
Foi-se julho nas palavras de Dieke Lopes

A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

“Se for caminhar no coração do outro, recomendo que vá descalço. Coração é solo sagrado”

Hoje li essa mensagem. E fiquei pensando.
De que é feito meu coração? Não esse órgão que mecanicamente pulsa e bombeia o sangue, tudo fisiologicamente explicável e controlável.
Falo do centro da minha paixão, o que pulsa e bombeia sentimentos, emoções. Tudo o que me tira o chão, me eleva ao céu, me mostra o inferno, me faz sentir, me traz alegria, me faz triste, descarrega toda essa adrenalina, desperta o desejo, faz querer viver – ou morrer…
Pergunto, novamente: de que é feito meu coração?
Meu sofrido coração é um caminho encantado.
Nem todos que por aqui passaram mereciam caminhar nesse solo sagrado.
Ele é pavimentado de nuvens de carinho. Fontes inesgotáveis de ternura o mantêm aquecido. E os pés que o percorrem são abençoados e acolhidos no amor.
Mas é muito sensível. Sempre pronto a sangrar, ao menor descaso. Como uma taça prestes a entornar, tudo o machuca e transborda.
A cada dia que passa mais ele se torna vulnerável. As desilusões o tornaram assim. Sofrido. Dilacerado. E, o pior de tudo, é que ele está se fechando. Já não quer outros pés aqui caminhando, aqui buscando luz e calor, para depois se ir subitamente, deixando-o vazio de amor e preenchido de velhas marcas de pegadas.
Porque quem se foi não se preocupou se estava deixando suas pegadas para sempre fixadas nesse piso de nuvens e amor.
E agora esse velho coração se confunde, doído e marcado, por tantas ingratidões que o atravessaram.
Quando caminhei pelos alheios corações talvez também tenha sido ingrata e saído sem me despedir, deixado marcas entristecidas da falta de carinho. Não foi intencional.
Mas acho que agora será difícil que voltem a caminhar nesse meu coração. Porque ele, cheio de amargura, se fecha para novos pés. Ainda que doces, leves e amorosos. Os caminhos se esgotaram.
(Imagem: foto de Maria Alice)


Desde cedo, devemos ensinar às crianças o essencial: que o Sol nasce a Leste e se põe a Oeste, que ao apontar a mão direita para o Leste, o rosto se volta para o Norte e as costas para o Sul.
Que a água de um rio sempre corre em direção ao mar, que a Lua desponta a Leste e se esconde a Oeste. E se não houver Lua, há uma estrela-guia, que aponta o Norte e revela a latitude.
Que quanto mais alta estiver a Estrela Polar no horizonte, mais longe estamos do Equador. E que, ao avistar um pássaro sobrevoando o mar, sabemos que há terra onde ele voa.
Ensine-os a respeitar e amar os animais, as árvores, a terra e os elementos que nos sustentam.
Que esses saberes venham antes de um celular, pois a tecnologia se apaga e o sinal se perde… mas a sabedoria, essa jamais será perdida.
Não deixemos que se perca essa conexão essencial.
(Imagem: banco de imagens Google)

O que seria da vida sem música? Mas Música de verdade, com M.
Estou assistindo, pela milésima vez, aos concertos do violoncelista Hauser – em Zagreb e em Pula, Croácia, sua terra natal.
Simplesmente encantador. Fascinante.
Você se deixa transportar e consegue ir junto com a melodia.
Orquestras maravilhosas. Músicos dedicados.
Não resta qualquer dúvida que a melhor música do mundo e os melhores profissionais são do leste europeu. Eles nasceram para a música verdadeira.
Logo que acabou a URSS eu fui conhecer o lado de lá da “cortina de ferro”. Lembro-me de uma tarde em Bratislava. Eu estava apaixonadamente encantada com aquele povo. Lindos, gentis, extremamente pobres em sua maioria. O comunismo saqueara e explorara o país e o povo. Quando acabou, quase nada restava aos habitantes locais, além da cultura que nunca deixaram de lado. Mas a vontade de refazer o país era grande e eles lutavam para o reerguerem. E o fizeram, sendo atualmente um país próspero. Mas estive lá em outro tempo: menos de um ano depois do “divórcio de veludo”.
Esse dia, de calma para ficar flanando na linda capital, pude presenciar turmas de crianças nos horários de entrada e saída da escola. Todos uniformizados, andavam pelas ruas e praças, carregando seu material escolar E um instrumento.
O que mais me chamou a atenção foi ver as crianças levando seus instrumentos musicais. Violões, flautas, violinos, celos, praticamente todos portavam um estojo de um instrumento. Ou seja, a música era matéria curricular do ensino fundamental.
Quase todos os grandes compositores imortalizados na arte pura da música erudita nasceram nessa região do continente Europeu. E os povos ainda cultivam a música naquelas paragens.
Basta assistir a um concerto e se entende o valor que dão à música. O público comparece massivamente ao local. Crianças pequenas, adolescente, jovens, adultos, idosos. Todos assistindo com atenção e educação. Valorizando a música como arte e expressão de união. Porque são as mesmas sete notas que compõem todas as melodias conhecidas. Todos os povos do mundo falam a mesma língua quando se trata de música. Há uma única escala, independe da sua representação.
Enquanto flutuo com a angelical música apresentada no concerto, tenho de suportar a modinha que algum vizinho obriga a todos escutarem, na sua festinha aqui no salão na frente de casa, mostrando a falta total de nível da educação que recebeu.
Esse é o lado triste da vida…
(Imagem: Hlavne Namestie, banco de imagens Google)
