
Gostei do texto – desconheço a autoria

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

“No dia seguinte o deus Taũgi quebrou todas as cabaças de água que estavam penduradas na casa do dono da água. Então apareceu o mar que tem água salgada, os igarapés, os lagos, os rios e as lagoas. A água se espalhou pelo Brasil e pelo mundo inteiro.
Foi assim a origem da água no Brasil. Quem trouxe a água para nós foi o deus Taũgi.”
versão de Sepé Kuikuro Fonte: Livro das Águas – Índios no Xingu (2002)

Essa água que desce tão calma, também guarda seus segredos:
Veio de longe, e, dizem os indígenas, nasceu pelo deus Taũgi
Mas não é isso que ensinam os velhos livros de Geografia.
E eu só sei que ela corre incessante, em meio aos arvoredos
Se for pela Geografia, eu busco o rio Mamoré
Que antes lá da fronteira, encontra o andino Beni
Origem do grande Madeira, que corre pelo Brasil
Trazendo muita fartura e formando igarapés

Rios Beni e Mamoré, nesse abraço fraternal
Juntam as suas águas para um colosso formar
E presenteiam o Brasil, em terras rondonienses
Com o belo Rio Madeira, o grande rio ancestral
Subindo ao norte amazônico, agora rondoniense
Enfrenta as corredeiras, mas não pára nem descansa
Segue firme à procura da sina, buscando seu destino
e, entre curvas e pedras, caudaloso e imponente, tudo vence.
Me diz, Madeira, me conta agora, onde estão seus moradores
Onde vivem suas iaras, seus orixás e os seus botos cor-de-rosa?
Onde se esconde a boiúna e os seus falados piratas?
Construindo a fantasia de tantos homens sonhadores?

Sem por nada se deter, o rio Madeira
Cumpre com coragem a sua missão
Atravessando de ponta a ponta
A fértil terra da castanheira
Chegando a seu velho porto, aqui é ferido de morte
Onde as grandes usinas apagaram as corredeiras,
Destroem as cachoeiras, mas o rio não desiste,
E ainda assim segue impávido, sempre em busca o Norte.

Consagrado esse rio, como território ancestral
É milenar sustento de tantos povos diversos
Ainda fecundo, agora se vê sangrado, não vencido,
pelas usinas de Santo Antonio e Jirau
Diz, Madeira, onde estão a corredeira do Morrinho
E a sonora cachoeira do Teotônio?
As pedras, agora submersas, ainda choram
O pranto sentido desse povo ribeirinho

Mas o nobre Madeira, a tudo isso resiste
Amanhece e anoitece cantando, exibe
As cores mutantes, mostrando no fim da tarde
O dourado pôr-do-sol, o mais belo que existe

E chegando à capital, atravessa essa cidade
Ponto de luz e beleza, atrai todos os olhares
Conta a história de Rondônia, traz riquezas,
leva gente, e quando vai, deixa saudade
Quanta alegria em seu curso, seja noite seja dia,
Encantando todos os olhos, que já o puderam mirar
Águas de puro encanto, beleza sem par nesta terra
Nestas plagas, tão gentil, a mais importante via.

Em caminho na floresta, segue o imponente Madeira
Buscando cumprir seu destino, leva sonhos em seus barcos
Até encontrar o Amazonas, unidos, amalgamados, agora
Se tornam pátria, e fazem grande a nação brasileira.

Assim, abraçados, vão seu destino encontrar
E juntos, maiores, mais fortes, e ainda mais decididos
Correm em busca do fim, e num abraço fatal
encerram sua jornada, quando desaguam no mar.

(Imagens: fotos do acervo pessoal da autora)

A beleza que seduz poucas vezes coincide com a beleza que faz apaixonar. (José Ortega y Gasset)

Vejo as esquálidas modelos da semana da moda de São Paulo. Sei que fotos e câmaras “aumentam” visualmente o equivalente a uns cinco quilos. Então constato que elas são ainda mais magras do que aparentam.
Que crueldade essa ditadura da magreza extrema.
Para elas, que sonham com o estrelato das passarelas e se submetem a exigências antinaturais, que contrariam a própria essência de sua humanidade, que é a total negação do prazer do paladar.
E também cruel para todas nós, as outras. Porque vivendo uma vida normal, em um mundo onde há abundância de comida, cômodos meios de conservar essas comidas – já não temos medo da seca nem do inverno, porque sabemos que nosso alimento não faltará mais, não atravessamos épocas de escassez nesta parte do mundo, o que é uma conquista do homem do XXº – é totalmente impossível, se formos saudáveis, mantermos essa magreza.
No século XIX o norueguês Knut Hamsun escreveu o livro Sult (Fome), uma história sobre um jovem escritor sem teto, incapaz de arranjar trabalho e morrendo de fome vagando pelas ruas da Christiania (atual Oslo). Apesar de suas roupas estarem em farrapos e de sua aparência famélica, ele consegue manter sua dignidade e seu toco de lápis. Durante a narrativa ele vaga pelas ruas da cidade e eventualmente tem seus artigos publicados por jornais locais. Percebendo a queda de seus cabelos e já não mais conseguindo manter no estômago suas poucas refeições duramente conseguidas, ele acaba indo como marujo num navio russo a caminho da Inglaterra.
Enquanto você lê esse livro tem remorso de se alimentar. A fome do protagonista é tão aguda, tão doída, que faz você se sentir mal por não compartilhar tamanha privação. E mostra a crueldade da fome, e a luta do jovem para não perder sua dignidade em razão da total falta de recursos e perspectiva.
Mas nós, cidadãos do século XXI, habitantes de um país onde a comida não falta, temos motivo para passar fome, somente porque os organizadores de desfiles de moda endeusam os esqueletos e detestam as carnes?
A extrema magreza ou é fruto de doença ou de privação de alimentos. Não é natural.
Então porque fazermos moda para cabides de arame (nem podem ser equiparadas aos gordinhos cabides de madeira) que se movem?
Sei que os trajes ali mostrados não servem para a rua, mostram tendências, idéias e delírios de criadores inventivos.
Mas o festival de ossos pontudos não atrai.
Da mesma forma as fotos femininas em revistas – nunca, jamais, teremos aquela perfeição. Porque mesmo aquelas mulheres ali retratadas não a possuem.
Antigamente era fita crepe e retoque a caneta. Hoje, mais práticos, os photoshops da vida se encarregam de criar uma perfeição virtual.
E as mulheres, em sua grande maioria, se desesperam, frequentando massagistas malucas, clínicas clandestinas de cirurgias plásticas, se deformando e até perdendo a vida em busca de uma perfeição inatingível e inexistente.
Será que não sabem que os homens não diferem celulite de estria, gordura localizada de celulite, e assim por diante? Veem o conjunto da obra, mas não analisam centímetro a centímetro o material? Na verdade, o carrasco são as outras mulheres, essas sim, que se comprazem em enxergar defeitos nas outras.
Uma mulher normal – nem gorda, nem magra, sem excessos – que se ama e se aceita, sensual sem vulgaridade, alegre e de bem com a vida é atraente por natureza.
A excessiva preocupação com a aparência somente tem gerado, de um lado, infelicidade para as mulheres, e de outro, lucros astronômicos para homens e mulheres que se aproveitam desse desespero.
Por isso, quando surgem nas passarelas aquelas mortas-de-fome pálidas e com cara de infeliz, preparo minha taça de frutas com uma generosa porção de sorvete, e aproveito as noites do verão para curtir esse prazer. Sem medo de ser feliz.
(Imagem criada por IA)
