
Para pensar 67

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

Um fim de mar colore os horizontes. (Manuel de Barros).

Mais um ano se passou desde o triste dia de sua partida. E, desde esse dia, órfã e insegura, vago pela vida, percebendo que tudo tomou outra dimensão com sua ausência.
Assumimos seus compromissos, cuidamos de quem o senhor cuidava, completamos o que ficou por terminar. Mas vendo tudo com outros olhos, agora olhos da orfandade. E com outras cores, agora mais desbotadas.
E as horas, dias, semanas, meses e anos se vão. Mas essa sensação de insegurança, essa saudade, essa falta aguda, doída, permanecem.
O senhor gostava do mar. Muito.
Em outros tempos, de pescar no mar. Mais recentemente, de entrar no mar, de caminhar na linha d’água, de se sentar aqui na varanda e simplesmente contemplar essa imensidão na nossa frente.
E de contar os navios.
E ouvir o canto do mar na madrugada.
Como sempre dizia, “a madrugada foi feita para se pensar, não para se dormir”.
Herdei isso – o hábito de perder o sono na madrugada apenas para pensar na vida. E ainda outros hábitos, e coragem, e caráter e firmeza.
Mas não sou sua igual. Sou pequena. Sou frágil. E sozinha.
O senhor era minha fortaleza.
E não consigo mais ver o mar com os mesmos olhos – agora eu o vejo sem o senhor a meu lado.
Sigo, agora, esse caminho solitário, com o pensamento sempre nos tempos de união, companheirismo e felicidade que desfrutamos.
Mas só eu sei a falta que o senhor me faz…
(Imagem: do acervo pessoal da autora)

Um dia nosso pai morre.
E ficamos órfãos.
Ele precisa partir, cumpriu sua missão. Mas nunca estamos preparados para cumprir a nossa…
Se, por um lado, nos alegra ver que a vida segue seu curso natural e recebemos a graça de cumprir nossa missão de filhos, que é enterrar nosso pai, por outro lado nos sentimos abandonados no escuro.
Não temos mais pai.
Quanto mais velhos estamos, mais sofremos com a morte de nosso pai.
Como ficaremos daqui em diante nessa vida tão insegura, tão atribulada?
Qual direção tomaremos nas próximas encruzilhadas, se ele não está mais aqui para nos guiar com firmeza?
Como atravessaremos os pântanos, as pinguelas, as noites insones e as tristezas, se ele não está mais aqui para nos dar tranquilidade e o rumo com segurança?
Através dos anos vimos evoluir nossa relação com nosso pai. De seu colo, passamos a ocupar um lugar a seu lado. Sempre sentindo suas mãos firme a nos amparar. Se era nosso motorista, tornou-se nosso passageiro. De autoridade suprema, um amigo na vida.
Nosso limite, nosso código de honra, nosso parceiro nos jogos, nossa aprovação ao superar os medos, nossa risada garantida para nossas piadas sem graça…
E então nosso amigo, nosso companheiro no whisky, nosso conselheiro financeiro, político, emocional…
Na verdade, ao longo do tempo, viciamos em ter um pai a nosso lado ou a nossa espera. Mas sempre presente. Sempre ali. Firme. Incansável em sua missão de pai. Com um estoque inesgotável de broncas e conselhos. E uma fonte ilimitada de amor e carinho.
Não percebemos que nossa realidade mudou, que nossos problemas são outros, que já deveríamos – nós mesmos – assumir o posto e passar a ser assim para nossos filhos.
Continuamos na facilidade de correr para os braços seguros de nosso pai quando precisamos enfrentar os contratempos que a vida nos traz.
Ali sempre tem um conselho, uma ajuda (pequena, grande ou impagável) financeira, um abraço carinhoso, um sorriso acolhedor…
Até o dia em que nosso pai morre.
E ficamos órfãos…
No começo muitos nem entendem direito o que aconteceu. Habituados a presenciar a morte do pai dos outros, e depois ver a própria vida seguir seu curso, não temos o alcance do abismo emocional que é enterrar o próprio pai.
E, de repente, nos deparamos com uma situação difícil. Primeiro impulso: vou falar com meu pai…
E a ficha cai: Não tenho mais pai. Sou órfão.
E, num de repente qualquer da vida, começa a tocar “Naquela mesa”. Ou outra música que, mesmo não fazendo alusão à figura de pai, era a preferida dele. Não importa se estamos num show, num bar, sozinhos no carro e no meio de uma festa. É incontrolável. Choramos com a alma dolorida da orfandade.
E encontramos um objeto que para ele era especial. E as lágrimas descem.
Ou nos deparamos com uma pessoa a quem ele era afeiçoado. O abraço vem com soluços.
E assim, a cada dia, mais a mais, a falta que sentimos dele só aumenta. Não é o luto que dura menos de um ano. É um vazio que nada preenche e fica em nós para o resto da vida. Uma falta que nada repõe. Queremos nosso pai de volta, queremos ter para quem contar nossas conquistas e chorar nossos fracassos.
E aquela dorzinha sobe, cresce geometricamente, e a vida fica mais difícil, os obstáculos se sucedem, e não conseguimos continuar caminhando suavemente, vendo o caminho à nossa frente… pisamos em falso, tropeçamos, deixamos algo sem pagar, faltamos a um compromisso, e mergulhamos num luto que não terá fim.
Porque tudo mudou drasticamente quando nosso pai morreu.
E ficamos órfãos…
Abençoados os pais. Todos eles. Que todos os pais deixem órfãos seus filhos, mas nunca tenham de enterrar um filho…
Amaldiçoados os filhos que abandonam seus pais quando velhos ou doentes, nesses momentos em que mais precisam dos filhos, quando dependentes, vulneráveis.
Abençoados os filhos que ficam ao lado dos pais, com carinho e paciência e os enterram no meio de dor e já sentindo saudade antecipada.
(Imagem: banco de imagens Google)

Esperança – sustento dos sonhos, alimento da alma.
Muitas vezes é o único fio que ainda nos prende à vida.
Feita da mesma matéria da espuma do mar e das nuvens, é o mais tenaz dos sentimentos. Resiste. Sua missão, tão difícil, é assoprar continuamente as brasas da existência que ainda restam sob as cinzas das desilusões.
A cargo da esperança está nossa vontade de viver, de lutar, de seguir adiante. Ou já teríamos desistido de tudo.
Um único ponto de luz no nosso futuro é exatamente uma estrelinha brilhante que a esperança ali colocou. Para nos manter vivos.
E vamos em busca de alcançar essa estrelinha, que se afasta sempre que nos aproximamos. Mas a esperança, atenta, não nos deixa esmorecer.
E continuamos.
Mas, às vezes, a esperança se distrai, e desabamos.
Porque viver só de esperança é desanimador.
E isso faz lembrar uma velha trova “espero… pobre esperança / que já me resta tão pouca; / esperança também cansa / e às vezes amarga a boca”.
(Imagem: óleo sobre tela, Miguel Ângelo Barbosa)
