
Para pensar 84

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


A gente não sabe quando, nem onde, mas sabe: um dia acontece. Um dia, a vida coloca na tua frente alguém que não parece novidade. Parece reconhecimento. Você conversa e existe uma familiaridade estranha em alguém que acabou de conhecer. O assunto não precisa ser puxado, o silêncio não vira constrangimento e você não sente necessidade de calcular o que dizer para continuar interessante. É como se alguma parte sua já soubesse descansar ali. Não é paixão fabricada pela pressa de viver alguma coisa. É perceber quantas coisas ficam simples perto daquela pessoa. Você não precisa diminuir seu jeito, esconder o que sente ou interpretar cada mensagem para descobrir qual lugar ocupa. Existe desejo, mas também tranquilidade. Existe saudade, mas não insegurança. E o mais bonito é que essa pessoa não chega para completar uma vida pela metade. Ela encontra você vivendo a sua e faz nascer vontade de dividi-la. Um café que você tomaria sozinho ganha outra cadeira. Uma viagem que já estava nos planos começa a admitir dois bilhetes. Uma terça-feira qualquer termina com você querendo contar como foi o dia. Um dia, você conhece alguém e entende por que tantas outras conexões precisavam de esforço para parecer profundas. Com essa, você não encontra a metade que faltava. Encontra alguém diante de quem pode continuar inteiro e, ainda assim, querer construir um nós.

Nessa hora morta entre o final da tarde e o anoitecer, o dia já se foi, mas a noite ainda não chegou. Hora de saudade doer, de ansiedade surgir, de fazer um balanço do dia – e sempre o resultado é negativo.
Dizem: “anoiteceu, acabou o dia, o tempo passa rápido…”. Não, isso não é verdade.
Nós passamos e o tempo fica, ainda que os homens acreditem que o tempo é que passa. Não, o tempo fica.
Todos os dias amanhece, entardece e anoitece. Igualmente.
Não há dia nem noite envelhecidos, nem de cabelos brancos, nem alquebrados.
Podem ser chuvosos ou luminosos. Nublados ou ensolarados. Mas com vida. Sempre. O tempo não se cansa. Não se desgasta. Apenas existe.
Enquanto a humanidade envelhece, apodrece, se torna incômoda.
Os homens passam, as gerações se findam, ninguém mais se lembra de quem estava aqui há cinquenta anos atrás.
Mas todos sabem como foi o dia de hoje há cem anos atrás: amanheceu, entardeceu e anoiteceu. Com ou sem sol. Com ou sem lua. Mas estava aí, exatamente como o dia de hoje.
O tempo não é cruel. Cruel é a vida, que nos açoita continuamente. Cruéis são os sonhos, que nos iludem e nos decepcionam porque não se realizam.
Cruel é apaixonar-se e ficar sofrendo em solidão aguda.
Cruel é a fragilidade do corpo humano.
O tempo, ah, o tempo é indiferente às misérias dos homens. Apenas se limita a assistir a batalha diária dessas criaturas insignificantes diante da majestosidade da eternidade.
(Imagem: foto de Maria Alice)

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado montado num cavalo branco
Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado de carroça ou a pé
Já nem precisa ser encantado, nem mesmo príncipe… apenas encantador
Mas se não puder ser encantador, que seja apenas atencioso
O tempo passou e levou todos os sonhos da juventude
E a vida não deu outro tempo para construir novos sonhos
E o tempo não parou para que alguém notasse a falta deles
E a vida seguiu sem sonhos, só na dura realidade que não deixa pensar
O tempo da diversão deu lugar ao tempo da responsabilidade
A leveza da juventude cedeu sua vez à intensidade da maturidade
E a vida se tornou um parque de responsabilidade, de deveres sem direitos
Um dia ao longe a vida mostra um lindo príncipe em um belo cavalo branco
Impossível alcançá-lo ou ser notada por ele no borralho da realidade
Então vem à mente a vontade já indisfarçável de fugir. Não com o príncipe
Mas montar seu próprio cavalo e, finalmente com as rédeas nas próprias mãos,
Simplesmente ir…
(Agosto, 2019)
(Imagem: banco de imagens Google)


A outra face da moeda do encontro – as mãos que um dia se encontraram e agora se separam.
A roda da vida que não para. E o que esteve junto já não mais permanece unido.
Tudo o que era já não é.
E suavemente as mãos se separam. Sem ódio nem rancor. Com o mesmo carinho com que se uniram e a mesma ternura que as ligaram.
Apenas agora cada uma seguirá sozinha e levará consigo o perfume da lembrança da outra.
((magem: banco de imagens Google)