
Da solidão

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Tempo. O que é Tempo? Ou o tempo? Acredito que apenas Tempo, substantivo masculino, singular e eterno.
Tempo dispensa artigo definido. E dispensa também qualquer numeral bem como pronome demonstrativo. Não há O tempo. Nem Um tempo, ou Esse tempo. Apenas Tempo.
Seria Tempo um círculo? Continente de tudo mais que existe? Porque o círculo – forma mais perfeita conhecida – termina exatamente no ponto em que começa e não mostra qualquer alteração em seu existir, pois que indefinidamente analisado, estará sempre imutável, fechado, sem começo e sem fim.
Há luz sem Tempo? Ou Tempo sem luz? Tem-se a noção da existência do tempo através dos ciclos da luz? Que são os responsáveis pelos ciclos da natureza – brotar e morrer e pelos ciclos do mar – maré alta e maré baixa… será que realmente o Tempo influi em tudo isso, ou nem existe nessa eterna alternância dia/noite, claro/escuro/vida/morte, ordem/caos?
Tudo o que existe contém matéria ou representação. Mas Tempo não – é sem substância, sem imagem…
O céu – que não existe – é visível a quem olha para cima ou para o horizonte. E o vento, invisível, pode ser sentido.
E Tempo? Não pode ser visto, sentido, tocado, representado nem apreendido.
Talvez nem mesmo exista. Talvez seja, mesmo, apenas a ilusão que nos foi imposta, no entender de Schopenhauer.
Mas, inexplicavelmente, paira, domina e controla tudo.
Reina, absoluto, desde o princípio e estará depois do fim.
Nunca passou, não passa nem passará.
Porque é fleumático e impassível.
Já estava aqui antes de tudo. Presenciou o início. O desenvolver. O brotar e o florescer de tudo. E estará aqui quando tudo for passado, destruído.
Só ele – Tempo – ficará.
Existe vida fora do tempo?
Tempo, fragmentos da eternidade, com seus momentos luminosos e seus instantes sombrios.
Tão generoso quanto escasso, tanto nos falta quanto nos sobra. Tudo nos tira daquilo tudo que nos dá.
É o tempo. Apenas tempo sendo tempo.
Esse ser concreto e invisível que nos precede e nos sucede, nos mostra a nossa precariedade. Imóvel em seu eterno passar.
Coerente sem coerência. Acelerado sem pressa. Vagaroso sem pausa.
Tão contraditório, impenetrável, amigo e assustador.
Tudo e todos passamos. E ele permanece.
Não existe, para nós nenhum tempo. Apenas nossos momentos.
Do conjunto de nossos momentos podemos imaginar o tempo. Mas não podemos avaliar sua dimensão.
Poderemos, sempre, contemplar uma nanopartícula de sua existência, mas não a compreender nem nela penetrar.
Um dia passaremos. E, para nos enganarmos, na arrogância de nossa mortalidade e de nossa reduzida importância, diremos “O tempo passou…”
Porque não temos a noção de que nós, sim, estamos passando, não o tempo.
E passaremos.
Inúteis e supérfluos perante o Tempo.
Séculos, milênios e eras se sucederão indefinidamente, em seu interminável desfile perante o senhor de tudo isso.
Quem nos dera ser o Tempo – aquele que vê tudo passar, envelhecer e desaparecer, mas continua, ele próprio, sempre o mesmo, imune a todas as mudanças…
(Imagem gerada por IA)
Texto classificado em 3° lugar – Categoria prosa – no concurso literário internacional – Antologia Tempo, promovido pela A.C.I.M.A. – Itália, 2026

Senhor, não permita que eu seja um cordeiro perante os fortes, nem um leão perante os fracos.

Incessante, incansável, o mar canta em frente de minha casa noite e dia, dia e noite.
Espetáculo por si só, sua presença, sua cor, sua forma, seu movimento, tudo encanta.
Mistério insondável, de onde vem tanta água, tanta força, tanto equilíbrio. Uma imensa superfície, uma evaporação desmedida, mas não diminui seu volume. E a chuva não o aumenta.
Onde está a aquarela com a qual se tinge periodicamente – águas azuis, águas verdes, águas cinzentas, águas marrons. Será que muda a cor conforme o humor?
E a altura das ondas, por vezes tão baixinhas, tão mansas, que nos convidam a caminhar mar adentro; outras vezes tão altas, tão fortes que nos expulsam logo nos primeiros passos.
Caminho horas à beira-mar e nem a atração nem o encantamento diminuem com o passar dos dias.
A primeira ação ao acordar se tornou abrir a janela e olhar para o mar. É uma graça divina morar neste lugar, poder admirar o mar desde o acordar até a hora de dormir novamente. Sempre ouvindo seu canto de paz.
Bálsamo da alma e do corpo, esse presente divino me prende definitivamente nesta cidade, já não consigo ficar muitos dias fora daqui, sinto falta do mar, da imagem do mar, do cheiro do mar, de seu marulho.
Quando dele distraio ele se agiganta e levanta ondas de um verde esmeralda transparente coroadas de espumas tão brancas que é impossível permanecer indiferente. Então deixo o que estou fazendo e fico a olhá-lo, cheia de paixão e admiração.
Nada sou diante do mar, pouco mais que um grão de areia, um bichinho terrestre que se quer marítimo, insignificante, que poderia ser tragado de imediato ao me aproximar, mas ele brinca comigo, me puxa e me devolve.
Como se fosse um cavalheiro às antigas, que corteja, que requesta, mas só pelo prazer de arrastar a dama, não para levá-la consigo de vez.
E eu me deixo levar, qual namorada apaixonada, me solto em seu regaço, e delicadamente ele me traz e me deposita sobre a areia, sua constante guardiã.
Talvez um dia ele se apaixone por mim e me leve para suas profundezas…
(27.03.2009)
(Imagem: foto de Maria Alice)

