
Dia de Poesia – Manuel Alegre – Coisa amar-te
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
(Imagem: Foto de Maria Alice)
Trecho de uma carta – Caio Fernando de Abreu

… Tô tão humildezinho – e dizer isso é de uma vaidade… Veja só, estou sozinho num hotel absurdo, com 34 (quase 35) anos, segurando as minhas pontas sem incomodar ninguém, sem dever nada a ninguém, sem nada além da minha cabeça. E tô achando bom, tô repetindo que bom, Deus, que sou capaz de estar vivo sem vampirizar ninguém, que bom que sou forte, que bom que suporto, que bom que sou criativo e até me divirto e descubro a gota de mel no meio do fel. Colei aquele “Eu Amo Você” no espelho. É pra mim mesmo. …
(Imagem: banco de imagens Google)
Palavra de Martha

Verdade…

– E essas gaiolas com pássaros?
– São meus.
– As gaiolas ou os pássaros?
– Tudo. Os pássaros e as gaiolas…
– Então, você acredita que esses pássaros são seus…
– São, sim. Claro que esses pássaros são meus!
– Tem certeza?
– Que pergunta estranha, por que isso?
– Porque se esses pássaros fossem realmente seus, você não os precisaria prender em gaiolas para que ficassem aqui com você….
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – Sete das artes

Não foge do cansaço e da dor
Mesmo sendo tão pequenina,
Rodopia, faz ponta e plié
Que é a arte da bailarina.
Com doçura segura o pincel
E suspira de saudade e de dor,
Misturando as cores das tintas,
Na tela se retrata o pintor.
No palco daquele teatro
Ela ri e parece ser feliz –
Quem pode saber a dor que habita
No frágil peito da atriz?
A argila úmida e sem forma
Aos poucos se transforma em figura:
Das mãos do hábil escultor
Surge então a perfeita escultura
A fita de celulose rola bem devagar
e aos poucos desvenda o dilema,
mostrando como é a vida,
em uma tela de cinema.
Ouve o que os outros não podem,
e traduz tudo em linguagem de amor.
Porque a música nasce dentro da alma
e assim se expressa o compositor.
Mas a maior das artes, que a todos
atinge, lançada como uma seta
é a mais nobre, a que nasce da dor
que faz sangrar o coração do poeta.
(Imagem: banco de imagens Google)