A Lua (Memória)

Linda, soberana, instigante, surge a Lua em seu esplendor.

Há quantos milênios ela se apresenta no firmamento, e sempre tão bela, tão jovem, com tanto esplendor. Qual será seu segredo para nunca envelhecer, jamais aparentar cansaço, nunca perder o brilho?

Olho, maravilhada, para a Lua. Há quantas décadas ela me fascina, me atrai, praticamente me obriga a procurá-la no céu a cada anoitecer, a cada madrugada?

Nós, míseros seres humanos, imperfeitos, feiosos, desbrilhados… Tentamos ajudar a natureza com tratamentos, roupas, disfarces, mas não conseguimos enganar nem a nós mesmos.

Quando em nosso outono, o vento da vida vem e nos espalha como folhas secas que se desprendem dos galhos, temos a certeza da decadência física. Não importa o que fomos na juventude, envelhecemos monstros.

No entanto, ao final de cada entardecer, a Lua volta a seu ponto máximo. E brilha.

A cada noite mais brilha, orgulhosa de sua beleza eterna, rejuvenescida a cada anoitecer.

E, quando amanhece, um pouco pálida, ela se retira e desaparece, para surgir ainda mais exuberante no começo da nova noite.

A Lua está sempre sozinha. Linda, fascinante, a todos atrai, mas a ninguém pertence.

Solitária, quiçá celibatária, marcando presença e deixando saudade, parece que a Lua é feliz.

Queria ser uma lua.

(Imagem: foto de Maria Alice)

Poesia da casa – Anoitece (Memória)

Quando o dia se esvai, tudo é silêncio,
e a noite, suave, traz a lua e seu encanto 
na hora em que nada mais se espera,
penso em tudo enquanto penso em nada;
eu me recolho no vazio de minha alma,
para deixar fluir toda essa ternura
e sonhar que não há tristezas na vida
e ter a certeza de que estamos juntos.
Que vontade eu sinto de você,
que saudade eu sinto de nós dois;
venha me tocar do jeito que só você me tocou,
venha me falar as palavras que só você já falou,
venha, meu amor, ser meu ninho e serei seu aconchego,
venha me amar da forma que nunca ninguém me amou.

(Imagem: foto de Maria Alice)

Um coração novo

Era preciso muita delicadeza
Uma lixa muito fininha
Pelica nas mãos para segurar
E lixar, e polir, cada centímetro
Sem apertar, sem ferir
Mas sem deixar nada para trás
Conseguiu limpar inteiro
Tirou as marcas do tempo
As marcas das mãos brutas
Que um dia o tocaram
As cicatrizes de tantos sofrimentos
Os riscos deixados pelas traições
As manchas deixadas por quentes lágrimas
As depressões que as mágoas causaram
E, depois de tudo recuperado,
Com todo o cuidado
Abriu o fundo do peito
E recolocou no lugar
Um coração agora renovado

(Imagem: banco de imagens Google)

Busca inútil

Busquei você
No voo de cada pássaro que avistei
Na espuma de cada onda que chegou na areia
Nas pedras dos caminhos que trilhei
No brilho de cada estrela que surgiu no céu
Em cada curva das estradas que passei
Nas pegadas que avistava nas praias
No último gole de cada dose que tomei
Busquei você
Mas não encontrei
Você já não estava
Era o voo malogrado do pássaro morto
Era a onda que não chegou na praia
Era a pedra que rolou no abismo antes do meu passo
Era a noite escura em que as estrelas não brilharam
Era a estrada interditada
Era a praia que o vento revolvia
Era a dose que não bebi até o final
Você era a ilusão
O que não existia
Quem nunca chegou de verdade
A mentira bem engendrada
A pedra falsa no anel barato
A embalagem de presente preenchida de vento
Você era, na realidade, o nada...

(Imagem: banco de imagens Google)