Atalho secreto

Somos opostos. Em tudo:

eu sou mar, você é rio;

você é floresta, eu sou cidade;

eu sou sol, você é lua;

você é noite, eu sou dia.

Mas quando nossos olhares se cruzam

nossas mãos se tocam e

nossos corpos se encontram na maciez dos lençóis,

tudo isso desaparece.

Se antes um era prata e outro, ouro,

somos, agora, apenas dois loucos de paixão.

E nos amamos ardentemente,

amalgamando nossas naturezas,

derrubando todas as barreiras

em uma fusão enlouquecida e inseparável.

Nesse hiato de um inesperado eclipse

entre meu sol e sua lua, sua noite e meu dia,

nossos mundos se reduzem a um ponto –

Um único ponto desse vasto universo

onde todas as estrelas vêm brilhar

e invejar esse doido amor

que tudo desmonta, tudo desmente

e nos une e mistura esses mundos,

até chegar o inevitável e triste momento

quando, encantados, seguimos adiante,

cada qual trilhando um caminho próprio.

Mas neste universo em que todas as linhas se tocam,

perpendiculares, paralelas, convergentes,

divergentes, retas ou curvas,

sempre haverá um mágico momento,

em que elas se encontram no finito da vida,

como estradas que em algum ponto se atravessam.

E quando nossos destinos se cruzam,

não há mais céu nem terra

nem há mais claro nem há mais escuro.

Existe, então, esse atalho secreto,

apenas um ponto de amor

a desafiar toda a lógica dos homens

e mostrar a esse mundo descrente

que podemos provocar o destino

e escrever, nós mesmos, nossa trajetória…

Conversa com meu avô – nª 07

 

Olá, vô, não reclama que demorei, o senhor tem visto tudo o que estamos passando e como o tempo não tem rendido nada aqui. Mas se não venho conversar um pouquinho não significa que não tenha muita vontade de vir ou que esqueci do senhor.

Vamos lá, fazer nossas atualizações políticas…

Então, é isso mesmo, o luis da silva continua preso. Quer dizer, continua ocupando dependências de luxo na superintendência da polícia federal de Curitiba, porque não aparece um corajoso para enviá-lo para o sistema, com calça amarela, cabeça raspada e seguindo regras.

O cara está lá numa boa, com namorada, esteira, internet e tudo o mais e ainda dizem que está preso.

Vamos ver se o TRF-4 solta logo a segunda condenação e vai agravando a situação do crápula.

E lá no congresso, vô, que situação mais nojenta! Estamos no dia 01 de julho e aquele bando de parasitas ganhou salários nababescos e não trabalhou um dia sequer em 2019. Apenas ficam tentando atrapalhar um governo que luta para tirar o país do lamaçal da corrupção.

Agora o Presidente da República esteve na reunião do G20 e conseguiu assinar um acordo que vem sendo tentado, costurado e adiado há uns 20 anos. Nenhum presidente conseguiu celebrar esse acordo entre o mercosul e a união europeia.

Pois é, nosso atual Presidente firmou. A médio prazo será uma alavancada excepcional para a economia – do Brasil e dos outros países integrantes do mercosul.

Claro que o senhor não leu nos jornais que isso é positivo, que foi ótimo para o país. A imprensa é encardida, vô, já falei para o senhor que é perda de tempo ler essas porcarias que se autodenominam jornais, mas não passam de exercício panfletário de elogio à esquerda, ao que há de mais atrasado, radical e violento no mundo.

Agora os empresários brasileiros terão de se virar para se desenvolver. Contratar engenheiros (que lotam as vagas de motoristas de uber, por absoluta falta de emprego no país) para colocarem suas empresas no rumo da competitividade a nível mundial. Acabou a reserva de mercado para produtos mal feitos e inadequados. Como diziam os portugueses, vai vigorar o “quem não tem competência, que não se estabeleça”.

Se tivermos produtos de primeira linha fabricados no Brasil, é óbvio que daremos preferência a eles. E eles terão condições de competir lá fora com produtos de outros países. Essa é a economia verdadeira, todos produzindo, gerando empregos e fazendo circular a riqueza. Comprar papel não será mais tão atraente.

É muito perigoso que esse acordo dê certo e tire o país da rota do atraso, por isso incomodou tanto a esquerda, que precisa de pobreza e ignorância para se sustentar.

E ontem, vô, que dia emocionante! O senhor viu as manifestações em todo o país? Um onda verde-e-amarelo tomou as ruas, avenidas e praças. O povo – milhões de pessoas – cantou o Hino Nacional com lágrimas nos olhos, verdadeiros patriotas, que mostraram apoio ao Presidente da República, ao Ministro da Justiça (aquele Juiz de Direito que teve a coragem de dar partida na maior operação de caça a corruptos já vista no mundo, e que agora é Ministro de Justiça, e um jornalista inglês, marido de um deputado federal não eleito pelo RJ, mas que herdou o cargo pela suplência, é, vô, O jornalista é maridO dO deputadO, ou O deputadO é marido dO jornalista, agora é comum, vô, deixa isso prá lá que esse assunto é bananeira que já deu cacho – esse jornalista tentou dar uma de esperto de derrubar o Ministro, mas o plano não deu certo).

As manifestações também pediram uma faxina no Congresso – os presidentes das duas casas são ignóbeis, assim como a maioria dos parlamentares – e ainda no STF. Não dá mais para o país continuar com essa corte desse jeito.

E, de quebra, apoio às reformas legais – lei da previdência e derrubar o estatuto do desarmamento, que sempre foi contra a vontade da população.

Foi bonito, vô, foi muito bonito. Tudo verde-e-amarelo. Muitas bandeiras do Brasil. Ninguém com bandeiras de partidos políticos nem trapo vermelho do sangue dos inocentes. Era o Brasil nas ruas. Foi lindo…

Se vai dar resultado? Volto aqui para contar, me aguarde!

Dia de poesia – Alberto Caeiro

              XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois

Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,

E que para de onde veio volta depois

Quase à noitinha pela mesma estrada.

 

Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas…

A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco…

Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas

E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

(de O Guardador de Rebanhos)

 

Que imagem!

Santo Sudário

          

                  O Santo Sudário é uma peça de linho confeccionado em tear manual rudimentar, mas com acabamento cuidadoso, no qual as linhas horizontais passam por três linhas verticais e por baixo de uma em uma formação de zigue-zague chamada “espinha de peixe”. Apesar desse padrão só ter aparecido na Europa no século XVI, já era fabricado em países do oriente como Egito e Síria. 

                   Por não haver vestígios de outro tipo de fibra, como a lã, acredita-se que o tear pertencia ao ambiente judaico onde a mistura de fios era proibida. Além disso, a medida coincide com as dimensões do chamado cúbito sírio, utilizado pelos judeus no século I d.C. O lençol mede exatamente 8 X 2 cúbitos sírios, ou seja, 44,41 metros por 1,13. 

                   O Sudário contém a imagem de um corpo, frente e costas. Nota-se que metade do tecido ficava embaixo do corpo enquanto a outra teria passado sobre a cabeça e cobria a parte frontal. 

                   Ao longo do Sudário encontram-se diversas manchas vermelhas. Ao serem analisadas, demonstraram ser sangue humano do tipo AB, raro entre europeus, mas comum em judeus. Com as análises, os cientistas comprovaram que o corpo esteve em contato com o lençol durante um período de 30 a 40 horas, encontraram cromossomos X e Y, componentes do DNA masculino, e constataram a presença de bilirrubina, substância cicatrizante produzida pelo fígado a partir dos glóbulos vermelhos, quando o corpo é gravemente traumatizado. 

                   O contato entre o corpo e o lençol se interrompeu sem provocar a mínima alteração nas manchas de sangue, fato que não possui explicação. 

                   Entre as fibras do tecido também foram encontrados 77 tipos de pólen, sendo que metade deles pertence a plantas que só crescem na Palestina, material terroso cuja composição é idêntica ao solo encontrado em grutas de Jerusalém. 

                   Em meio às partículas de pó extraídas do Sudário, foram identificadas aloés e mirra, substâncias aromáticas usadas na antiguidade e um composto denominado Natrom, utilizado na Palestina para desidratar cadáveres em um processo similar ao da mumificação egípcia. 

                   Em 1898 percebeu-se que a imagem impressa no tecido é mais visível num negativo fotográfico do que a olho nu, quando Secondo Pia tirou a primeira fotografia do lençol. Esse registro passou a intrigar cientistas e iniciou-se uma intensa polêmica sobre a origem do Sudário e a identidade da pessoa retratada. 

                   Engenheiros da Nasa submeteram um foto do Sudário ao analisador de imagens VP8, projetado para reconstruir o relevo dos planetas a partir de fotos enviadas por satélites. O resultado foi a imagem do corpo tridimensional, ao contrário do que acontece em uma foto comum. 

                   Mesmo após inúmeros testes não se sabe como a imagem foi produzida e se mantém no tecido há tanto tempo. Aparentemente as dúvidas crescem a cada especulação.

(LeCristo. Julho 2010)

Dúvidas? a fé não admite dúvidas, isso é para cientistas e investigadores da história. Para quem crê não é preciso provas materiais da existência de Cristo. Ele esteve entre nós e nos deixou um imenso legado de amor e de busca pela paz. Isso basta.

Dia de Poesia – Zorongo (*)

 

Essas mãos de meu carinho

te estão bordando uma capa

com recamo de alelis

e com esclavina de água.

Quando tu foste meu noivo

pela primavera branca

os cascos de teu cavalo

quatro soluços de prata.

A lua é um poço pequeno,

as flores não valem nada,

o que vale são teus braços

quando de noite me abraçam,

o que vale são teus braços,

quando de noite me abraçam.

(Garcia Lorca)

(*) Baile popular andaluz

Mãos

 

Busco suas mãos.

Eu as busco no conhecido e no desconhecido. No finito e no infinito. Na tristeza e na alegria.

Se tenho de atravessar um lindo campo, florido e iluminado, busco suas mãos. Para que você venha comigo, aproveitar desse momento único. Se estou em perigo, sem enxergar, correndo riscos, são elas que procuro para ter força e coragem, pois nelas eu confio.

Ao longo dessa vida busco suas mãos. Para todos os momentos. Para que guiem, sustentem, toquem e acariciem. Da mesma forma as buscarei no infinito, porque a morte não é o fim de um amor. O infinito é logo ali, fica atrás da cortina dessa existência, e lá estaremos juntos – um dará ao outro a mão na hora de atravessar o espelho.

Na tristeza só quero suas mãos. Quero suas mãos me afagando os cabelos, me abraçando e me fazendo acreditar que tudo vai passar. E, quando a alegria dominar novamente, serão suas mãos que buscarei, para nos tocarmos com paixão, e nos completarmos levando à comunhão das almas todo o aconchego que nossas mãos já deram aos corpos.

Por isso busco suas mãos. Hoje, aqui, amanhã, aí, antes, sempre e depois.

Busco suas mãos. Dê-me suas mãos. E vamos juntos conhecer a felicidade de amar.

Bolha de sabão

 

Paira, um momento, tão linda

Coloridamente flutua e roda

E sobe, e desce, e vem, e vai

Tocada por quase imperceptível brisa

 

E, como um ímã, hipnotiza

Já não vemos mais nada ao redor

Nossos olhos, fixos e encantados

Seguem a bolha de sabão pelo ar

 

Ela brinca com cada um que a vê

Chega perto e sorrindo foge

Não se deixa tocar nem prender

Sua vida é encantar e alegrar

 

Mas não nasceu para ficar

Tem de ir, flutuar, deslumbrar

Até que, num súbito momento,

Se desfaça no ar e quebre o encanto…

 

Assim também foi minha paixão

Surgiu num de repente da vida

Bailou, flutuou, me encantou

Hipnotizada eu a segui deslumbrada

 

Suas cores eram as mais lindas

Sua existência se tornou meu existir

E a brisa, teimosa, a levava de mim

Angustiada num momento insano tentei detê-la

 

E diante de meus olhos, agora molhados de lágrimas

Ela se desfez no ar e deixou-me a lembrança

De toda sua beleza, de tanta leveza

E então, no meu sofrer aprendi:

 

Nunca toque, nem tente prender a paixão

Porque ela é mera bolha de sabão…