
Dia de poesia – Vanderlea – Inverno, partida, adeus

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Não vi como essa tempestade começou. Nunca consigo ver de onde vêm os temporais. Estava distraída, cochilando, talvez dormindo. Só sei que aquela brisa, aquele ventinho gostoso que diminuiu o calor, subitamente transformou-se em violento vendaval. E o céu se abriu, e a chuva caiu com força, muita força.
Portas e janelas precisam ser fechadas, não há a menor condição de se sair de casa. Tudo voa lá fora com a força do vento. Árvores caem.
Não tenho como abrandar o vento. Não tenho como amainar a chuva. Então trato de acalmar minhas emoções, esperar a tempestade acabar e seguir a vida.
Em algum momento a tempestade se cansará de causar tantos estragos e se irá. Para onde? Não sei. Provavelmente para algum lugar onde havia ordem e beleza, para o qual levará o caos e a destruição. É sua sina, é sua missão. Para isso surgem as tempestades.
Ouço o rugido do vento – poderoso, destruidor. Escuto o barulho da chuva – não a chuva mansa que lava o ar, mas a borrasca. Penso na minha vida. Quantas tormentas, vendavais, aguaceiros, raios e trovões já enfrentei…
E, em todas as ocasiões, impotente em minha humana fragilidade, apenas abaixei a cabeça para esperar que tudo passasse, na firme certeza da bonança que viria.
Isso que mantém o fio da vida preso a nós: mesmo nas piores tempestades, a fé na calmaria que há de vir.
Em dias de tempestade não há sol. Em noites de tempestades não há lua. Em vidas atormentadas não há amor nem paixão…
E agora, quando a tempestade começa a enfraquecer, eu me preparo para voltar à vida. Ainda que meu jardim esteja destruído, as pétalas das flores arrancadas formarão um lindo tapete que me apontará para onde deverei seguir.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Incrível esse texto tão atual, que escrevi em 22 de janeiro de 2019…

A paz é a tranqüilidade da ordem de todas as coisas (tranquilitas ordinis) – Santo Agostinho
Quero ler outros jornais. Quero assistir a outros noticiários. Não aguento mais estes a que tenho acesso.
Não quero mais essas manchetes violentas e tintas de sangue.
Não quero mais ler “matou a mãe e …” ; “casal assassinado enquanto dormia…” ; “morre turista atacada por tubarão” ; “novo caso de estupro coletivo na …””corrupção” … “corrupção” e mais corrupção … … …
Cansei.
Mas cansei a um ponto de cansaço que acho não ter mais volta.
Que mundo é este? para que estamos aqui, trabalhando e pagando contas, envelhecendo sem ter vivido plenamente, sobrevivendo ao caos, à violência, ao medo…
Não é este o mundo que eu quero. Mas não sei o que fazer para mudar alguma coisa.
Sei que sou gentil, sei que tento viver minha vida sem incomodar ninguém e estou sempre disponível para aqueles que precisam de uma ajuda, uma palavra, um conforto.
Isso não basta. Minha gentileza é confundida com fraqueza.
Minha educação é confundida com falta de pulso.
Minha eterna disposição é confundida com ausência de cansaço físico.
E não é nada disso.
Por isso e por tudo o mais, cansei. Não quero mais.
Não quero mais saber de notícias, não quero mais navegar na internet, não quero mais encontros com amigos, familiares, colegas, conhecidos, nada, nada, nada…
Não quero mais que o telefone toque (mesmo porque só toca para trazer aborrecimentos, pedidos, cobranças descabidas).
Não quero mais que me procurem para queixas e me usar como repositório de problemas alheios.
Repetindo um ex-presidente da república, tudo o que quero é que me esqueçam.
Quero paz, quero leveza, quero tranqüilidade.
Quero olhar o mar sem ter que pensar no tsunami.
Quero olhar o céu sem me lembrar dos acidentes aéreos.
Quero andar livre no calçadão da praia sem recear assaltos.
A humanidade me cansou.
Definitivamente.
(Imagem: banco de imagens Google)

(memória, há dois anos…)

O triste ano de 2024…
Um ano que nem deveria ter começado. Não faria falta.
Só tristezas, doenças, tragédias, insegurança…
Desde o primeiro dia esse ano está estranho. Hostil aos humanos, Aos animais. À natureza.
O mês de janeiro de 2024 foi o mais quente da história. Seguido de intensas chuvas, deslizamentos, alagamentos, perdas de vidas e patrimônios.
Guerra, mortes, atentados.
Doenças se alastrando.
O ano seguia e nada melhorava.
A cada mês, mais tristezas, mais desgraças.
Aviões caindo.
Muitos vulcões em erupção.
Chuvas de meteoros.
Asteróides ameaçadores.
Tsunamis.
Terremotos.
Mais mortos. Mais tristeza.
Assim encerramos agosto.
Em chamas.
Milhares de focos de incêndio pelo país.
Alguns mortos.
Muitas perdas na lavoura. Provavelmente muitas perdas na pecuária. Sem contar os inúmeros pássaros e animais silvestres que morreram no fogo, uma vez que as fortes rajadas de vento o espalhavam subita e invencivelmente.
Dezenas de cidades por todo o país em estado de emergência pelo fogo. É possível avistar, dos satélites, a espessa fumaça que cobre o Brasil.
Mais doenças. Mais tristeza.
E ainda há alguns meses a cumprir neste malfadado ano.
Podia terminar antes de entrar setembro.
Deixa esse final para depois.
Ou recomeça de 1° de janeiro, ou se encerra.
Sem qualquer dúvida, provavelmente o pior ano de nossas vidas. Será lembrado como O Ano das Grandes Desgraças.
O que de pior ainda nos espera nos últimos meses?
(Imagem: banco de imagens Google, incêndios na região de Ribeirão Preto,SP)