Arte

Desde sempre convivi com arte.

Arte no sentido clássico. Arte como atividade humana que desperta uma emoção.

Estética, beleza, harmonia…

Assim foi durante a infância e adolescência, quando estudava música e fazia conservatório musical, com aulas de história da música e história da arte.

Também pelo interesse e estudo sobre a matéria. Sou fascinada pela música e pela escultura, as quais considero a expressão máxima da capacidade humana de tocar a alma de outro ser humano.

Admiro as outras artes, como a pintura – não sei desenhar nem o elefante dentro da cobra do Pequeno Príncipe. Admiro quem desenha, quem escreve, quem pinta, quem encena, quem canta, quem dança…

Ao mesmo tempo, infelizmente, presenciamos uma nova era artística. De onde o belo foi banido.

Nada de bonito, nem de harmônico, nem de sentimento estético.

A arte foi desconstruída para dar espaço a pessoas completamente sem talento.

Imagino, aqui, os museus do futuro …

No dia em que nos separamos

No dia em que nos separamos o sol brilhava

E pássaros inundavam o ar com seu canto delicado.

Naquela noite a lua, insensível, surgiu radiante

E reinou soberana liderando o séquito de estrelas brilhantes.

E as flores da noite se abriram e perfumaram os caminhos.

As aves, amantes, aos pares se recolheram aos ninhos,

E o vento soprou mansinho,

apenas leve brisa a acalentar as folhas.

Nada nem ninguém viu meu desespero, tanto sofrimento;

Lágrimas escondidas misturadas ao sangue

corriam em minhas veias,

Não houve dentro de mim qualquer alegria,

qualquer alívio ou bálsamo

Somente a dor aguda de mais uma separação,

que me inundava toda

E ocupava os lugares onde até então era só alegria,

sorriso e êxtase.

Amanheceu um novo dia.

A natureza não se abala com a dor alheia.

Como se tudo estivesse bem, o sol brilhou novamente.

Dia de Poesia

Encontro das Águas

(Quintino Cunha – poeta cearense e amazonense de coração)

Vê bem, Maria aqui se cruzam: este
É o Rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
como as saudades com as recordações.

Vê como se separam duas águas,
Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.

É um simulacro só, que as águas donas
D’esta região não seguem o curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;

Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!

Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto é também limpa, engana:
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.

Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza, mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
Neste céu d’água, brutalmente enorme.

Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!…

 

Anotações de viagem _ Pompeia

11/01/2011 

 

Pompéia! Um sonho de infância conhecer Pompéia e o Vesúvio! 

Valeu a pena sonhar tanto, porque é maravilhoso estar neste lugar. 

Chuvisca, nada que atrapalhe o caminhar pelas ruelas desta cidade tão interessante.       

A erupção foi no ano 79 d.C. e já havia fast foods em Pompéia. 

Importante porto marítimo da época, cidade de comerciantes e tripulações variadas, vendiam comida pronta em lojas. Algumas resistiram ao tempo. Moderno, não? 

           

O curioso é que a lava do vulcão não atingiu a cidade para destruí-la. Apenas a intensa nuvem de cinzas a atingiu e cobriu, matando as pessoas asfixiadas.             

Os corpos permaneceram na posição em que as pessoas estavam, buscando fugir da chuva de cinzas ou ao menos proteger o nariz para conseguir respirar.            

                

 A cinza se solidificou e a cidade permaneceu adormecida – literalmente adormecida sob as cinzas do vulcão.  

No fim do século XVI, ao ser aberto um canal de irrigação no vale do rio Arno, ao escavarem sob o monte Civita foram descobertas algumas construções soterradas. 

Posteriormente no ano de 1748 começaram a investigar o que existiria no local, sob patrocínio do rei Charles de Bourbon, de Nápoles. 

Depois de cerca de quinze anos de investigações chegaram à conclusão que se tratava da lendária Pompéia, que teria existido de verdade. Somente em 1864, sob a batuta do arqueólogo Giuseppe Fiorelli todo o trabalho foi terminado e surgiu a encantadora Pompéia, silenciosa, preservada e trazendo farta história. 

E ali passamos quase um dia, visitando casas – desde as mais simples até a mais suntuosa que está aberta, com seus mosaicos, várias salas e inúmeros dormitórios, uma das únicas da época a possuir dois jardins, o que mostra a opulência de seu proprietário. 

Voltei no tempo, recordando os livros que já li sobre o fim de Pompéia. 

Vi um pouco de seu povo, que morto por asfixia, teve seu espaço vital preservado sob as cinzas, possibilitando fosse o corpo moldado em cera líquida, vários corpos expostos, mostrando a posição em que foram surpreendidos pela morte. 

As pedras das ruas de Pompéia… testemunha de um tempo passado que não voltará.

As placas de ruas com sinais, em razão do afluxo de marinheiros de muitas línguas que ali permaneciam esperando embarque… 

         

E a luminosidade única da cidade que um dia o vulcão, tão lindo, tão imponente e aparentemente inofensivo, pensou conseguir aniquilar…

Pedro, meu amigo

Tenho milhares de conhecidos. Tenho muitos colegas. Tenho alguns amigos.

Dentre esses poucos amigos, tenho o Pedro. Mais que conhecido, mais que colega e muito mais que um amigo. É como um irmão. Podemos conversar horas a fio e o assunto não acaba. 

Antigamente fumávamos juntos, hoje ele fuma sozinho, mas eu fico junto.

Bebemos juntos. Brigamos juntos.

Rimos juntos, cantamos juntos, choramos juntos.

E, sempre que podemos, estamos juntos.

Essa amizade é um esteio para minha vida. 

Publico, hoje, poema do Pedro, meu mais que amigo:

 

Chagas

(Pedro Hideite de Oliveira)

 

Silêncio e solidão,

Que habitam o meu ser.

Ferindo o coração,

Cansado de tanto sofrer.

 

Sofrimento e dor,

Faz sangrar os ferimentos.

Trazidos de um amor,

Vividos só de momentos.

 

Momentos que não se esquece,

Por mais não se queira lembrar.

Vem a noite e amanhece,

Tudo vai recomeçar.

 

Recomeça com a saudade,

E com ela a solidão.

Mas no dia em que forem embora,

Restará, cicatriz no coração.

Mila

Há muito, muito tempo, ele escrevia na Folha. E publicou essa crônica, que levou seus leitoras às lágrimas. E minha querida tia Teca – tia, segunda mãe, amiga, companheira, com sua extrema sensibilidade, teve o cuidado de guardar. Trouxe-me para que relembrasse. Aproveitei para digitalizar e imortalizar. E a transcrevo aqui, para que outros tenham a ventura de conhecer um pouco do grande Cony:

 

                                          Mila

                                Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO – Era pouco maior do que minha mão; por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

            Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?

             Amá-la – foi a resposta e também acredito que ela ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigia minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

             Tendo-a a meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

             No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem amor do que o meu peito, levei-a até o fim.

             Eu me considerava um profissional devente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

             Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

 

 

 

 

Encontro

Por todas a vida que estivemos separados

Todos os dias, todas as noites, todas as horas

Em que inutilmente tanto nos quisemos

E a distância impediu o nosso encontro

 

Não sei os atalhos por onde você foi, quais seus caminhos

Nunca soube onde procurar você, por isso aqui fiquei

Como cega, seguia meu caminho, sem sonho nem luz

Vivendo apartada do querer, na noite contínua.

 

Por tudo isso chegará um dia em que

Estaremos novamente frente a frente

Suas mãos ao alcance de minhas mãos

 

Encantados então nos abraçaremos

E à sua única pergunta responderei:

Não duvide, eu sempre estive aqui!