E por falar em corona

Os alarmistas de plantão se babam de alegria ao verem os índices atualizados de propagação do novo corona vírus.

Poucos tinham o hábito da internet nas anteriores formas de disseminações de “tão terrível” vírus. E não liam jornais. E televisão só servia para ver novela. Portanto, não sabem que o corona pertence a uma grande família viral, conhecida desde meados de 1960. E não se lembram do SARS e do MERS, respectivamente em 2002 e em 2012.

Para a grande maioria, corona era marca de ducha, não passava de “um banho de alegria num mundo de água quente”.

Ou se esqueceram ou não escutaram o estrondo do trovão e agora se assustam com um simples traque.

E não percebem que não morreram em duas epidemias causadas por vírus da mesma família, da qual esse “novo corona” é o que tem menos gravidade. Sua ação se equipara a um resfriado comum e leve. Exceto para o grupo de risco – idosos e pessoas com problemas que causam baixa imunidade.

E não há necessidade de correr para o hospital para exames preventivos. Nem andar de máscara.

Talvez um pouco de bom senso. Há instruções do Ministério da Saúde? Siga-as.

Tem dúvidas? Converse com seu médico de confiança.

Está apavorado? Olhe para dentro de você e veja o que, na verdade, está causando o pavor. Porque não é um vírus que causa menos que uma gripe que vai matar toda a população do mundo.

O povo anda meio carente de tragédias, grandes desastres e epidemias tipo gripe espanhola. Não tem heróis no presente nem perspectivas de futuro. Então busca no passado uma desgraça para justificar pânico no presente e pavor do futuro.

Quando essa situação acabar, vamos comparar, no mesmo período, o número de mortos pelo novo coronavirus aqui no Brasil, com as vítimas do sarampo, da dengue, da violência urbana e dos acidentes de trânsito…

Aos pares

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Pássaros livres, voando aos pares

Que assim escolheram viver, a dois.

A paixão que os liga e mantém juntos

Vive o agora, não pensa no depois

 

Fiéis um ao outro e a si mesmos

Voam leves e fugazes no infinito

Brincam com a vida, sempre felizes

 

Nada os preocupa nem tolhe

Suas asas lhe garantem o viver

Até que os separa a cruel pontaria

 

E vê cair, indefesa, de inopino

A companheira, no voo abatida,

Pela pedra do moleque do destino

O tempo, o vento e o riacho

Na vida somos tempo, vento e riacho.

Porque há diferença no nosso agir, de acordo com as circunstâncias e as pessoas com as quais nos relacionamos. Com mais ou menos sentimentos, com mais ou menos intensidade, tudo depende do momento vivido.

Quando apenas passamos, indiferentes, somos tempo. Nada nem ninguém pode nos conter e poucos se dão conta de nossa passagem. Depois que já estamos longe, perplexos, perguntam-se por que nos fomos tão rápido, não nos detivemos um segundo sequer a mais diante do belo, do agradável, do que dá prazer. Mas somos o tempo – não podemos parar e seguimos rumo à eternidade.

Também somos vento.

Vento porque passamos tirando muita coisa do lugar, mostrando cantos que estavam perdidos no meio do pó acumulado de vidas desperdiçadas, passamos varrendo as folhas mortas, limpando os caminhos, bagunçando o cabelo das meninas e as saias das mulheres. Esvoaçamos em todas as direções, sem leme nem bússola. Levamos os papéis que estavam esquecido sobre as mesas. Sujamos de terra e areia as roupas estendidas nos varais, batemos portas e janelas com estrondo. Todos percebem nossa passagem, quando se dão conta que nada mais é como era antes de passarmos; mas nada nem ninguém pode nos conter. O vento nunca se detém nem para, apenas venta e segue seu destino.

E, outras vezes, somos riacho. Encontramos nossos semelhantes, com os quais cruzamos e por vezes caminhamos juntos alguns trechos e depois cada qual segue seu destino. Uns se perdem e secam pelo caminho. Outros aproveitam todas as chuvas e nascentes e se fortalecem. Seguem em correnteza volumosa, levando consigo tudo que conseguem alcançar, extrapolam seus limites, tornam-se rios. Por vezes se deixam até mesmo navegar. Mas não param. Nada pode contê-los – no máximo, represá-los temporaria e parcialmente, mas as comportas têm de ser abertas – seja pela partida em busca de outras oportunidades, seja pela separação, seja pela vontade de seguir seu próprio destino sem cordas nem anilhas. E seguem, com suas margens alargadas, cumprindo sua sina, que é morrer no mar.

Somos tudo isso. Simultaneamente. Destinos marcados e solitários. Por isso a inutilidade das preocupações e da ansiedade – seremos, apenas e sempre, – o deslocamento no caminho que nos leva do nascimento à morte.

Dia de poesia – Miguel Carlos Vitaliano – Esperança

Quando o primeiro frio se aproximava

    ela me deu um cobertor e disse

          que viria me aquecer.

          Eu fiquei esperando,

    mas o primeiro frio chegou

              e ela não veio.

 

          E estava por vir o segundo frio

quando ela ligou pedindo para esperá-la.

                Botei lenha na lareira

                 e aqueci chocolate,

mas o cheiro bom da saudade que pairava no ar

       me fez entender que ela não viria.

 

            No frio daquele ano,

                  o terceiro,

        eu pedi que ela viesse.

          Prometeu que sim.

       Comprei vinho do bom

             e discos de jazz,

           mas, mais uma vez,

            ela se fez ausente.

 

Quando o inverno do quarto ano chegou

                    não nos falamos.

              Uma réstia de esperança

             botou-me frente à janela

               espiando o horizonte

          pensando que, talvez, ela

       pudesse me fazer uma surpresa.

               Mas nada aconteceu.

 

    Agora, o quinto frio se prenuncia.

   Vez em quando olho pro cobertor

                 que ela me deu e,

         com uma certa apreensão,

espio a esperança pela fresta da janela.

 

 

 

 

Beatriz

Noite adiantada, encerrando expediente de repente escuto a música. Corro procurá-la no YouTube. Fecho os olhos e volto no tempo mais de trinta anos. E percebo que algumas vezes fui feliz. Muito feliz.

Só compensa voltar ao passado se for para lembrarmos as horas felizes, gratificantes, as pessoas maravilhosas que estiveram conosco, ainda que tenham ficado, por qualquer motivo, na névoa do que passou. Lembranças esmaecidas mas que trazem prazer quando ressurgem.

E, uma das formas que mais me trazem o passado que gosto de ter por perto, é exatamente ouvindo músicas. Minha vida tem sua própria trilha sonora. As pessoas que amei se transformaram em músicas. Os acontecimentos que me marcaram se tornaram sons.

E, de repente, ouço Beatriz. Da trilha sonora da peça Circo Místico, letra do Chico Buarque e música de Edu Lobo.

Lembranças tão vívidas de quem já partiu. Sons que sopraram cinzas da memória e trouxeram recordações de tempos felizes.

Viver é isso: esquecer o que machucou e, de vez em quando, recordar o que nos alegrou um dia.

Porque na nossa vida tudo passa. O tempo, que leva tudo de ruim embora, também leva o bom…

E fica a saudade, e ficam as lembranças, despertadas subitamente por um som, uma canção, um toque, uma voz, um cheiro…

Por isso a vida vale a pena – somos capazes de experimentar a felicidade e depois viver das migalhas de suas lembranças…

Dia da mulher – Mulher é bicho esquisito

 

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Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)

Mulher é bicho esquisito… já dizia a musiquinha antiga!

Mas que é esquisito, isso é mesmo.

Nas relações pessoais – familiares, afetivas, de amizade; nas relações profissionais, e, principalmente, nas relações consigo mesma. Aí a coisa ferve.

A mulher não se veste, se enfeita. E para quem? Na verdade, para si mesma. Ainda que ela tenha a necessidade da aprovação de outras mulheres, no fundo ela quer a própria aprovação. E quanto mais exigente e auto-crítica ela é, mais difícil essa aprovação.

Da hora em que sai da cama para escovar os dentes até dar início ao dia precisa de muito tempo.

A começar do banho: primeiro limpa a pele do rosto, examina minuciosamente a pele do rosto, as sobrancelhas, tira os excessos com a pinça, escova bem os cabelos, lixa as unhas e aí entra no banho.

Sabonete facial, sabonete corporal, esponja para as pernas, escova para as costas, pedra para os pés, fora as várias fases da lavagem dos cabelos.

Quando consegue sair do banho e se enxugar, começa a sessão dos mil-cremes e do indispensável nem-pensar-em-esquecer perfume.

E toma secador, e toma fixador e faz a maquiagem básica do dia-a-dia. Pronto, lá se foi mais de uma hora.

Chega a hora mais temida: de frente para o espelho, tem início o tira-e-põe de roupas. Uma está larga, a outra apertada, esta-a-cor-não-está-mais-usando, aquela-eu-já-usei-na-semana-passada….. quando a montanha de roupa tirada soterra a cama e a poltrona, pega qualquer uma, porque já está atrasada mesmo, veste correndo, dá uma olhadinha para ver se nada está marcando, coloca uns enfeitinhos, brinco, anel etc., escolhe uma bolsa e sapatos combinando e sai.

[aqui um parêntesis para uma lenda da necessidade da mulher fazer tudo isso: No início só existiam flores. Muitas, lindas, coloridas, perfumadas.

Mas – toda lenda tem um mas – algumas flores se revoltaram porque ficavam presas às raízes e foram questionar o Criador, querendo liberdade. Aí foi feito um trato: em troca do perfume elas poderiam se soltar. Aceitaram. E surgiram as borboletas: lindas, coloridas – sem perfume – mas

que podiam ir e voltar livremente, mas nunca se esqueceram das irmãs e por esse motivo sempre ficam rodeando as flores.

Mas – o segundo mas da lenda – um grupo delas não ficou satisfeito. Foram ao Criador questioná-lo o porque de serem tão pequenas, queriam ser criaturas grandes, mais visíveis. Em troca das cores, aceitaram o acordo e surgiu a mulher – grande, sem cor e sem perfume.

Por isso as mulheres se vestem e se enfeitam com cores e usam perfumes para lembrarem as flores que foram um dia.]

Pouco se importa se os homens a observam ou não, mas está preocupadíssima com o que vai pensar a amiga que a espera para o almoço ou a colega da mesa ao lado.

E vai com aquela cara de casual, de quem se levantou da cama correndo, pegou qualquer coisinha do armário e saiu sem se preocupar com a aparência.

Mulher é assim mesmo, esquisita.

Expressões

Usamos expressões populares sem nos darmos conta de seu real significado.

Assim, por exemplo, quando você fala que vai “Tirar uma soneca”. Tirar de onde? Da carteira, da bolsa? Tirar de quem? No máximo você vai dormir um pouco. Mas não vai tirar nada de ninguém.

E “Pregar uma peça”? pregar que peça? De carro, de roupa? Pregar onde, na parede, na porta? O que acontece é que você vai fazer alguém de bobo e se divertir por isso. Sem pregar nada em lugar nenhum.

Algumas pessoas dizem que vão aproveitar o final de semana para “Pegar uma praia”. Como assim? Pegar a praia e colocar em que lugar? Não podem simplesmente ir à praia e a aproveitar lá mesmo onde ela está?

Outros dizem que vão “Puxar uma palha”, mas a única coisa que fazem é ir dormir sem puxar nada.

Também quem costuma “Rodar a baiana” – nem rodar nem baiana. Apenas provocar um escândalo, constranger os outros com comportamento descontrolado. Não roda ninguém.

Há ainda pessoas que vivendo falando em “Fazer uma vaquinha” – na verdade, vão pedir dinheiro para outras pessoas. Sem nenhuma contraprestação. E não tem vaca nem vaquinha no meio. É quase extorsão.

Às vezes se ouve que alguém saiu tão nervoso, querendo “Comprar briga”. Pergunto: onde vende briga? Para que sair e gastar, se pode brigar de graça em casa, sem comprar nada?

Alguns vão à praia “pegar onda”. Mas o que se vê, na verdade, é a onda pegando todos. Nunca vi ninguém saindo do mar levando uma onda que pegou, mas já vi pessoas sendo levadas para o mar pela onda que as pegou…