
Como se diz…

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Pelo dia em que se comemora a Revolução Constitucionalista de 1932, que mostrou a vocação para a liberdade do povo paulista, o poema-símbolo do movimento, do poeta e também combatente Guilherme de Almeida:
BANDEIRA DAS TREZE LISTAS
Bandeira da minha terra,
Bandeira das treze listas:
São treze lanças de guerra
Cercando o chão dos paulistas!
Prece alternada, responso
Entre a cor branca e a cor preta:
Velas de Martim Afonso,
Sotaina do Padre Anchieta!
Bandeira de Bandeirantes,
Branca e rôta de tal sorte,
Que entre os rasgões tremulantes,
Mostrou as sombras da morte.
Riscos negros sobre a prata:
São como o rastro sombrio,
Que na água deixara a chata
Das Monções subido o rio.
Página branca-pautada
Por Deus numa hora suprema,
Para que, um dia, uma espada
Sobre ela escrevesse um poema:
Poema do nosso orgulho
(Eu vibro quando me lembro)
Que vai de nove de julho
A vinte e oito de setembro!
Mapa da pátria guerreira
Traçado pela vitória:
Cada lista é uma trincheira;
Cada trincheira é uma glória!
Tiras retas, firmes: quando
O inimigo surge à frente,
São barras de aço guardando
Nossa terra e nossa gente.
São os dois rápidos brilhos
Do trem de ferro que passa:
Faixa negra dos seus trilhos
Faixa branca da fumaça.
Fuligem das oficinas;
Cal que a cidades empoa;
Fumo negro das usinas
Estirado na garoa!
Linhas que avançam; há nelas,
Correndo num mesmo fito,
O impulso das paralelas
Que procuram o infinito.
Desfile de operários;
É o cafezal alinhado;
São filas de voluntários;
São sulcos do nosso arado!
Bandeira que é o nosso espelho!
Bandeira que é a nossa pista!
Que traz, no topo vermelho,
O Coração do Paulista!

Por outro lado, também é a data de morte do poeta Vinicius de Moraes. Escritor, poeta, cronista, compositor, dramaturgo, diplomata, ele era tudo e mais um pouco! Hoje são 39 anos de sua morte.
São dele os sonetos mais românticos do século XX escrito em língua portuguesa.
Poemas, canções, Vinicius marcou minha geração, com encontros com universitários, com ideias cativantes, com seu jeito carismático de ser e de viver.
Sou profunda e eternamente apaixonada por sua obra. Leio, releio e volto a ler. Porque Vinicius, chamado Poetinha, foi e sempre será o nosso Grande e Maior Poetinha.
Uma pequena amostra:
SONETO DA SEPARAÇÃO
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Sempre estarei com as portas abertas,
Para que se vá daqui todo o amargor
Que restaram de uma vida de desamor
Deixando essas lágrimas incertas
Povoa a tristeza as almas desertas
Que vivem imersas na falta de amor
Não têm alegria – somente rancor
Estão sempre de cinzas cobertas
Quando estão assim abertas as portas
Aos poucos na alma aparece a vontade
Por entre caminhos de tantas retortas
Que deixam sair toda essa saudade
Que me povoavam como horas mortas
E deixam enfim entrar felicidade
(Imagem: foto do acervo pessoal da autora)

A Saudade encontrou a porta aberta e entrou. O Amor, destroçado pela separação, não notou a porta aberta nem a chegada da Saudade. Ela encontrou um canto livre, desfez sua bagagem e ali se instalou. Sem a menor intenção de partir um dia.
Então foi preciso conviver com o Amor machucado e a Saudade ocupando todos os espaços que estavam livres.
No começo a Esperança ainda tentou resistir, mas a cada dia a Saudade ocupava mais um espaço e a comprimia, deixando-a desgostosa, até que resolveu partir.
Com a partida da Esperança, a Felicidade reuniu suas coisas e também foi embora.
E deixou a porta aberta. Então a Tristeza, que estava em busca da Saudade, entrou e também ficou, ambas, muito unidas e companheiras que são, ficaram para sempre.
(Imagem: gerada por IA)

A escuridão cobre a luz, mas a luz transcende qualquer escuridão.
E o momento mais escuro da noite é aquele que precede o alvorecer.
Se para cada dia há o descanso de um anoitecer, ao final de cada noite vem a alegria de um amanhecer.
E é exatamente no momento em que fraquejamos e quase desistimos, encontramos em algum lugar secreto de nós, a força que nos faz tudo superar e seguir adiante. Chama-se esperança.
Sempre há um recomeçar em todas as situações que levam a um limite. E, se não consequências, são causas das transformações. Como a metamorfose da larva em crisálida e desta em borboleta. O fim de uma é o surgimento da outra. O mundo novo só pode começar quando desaparece por completo o anterior.
Se a crisálida se recusa a surgir e deseja continuar larva, nunca haverá a borboleta.
É preciso romper com o passado, com a situação atual, para que possa começar o futuro.
Agarrar-se ao que já foi, amarrar coisas, fatos e pessoas que já não fazem mais parte de nossa vida impede que se vá adiante. Um navio não navega depois de lançar a âncora. Fica preso em um ponto no meio da imensidão e perde sua essência, que é flutuar de um porto ao outro.
Não evoluir equivale negar nossa natureza humana, de seguir, fazer um caminho e chegar ao lugar que nos espera. Só o descobriremos se não desistirmos nem ficarmos amarrados no passado.
Entender que tudo passa, que precisamos romper com o passado e deixar o presente fluir para nos sentirmos vivos.
Diferenciar sensações e sentimentos. Valorizar apenas o que importa e não ter medo do desconhecido. Não olhar para trás. Ter a saudade como referência de onde viemos e para onde não devemos nunca voltar.
Libertar a alma para que voe livre e nos sinalize o caminho a ser trilhado, com a certeza de que, por mais escuros que sejam alguns momentos, encontraremos luz e alegria logo adiante. Nascemos para a luz, a alegria, o amor e a paixão. O restante é resultado da presença destes na nossa vida.
A luz – ainda que pequena, tem o poder infinito de romper qualquer escuridão. A alegria é o sal da vida. E, se o amor é pétala, a paixão é êxtase.
(Imagem: foto de Maria Alice)
