabeça mais adequada para a ocasião ou ao nosso estado de espírito. Como nem sempre é necessário o uso do chapéu, poderíamos simplesmente sair sem cabeça alguma, o que, por ser corriqueiro, não causaria espanto aos circunstantes, nem assustaria as criancinhas, como a mula sem cabeça.
Seria também muito bom tomar emprestada a cabeça da mulher ou do marido, dos filhos, pais, irmãos, amigos, colegas de trabalho e até mesmo de alguns desafetos ou estranhos, e assim poder conhecê-los, pensando com a cabeça deles. Quem sabe ainda, a exemplo de roupas, vídeos e automóveis, alugar de vez em quando uma cabeça diferente.
Ultimamente, tenho praticado perder a cabeça, como o faço agora. E sempre que a retomo, sinto que ela e eu estamos bem melhores do que antes.
Talvez seja esse o próximo grande passo na evolução da espécie, desde aquele primeiro passo dado pelos nossos antepassados anfíbios que se puserem em pé e trocaram o pântano pela luz do sol.