Amor e liberdade

Eu não sei amar sem liberdade (Vinicius de Moraes)

MANDINGAS DE AMOR – 89FM PODCASTS

E quem sabe? Quem consegue amar sem liberdade? Como amar sem ser livre? Cassar a liberdade do outro em nome do amor é fácil, como se fosse possível alguém se adonar do outro. Mas ninguém aceita abrir mão da própria liberdade.

Não se abre mão da liberdade. Nem da vida. Nem do ar. Nem da alegria. Nem de nada em nome do amor. Dominar não é amar.

Convencionamos eternizar o amor. Vitaliciar a paixão recíproca. Se o amor empalidece, se a paixão esfria, ficam as cadeias sociais que obrigam à permanência encarcerada. E, assim,  sufocar qualquer tendência à liberdade.

Convencionamos condenar a liberdade, como se fosse um mal.

Liberdade é a essência do ser humano. Liberdade é o termômetro do amor.

Se amamos, assim o fazemos por sermos livres para amar.

Não amamos compulsoriamente. Não sabemos amar por obrigação. Sequer amamos quem queremos. Um dia, simplesmente, descobrimos o amor brotado em nossa alma. E amamos. Sem medidas, sem limites.

Mas isso não pode ser o fim de nossa liberdade. Porque o amor não sobreviveria ao cativeiro.

Só ama quem é livre para amar.

E, o mais lindo do amor, é exatamente que, dentre todas as pessoas do mundo, amamos especialmente aquela determinada pessoa.

Amar não é perder as asas nem renunciar aos sonhos. Mesmo amando continuamos alados, e, se não voamos só, é porque queremos ficar. Não queremos partir em voo solo, preferimos compartilhar o ninho, os sonhos, os voos.

E, se temos a sorte de sermos correspondidos, com toda a liberdade de ir embora, ficamos.

Ficamos porque temos a liberdade de ir embora. Mas, se amamos, a liberdade nos permite permanecer.

É, portanto, necessário ser livre para poder amar.

Dia de poesia – Gonçalves Dias – I Juca Pirama

I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias: resumo, análise e sobre o autor - Cultura  Genial

Sempre fui uma pessoa de coragem. Não pude, nunca, ser covarde ou demonstrar medo. Esse poema sempre foi – desde minha infância – um de meus prediletos, mostrando o total desprezo pelos covardes. Trata-se da narrativa, por um velho índio Timbira, da saga de um guerreiro Tupi, que foi feito prisioneiro e implorou pela própria vida. A maldição é lançada pelo pai do guerreiro considerado covarde. “I juca pirama”, ou “aquele que deve morrer”. Um poema forte, de rara beleza.

I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias: resumo, análise e sobre o autor - Cultura  Genial

“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.
“Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!”
“Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.”
“Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas como asco e terror!”

(Gonçalves Dias – Últimos Cantos)

(Imagem – banco de imagens Google)

De passagem

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Veio com brisa tão leve

– Uma pluma a flutuar

Não tinha nenhum destino

Só um desejo: passar

E como se fosse um beijo

Roubado sem um abraço

Deixou o rastro apertado

De um nó onde fora laço

Se não podia ficar

Se era só de passagem

Por que ficou tanto tempo

Antes de seguir viagem?

Não há antes nem depois

Só o instante da magia

Daquele beijo furtivo

Mas dado com maestria

Uma passagem tão breve

Deixou a fieira de pena

Que traz de volta a saudade

Ao sentir a brisa serena

Passou o tempo cruel

E o trinco da madrugada,

Chegado o fim do caminho

Então não resta mais nada

(Imagem Wattpad)

Memória do blog – Alma cativa

O homem é uma prisão em que a alma permanece livre. (Victor Hugo)

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Uma alma aprisionada sonha com a liberdade de ir. Ir a qualquer lugar, perto, longe, outro país, outro planeta.

Mas ir.

Porque às vezes se chega a um ponto que não dá mais para ficar.

E a alma, livre por natureza e vocação, sofre com as grades que a cercam que a limitam, que a aprisionam.

Aprisionada ela não é mais alma, como um pássaro cativo que perde sua natureza de pássaro e canta de desespero e não de alegria.

Ir a lugares novos, nunca vistos nem visitados, desde a alma de outras pessoas até outros mundos bem distantes.

E voltar aos lugares onde viu a felicidade, onde encontrou o prazer. Rever lugares onde nunca esteve, mas sonhou e sabe que existe.

Ir novamente às melhores paisagens, aos mais caros rincões cuja existência ninguém mais conhece, mas que por ter estado lá nunca pode esquecer.

Voltar a um momento tão distante, tão passado, tão fugaz, mas que ficou vivo na alma como brasa na carne.

E assim, presa, sonha com a liberdade que também nunca teve.

Triste sina das almas que não são livres.

Triste vida das pessoas que se deixam aprisionar.

(Imagem Pinterest)

Navegando

Quando você fez de mim o seu barco

E em mim você navegou por novos mares

Em meio às ondas onde o levei eu fui tão feliz

Mas chegados dias tristes dos temporais

Que a vida então nos trouxe e nos pegou em pleno mar

Naufragamos e nos perdemos de nós mesmos

Então, ao longe, você foi meu farol

E me deu toda a segurança

Guiando meu novo solitário navegar

Para que eu sobrevivesse e

Conseguisse enfim respirar

E pudesse recomeçar

Depois, na sua vez de chegar, eu me tornei o seu cais

Deixei que em mim você atracasse

Colocando um ponto final na sua busca

Quando você enfim chegou a seu velho porto

Dei-lhe, novamente, com alegria minha mão

Para, juntos, à vida retornarmos

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – A porta

Sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Não há nada no mundo
Mais viva que uma porta

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado

Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão

Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Eu fecho tudo no mundo
Só vivo aberta no céu!