Dia de poesia – Miguel Carlos Vitaliano – Esperança

Quando o primeiro frio se aproximava

    ela me deu um cobertor e disse

          que viria me aquecer.

          Eu fiquei esperando,

    mas o primeiro frio chegou

              e ela não veio.

 

          E estava por vir o segundo frio

quando ela ligou pedindo para esperá-la.

                Botei lenha na lareira

                 e aqueci chocolate,

mas o cheiro bom da saudade que pairava no ar

       me fez entender que ela não viria.

 

            No frio daquele ano,

                  o terceiro,

        eu pedi que ela viesse.

          Prometeu que sim.

       Comprei vinho do bom

             e discos de jazz,

           mas, mais uma vez,

            ela se fez ausente.

 

Quando o inverno do quarto ano chegou

                    não nos falamos.

              Uma réstia de esperança

             botou-me frente à janela

               espiando o horizonte

          pensando que, talvez, ela

       pudesse me fazer uma surpresa.

               Mas nada aconteceu.

 

    Agora, o quinto frio se prenuncia.

   Vez em quando olho pro cobertor

                 que ela me deu e,

         com uma certa apreensão,

espio a esperança pela fresta da janela.

 

 

 

 

Beatriz

Noite adiantada, encerrando expediente de repente escuto a música. Corro procurá-la no YouTube. Fecho os olhos e volto no tempo mais de trinta anos. E percebo que algumas vezes fui feliz. Muito feliz.

Só compensa voltar ao passado se for para lembrarmos as horas felizes, gratificantes, as pessoas maravilhosas que estiveram conosco, ainda que tenham ficado, por qualquer motivo, na névoa do que passou. Lembranças esmaecidas mas que trazem prazer quando ressurgem.

E, uma das formas que mais me trazem o passado que gosto de ter por perto, é exatamente ouvindo músicas. Minha vida tem sua própria trilha sonora. As pessoas que amei se transformaram em músicas. Os acontecimentos que me marcaram se tornaram sons.

E, de repente, ouço Beatriz. Da trilha sonora da peça Circo Místico, letra do Chico Buarque e música de Edu Lobo.

Lembranças tão vívidas de quem já partiu. Sons que sopraram cinzas da memória e trouxeram recordações de tempos felizes.

Viver é isso: esquecer o que machucou e, de vez em quando, recordar o que nos alegrou um dia.

Porque na nossa vida tudo passa. O tempo, que leva tudo de ruim embora, também leva o bom…

E fica a saudade, e ficam as lembranças, despertadas subitamente por um som, uma canção, um toque, uma voz, um cheiro…

Por isso a vida vale a pena – somos capazes de experimentar a felicidade e depois viver das migalhas de suas lembranças…

Dia da mulher – Mulher é bicho esquisito

 

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Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)

Mulher é bicho esquisito… já dizia a musiquinha antiga!

Mas que é esquisito, isso é mesmo.

Nas relações pessoais – familiares, afetivas, de amizade; nas relações profissionais, e, principalmente, nas relações consigo mesma. Aí a coisa ferve.

A mulher não se veste, se enfeita. E para quem? Na verdade, para si mesma. Ainda que ela tenha a necessidade da aprovação de outras mulheres, no fundo ela quer a própria aprovação. E quanto mais exigente e auto-crítica ela é, mais difícil essa aprovação.

Da hora em que sai da cama para escovar os dentes até dar início ao dia precisa de muito tempo.

A começar do banho: primeiro limpa a pele do rosto, examina minuciosamente a pele do rosto, as sobrancelhas, tira os excessos com a pinça, escova bem os cabelos, lixa as unhas e aí entra no banho.

Sabonete facial, sabonete corporal, esponja para as pernas, escova para as costas, pedra para os pés, fora as várias fases da lavagem dos cabelos.

Quando consegue sair do banho e se enxugar, começa a sessão dos mil-cremes e do indispensável nem-pensar-em-esquecer perfume.

E toma secador, e toma fixador e faz a maquiagem básica do dia-a-dia. Pronto, lá se foi mais de uma hora.

Chega a hora mais temida: de frente para o espelho, tem início o tira-e-põe de roupas. Uma está larga, a outra apertada, esta-a-cor-não-está-mais-usando, aquela-eu-já-usei-na-semana-passada….. quando a montanha de roupa tirada soterra a cama e a poltrona, pega qualquer uma, porque já está atrasada mesmo, veste correndo, dá uma olhadinha para ver se nada está marcando, coloca uns enfeitinhos, brinco, anel etc., escolhe uma bolsa e sapatos combinando e sai.

[aqui um parêntesis para uma lenda da necessidade da mulher fazer tudo isso: No início só existiam flores. Muitas, lindas, coloridas, perfumadas.

Mas – toda lenda tem um mas – algumas flores se revoltaram porque ficavam presas às raízes e foram questionar o Criador, querendo liberdade. Aí foi feito um trato: em troca do perfume elas poderiam se soltar. Aceitaram. E surgiram as borboletas: lindas, coloridas – sem perfume – mas

que podiam ir e voltar livremente, mas nunca se esqueceram das irmãs e por esse motivo sempre ficam rodeando as flores.

Mas – o segundo mas da lenda – um grupo delas não ficou satisfeito. Foram ao Criador questioná-lo o porque de serem tão pequenas, queriam ser criaturas grandes, mais visíveis. Em troca das cores, aceitaram o acordo e surgiu a mulher – grande, sem cor e sem perfume.

Por isso as mulheres se vestem e se enfeitam com cores e usam perfumes para lembrarem as flores que foram um dia.]

Pouco se importa se os homens a observam ou não, mas está preocupadíssima com o que vai pensar a amiga que a espera para o almoço ou a colega da mesa ao lado.

E vai com aquela cara de casual, de quem se levantou da cama correndo, pegou qualquer coisinha do armário e saiu sem se preocupar com a aparência.

Mulher é assim mesmo, esquisita.

Expressões

Usamos expressões populares sem nos darmos conta de seu real significado.

Assim, por exemplo, quando você fala que vai “Tirar uma soneca”. Tirar de onde? Da carteira, da bolsa? Tirar de quem? No máximo você vai dormir um pouco. Mas não vai tirar nada de ninguém.

E “Pregar uma peça”? pregar que peça? De carro, de roupa? Pregar onde, na parede, na porta? O que acontece é que você vai fazer alguém de bobo e se divertir por isso. Sem pregar nada em lugar nenhum.

Algumas pessoas dizem que vão aproveitar o final de semana para “Pegar uma praia”. Como assim? Pegar a praia e colocar em que lugar? Não podem simplesmente ir à praia e a aproveitar lá mesmo onde ela está?

Outros dizem que vão “Puxar uma palha”, mas a única coisa que fazem é ir dormir sem puxar nada.

Também quem costuma “Rodar a baiana” – nem rodar nem baiana. Apenas provocar um escândalo, constranger os outros com comportamento descontrolado. Não roda ninguém.

Há ainda pessoas que vivendo falando em “Fazer uma vaquinha” – na verdade, vão pedir dinheiro para outras pessoas. Sem nenhuma contraprestação. E não tem vaca nem vaquinha no meio. É quase extorsão.

Às vezes se ouve que alguém saiu tão nervoso, querendo “Comprar briga”. Pergunto: onde vende briga? Para que sair e gastar, se pode brigar de graça em casa, sem comprar nada?

Alguns vão à praia “pegar onda”. Mas o que se vê, na verdade, é a onda pegando todos. Nunca vi ninguém saindo do mar levando uma onda que pegou, mas já vi pessoas sendo levadas para o mar pela onda que as pegou…

Mulher

Mês da mulher. Semana da mulher. Dia da mulher…

Isso faz pensar. Procurar uma razão.

Será que precisamos – nós, mulheres – de tudo isso? Eu nasci mulher, então sempre foi natural e normal ser mulher. Todo esse mimimi torna esquisito não achar que ser mulher é algo extraordinário…

E o que há de tão diferente em ser mulher? Oras, nada. Apenas não ser homem.

Mulher é complicadamente simples ou simplesmente complicada?

Mulher é encantadoramente linda ou lindamente encantadora?

Mulher é femininamente sedutora ou sedutoramente feminina?

Mulher é tudo isso e mais um pouco.

Porque mulher é mais que doçura, maternidade, saltos altos e unhas pintadas. Cada mulher é um universo em si mesma. E deve ser desvendada para ser amada.

Os homens que pensam entender as mulheres são os que mais erram. E aqueles que tem mais medo de errar com as mulheres estão sempre acertando.

E, por mais paradoxal que possa parecer, homens e mulheres estão, nessa vida, perseguindo o mesmo objetivo: encontrar o verdadeiro amor e viver em paz. O resto é consequência.

E quando se encontram, se amam e se completam, ou melhor, se transbordam, não se preocupam com noite do homem nem com dia da mulher.

Tive por meus todos os dias da minha vida, por isso não me fez a menor diferença quando inventaram essa pataquada de dia da mulher, que atualmente já se transformou em semana da mulher.

Portanto, com ou sem dia próprio, eu celebro a vida e o viver todos os dias.

Dia de Poesia – Cândido Arouca – Para sempre

Quando dissemos que era para sempre não precisámos de assinar um papel,
de jurar fidelidade,
até que a morte nos separe!
Quando dissemos que era para sempre jurámo-lo com o olhar,
selámo-lo com um beijo.
Eu dentro de ti,
tu receptiva à minha penetração!
Há lá jura melhor!
Contrato algum tem mais valor?
E não foi um “para sempre” dito da pele para fora.
Foi um “para sempre” vindo do coração,
que percorreu todas as artérias,
todas as veias,
todos os capilares.
Que aflorou a cada um dos poros e desaguou nas nossas bocas.
Não fizemos juras,
não prometemos nada,
não exigimos impossíveis,
não fizemos pactos,
não imitamos padrões.
O nosso compromisso assenta apenas numa premissa;
que hoje não nos amamos o suficiente,
que amanhã nos vamos amar mais,
e assim sempre,
todos os dias da nossa vida.»