Lembranças da Madeira

Às vezes, lembranças, do nada, voltam à nossa mente e despertam sensações, cheiros, paladar…
Vendo uma reportagem sobre a Madeira, voltou-me à mente um dia no Casa do Abrigo do Poiso.
Dia preguiçoso, que tudo o que tínhamos para fazer, era almoçar.
E nesse local, almoçar é um banquete, um espetáculo, algo para se passar a tarde toda.
Além do local pitoresco, os olhos que já estavam encantados com tantas belezas vistas na Ilha, a decoração singular, o capricho na louçaria, o vinho extraordinário, ainda fado ao vivo.
Tudo prometia uma refeição de algumas horas.
As entradas – pães, bolo do caco, vinagretes de carnes e de frutos do mar, o fenomenal polvo que ali se prepara, com o vinho adequado e na temperatura ideal, parecia impossível o prato principal ser superior.
Ainda que os pedidos mais comuns lá fosse Lapas Grelhadas ou Espetada Madeirense, pedi ao maître que me indicasse um prato de peixe típico. Ou único.
Ele disse que traria um prato do qual eu jamais de me esqueceria. Mas só me diria qual pescado era usado depois que eu o comesse. E assim foi.
Trouxe-me um peixe assado com bananas e outras guarnições.
A carne desse peixe era simplesmente uma explosão de sabor, de maciez, um verdadeiro “bouquet”. Um prato daqueles que se lamenta só se ter um estômago, porque a vontade era comer mais.
Servida a sobremesa, ouvidos tantos fados, bebidos tantos vinhos, ele – o maître – voltou à minha mesa e perguntou sobre o peixe. Éramos três casais. Apenas eu comera peixe. Mas todos “pegaram carona” e experimentaram a iguaria e estavam curiosos sobre qual peixe teria aquele sabor e aquela carne firme e tenra, tão bonita e agradável.
Ele me disse que poderia dizer o nome, desde que eu não visse o peixe. Porque era uma das criaturas mais feias e aterrorizantes do mar, vivia abaixo de 1.000 metros de profundidade e era pescada manualmente na Câmara de Lobos, onde apareciam durante a noite.
Diante da minha risada e da minha insistência, levou-me até o Chef, na cozinha. E ali fui apresentada ao peixe-espada preto da Madeira – eram vários, em uma caixa de pesca, as caras horríveis, os corpos retorcidos,
Estava diante das criaturas da mais deliciosas e horrendas que já tinha visto…

Hoje, vendo umas imagens da Madeira, senti o clima do Abrigo do Poiso e o gosto daquela comida dos deuses.
Interessante, como uma lembrança traz de volta – e vivos – os sentidos…
(Imagem: banco de imagens Google)
Para pensar 85

Descanso em tela cheia
Para falar de saudade

Ah, saudade…
Tanta saudade, tanta ausência, tanta falta…
Às vezes penso que sou feita só de saudade, por isso a distância existe – para que eu também possa existir…
Não há Drummond, Vinicius ou Neruda que consiga cantar a saudade que sinto. Essa saudade é tão minha, tão carne, tão sangue, que outros não a pressentem nem sentem. Só eu posso tê-la, senti-la, descrevê-la. É o que mais tenho de meu nessa vida: essa saudade, companheira inseparável, péssima conselheira, grande estimuladora de bobagens, bebedeiras, e lágrimas.
Porque sentir saudade é viver do que não há; é tentar forçar a realidade dentro da névoa do esquecimento; é tentar esquecer dentro do whisky; é chorar, chorar e chorar…
A vida, muitas vezes, é leve, mas a saudade que arrasto tem um peso imensurável.
A presença é pouca, é pequena. Mas a ausência, ah, essa é ilimitada. E a saudade que a ausência traz é de tamanho indescritível.
E por isso o sorriso se torna raro. A alegria se esgarça.
Caminho, levando comigo o fardo e a doçura dessa imensa saudade. Que se tornou, depois de tanto viver a meu lado, a única e fiel companhia que tenho.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Eugénio de Andrade
