Dia de poesia – Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo

Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo.
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.
(Imagem: banco de imagens Google)
Realidade (memória)

Hoje fiz um pacto com a felicidade: não pensarei mais nela,
e para todo o sempre, eu não mais a procurarei.
Quando estávamos juntas, a felicidade me dizia
que ficaria sempre a meu lado, cuidaria de mim,
seguiríamos os mesmos caminhos. E eu acreditei.
Mas a felicidade me enganou. Porque eu a amava.
Um dia, simplesmente, sem qualquer motivo
ou explicação, virou-me as costas e se foi.
Para nunca mais voltar.
Enquanto ela estava aqui, a ilusão, o amor,
a alegria, o prazer e a esperança não saíam
de minha vida, tudo era lindo, tudo era festa.
Mas a felicidade se foi e levou todos eles.
Fiquei sozinha e desnorteada, buscando um porquê.
O desespero logo chegou e trouxe consigo a tristeza.
Vieram também a solidão e a desesperança.
E tomaram conta de mim, como a felicidade nunca fizera antes.
E mostraram a realidade: a felicidade nunca me amou de verdade,
pouco se importava comigo e trocou-me por outra.
Mas eles estarão para sempre aqui comigo.
Basta que eu não procure mais a felicidade,
basta que nunca mais eu seja feliz,
e que eu viva apenas de saudade.
(Imagem: banco de imagens Google)
A vez de Lu Nascimento

Caio – a delicadeza nas ideias e palavras

Para pensar 90
