Um ano de saudade – Dia de poesia – Fernanda Junqueira – Feito à mão
Mãe, há um ano a senhora partiu. Palavras não bastam para descrever nosso sentimento. Trago um poema que minha amiga, a poeta Fernanda Junqueira, escreveu para a mãe dela…

Sagrada saudade atravessando
os limiares da vida e da morte
por esse caminho feito à mão,
crochetado sobre a mesa.
Cada arco do crochê
é um entrelaçado de nossas mãos.
Centenas de trancinhas atadas
a um desejo maternal de congregação
Delicado caminho de tua passagem
Louças antigas regressam-te
da eternidade
memorável nas delícias de tuas receitas.
É grande a fome de reencontrar-te
crochetando a ponte da comunhão
que, por ora,
une nossas extremidades,
transcende a finitude
do novelo da vida.
Carnaval – depois da última noite

Tentou não se olhar no espelho.
Quando entrou na avenida, a maquiagem reluzia, o traje brilhava, seus olhos estavam iluminados e seu sorriso irradiava felicidade. Apenas representava seu papel. Eram cinco anos em que desfilava na mesma escola de samba, como destaque de uma ala.
Agora, em casa, não enxergava a passista habilidosa e sensual. A mulher que todos admiravam na avenida. Era apenas ela mesma, de volta a seu buraco de viver.
……………………………
Todos os dias se levanta enquanto ainda não amanheceu. Tem a casa para cuidar, roupas para lavar/passar, deixar comida pronta para os filhos almoçarem.
Ainda escuro chega no ponto. Espera duas, três, até quatro conduções passarem para conseguir entrar e seguir até o ponto onde pega outro ônibus. Às 6h45 está entrando no emprego.
A patroa sai cedo e ela precisa chegar antes que as crianças acordem. E segue o dia entre mil afazeres. A sorte é que ela ama as crianças da patroa como se fossem seus filhos. Mas sai a cada dia, ou melhor, a cada noite, mais cansada. E a volta para casa é outra maratona.
Aí vem o carnaval.
E ela se transforma. A vida é sonho, beleza, luzes e aplausos.
Três meses de trabalho dedicado, bordando todas as noites e nos finais de semana.
A roupa tem de ser perfeita. Vestir a fantasia transforma sua triste vida em sonho.
Gosta quando a escola tem a pontuação alta, porque aí são dois desfiles. E, por duas noites, deixa para trás a tristeza, a pobreza, as privações e o cansaço.
E dança. Dança com os pés, dança com a alma. Seus olhos brilham mais que as pedrarias do vestido.
Mas agora, ao chegar em casa, a escola desclassificada, seu rosto encovado pelo cansaço, os pés queimando do tempo que permaneceu dançando… não sabe se chegou a hora de parar…
Vai limpando o rosto, tirando a maquiagem, já sem o arranjo da cabeça. Seus cabelos maltratados aparecem no espelho. Os olhos fundos, sem brilho…
Ao tirar o vestido algumas pedrinhas caem e rolam pelo chão. A fantasia vai se desfazendo aos poucos.
E ela enxerga a realidade por trás do carnaval. Nos oitenta minutos de avenida, ela brilha, ela encanta, torna-se rainha de seu reino. E conclui que oitenta minutos em um ano é pouco, é muito pouco. Quase nada.
Entende que a vida é como o ano – o carnaval – tão breve – é a juventude. Cheio de música, alegria, muitas pessoas, encanto e fascínio, e ainda os sentimentos de poder e imortalidade. Depois, passada a quarta-feira de cinzas, só resta o trabalho enfadonho e cansativo. A vida sem lustro e sem glamour. Que se arrasta até o final. Porque o que passou não volta.
Os amores perdidos, os amigos que se foram, as amizades desfeitas, tanto que ficou pela estrada do passado… nada mais voltará.
Vai arrancando as últimas pedras brilhantes do traje. Junta todas, e não as guarda para bordar a fantasia do ano próximo ano. Porque entende que, para si, acabou: não haverá mais alegria de carnaval. Joga-as no lixo, e, chorando, vai tomar um banho antes de – finalmente – poder dormir um pouco.
(Imagem criada por IA)
Texto de autoria desconhecida – Máscaras

Nem toda máscara cai de uma vez.
Algumas racham primeiro.
Outras se desfazem em silêncio.
Mas nenhuma dura para sempre.
Quem sustenta personagem vive em alerta.
Mente cansa.
Fingimento pesa.
E a verdade, cedo ou tarde, cobra espaço.
Pode enganar pessoas.
Pode manipular cenários.
Pode construir narrativas bonitas.
O tempo não compra histórias falsas.
Ele expõe.
Quando a máscara cai, não é surpresa.
É confirmação.
Todo mundo já sentia, só faltava a prova.
Por isso, não inveje quem parece demais.
Nem confie em excesso de discurso.
Observe atitudes quando ninguém está olhando.
Autenticidade pode até doer.
Mas liberta.
Já a máscara…
tem prazo de validade.
(Desconheço a autoria)
Para pensar 54
