Para falar de saudade

Ah, saudade…
Tanta saudade, tanta ausência, tanta falta…
Às vezes penso que sou feita só de saudade, por isso a distância existe – para que eu também possa existir…
Não há Drummond, Vinicius ou Neruda que consiga cantar a saudade que sinto. Essa saudade é tão minha, tão carne, tão sangue, que outros não a pressentem nem sentem. Só eu posso tê-la, senti-la, descrevê-la. É o que mais tenho de meu nessa vida: essa saudade, companheira inseparável, péssima conselheira, grande estimuladora de bobagens, bebedeiras, e lágrimas.
Porque sentir saudade é viver do que não há; é tentar forçar a realidade dentro da névoa do esquecimento; é tentar esquecer dentro do whisky; é chorar, chorar e chorar…
A vida, muitas vezes, é leve, mas a saudade que arrasto tem um peso imensurável.
A presença é pouca, é pequena. Mas a ausência, ah, essa é ilimitada. E a saudade que a ausência traz é de tamanho indescritível.
E por isso o sorriso se torna raro. A alegria se esgarça.
Caminho, levando comigo o fardo e a doçura dessa imensa saudade. Que se tornou, depois de tanto viver a meu lado, a única e fiel companhia que tenho.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Eugénio de Andrade

Aos que passaram (memória)

Por vezes me surpreendo a pensar em quantas pessoas já passaram pela minha vida, deixando alguma marca.
Sei que muitas outras passaram, mas não lembro sequer a feição. Quem se lembra de todos os colegas de todos os anos de escola? Ou do cobrador do ônibus que pegava diariamente para ir ao colégio? Ou dos funcionários da faculdade? E assim tantas pessoas que não nos marcaram.
Em compensação, algumas passaram e nos deixaram tantas marcas, tantas lembranças, que é impossível não sentir saudade. Uma saudade gostosa, de um tempo que passou e sabemos que não voltará, mas que valeu a pena ter vivido.
Tudo era tão simples, dois ou três amigos de cada irmão chegavam no final da tarde, todos se uniam e se dividiam ao redor da mesa de pingue-pongue, e a festa era quase diária, regada a muita limonada feita em casa.
Um lanche reforçado quando a noite chegava, e a roda de bate-papo. Resolvíamos todos os problemas do mundo. Aí um pegava um violão, e não tinha mais fim. Em algum canto dois jogavam xadrez, compenetrados, em outra dimensão.
Pergunto-me, hoje: onde estão esses amigos do tempo passado? Que fizeram da vida? que fazem hoje? Será que todos conseguiram seu lugar ao sol? são felizes? Quantos já morreram, antes de viverem plenamente?
A vida é um contínuo ir, nunca se volta, apenas se vai, nunca se para, a não ser na morte. Há até algumas pausas – doenças, cirurgias – quando temos a impressão de que o tempo parou. Mas só parou para nós, lá fora tudo continuou.
A maior vantagem de ter uma família grande e unida é esse não-se-perder-de-vista jamais. Irmão é bicho que gruda. Não é preciso se encontrar todo dia, mas há um canal de notícias em família que mantém as informações atualizadas diariamente, como se ainda vivêssemos na mesma casa.
Não importam os quilômetros que nos separam, porque para quem ama não existe distância. E os sobrinhos, suas descobertas, seus caminhos, tão interessantes, tão surpreendentes, a se revelarem a cada dia…
Também os primos – espécie de irmãos – cuja amizade deve ser cultivada com muito carinho, sempre mantendo o contato.
Mesmo os que foram morar longe – alguns muito longe mesmo, muito, muito longe – sempre dão um jeito para um encontro. As festas reúnem todos, e parece que festa sem primos não é festa.
Esses, ainda que distantes, nunca se separaram da família, é possível manter um contato, acompanhar a vida de cada um, o crescimento dos filhos…
E os amigos que chamamos agregados – aqueles tão queridos que parecem pertencer à família – mandam notícias constantes, tudo tão facilitado pelo instantâneo dos encontros no ciberespaço e que também sempre estão nas festas, trazendo os filhos e, quiçá, logo alguns trarão netos.
Essas pessoas com quem foi possível manter contato tornam a vida mais leve, mais animada.
Então volto a pensar: e todos aqueles dos quais já me esqueci? Será que também já me esqueceram?
(Imagem: banco de imagens Google)
Dois lobos – desconheço a autoria

Do céu

Quando o cansaço da vida a venceu
Não conseguiu continuar.
Deitou-se e pediu ao céu
Que tivesse misericórdia.
O céu, gentilmente, a cobriu
Com uma chuva de pétalas
Devolvendo com tanto carinho
As tantas flores que oferecera em vida
E então sentiu o frescor
Das gotas que o céu lhe enviava
Devolvendo com todo cuidado
As tantas lágrimas que derramara em vida
Não mais suportando toda a dor
Fechou os olhos, e, docemente, partiu
(Imagem: banco de imagens Google)