
Por hoje, basta

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Quando não mais reconheceu os olhos da mulher que do espelho a olhava, entendeu que o tempo passara, a juventude se fora.
Viu os cabelos embranquecidos moldando um rosto no qual o tempo – essa fábrica de monstros – desenhara riscos, as lágrimas e angústias colocaram sulcos, com seus contornos perdidos ao longo do caminho por onde viera, mas que não poderia recuperar.
Viu as sombras em seus olhos deixadas pelo pranto, pelo desespero, pelas dores que colhera ao longo da vida, mesmo sem ter plantado.
Tentou ver alguma coisa de outros tempos, um viço da juventude, um sopro dos sonhos realizados, mas o rosto duro e tristonho nada lhe mostrou.
Queria enxergar no espelho o passado que se fora, o rosto perfeito que tivera um dia, a beleza que o tempo lhe roubara. Mas não conseguiu ver.
Apenas viu a máscara que ainda é usada para flutuar no mundo que não mais lhe pertence, para se fazer aceita entre os viventes.
E notou, resignada, que já não mais estava viva. Apenas ainda estava deste lado do espelho esperando a mão da morte alcançá-la.
E pensou na ventura de se morrer jovem, antes que o tempo mostre sua força implacável.
E pensou na ventura de se viver muito, deixando que o tempo lhe mostrasse a continuidade da vida nesta terra.
Envergonhada e silenciosamente fez uma prece agradecendo a velhice que evitara a partida precoce…
(Imagem: banco de imagens Google)



Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
(Imagem: banco de imagens Google)