Anoitece

Quando o dia se esvai, tudo é silêncio,
e a noite, suave, traz a lua e seu encanto
na hora em que nada mais se espera,
penso em tudo enquanto penso em nada;
eu me recolho no vazio de minha alma,
para deixar fluir toda essa ternura
e sonhar que não há tristezas na vida
e ter a certeza de que estamos juntos.
Que vontade eu sinto de você,
que saudade eu sinto de nós dois;
venha me tocar do jeito que só você me tocou,
venha me falar as palavras que só você já falou,
venha, meu amor, ser meu ninho e serei seu aconchego,
venha me amar da forma que nunca ninguém me amou.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Para poucos

Aparece um arco-íris. Lá longe.
Desenhando a curva do céu.
Dança a autora boreal. Lá longe.
Alegrando outro céu.
Cai uma estrela. Lá longe.
Do outro lado do céu.
A lua surge, dourada. Lá longe.
Bem no alto do céu.
A noite encobre os amantes. Lá longe.
Onde eles têm seu próprio céu.
Há um céu. Para poucos.
Para todos, só o inferno.
(Imagem: banco de imagens Google)
Por hoje, basta

No espelho, o tempo (memória)

Quando não mais reconheceu os olhos da mulher que do espelho a olhava, entendeu que o tempo passara, a juventude se fora.
Viu os cabelos embranquecidos moldando um rosto no qual o tempo – essa fábrica de monstros – desenhara riscos, as lágrimas e angústias colocaram sulcos, com seus contornos perdidos ao longo do caminho por onde viera, mas que não poderia recuperar.
Viu as sombras em seus olhos deixadas pelo pranto, pelo desespero, pelas dores que colhera ao longo da vida, mesmo sem ter plantado.
Tentou ver alguma coisa de outros tempos, um viço da juventude, um sopro dos sonhos realizados, mas o rosto duro e tristonho nada lhe mostrou.
Queria enxergar no espelho o passado que se fora, o rosto perfeito que tivera um dia, a beleza que o tempo lhe roubara. Mas não conseguiu ver.
Apenas viu a máscara que ainda é usada para flutuar no mundo que não mais lhe pertence, para se fazer aceita entre os viventes.
E notou, resignada, que já não mais estava viva. Apenas ainda estava deste lado do espelho esperando a mão da morte alcançá-la.
E pensou na ventura de se morrer jovem, antes que o tempo mostre sua força implacável.
E pensou na ventura de se viver muito, deixando que o tempo lhe mostrasse a continuidade da vida nesta terra.
Envergonhada e silenciosamente fez uma prece agradecendo a velhice que evitara a partida precoce…
(Imagem: banco de imagens Google)
Espaço reservado – Vaine Darde
