Semana Inesquecível Vinicius – 6 – Samba em Prelúdio

Mais que um samba, mais que um poema – uma carícia

Eu sem você
Não tenho porque
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar
Eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você meu amor
Eu não sou ninguém.

Ai, que saudade
Que vontade de ver renascer
Nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos seus
Seus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinho
Tenhos os olhos cansados de olhar
Para o além
Vem ver a vida
Sem você meu amor
Eu não sou ninguém

Semana Inesquecível Vinicius – 5 – Canção para a amiga dormindo

É claro que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo E tenho tudo para ser feliz.

Mas acontece que eu sou triste… (Dialética)

Conheci Vinícius na aula de português da 7ª série, ou seja, 18 anos depois de sua morte. Minha reação foi bem viniciana: me apaixonei perdidamente na hora por aquele poeta. Assim ele era: a palavra certa e sensível com intensidade sempre constante.

Poeta e diplomata, por muito tempo Vinícius viveu entre as duas profissões, até que a música e a poesia falaram mais alto. Vinícius cantava e recitava o amor, um amor total, como em seu soneto um amor amigo, aquele que é “nunca perdido, sempre reencontrado”; um amor à vida: repleta de separações onde o “riso se faz pranto”; de desesperanças, que devem ser mortas; de desigualdades, onde o próprio operário se vê em construção.

Vinícius era um bon vivant, teve o privilégio de viver de poesia e vivenciar tudo o que queria até o fim (o que inclui nove casamentos, cinco filhos, centenas de amigos, milhares de admiradores). Sua fidelidade era à vida, aos amores diversos, ao copo de uísque. Deixa como legado um olhar leve e intenso, uma rima perfeita, um carinho por onde passa. Se seria mesmo o amor “eterno enquanto dure” como ele mesmo dizia, certamente Vinícius é um imortal.” (Lígia Pinheiro Paganini)

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Canção para a amiga dormindo

Uma paz imensa

Dorme, amiga, dorme

Teu sono de rosa

Uma paz imensa

Desceu nesta hora.

Cerra bem as pétalas

Do teu corpo imóvel

E pede ao silêncio

Que não vá embora.

 

Dorme, amiga, o sono

Teu de menininha

Minha vida é a tua

Tua morte é a minha,

Dorme e me procura

Na ausente paisagem…

Nela a minha imagem

Restará mais pura.

 

Dorme, minha amada

Teu sono de estrela

Nossa morte, nada

Poderá detê-la.

 

Mas dorme, que assim

Dormirás um dia

De um sono sem fim…

Na minha poesia.

 

 

 

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Semana Inesquecível Vinicius – 4 – Receita de mulher

Prosseguindo a homenagem ao Poetinha, lembro aqui sua Poética II:

Com as lágrimas do tempo

E a cal do meu dia

Eu fiz o cimento

Da minha poesia…

Diz minha mãe que, já naquela época, a angústia da liberdade devia afligir Vinicius, pois fugia constantemente, iludindo a vigilância da vovó Neném, minha mãe, dias tias e das inúmeras negrinhas, descendentes de antigas escravas da família e crias da casa. Vinicius, nesse tempo, andava sempre vestido com camisolões brancos de flanela, por sua bronquite, o que dava uma aparência de anjo.

Vinicius teria sido um menino normal, como tantos outros, não fora sua capacidade de imaginação, sua confiança em seu talento próprio e seu fabuloso instinto de mistificação.

Vinicius andava então pelos cinco anos.

Nessa idade sucumbiu, pela primeira vez, às graças femininas na pessoa de uma amiga de minha mãe, moça bonita e dona de lindas pernas, que Vinicius conseguiu, certa vez, e escondido debaixo da mesa, sorrateiramente alisar. Foi, no entanto, aos oito anos, que experimentou o seu primeiro amor. E daí por diante, sua vida não foi mais do que a busca da mulher amada, a cuja beleza física e perfeição interior dedicaria praticamente toda sua obra poética.

(Vinicius, meu irmão – Lætitia Cruz de Moraes)

As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso 
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture 
Em tudo isso (ou então 
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). 
Não há meio-termo possível. É preciso 
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito 
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto 
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. 
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche 
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso 
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas 
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços 
Alguma coisa além da carne: que se os toque 
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos 
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro 
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e 
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então 
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca 
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência. 
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos 
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas 
No enlaçar de uma cintura semovente. 
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras 
É como um rio sem pontes. Indispensável 
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida 
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios 
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca 
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas. 
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal 
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! 
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas 
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem 
No entanto sensível à carícia em sentido contrário. 
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio 
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) 
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos 
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão 
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre 
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos 
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face 
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior 
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras 
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes 
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e 
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão 
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta 
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. 
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos 
Ao abri-los ela não mais estará presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá 
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber 
O fel da dúvida. Oh, sobretudo 
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo 
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade 
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma 
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre 
O impossível perfume; e destile sempre 
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto 
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina 
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição 
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Semana Inesquecível Vinicius – 3 – Para viver um grande amor

Continuando nossa semana em homenagem ao poeta Vinicius de Moraes, nascido em 19 de outubro.

“… Sou carioca da Gávea, bairro amado de onde nunca deveria ter saído. Fui, sou e serei casado. E apesar do que se diz, não me acho tão mau marido. Filhos: três e um a caminho. Altura: um metro e setenta. Meão, pois. O colarinho: trinta e nove e o pé quarenta. Peso: uns bons setenta e três (precisam ser reduzidos…)…” – Vinicius, por Vinicius

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… – não tem nenhum valor. 

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro – seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada – para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o “velho amigo”, que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor. 

Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade – para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.  Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô – para viver um grande amor. 

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor. 

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista – muito mais, muito mais que na modista! – para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor… 

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs – comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor? 

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto – pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente – e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia – para viver um grande amor. 

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que – que não quer nada com o amor. 

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada – para viver um grande amor.

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Soneto do amigo (Inesquecível Vinicius, 02)

Continuando nossa Semana Inesquecível Vinicius, trago hoje um singelo soneto, mas que diz tanto sobre a amizade e a lealdade, sentimentos que transbordavam no grande Poetinha.

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

Inesquecível Vinicius

O sagrado dia 19 de outubro se aproxima. Nasceu, nesse dia, aquele que cantaria o amor, a paixão, o compromisso com o viver feliz.

O poeta maior, nosso inesquecível Vinicius de Moraes. Inicio, aqui, hoje, minha “Semana Inesquecível Vinicius”, e, em vários dos próximos dias, esse espaço será dedicado a sua poesia, a sua música, a seus textos.

Vinicius, meu professor de amor.