Poesia da casa – De portas abertas

Porta Aberta | Crônicas da Alma









Sempre estarei com as portas abertas, 
Para que se vá daqui todo o amargor
Que restaram de uma vida de desamor
Deixando essas lágrimas incertas

Povoa a tristeza as almas desertas
Que vivem imersas na falta de amor
Não têm alegria – somente rancor
Estão sempre de cinzas cobertas

Quando estão assim abertas as portas 
Aos poucos na alma aparece a vontade
Por entre caminhos de tantas retortas

Que deixam sair toda essa saudade
Que me povoavam como horas mortas
E deixam enfim entrar felicidade

(Imagem: banco de imagens Google)

Requiem aeternam a Thiago de Mello

Erraram as publicações com o anúncio de “morre o poeta” Thiago de Mello. Porque um poeta nunca morre. O poeta é tão imortal quanto a poesia. Apenas ele não pode mais ser visto.

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(Imagem: banco de imagens Google)

CONFIDÊNCIA A MANUEL NA MANHÃ DO SEU DIA

Hoje, meu filho, eu queria
fazer um poema que fosse
límpido e com companheiro.
Queria fazer um poema
que fosse como um perdão,
que fosse como uma espada,
uma palma e uma esperança.

Um poema que te seguisse
como o pássaro ao veleiro,
e como o servo a seu amo.
Que te valesse na mágoa
docemente, como o amigo
que diz ao outro uma frase
bem simples, cujo sentido
nem importa: pois importa
é que as palavras depressa
se arrumem todas em ponte,
dando caminho à ternura
e à confiança.
                        Amigo desses,
que um dia bem te valesse,
assim o poema eu faria
se soubesse. Mas não sei.
De lembrança, pois te deixo
em vez do poema sonhado
- quase uma confidência.

Um dia, no teu bornal
de viagem, hás de encontrar
coisas que nele arrumei
à maneira de farnel.

Hás de encontrar tão-somente
uns brinquedos, umas nuvens
e umas palavras. No entanto
o mundo eu só não te dei
porque descobri que o mundo
com todas as suas torres
e todas as suas glórias
- o mundo cabe, meu filho,
   o mundo cabe inteirinho
   na palma da tua mão.

AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que o fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

COMO UM RIO

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,]
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
                     e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, sabe seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.
Obidos.Net.Br - UMA CANOA SOLITÁRIA

(Imagens: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Mario Quintana – Amar nunca me coube

Sobre Laços Fortes | Laços Fortes

Amar, nunca me coube
Mas sempre transbordou
O rio de lembranças
Que um dia me afogou

E nesta correnteza
Fiquei a navegar
Embora, com certeza,
Não possa me salvar

Amar nunca me trouxe
Completo esquecimento
Mas antes me somou
Ao antigo tormento

E assim, cada vez mais,
Me prendo neste nó
E cada grito meu
Parece ser maior

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Por quê?

Uso dos porquês: Por que, Por quê, porque ou por quê?

Se não era para ficares, por que chegaste tão cedo?

Se era para partires, por que vieste um dia?

Igual uma chuva, tão desejada, mas que não dura,

Porque vem o sol que apaga todos os sinais.

Ou um deslumbrante luar em noite clara,

E, depois que vem o amanhecer, o dia faz desaparecer.

Se era para acabar e causar tanta dor, por que começou?

Se era para caíres em seguida, por que alçaste esse voo?

Da mesma forma que as marcas deixadas na areia

São em seguida desfeitas pelas ondas do mar;

E os frutos, tão caprichosamente concebidos na natureza

São derrubados e destruídos pelo vento insensível.

Se não pretendias amar, por que o juraste em falso?

Se não era para ser amor, por que surgiu esta paixão?

Como nuvens formando as mais lindas figuras

Que não permanecem, somem à primeira brisa.

Tudo que temos são as brancas espumas do mar

Que se desfazem quando se deitam em sua amada areia.

Se não era para beijares, por que me abraçaste?

Se não pretendias me levar, por que me chamaste?

Suas mãos

Busco suas mãos.

Eu as busco no conhecido e no desconhecido. No finito e no infinito. Na tristeza e na alegria.

Se tenho de atravessar um lindo campo, florido e iluminado, busco suas mãos. Para que você venha comigo, aproveitar desse momento único. Se estou em perigo, sem enxergar, correndo riscos, são elas que procuro para ter força e coragem, pois nelas eu confio.

Ao longo dessa vida busco suas mãos. Para todos os momentos. Para que guiem, sustentem, toquem e acariciem. Da mesma forma as buscarei no infinito, porque a morte não é o fim de um amor. O infinito é logo ali, fica atrás da cortina dessa existência, e lá estaremos juntos – um dará ao outro a mão na hora de atravessar o espelho.

Na tristeza só quero suas mãos. Quero suas mãos me afagando os cabelos, me abraçando e me fazendo acreditar que tudo vai passar. E, quando a alegria dominar novamente, serão suas mãos que buscarei, para nos tocarmos com paixão, e nos completarmos levando à comunhão das almas todo o aconchego que nossas mãos já deram aos corpos.

Por isso busco suas mãos. Hoje, aqui, amanhã, aí, antes, sempre e depois.

Busco suas mãos. Dê-me suas mãos. E vamos juntos conhecer a felicidade de amar.