
Para pensar 69

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

“Pássaro da liberdade, voa alto, voa longe…”

Pousou na mansidão que envolve o amanhecer
Sem tristeza nem alegria, no silêncio simples da manhã
Trouxe em si o doce perfume que evoca lembranças
e mostrou que para tudo há um novo recomeço
O amor, vestido de paixão, bateu à porta
e em ondas desordenadas passou a ocupar o espaço
Como um vento confundiu todas as coisas e
numa lufada espantou tudo o que era triste, tudo
o que não era mais, tudo o que deixara de ser
Como se fosse uma estrela, ou um satélite
seguia, encantada a teu redor: esperava, adivinhava até,
a tua chegada – planeta maior, com vida própria, em
constante movimento, arrastando tudo pelo caminho.
Sabendo ser passageiro, não me preocupei em te prender
Apenas dei o espaço necessário para um descanso
no aconchego gostoso de um encontro quase impossível
Quando então a natureza amiga se aquietou e permitiu
a imobilidade do momento eterno que se fez
entre teu chegar e teu partir
(Imagem: banco de imagens Google)

Amar, nunca me coube
Mas sempre transbordou
O rio de lembranças
Que um dia me afogou
E nesta correnteza
Fiquei a navegar
Embora, com certeza,
Não possa me salvar
Amar nunca me trouxe
Completo esquecimento
Mas antes me somou
Ao antigo tormento
E assim, cada vez mais,
Me prendo neste nó
E cada grito meu
Parece ser maior
(Imagem: banco de imagens Google)

Ah, esse estranho amor que não se mostra
Não se assume, não demonstra
Na paixão explícita ele se esconde
Quer ser vivido sem compartilhar
Recebe com alegria, mas não se dá
Que não busca e não se aceita
Faz chorar, mas não suporta o pranto
Amor estranho como sol entre nuvens
Quando surge brilha forte e muito aquece
Depois se esquiva e simplesmente desaparece
Tão estranho esse amor, como a chuva na praia
Como estrelas na tarde ensolarada
Tal qual um pôr-do-sol que não precede a noite
Um triste rio de água parada
Um pássaro com asas temendo voar
Ou um barco sem leme que não pode atracar
Esse arco-íris interminável de contradições
Esse quero-não-quero do medo de querer
Do medo de se entregar, esse amor assim inseguro
Um amor estranho de tanto medo que tem de amar
(foto: Flaverson Sbardelatti)

Interessante como quase todas as pontas – ou opostos – chegam a um ponto no qual se entrelaçam. Talvez as paralelas realmente se encontrem no infinito.
No nosso olhar, céu e mar se encontram em um ponto distante, que podemos avistar.
Na nossa percepção, somente quando a noite se torna irremediavelmente escura é que o novo dia raiará e haverá claridade.
Na nossa vida, no momento em que uma relação se torna absolutamente insuportável, uma prisão sem esperança, que se consegue por um basta, um ponto final e recuperar a licerdade.
Tudo é levado a extremo para então se tornar aquilo que almejamos.
Estranha forma de conquistarmos o que se pretende, sempre através de se alcançar um limite intransponível.
Só a felicidade, essa acaba de repente, sem anúncio, sem previsão e enquanto esperamos que dure ainda muito tempo.
E a tristeza e a saudade, que não têm qualquer ponto final, se renovam infinitamente, e é humanamente impossível encontrar seu fim.
(Imagem: foto de Maria Alice)
