Bolinho de arroz

Cozinhar é incrível. Acho que nada existe de mais prazeroso na vida.

Prazer para quem cozinha e mais ainda para quem degusta. Porque o paladar é o único sentido que nos acompanha praticamente a vida toda – nem a mais longa velhice o embota.

Sou mais do cozinhar do que do comer. Inclusive faço muitos pratos que eu mesma não como. Mas sei fazer. E o que mais me fascina na cozinha é a possibilidade do novo. Você nunca se entedia porque não vai fazer a mesma coisa todo dia. Nem muitas vezes. Há milhares de possibilidades de novidades. É só ir criando, experimentando e aperfeiçoando até sua ideia se tornar um prato notável.

Mas também há aqueles pratos que todos pedem para você repetir, que agradam sempre.

Assim vamos equilibrando os cardápios e oferecendo um tanto de novidades com outro tanto de pratos já conhecidos e apreciados.

Já dizia Brillat-Savarin que a descoberta de novo prato faz a humanidade mais feliz do que a descoberta de um novo planeta ou de uma nova estrela. E tinha razão.

A culinária francesa será sempre uma referência de equilíbrio de temperos e texturas. Incrivelmente saborosa e variada. Impressiona quatro dos sentidos – visão, olfato, paladar e tato.

Já nossa querida cozinha italiana, tão difundida e adaptada no Brasil nos satisfaz tanto o paladar quanto a gula.

A modernidade nos trouxe a horrorosa comida japonesa – feia, fedida e de gosto ruim. Mas, virou moda e os descolados têm de dizer que gostam daquelas gororobas esquisitas.

Vejo que nosso infalível arroz-com-feijão é imbatível na preferência de todas as gerações. E, para os iniciados, um baião-de-dois é banquete.

E, para “temperar” esse arroz com feijão, tudo o que existe de concreto e imaginável vai bem.

Desde o famoso prato russo, tão ao gosto do brasileiro – o Roscovo – que consiste em um arroz bem feitinho, refogado no alho acompanhado de um ovo frito na medida certa da consistência da gema – até as carnes mais sofisticadas.

O brasileiro é criativo. Além de dispor de uma variedade inestimável de vegetais, incluindo os temperos e as deliciosas pimentas, tem a seu dispor quase todos os tipos de carnes.

Não é preciso ir muito fundo, nem inventar muita moda. Nada agrada mais nosso paladar que nosso tradicional bolinho de arroz.

Cozinhar é um ato de amor. E fazer bolinho de arroz é a declaração desse amor.

Esse amor

Malgrado todas as dificuldades,

tantas lágrimas e tanta angústia,

a cada dia mais doce e mais forte

esse amor resiste.

 

Sempre que fraquejamos diante da vida,

e encontramos uma força insuspeita dentro de nós,

então temos a certeza que só seguimos adiante pois

esse amor existe

 

Às dores que suporta a cada dia,

ao peso que a vida sempre impõe,

sem vacilar, nem fender, sem se ausentar,

esse amor assiste.

 

Nossos sentimentos são feitos de quase nada

e se trincam, e se partem, e se confundem

mas é na firmeza – e não em desespero, no que

esse amor consiste.

 

Quando a tristeza chega e se instala

e pensamos que já não teremos saída, vemos

adiante a luz que que nos aguarda , pois com ela

esse amor coexiste

 

Os anos passando tão rapidamente

deixam um rastro de lembranças,

e a certeza de que vale lutar, porque

esse amor insiste.

 

E no longo caminhar rumo ao destino final,

vamos com alegria e determinação, sem medo,

avançando no suceder dos dias, com a certeza que

esse amor persiste

 

E quando se acaba o dourado outono,

e se aproxima o cinza inverno da vida,

podemos seguir confiantes no futuro porque

esse amor nunca desiste.

Tempestade

 

 

 

        Nas asas do vento

        da noite em que chove

        O som à distância

        O medo da noite

 

        “Não vá” – diz o vento

        “Eu vou” – diz a chuva

        e corre ligeira

        em busca do mar

 

       Um risco no céu

      um estrondo na terra

      um raio no espaço

 

     O vento ventado é nada

     a chuva caída é água

     a esperança que volta é vida

A demain!

 

 

Não vou escrever hoje. Vou aproveitar para viver.

Quem quiser vir comigo, mesmo que não queira sair lá fora, basta abrir a janela e olhar para o céu.

Dia de fim de inverno, já primaveril. Céu muito alto e muito azul. Contra ele as árvores balançam folhas verdes. O contraste é incrível.

No alvorecer os pássaros cantaram celebrando o calor que chega e protestando pela chuva que tarda. E o dia se fez silêncio.

Ouve-se, ao longe, os gritos e risadas de algumas crianças que brincam. Um veículo passa buzinando, ouço o acelerar de uma motocicleta – deve ser das grandes pelo ronco bonito. Depois, o silêncio volta.

Eu poderia ficar aqui e escrever, mas vou ser sincera: ficar aqui dentro escrevendo com todas essa natureza gritando lá fora – Vem! Vem aproveitar esse dia de paz!”

Não resisto a esse apelo. Vou encerrar meu dia de escritório às dez horas da manhã e vou viver um pouco.

Tornerò. Domaine.

Dia de poesia – Mia Couto – Amei-te sem saberes

Hoje não devia ser dia de poesia. Mas esse poema do Mia Couto me encantou, li e reli. E resolvi partilhar com vocês. 
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão 
eu te amei 
e acariciei 
o teu imperceptível crescer 
como carne da lua 
nos nocturnos lábios entreabertos 

E amei-te sem saberes 
amei-te sem o saber 
amando de te procurar 
amando de te inventar 

No contorno do fogo 
desenhei o teu rosto 
e para te reconhecer 
mudei de corpo 
troquei de noites 
juntei crepúsculo e alvorada 

Para me acostumar 
à tua intermitente ausência 
ensinei às timbilas 
a espera do silêncio 

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

Outros Poemas de Mia Couto:

Como um vulcão

Trouxe a poesia dentro de si:

Chegou mansamente e aqui ficou.

Pousou em meu peito com a leveza

De uma delicada borboleta

Que pousa em uma pétala de flor.

Coloriu meu dia e minha vida,

Até então sempre cinzentos;

Alegrou minha alma e minha vida

Que eram imersas em tantas tristezas.

Despertou toda a paixão latente

Como um vulcão adormecido

Que volta subitamente à vida.

Abriu as comportas do desejo,

E, desde então, acreditei que,

Encantados de tanto amor,

Seguiríamos sempre juntos.

Hoje a saudade, em forma de lágrimas

Inunda meu rosto com quentes gotas.

Saudade é privilégio de quem foi feliz

E esse sentimento, quando muito intenso,

Se liquefaz tal como magma em lava,

E esse vulcão, que então explodiu de paixão,

Volta à quietude de seu letárgico sono

E, novamente entorpecido, em sua ausência

Adormece triste e eternamente.

Hoje é dia de poesia – Ferreira Gullar – Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.