
Para pensar 72

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.
É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.
É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.
Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.
Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios da espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.
Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.
Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.
(Imagem: do acervo pessoal da autora)

Sei que um dia morrerei. Nem cedo, nem tarde, nem antes nem depois. Apenas na hora marcada, no momento exato.
Mas não me será dado o castigo de viver eternamente.
A morte coroa a vida, como uma bênção.
Há aquele tempo determinado que não podemos ultrapassar, ainda que não tenhamos a mínima ideia de qual é nosso tempo.
De alguns, são minutos, de outros horas, dias, semana, meses e anos. Há ainda aos que são reservadas décadas e, para poucos, século.
A todos, o mesmo fim – um dia hão de morrer.
Tenho muitas décadas. Portanto, a cada novo sol, a cada nova lua, menos tempo tenho para continuar aqui, pois mais e mais me aproximo da curva no meu caminho.
Esse é o destino – ou a sorte – de todos e de cada um.
Não me furto, não me escondo, não penso muito nisso.
Quero viver intensamente todos os dias da minha vida.
Aproveitar todas as horas.
Viver, apenas isso: viver. Viver como quem sabe que um dia morrerá.
Não sei quem estará a meu lado quando chegar o momento de minha partida.
Ou se estarei completamente sozinha – afinal, a maior parte da minha vida eu vivi sozinha.
Se terei das mãos de alguém um pouco de amor e um gole de água para morrer acolhida.
Não importa. Nada disso importa.
A única coisa que levarei comigo para onde eu for será essa paixão pela vida que sempre comigo esteve.
A certeza que estive viva todos os minutos que vivi.
Só isso.
(Imagem: foto de Maria Alice)

Cacos
Pedacinhos reluzentes
Brilhos esparsos
No asfalto
Como estrelas
Decaídas
Atiradas
Restos espalhados
Na alma
De um amor
Rejeitado
Pisoteado
Que se recusa
A morrer
(Imagem: banco de imagens Google)


No voo
tão livre
a pena
se solta
partiram juntos
um só corpo
uma unidade
o pássaro
a pena
ele sobe
rápido
certeiro
ela se solta
flutua
separados
se perdem
para sempre
(Imagem: IA)