Poesia da casa – A morada do poeta

Poeta, onde é sua morada? 
Quero encontrá-lo, ver onde vive, do que é feito seu mundo. 
O poeta me recebe, mas não é bem uma casa onde ele mora.
Sua morada é o mundo, seu telhado é o céu
De dia ele avista as nuvens, à noite dialoga com as estrelas
Também não tem paredes, porque o poeta é livre
Seus limites são os limites do Universo
Não precisa portas nem janelas, não há cercas nem muros
O chão do poeta é o imenso oceano
Pisa nas espumas das ondas, repousa nas marolas
Os vizinhos do poeta são as matas, os rios,
A natureza tranquila e exuberante
Na casa do poeta se ouvem o mar, o vento e o silêncio
E os suspiros da paixão não correspondida
Se vêem os quadros das lágrimas dos que choram por amor
Pode-se tocar o concreto sofrimento dos abandonados
Tudo é etéreo, tudo é difuso
Porque o poeta medita, em profunda solidão, 
vive dentro de si para conseguir ver o mundo
Procurando a morada do poeta, não a vi
Ela não está sobre a terra, não está no horizonte
Descobri então que o poeta, na verdade
Mora na alma dos apaixonados
Vive a eterna dor da finitude da paixão
Em contraste com o amor infinito 
Sua alma abriga todas as penas humanas
E seus olhos enxergam o que ninguém vê
O poeta mora na brisa que sopra
No brilho de cada estrela da madrugada
Nos pingos da chuva mansa que nos acalma
Nos sons do pranto do desesperançado
Ah, poeta, agora que consegui vir à sua casa
Deixa-me, eu também, morar nesse universo...

(Imagem: banco de imagens Google)

Memória – O preço da verdade (há dois anos…)

Qual o preço da verdade? Por que nunca admitimos nossos erros e nos recusamos a assumir a responsabilidade e pagar esse preço?     

Por mais escura que seja a noite, haverá um amanhecer luminoso. E tudo será exposto, tudo será visto, a verdade conhecida e restabelecida.     

Não adianta tentar se esconder, como a lua por trás das nuvens, porque o vento a desnudará.     

Guardamos dentro de nós comportamentos infantis, como acreditar que se cobrirmos nossos olhos com as mãos, estaremos invisíveis. Mas, nunca estivemos nem estaremos.     

Há pessoas que mal enxergam o que está à frente dos próprios olhos. Há outras que nem precisam dos olhos para enxergar. Simplesmente sabem o que está acontecendo, captando no ar o que lhe tentam esconder.     

Fugir nunca foi solução. Porque sempre se pode fugir. Mas nunca haverá um lugar para permanecer escondido.

E disfarçar a culpa é ainda pior. Porque a cara da criança que quebrou o pote mostra claramente o que aconteceu. Ainda que se tenha tentado esconder os cacos.     

Diz-se – com muita propriedade – que se pode enganar alguns por muito tempo, e muitos por algum tempo. Mas não se pode enganar todos o tempo inteiro. É verdade.

E, se alguém é enganado, isso não aconteceu porque o outro é mais esperto. Mas porque o enganado acreditou, confiou ou amou demais.     

Enganar é apenas se aproveitar da confiança e da boa-fé do outro, e não significa ser mais esperto nem mais inteligente.     

Acredito que para ser considerado adulto, o primeiro passo é assumir os erros. Ainda que o preço da verdade seja alto e implique até mesmo em rompimentos sofridos.

Mas seria uma forma de se demonstrar um mínimo de dignidade.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Cândido Arouca – Busca permanente

Se te conhecesse toda,
se soubesse tudo de ti,
se não houvesse mais nada para desvendar,
se fosses previsível,
se fosses perfeita,
onde encontraria eu motivos para te continuar a amar?
É nas incertezas que o teu amor me incendeia,
me revolve,
(quase) me dissolve!
É nesta busca permanente que te desvendo.
É nesta necessidade constante de te conhecer mais todos os dias que me conquistas.
É na incerteza do teu Universo que me sacio e me reencontro!
É nesta expectativa que és inteira e completas o meu todo.
E é assim que te vou querer sempre!”

(Imagem: banco de imagens Google)

Entre almas – Rosita


Essa noite sonhei com você, um sonho incomum
Não de amor, nem sobre todas as paixões cegas, foi um sonho só.
Do limiar que nos entristece, como a dor de uma estúpida solidão
Não foi sobre flores desencontros ou qualquer desculpas.
Neste meu pensar, você não mora mais, não vive, perambula pelos cantos do meu coração
Contei nos dedos aqueles que em comum passaram pela minha vida
Em todos levaram um pouco do meu coração
Sob em cada pedaço um lembrança
Porque todo amor é amor
Das mais leves ondas, do mais alto das emoções.
É, eu tive um nobre sonho com você
Sob todas as coisas, poemas, versos em cada estrofe
Foram rumores, toda sorte que nos manteve
Tão bem como todo sentido nos fez
Mas não foi só por sonhar, como um acordo de almas, quão andava perdida por aí
A vagar, e nela sensações inevitáveis
Até bucólicas
No anoitecer em você meus pensamentos
Do mais durador que seja, do que fomos no amanhecer
Ali, não tivemos nenhuma garantia das inúmeras paixões inventadas
Fomos uma questão quase despercebidas
Um amontoado de dúvidas
Ah, como sonhar este sonho que um dia foste realidade
Tão sentida, frágil por deveras coração partido que ainda se lamenta
Foste perda, inquietações
Do amor, ao desastre final
Em contra partida, você aqui no meu sonho celestial
Que belo presente dos deuses gregos que eu fiz a merecer afinal
Sou pobre poetisa sem inspirações, sem nada mais a querer, pensar
Como tão estranho sonhar, deste significado amor que não era mais amor
O que fica, marca nas memórias, tende a ficar
Não foi Sobre todos os sentidos, palavras que nos deixamos o amor se calar
Todo silêncio foi falho, perturbador .
Entre versos seus ainda vivo, por mais voltas que o mundo dá
Sob fantasias, deslumbre na alma, ilusões desenfreadas o amor ainda continua lá.
Onde se encontra, se diz, desfaz, se repousa
Em todos os verbos, linhas
Onde o amor, que era para ser amor
Em meu sonho, sei que for preciso
Vou ter que acordar
De você tenho recordações
Nos quais, eu ainda sei que nos teus sonhos
Eu estarei sempre lá …

(Imagem: banco de imagens Google)

O pássaro e a laçada

Quando a moça o viu pela primeira vez, apaixonou-se. Era o pássaro mais lindo que já vira, de canto mais doce que já ouvira.

Deixou-se ficar, enlevada, à janela, olhando para ele como hipnotizada. Ele a notou. E cantou ainda mais bonito para fixar sua atenção. E pousou na janela, tão perto quanto uma ave chegaria de alguém.

Quando imaginou que ele viria até ela, ele, simplesmente, voou para longe e desapareceu.

Ela não mais o viu nem ouviu. Mas nunca o esqueceu. Tinha certeza que ele voltaria.

Então teceu um cordãozinho fino, com delicada laçada, onde o prenderia quando ele estivesse novamente ali.

O cordãozinho ficou guardado em uma caixinha de porcelana ao lado da janela. Muito tempo se passou.

Ela, já nem tão moça mais, um dia ouviu novamente o canto que a encantou. Chegou até a janela e o viu, na árvore mais próxima. Ele cantava em direção à janela.

Quando a viu, voou até o batente e mostrou toda a beleza de suas cores e de seu canto. E entrou na casa, ali ficou.

Ela guardou o cordão da laçada, acreditando que ele viera por vontade própria e ali ficaria para sempre, onde era tão amado.

Não o prendeu. Nem mesmo tentou prender. Deixou-o livre como nascera. Feliz por ele estar ali.

Até o dia em que ele voou. Desapareceu. Nunca mais ela viu o pássaro nem ouviu seu canto. Mas não o esqueceu.

Ela, ainda hoje, já senhora, é vista na janela, olhando para a árvore, segurando, nas mãos, um fino cordãozinho do amor com uma delicada laçada da paixão.

(Imagem: “A janela”, de Maria Alice)

Dias de vento, tempos de pipas

Hora sagrada – largar as tarefas e ir para a rua soltar pipa

Ventos de agosto. Pipas no céu sem nuvens.

Alegria da meninada. Quem empinava melhor a linda pipa?

Quanto mais alto vai a pipa, maior o risco de perdê-la.

Quanto mais alto vai a pipa, mais perfeito seu feitio…

Rabiolas ao vento. Balé de cores. Papéis, colas e varetas…

Olhos encantados se voltam para o infinito, ainda puros dos humanos sofrimentos

Saudade da infância, dos irmãos, dos amigos…

(Imagem: pintura de Cândido Portinari – “Meninos soltando pipas” – banco de imagens Google)