Saudades do (meu) mar e dos outros mares da vida

Penso no mar. Desde que saí da minha varanda de mirá-lo e ouvi-lo dia e noite, a solidão e a saudade são minhas infalíveis companheiras. Todas as vezes que olhei para o mar, mesmo morando “na praia”, apenas do outro lado da rua, o encanto se renovou a cada momento…
Fico a lembrar “os mares que já vi” – aqui no Brasil, sem dúvida, o mais lindo é em Alagoas, onde o mar tem uma cor inigualável. E quente. E manso.
Os mares do nordeste do Brasil são lindos e quentes.
O Brasil é feito de mar. Do gélido mar do Rio Grande do Sul, até o quase caribenho norte, são 7.490 quilômetros de mar, banhando 17 Estados brasileiros.
São tantos mares e tão lindos…
O Pacífico, gelado e majestoso, na costa chilena.
E viajar de navio, então. É a glória. Literalmente.
Dias e dias em pleno mar. Para onde se olha se vê mar. Céu e mar.
Dormir com o doce balanço do navio. Quando embarcada tenho a impressão de que minha avó me está ninando, todas as noites.
Gosto de mar e de barcos. Um bote. Um caiaque já me basta.
E vou confessar aqui: meu sonho dourado é viver embarcada, e todos os dias, ir. Porque o mar não pára e se estamos embarcados estamos, sempre, indo.
E o outro lado do mar? A emoção de Cabo das Rocas, “aqui, onde a terra acaba e começa o mar”, nas palavras de Camões…
Entrei no mar do lado de lá em Nazaré. Não aguentei a vontade e…fui! Gelado! Voltei para a calçada, calcei as botas e continuei meu passeio. Mas estive dentro do mar, do outro lado do Oceano Atlântico.
O mar nas Bahamas, no Atlântico Norte quente, límpido. O mar das Caraíbas ou Antilhas, o Golfo do México…
Na Cote d’Azur, na Costa Verde,
O Mar Mediterrâneo, que separa ou une Europa, Ásia e África, desde Costa Norte do Sinai em Al-Arish, banhando o Egito, Tunísia e Marrocos até a Europa Espanha, França, Mônaco, Itália – e atinge a Ásia (Israel, Síria e Líbano). Ainda em Israel temos os bíblicos Mar Morto (ou Mar de Sal), o Mar da Galileia (ou Lago Tiberíades) e o Mar Vermelho, no Golfo de Aqaba.
E o Mediterrâneo chega na Grécia e a separa da Turquia, com o nome de Mar Egeu e lá forma o Mar de Mármara…
A Itália tem seus mares – o Adriático a leste e o Tirreno, a Leste. Paisagens deslumbrantes de Cinque Terre até a Costa Amalfitana e o mais que deslumbrante Golfo Sorrentino… Nomes poéticos, que nos conduzem a Beatriz, a Julieta, e, no mundo real, a tantos personagens históricos – de Michelangelo, da Vinci, e Dante, ao exílio de Napoleão na linda Elba.
E a costa sul da Europa, unindo Portugal – em Algarves – passando pela Espanha (E a costa sul da Europa, unindo Portugal – em Algarves – passando pela Espanha (“os mares de Espanha, desde a Costa Brava – Balear, Mar Menos, Cantábrico e Alborão), França (Costa Azul – Côte d’Azur ou Riviera Francesa), Mônaco e entrando na Itália – Costa Verde ou Riviera Italiana. Lugares inesquecíveis… são tantos os mares e, no fundo, o mar é um só. E a terra, de atrevida, o cobriu em algumas partes, e parece dividi-lo.
E o belíssimo Oceano Atlântico, visto de qualquer ponto da vulcânica Ilha da Madeira, com suas praias de calhau, que dão a certeza e a dimensão da imensidão do nosso mar…
Não posso mais viver no mar. Mas lá eu quero morrer.
E deixo aqui trecho de uma mensagem linda, anônima, que recebi há muito tempo:
Você sabe por que o mar é tão grande, tão poderoso? Porque teve a humildade de colocar-se abaixo da terra e dos rios. Porque se estivesse acima, não receberia todas as águas que correm e sim escoaria ele mesmo sobre as terras e se esvaziaria.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Dia de poesia – Miguel Torga – Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Casais (memória)
Ama-me quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso …

A interdependência entre as pessoas torna a convivência insuportável.
Por razões que datam das origens dos animais, os homens têm necessidade de viver em grupo e, dentro deste, de ter uma companhia exclusiva – o que não ocorre no mundo animal irracional com raríssimas exceções.
Além de formar um casal que se pretende indissolúvel o humano exige fidelidade (que não cumpre), talvez por receio de sustentar filhos alheios…
Pensante, o homem desenvolveu rituais para o acasalamento e inventou sentimentos.
Assim surgiram a atração, a paixão, e depois o amor e a amizade para manter a união ao longo dos anos.
Por isso o antigo flerte (acho que nem existe mais), o namoro (que não existe mais), o noivado (que não existe mais) e o casamento (que ainda existe mas invertido, com direito a test drive para ver se é aquele parceiro mesmo que se quer adquirir para o resto da vida, que vai durar somente algum tempo…).
De qualquer forma, toda a modernidade não conseguiu extinguir a atração nem a paixão.
Da atração vem a paixão, desde que o outro não seja doce de leite (tipo que no começo é sensacional, mas depois da terceira colherada ninguém aguenta mais).
Se os dois têm uma boa cabeça e melhores intenções, daí surge uma convivência harmoniosa, que acabará em casamento. Acabará mesmo, literalmente, na maioria das vezes, eis que vai durar até casar, depois será desfeito.
Porque o egoísmo do ser humano impede a manutenção de uma relação harmônica e leve.
Sem se saber de onde vêm, começam a surgir cobranças, exigências, palavras ásperas.
Cada um projeta no outro seus fracassos, suas expectativas frustradas, põe sobre os ombros do parceiro o peso da própria incompetência e nada consegue perdoar, tudo é motivo de briga.
Um olha para o outro e já não enxerga mais o objeto da atração inicial, foi-se a paixão e o amor não chegou a ser construído. E é o fim.
Perdido o respeito, nada há a salvar, impossível continuar juntos.
Antigamente as mulheres – sempre coitadas – não podiam simplesmente ir embora.
Sem opção de controlar o número de filhos, sem emprego nem acesso ao mercado de trabalho, sem ganho e sem renda, como fariam para deixar o marido e tentar a vida sozinhas, cheias de filhos?
Isso foi a mudança mais radical na estrutura familiar: a possibilidade de limitar o número de filhos, a condição de ter um emprego sério e ganhos suficientes para se sustentar e à família e, finalmente, o fim do preconceito contra a mulher separada do marido.
Mas aí fica a pergunta: a família começou tão sonhada para acabar assim, como um papel pisado?
Será que não é possível, na grande maioria dos casos, tentar continuar, não de forma bélica, mas buscar cada um dentro de si aquele namorado/a apaixonado/a, reacender a velha chama da atração, sentir que vale a pena ficar juntos, ainda que pisando em algumas pedras?
Porque sozinho ninguém vai ficar mesmo, e a segunda, a terceira e outras relações subsequentes fatalmente sofrerão o mesmo desgaste…
No fundo, o que falta mesmo é amor. Alicerçado na paixão e no companheirismo, no prazer de estar junto.
E o que sobra é egoísmo.
(Imagem: banco de imagens Google)
Gostei do texto – desconheço a autoria

Poesia da casa – As águas do Rio Madeira
“No dia seguinte o deus Taũgi quebrou todas as cabaças de água que estavam penduradas na casa do dono da água. Então apareceu o mar que tem água salgada, os igarapés, os lagos, os rios e as lagoas. A água se espalhou pelo Brasil e pelo mundo inteiro.
Foi assim a origem da água no Brasil. Quem trouxe a água para nós foi o deus Taũgi.”
versão de Sepé Kuikuro Fonte: Livro das Águas – Índios no Xingu (2002)

Essa água que desce tão calma, também guarda seus segredos:
Veio de longe, e, dizem os indígenas, nasceu pelo deus Taũgi
Mas não é isso que ensinam os velhos livros de Geografia.
E eu só sei que ela corre incessante, em meio aos arvoredos
Se for pela Geografia, eu busco o rio Mamoré
Que antes lá da fronteira, encontra o andino Beni
Origem do grande Madeira, que corre pelo Brasil
Trazendo muita fartura e formando igarapés

Rios Beni e Mamoré, nesse abraço fraternal
Juntam as suas águas para um colosso formar
E presenteiam o Brasil, em terras rondonienses
Com o belo Rio Madeira, o grande rio ancestral
Subindo ao norte amazônico, agora rondoniense
Enfrenta as corredeiras, mas não pára nem descansa
Segue firme à procura da sina, buscando seu destino
e, entre curvas e pedras, caudaloso e imponente, tudo vence.
Me diz, Madeira, me conta agora, onde estão seus moradores
Onde vivem suas iaras, seus orixás e os seus botos cor-de-rosa?
Onde se esconde a boiúna e os seus falados piratas?
Construindo a fantasia de tantos homens sonhadores?

Sem por nada se deter, o rio Madeira
Cumpre com coragem a sua missão
Atravessando de ponta a ponta
A fértil terra da castanheira
Chegando a seu velho porto, aqui é ferido de morte
Onde as grandes usinas apagaram as corredeiras,
Destroem as cachoeiras, mas o rio não desiste,
E ainda assim segue impávido, sempre em busca o Norte.

Consagrado esse rio, como território ancestral
É milenar sustento de tantos povos diversos
Ainda fecundo, agora se vê sangrado, não vencido,
pelas usinas de Santo Antonio e Jirau
Diz, Madeira, onde estão a corredeira do Morrinho
E a sonora cachoeira do Teotônio?
As pedras, agora submersas, ainda choram
O pranto sentido desse povo ribeirinho

Mas o nobre Madeira, a tudo isso resiste
Amanhece e anoitece cantando, exibe
As cores mutantes, mostrando no fim da tarde
O dourado pôr-do-sol, o mais belo que existe

E chegando à capital, atravessa essa cidade
Ponto de luz e beleza, atrai todos os olhares
Conta a história de Rondônia, traz riquezas,
leva gente, e quando vai, deixa saudade
Quanta alegria em seu curso, seja noite seja dia,
Encantando todos os olhos, que já o puderam mirar
Águas de puro encanto, beleza sem par nesta terra
Nestas plagas, tão gentil, a mais importante via.

Em caminho na floresta, segue o imponente Madeira
Buscando cumprir seu destino, leva sonhos em seus barcos
Até encontrar o Amazonas, unidos, amalgamados, agora
Se tornam pátria, e fazem grande a nação brasileira.

Assim, abraçados, vão seu destino encontrar
E juntos, maiores, mais fortes, e ainda mais decididos
Correm em busca do fim, e num abraço fatal
encerram sua jornada, quando desaguam no mar.

(Imagens: fotos do acervo pessoal da autora)