Momento de paz

O céu olhava para o mar e, com inveja das espumas, criava as nuvens
O mar olhava para o céu e imitava as brancas nuvens com suas espumas
Era céu
Era mar
O vento passava calmo e se divertia com a rivalidade
Transitava leve, livre entre o céu e o mar
Era céu
Era mar
Era vento
E o mundo compreendeu a paz que vinha dessa harmonia plena
Onde se irmanavam com serenidade o céu, o mar e o vento
Era céu
Era mar
Era vento
Era paz...
(imagem: foto do acervo da autora)
Brilhos na noite

Final de tarde. As lâmpadas da praça se acendem. Automaticamente.
Para onde foram os acendedores de lampiões? Será que estão jogados em pátios de materiais obsoletos descartados, juntamente com os lampiões?
Quando o céu perde toda a luminosidade do dia, a lua acende as estrelas – muito, muito antes dos obsoletos e descartados lampiões, a lua já acendia as estrelas. Desde sempre, quando anoitece, a lua vem com um pacote de pirilampos, e os solta no veludo escuro do céu noturno.
Se estivessem mais perto das destruidoras mãos humanas, já não mais existiriam – nem lua nem estrelas. Teriam sido substituídas pelas aberrações criadas por mentes perversas, que pensam substituir a natureza com plásticos e sintéticos.
As noites já não são as mesmas – não se ouvem corujas nem grilos. Só se ouvem gritos, sirenes e tiros. Vagalumes ou pirilampos? Nem se sabe mais o que é isso. Os pisca-piscas hoje são artificias, neon, led e outras bobagens, que somam montanhas de lixo pelo mundo afora. É tanta luz artificial, que as estrelas não brilham.
Saudosismo? Não. Apenas vontade de ver estrelas brilhando
E disse Fernando Pessoa:
Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?
(Imagem: IA)
Dia de poesia – Hoeppner Dutra – Fugacidade

Olhando pela vidraça terna da vida
em busca de rebrilhos multicores,
entrevejo a paisagem do mundo
que se perde em fugaz horizonte.
Tudo tão taciturno, sombrio e frio
num esfumado assombro de silêncio.
(Onde as alegrias coloridas?)
(Onde os meigos sonhos encantados?)
No ar, somente o enigma esquecido
dos perfumes a insuflar lembrança
de rubras flores, cantando ao vento.
Nas tarder furtivas de minha vida,
olhando pela vidraçaa muda dos sonhos,
entrevejo a lírica paisagem do mundo.
(Imagem: IA)
Os desvãos do nada (memória)
Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.
Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.
(TaoTe Ching, cap. 11)

Quando o nada é o que preenche, a utilidade está no não-espaço, enxergamos outro lado da realidade.
Nosso concreto, nosso visível, tátil, sensível, já não se impõe. Atravessamos o espelho e vemos o outro lado – exatamente o abstrato, o que não vemos, não sentimos, e encontramos conforto nessa outra realidade.
Quantas vezes nos agarramos ao que existe, enquanto, na verdade, queríamos apenas o que não está lá fisicamente.
Vivemos uma vida de apego ao material. Ao que vemos. Ao que podemos ostentar. Ao que sentimos, ao que podemos dividir. Ao que pegamos, ao que podemos exibir. Sem perceber que o mais importante era o nada, o vão, o intangível. E não damos importância ao que realmente nos marca, nos alegra, nos toca e nos emociona.
Os detalhes valem mais que o todo. Os desvãos contam os segredos . Onde nada se mostra, tudo existe.
O que dói não são as lágrimas que vemos. Mas a dor invisível que as causou.
O que importa não são os braços, mas os abraços.
Um dia, apenas a ausência será a nossa companhia.
O que fica não é a presença, mas a saudade.
E o nada, o que mais nos preenche.
(Imagem: Stock Photo)
Reservado para Drycka Barbosa
