Dia de poesia – Rosa Lobato Faria

Psiquiatra Passo Fundo
 Se eu morrer de manhã
 abre a janela devagar
 e olha com rigor o dia que não tenho.
  
 Não me lamentes. Eu não me entristeço:
 ter tido a morte é mais do que mereço 
 se nem conheço a noite de que venho.
  
 Deixa entrar pela casa um pouco de ar
 e um pedaço de céu
 –  o único que sei.
  
 Talvez um pássaro me estenda a asa
 que não sabe voar
 foi sempre a minha lei.
  
 Não busques o meu hálito no espelho.
 Não chames o meu nome que eu não venho
 e do mistério nada te direi.
  
 Diz que não estou se alguém bater à porta.
 Deixa que eu faça o meu papel de morta
 pois não estar é da morte quanto sei. 

Liberdade

Julho é o mês de pipa no céu | Kondzilla.com

Seu tamanho diminui a meus olhos conforme vou soltando a linha. Minha pipa, tão linda, voa longe. Presa a mim por um fio quase invisível, ela dança seu estranho balé, sobe, cai, flutua… e me encanta. Às vezes preciso corrigir seu rumo, ela, rebelde, cabeceia e tenta resistir. Entra em contradança com a rabiola e me faz sorrir.

Ela quer mais. Dou linha. Ela quer mais.

Na verdade, ela quer se soltar e seguir seu destino de liberdade. Não sabe – ingênua que é – o que a espera se for sozinha. Sua essência é ser pipa, estar ligada a mim por um fio e ser controlada para manter seu voo. Não voaria sozinha, apenas seria levada pelo vento e destroçada ao primeiro obstáculo.

Furiosa por não se soltar, ela cabeceia com força, olha-me com raiva. Eu relevo. Mesmo o filho mais rebelde, um dia se acomoda e volta manso ao ninho.

Dou-lhe toda a linha que tiver, toda a linha que ela quiser. Mas mantenho a outra ponta presa em mim. Não a abandonaria a sua própria sorte, para não ver sua ruína. Ela sobe mais um pouco.

Vê as nuvens se juntarem e escurecerem. A brisa, que a beijava e sustentava com carinho,  agora começa a se transformar num vento que a quer levar para longe. Ela teme a chuva, pois não sobreviveria à água.

Olha para mim desesperada, pedindo ajuda. Não vou começar a trazê-la de volta agora.

Ainda há sol, podemos brincar mais um pouco.

Com carinho eu a construí. Com um sonho eu a idealizei. Porque o sonho nos permite fazer tudo o que precisamos para a nossa felicidade. Eu a sonhei, com meu sonho de liberdade, então a fiz. Não a perderei tão fácil.

Puxo um pouco a linha e ela volta a dançar. Olho para ela, lá no alto, e os raios de sol tornam a linha completamente invisível. Parece que nesse momento ela está livre.

Sei de sua invencível vontade de liberdade. Essa liberdade que ela jamais terá.

Lágrimas escapam de meus olhos, ao pensar em meu próprio sonho de liberdade, que jamais realizarei. Com todo cuidado, entre minhas mãos mantenho seguro, junto do meu coração, esse fio que nos liga, e lentamente começo a recolher a linha antes da tempestade que se anuncia.

Na sua volta

 Não me fale de sua tristeza, 
 não descreva suas angústias nem seu cansaço 
 Quando você chegar, olhe nos meus olhos com alegria e
 traga notícias do mundo lá fora, de tudo o que não vi
  
 Quero saber das cores que através da janela 
 o amanhecer projetou na parede do seu quarto 
 E também se seus braços sentiram falta 
 de enlaçar meu corpo e me manter presa no seu
  
 Quero saber do viço das folhas das árvores depois da chuva
 Da algazarra dos pássaros voltando para os ninhos no entardecer
 Quero saber dos tons de ouro e fogo com que o sol 
 tingiu as águas do rio para esperar a noite chegar
  
 Não fale de sua tristeza, de suas angústias nem de seu cansaço 
 Quando você chegar, me abrace em silêncio
 Apenas se deite no meu peito e deixe que meu ventre acolha você 
 Que seja meu corpo o seu repouso e meu amor o seu descanso
(Pintura de Bruno Steinbach. “O Abraço, opus II") 

Hoje é dia de homenagear os imigrantes italianos

Um dia, eles concluíram que a única saída seria imigrar. Então eles vieram. Deixaram sua linda Pátria e vieram “fazer a América”. Trouxeram sua intensa religiosidade, seu forte senso de família, seus rígidos valores morais e sua dedicação ao trabalho, seja pesado, no cultivo da terra, seja sua habilidade artesanal. Trouxeram ainda toda sua alegria, instrumentos, músicas, rica culinária, vinho, grappa, os hábitos do café e do cigarro… plantaram na alma de cada um de nós, seus descendentes, uma paixão sem fim pela Itália. Hoje, no dia em que comemoramos sua coragem, publico um conto de minha autoria, que nos leva ao tempo dessa corrente humana rumo ao Brasil.

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O SOM DO ADEUS.

Há muitos anos não chovia tanto no outono. E o único jeito de chegar ao porto de Genova, era caminhando. Na chuva ou no sol. Era preciso caminhar. Quando a chuva apertava, a lama dificultava até tirar os pés do chão, eles se abrigavam em qualquer tapera ou loca, especialmente para que as trouxas não se encharcassem. E era tudo o que tinham. Porque venderam os outros bens – galinhas, xícaras, bules e enxadas. Tudo. O pouco que ficou era posto em trouxas de grosso tecido. E então seguiam até o porto. A pé. Genova era longe. Dias de distância. Noites dormidas nas beiras de caminhos, onde faziam uma roda em torno de si mesmos, crianças, moças e idosos no meio.                       

Antonella seguia firme, o coração apertado. Os pais ficaram na casinha de pedra esperando a morte. Os irmãos partiram antes, primeiro Giovanni, o mais velho. Que logo chamou os outros três mais novos, até Carlo, que sempre foi seu companheiro de vida. E com eles seguiu Luigi. Seu prometido. Ou seria ela a prometida?

E assim, andando dia após dia, o grupo chegou a seu destino.

Imponente, o vapor Matteo Bruzzo dominava a paisagem no porto de Genova.                       

Para Antonella e quase todos do grupo, era a primeira visão do mar.

Ela começou a chorar. E se prometeu que todas as vezes em que visse o mar, enxergaria seu lindo Rio Pó, que deixara para trás, para sempre.                       

Do bolso do casaco tirou, amassadas, as cartas do irmão Carlo e do amado Luigi. E, o bem mais precioso que possuía, a foto dos dois juntos, rindo, com a dedicatória que a esperavam na América, no Brasil, em São Paulo.       

Entraram no navio. Era simplesmente horrível a parte destinada aos mais de mil imigrantes pobres, lugar insalubre, mau cheiroso, onde ficaria nos próximos dias e noites. Antonella sentiu que começaria a chorar de novo, tinha apenas quinze anos, era a filha caçula do grupo de cinco irmãos e nunca mais veria os pais. Estava sozinha com um grupo de estranhos – vizinhos e conhecidos que também imigravam para tentar nova vida, longe da miséria e da guerra. Era muito triste fazer essa escolha. Mas seus pais não cabiam no seu futuro. Não tinham saúde para atravessar o Atlântico. Agora ela via que realmente não havia condição para sua mãe ficar naquele lugar, estava muito doente, não tinha muito tempo de vida. Ao menos morreria em casa, ao lado do marido e no seio da família, com as irmãs e primas cuidando dela. Sem os filhos. Mas sempre fora ela, a mãe, quem mais incentivara que partissem para buscar nova vida no Brasil.                       

Foi até o convés, e, aos poucos, a costa da amada Itália se desfazia no horizonte, quando, pela primeira, ouviu o verdadeiro som do adeus: o apito do navio que partia.

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Premio Eccellenza Letteraria, Milano, 2018 (Publicado na Coletânea Incontro Letterario a Milano – Oficina do Livro, São Paulo, 2018)

Texto de Martha Rivera-Garrido – Não te apaixones

Não te apaixones por uma mulher que lê, por uma mulher que sente demais, por uma mulher que escreve…

Não te apaixones por uma mulher culta, maga, delirante, louca.

Não te apaixones por uma mulher que pensa, que sabe o que sabe e além disso sabe voar; uma mulher segura de si mesma.

Não te apaixones por uma mulher que ri ou chora fazendo amor, que sabe transformar em espírito a sua carne; e muito menos te apaixones por uma que ame a poesia (essas são as mais perigosas), ou que fique meia hora contemplando uma pintura e não saiba viver sem a música.

Não te apaixones por uma mulher que se interesse por política e que seja rebelde e tenha um imenso horror com as injustiças.

Não te apaixones por uma mulher que não gosta de assistir televisão. Nem por uma mulher que é bonita, mas que não se importa com as características do seu rosto e do seu corpo.

Não te apaixones por uma mulher intensa, brincalhona, lúcida e irreverente.

Não queiras te apaixonar por uma mulher assim.

Porque quando te apaixonares por uma mulher como essa, jamais conseguirás ficar livre.

Memória – Há dois anos…

A água e o rio

Era como se fosse a primeira vez que via o rio. Mas, na verdade, todos os dias olhava para ele, andava em suas margens, atravessava suas pontes. Há muito tempo morava ali.

Olhou com encantamento toda aquela água que descia cantando, enchia o ar com seus sons, trazia de tudo – madeira, flores, lixo, e tudo o que encontrasse pelas margens.

Parou no meio da ponte. Havia algo diferente hoje. Não era o mesmo rio de sempre.

Não conseguia identificar o que estava mudado. Seus olhos eram os mesmos. Seus ouvidos também. O que havia de diferente no rio, que parecia ser a primeira vez que o via?

Recostou-se na amurada, e olhou a água que vinha. Tão límpida, tão decidida, sabia seu destino e se atirava com coragem e alegria. Descia em busca da foz. Nada a detinha.

Passava por baixo das pontes, por cima das pedras, contornava todos os obstáculos, mas sabia que chegaria a seu destino sem nada temer.

Depois atravessou a pequena ponte e olhou a água que ia.

Mansamente, sem atropelo nem angústia, ela seguia seu curso tranquilamente, levando em seu dorso as luzes do dia e as dores dos homens que do rio viviam e dele dependiam.

O rio sempre seguia. Dia e noite sem cessar, o rio fluía com a doçura de aceitar seu destino de seguir sempre até encontrar o mar.

Desceu até a beira do rio, e molhou as mãos. Sentou-se e ali ficou, pensando na vida, no dia que começara com tantos problemas. A briga em casa logo cedo. Decidiu ir embora para sempre. Chegou no emprego e encontrou tudo fechado, lacrado, os funcionários inquietos, nenhum responsável no local. Falaram em fraude fiscal. Não sabia o que aconteceria. Resolveu sair dali e ir caminhar.

À medida em que se afastava de casa e do emprego, sentia uma sensação desconhecida, como se outra pessoa estivesse surgindo em seu âmago.

Quando chegou na velha ponte que atravessava todos os dias, viu outro rio. Tudo era novidade. Começou então a entender que na verdade era uma nova pessoa. Rompera os grilhões de um relacionamento falido, estava fora de um emprego sufocante. Agora finalmente respirava o que os outros chamavam de liberdade.

Voltou perto da água e tornou a molhar as mãos para lavar o rosto. E entendeu que era uma nova água. A água que vira da ponte, a água em que molhara as mãos, eram outras águas. Essa em que agora tocava era uma nova água, que se renovava a cada instante. Porque não se deixava, jamais, aprisionar, e, uma vez passada, não voltava para passar novamente pelos mesmos obstáculos, pelas mesmas dificuldades. Apenas ia. Não parava nem voltava.

Olhou seu reflexo na água que seguia e compreendeu o destino de quem é livre.