
Poesia para hoje – Eugénio de Andrade

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Venha aqui me falar de amor
Sente-se a meu lado e me abrace
Fale de amor, fale de ternura
Conte os sonhos que um dia você teve
E também os sonhos que você ainda sonha
Mostre seu lado frágil olhando em meus olhos
Deixe-me conhecer seus medos e angústias
Não se guarde nem disfarce suas fraquezas
Quero ver o menino que vive em você
Venha aqui me falar de amor
Conte de todas as viagens que você fez
E também daquelas que ainda vai fazer
Descreva as cores de todos os mares que você já viu
E se eram quentes as águas em você entrou
Me fale dos templos de tantos deuses
Dos palácios de tantos reis
Das cabanas dos miseráveis, dos bancos das praças
E me conte de tantas árvores
Que deram sombra para você dormir
De tantas fontes cujas águas frescas você bebeu
As estradas, ruas, caminhos e atalhos por onde seguiu
Fale até mesmo do amor que encontrou nas mulheres
As mulheres que o amaram e acolheram na caminhada
Venha, venha falar de amor para mim
E depois eu vou falar de amor para você
Também vou contar de meus sonhos
De meu desejo de realizar viagens, de conhecer lugares
Ver outros mares, beber de outras fontes
Dos dias e das horas em que fiquei esperando sua volta
Das tantas vezes em que chorei tão sentida de sua falta
E mais o amei quanto mais o esperei
Venha, venha se sentar aqui e me falar de amor
E fale de amor, fale de amar, fale de muito querer
E olhe no fundo dos meus olhos e veja
Todo o amor que sinto por você
Então me ame. E não precisa falar mais nada
(Imagem: banco de imagens Google)

Quisera ser a serpe venenosa
Que dá-te medo e dá-te pesadelos
Para envolverem, ó Flor maravilhosa,
Nos flavos turbilhões dos teus cabelos.
Quisera ser a serpe veludosa
Para, enroscada em múltiplos novelos,
Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
E babujá-los e depois mordê-los…
Talvez que o sangue impuro e flamejante
Do teu lânguido corpo de bacante,
Da langue ondulação de águas do Reno
Estranhamente se purificasse…
Pois que um veneno de áspide vorace
Deve ser morto com igual veneno…
(Imagem: criação IA – ChatGPT)

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo
um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo
(Imagem: banco de imagens Google)

Não marquei o caminho
Nem segui meus próprios passos
Nem deixei pegadas
Apenas caminhei – fui adiante
Sem rumo, sem paradas
Sem querer ir nem querer ficar
Sou caminhante nesta vida
Passei por tantos lugares
Dos quais não me lembro o nome
Nem mais sei a direção
Sigo num só sentido
Seguindo o vento que me engana
Buscando o mar que me espera
Olhando as estrelas que me guiam
Chegarei. Um dia sei que chegarei
No lugar para onde vou
No lugar onde haverá amor
E, quem sabe, até mesmo
Poderei dizer “eu sou feliz”
(Imagem: banco de imagens Google)

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos,
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
(Imagem: paisagem de Sérgio Iplinsky, óleo sobre tela)