
Para pensar 66

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Penso no mar. Desde que saí da minha varanda de mirá-lo e ouvi-lo dia e noite, a solidão e a saudade são minhas infalíveis companheiras. Todas as vezes que olhei para o mar, mesmo morando “na praia”, apenas do outro lado da rua, o encanto se renovou a cada momento…
Fico a lembrar “os mares que já vi” – aqui no Brasil, sem dúvida, o mais lindo é em Alagoas, onde o mar tem uma cor inigualável. E quente. E manso.
Os mares do nordeste do Brasil são lindos e quentes.
O Brasil é feito de mar. Do gélido mar do Rio Grande do Sul, até o quase caribenho norte, são 7.490 quilômetros de mar, banhando 17 Estados brasileiros.
São tantos mares e tão lindos…
O Pacífico, gelado e majestoso, na costa chilena.
E viajar de navio, então. É a glória. Literalmente.
Dias e dias em pleno mar. Para onde se olha se vê mar. Céu e mar.
Dormir com o doce balanço do navio. Quando embarcada tenho a impressão de que minha avó me está ninando, todas as noites.
Gosto de mar e de barcos. Um bote. Um caiaque já me basta.
E vou confessar aqui: meu sonho dourado é viver embarcada, e todos os dias, ir. Porque o mar não pára e se estamos embarcados estamos, sempre, indo.
E o outro lado do mar? A emoção de Cabo das Rocas, “aqui, onde a terra acaba e começa o mar”, nas palavras de Camões…
Entrei no mar do lado de lá em Nazaré. Não aguentei a vontade e…fui! Gelado! Voltei para a calçada, calcei as botas e continuei meu passeio. Mas estive dentro do mar, do outro lado do Oceano Atlântico.
O mar nas Bahamas, no Atlântico Norte quente, límpido. O mar das Caraíbas ou Antilhas, o Golfo do México…
Na Cote d’Azur, na Costa Verde,
O Mar Mediterrâneo, que separa ou une Europa, Ásia e África, desde Costa Norte do Sinai em Al-Arish, banhando o Egito, Tunísia e Marrocos até a Europa Espanha, França, Mônaco, Itália – e atinge a Ásia (Israel, Síria e Líbano). Ainda em Israel temos os bíblicos Mar Morto (ou Mar de Sal), o Mar da Galileia (ou Lago Tiberíades) e o Mar Vermelho, no Golfo de Aqaba.
E o Mediterrâneo chega na Grécia e a separa da Turquia, com o nome de Mar Egeu e lá forma o Mar de Mármara…
E a costa sul da Europa, unindo Portugal – em Algarves – passando pela Espanha (“os mares de Espanha, desde a Costa Brava – Balear, Mar Menor, Cantábrico e Alborão), França (Costa Azul – Côte d’Azur ou Riviera Francesa), Mônaco e entrando na Itália – Costa Verde ou Riviera Italiana. Lugares inesquecíveis… são tantos os mares e, no fundo, o mar é um só. E a terra, de atrevida, o cobriu em algumas partes, e parece dividi-lo.
A Itália tem seus mares – o Adriático a leste e o Tirreno, a Oeste. Paisagens deslumbrantes de Cinque Terre até a Costa Amalfitana e o mais que deslumbrante Golfo Sorrentino… Nomes poéticos, que nos conduzem a Beatriz, a Julieta, e, no mundo real, a tantos personagens históricos – de Michelangelo, da Vinci, e Dante, ao exílio de Napoleão na linda Elba.
E o belíssimo Oceano Atlântico, visto de qualquer ponto da vulcânica Ilha da Madeira, com suas praias de calhau, que dão a certeza e a dimensão da imensidão do nosso mar…
Não posso mais viver no mar. Mas lá eu quero morrer.
E deixo aqui trecho de uma mensagem linda, anônima, que recebi há muito tempo:
Você sabe por que o mar é tão grande, tão poderoso? Porque teve a humildade de colocar-se abaixo da terra e dos rios. Porque se estivesse acima, não receberia todas as águas que correm e sim escoaria ele mesmo sobre as terras e se esvaziaria.
(Imagem: foto de Maria Alice)

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Ama-me quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso …

A interdependência entre as pessoas torna a convivência insuportável.
Por razões que datam das origens dos animais, os homens têm necessidade de viver em grupo e, dentro deste, de ter uma companhia exclusiva – o que não ocorre no mundo animal irracional com raríssimas exceções.
Além de formar um casal que se pretende indissolúvel o humano exige fidelidade (que não cumpre), talvez por receio de sustentar filhos alheios…
Pensante, o homem desenvolveu rituais para o acasalamento e inventou sentimentos.
Assim surgiram a atração, a paixão, e depois o amor e a amizade para manter a união ao longo dos anos.
Por isso o antigo flerte (acho que nem existe mais), o namoro (que não existe mais), o noivado (que não existe mais) e o casamento (que ainda existe mas invertido, com direito a test drive para ver se é aquele parceiro mesmo que se quer adquirir para o resto da vida, que vai durar somente algum tempo…).
De qualquer forma, toda a modernidade não conseguiu extinguir a atração nem a paixão.
Da atração vem a paixão, desde que o outro não seja doce de leite (tipo que no começo é sensacional, mas depois da terceira colherada ninguém aguenta mais).
Se os dois têm uma boa cabeça e melhores intenções, daí surge uma convivência harmoniosa, que acabará em casamento. Acabará mesmo, literalmente, na maioria das vezes, eis que vai durar até casar, depois será desfeito.
Porque o egoísmo do ser humano impede a manutenção de uma relação harmônica e leve.
Sem se saber de onde vêm, começam a surgir cobranças, exigências, palavras ásperas.
Cada um projeta no outro seus fracassos, suas expectativas frustradas, põe sobre os ombros do parceiro o peso da própria incompetência e nada consegue perdoar, tudo é motivo de briga.
Um olha para o outro e já não enxerga mais o objeto da atração inicial, foi-se a paixão e o amor não chegou a ser construído. E é o fim.
Perdido o respeito, nada há a salvar, impossível continuar juntos.
Antigamente as mulheres – sempre coitadas – não podiam simplesmente ir embora.
Sem opção de controlar o número de filhos, sem emprego nem acesso ao mercado de trabalho, sem ganho e sem renda, como fariam para deixar o marido e tentar a vida sozinhas, cheias de filhos?
Isso foi a mudança mais radical na estrutura familiar: a possibilidade de limitar o número de filhos, a condição de ter um emprego sério e ganhos suficientes para se sustentar e à família e, finalmente, o fim do preconceito contra a mulher separada do marido.
Mas aí fica a pergunta: a família começou tão sonhada para acabar assim, como um papel pisado?
Será que não é possível, na grande maioria dos casos, tentar continuar, não de forma bélica, mas buscar cada um dentro de si aquele namorado/a apaixonado/a, reacender a velha chama da atração, sentir que vale a pena ficar juntos, ainda que pisando em algumas pedras?
Porque sozinho ninguém vai ficar mesmo, e a segunda, a terceira e outras relações subsequentes fatalmente sofrerão o mesmo desgaste…
No fundo, o que falta mesmo é amor. Alicerçado na paixão e no companheirismo, no prazer de estar junto.
E o que sobra é egoísmo.
(Imagem: banco de imagens Google)
