
Para pensar 55

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

Um dia, eles concluíram que a única saída seria imigrar. Então eles vieram. Deixaram sua linda Pátria e vieram “fazer a América”. Trouxeram sua intensa religiosidade, seu forte senso de família, seus rígidos valores morais e sua dedicação ao trabalho, seja pesado, no cultivo da terra, seja sua habilidade artesanal. Trouxeram ainda toda sua alegria, instrumentos, músicas, rica culinária, vinho, grappa, os hábitos do café e do cigarro… plantaram na alma de cada um de nós, seus descendentes, uma paixão sem fim pela Itália. Hoje, no dia em que comemoramos sua coragem, publico um conto de minha autoria, que nos leva ao tempo dessa corrente humana rumo ao Brasil.

O SOM DO ADEUS
Há muitos anos não chovia tanto no outono. E o único jeito de chegar ao porto de Genova, era caminhando. Na chuva ou no sol. Era preciso caminhar. Quando a chuva apertava, a lama dificultava até tirar os pés do chão, eles se abrigavam em qualquer tapera ou loca, especialmente para que as trouxas não se encharcassem. E era tudo o que tinham. Porque venderam os outros bens – galinhas, xícaras, bules e enxadas. Tudo. O pouco que ficou era posto em trouxas de grosso tecido. E então seguiam até o porto. A pé. Genova era longe. Dias de distância. Noites dormidas nas beiras de caminhos, onde faziam uma roda em torno de si mesmos, crianças, moças e idosos no meio.
Antonella seguia firme, o coração apertado. Os pais ficaram na casinha de pedra esperando a morte. Os irmãos partiram antes, primeiro Giovanni, o mais velho. Que logo chamou os outros três mais novos, até Carlo, que sempre foi seu companheiro de vida. E com eles seguiu Luigi. Seu prometido. Ou seria ela a prometida?
E assim, andando dia após dia, o grupo chegou a seu destino.
Imponente, o vapor Matteo Bruzzo dominava a paisagem no porto de Genova.
Para Antonella e quase todos do grupo, era a primeira visão do mar.
Ela começou a chorar. E se prometeu que todas as vezes em que visse o mar, enxergaria seu lindo Rio Pó, que deixara para trás, para sempre.
Do bolso do casaco tirou, amassadas, as cartas do irmão Carlo e do amado Luigi. E, o bem mais precioso que possuía, a foto dos dois juntos, rindo, com a dedicatória que a esperavam na América, no Brasil, em São Paulo.

Entraram no navio. Era simplesmente horrível a parte destinada aos mais de mil imigrantes pobres, lugar insalubre, mau cheiroso, onde ficaria nos próximos dias e noites. Antonella sentiu que começaria a chorar de novo, tinha apenas quinze anos, era a filha caçula do grupo de cinco irmãos e nunca mais veria os pais. Estava sozinha com um grupo de estranhos – vizinhos e conhecidos que também imigravam para tentar nova vida, longe da miséria e da guerra. Era muito triste fazer essa escolha. Mas seus pais não cabiam no seu futuro. Não tinham saúde para atravessar o Atlântico. Agora ela via que realmente não havia condição para sua mãe ficar naquele lugar, estava muito doente, não tinha muito tempo de vida. Ao menos morreria em casa, ao lado do marido e no seio da família, com as irmãs e primas cuidando dela. Sem os filhos. Mas sempre fora ela, a mãe, quem mais incentivara que partissem para buscar nova vida no Brasil.
Foi até o convés, e, aos poucos, a costa da amada Itália se desfazia no horizonte, quando, pela primeira, ouviu o verdadeiro som do adeus: o apito do navio que partia.

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Premio Eccellenza Letteraria, Milano, 2018 (Publicado na Coletânea Incontro Letterario a Milano – Oficina do Livro, São Paulo, 2018)
(Imagens: banco de imagens Google)

Vendo um amor,
mas não é um amor novo;
é um amor de segunda mão:
esse amor foi devolvido,
esse amor já foi usado,
mas está em ótimo estado.
É um amor cuidadoso,
um amor sem vícios e
sem defeitos:
é um amor que ainda ama...
(Imagem: foto de Maria Alice)
Mãe, há um ano a senhora partiu. Palavras não bastam para descrever nosso sentimento. Trago um poema que minha amiga, a poeta Fernanda Junqueira, escreveu para a mãe dela…

Sagrada saudade atravessando
os limiares da vida e da morte
por esse caminho feito à mão,
crochetado sobre a mesa.
Cada arco do crochê
é um entrelaçado de nossas mãos.
Centenas de trancinhas atadas
a um desejo maternal de congregação
Delicado caminho de tua passagem
Louças antigas regressam-te
da eternidade
memorável nas delícias de tuas receitas.
É grande a fome de reencontrar-te
crochetando a ponte da comunhão
que, por ora,
une nossas extremidades,
transcende a finitude
do novelo da vida.

Tentou não se olhar no espelho.
Quando entrou na avenida, a maquiagem reluzia, o traje brilhava, seus olhos estavam iluminados e seu sorriso irradiava felicidade. Apenas representava seu papel. Eram cinco anos em que desfilava na mesma escola de samba, como destaque de uma ala.
Agora, em casa, não enxergava a passista habilidosa e sensual. A mulher que todos admiravam na avenida. Era apenas ela mesma, de volta a seu buraco de viver.
……………………………
Todos os dias se levanta enquanto ainda não amanheceu. Tem a casa para cuidar, roupas para lavar/passar, deixar comida pronta para os filhos almoçarem.
Ainda escuro chega no ponto. Espera duas, três, até quatro conduções passarem para conseguir entrar e seguir até o ponto onde pega outro ônibus. Às 6h45 está entrando no emprego.
A patroa sai cedo e ela precisa chegar antes que as crianças acordem. E segue o dia entre mil afazeres. A sorte é que ela ama as crianças da patroa como se fossem seus filhos. Mas sai a cada dia, ou melhor, a cada noite, mais cansada. E a volta para casa é outra maratona.
Aí vem o carnaval.
E ela se transforma. A vida é sonho, beleza, luzes e aplausos.
Três meses de trabalho dedicado, bordando todas as noites e nos finais de semana.
A roupa tem de ser perfeita. Vestir a fantasia transforma sua triste vida em sonho.
Gosta quando a escola tem a pontuação alta, porque aí são dois desfiles. E, por duas noites, deixa para trás a tristeza, a pobreza, as privações e o cansaço.
E dança. Dança com os pés, dança com a alma. Seus olhos brilham mais que as pedrarias do vestido.
Mas agora, ao chegar em casa, a escola desclassificada, seu rosto encovado pelo cansaço, os pés queimando do tempo que permaneceu dançando… não sabe se chegou a hora de parar…
Vai limpando o rosto, tirando a maquiagem, já sem o arranjo da cabeça. Seus cabelos maltratados aparecem no espelho. Os olhos fundos, sem brilho…
Ao tirar o vestido algumas pedrinhas caem e rolam pelo chão. A fantasia vai se desfazendo aos poucos.
E ela enxerga a realidade por trás do carnaval. Nos oitenta minutos de avenida, ela brilha, ela encanta, torna-se rainha de seu reino. E conclui que oitenta minutos em um ano é pouco, é muito pouco. Quase nada.
Entende que a vida é como o ano – o carnaval – tão breve – é a juventude. Cheio de música, alegria, muitas pessoas, encanto e fascínio, e ainda os sentimentos de poder e imortalidade. Depois, passada a quarta-feira de cinzas, só resta o trabalho enfadonho e cansativo. A vida sem lustro e sem glamour. Que se arrasta até o final. Porque o que passou não volta.
Os amores perdidos, os amigos que se foram, as amizades desfeitas, tanto que ficou pela estrada do passado… nada mais voltará.
Vai arrancando as últimas pedras brilhantes do traje. Junta todas, e não as guarda para bordar a fantasia do ano próximo ano. Porque entende que, para si, acabou: não haverá mais alegria de carnaval. Joga-as no lixo, e, chorando, vai tomar um banho antes de – finalmente – poder dormir um pouco.
(Imagem criada por IA)