dengue X covid

Pavor com coronavírus cresce, mas o perigo maior está em nosso ...

Minha amiga me manda uma mensagem – está com dengue.

A cidade está com mais de 20.000 casos de dengue. Mas não importa. A doença é nativa, baixa letalidade, e não há verbas extras para seu combate. Ninguém ganha nas costas do mosquito da dengue.     

E, no mesmo período, são 12.000 casos de covid19. Esse dá holofotes. Dá verbas para serem gastas sem licitação. É uma doença importada da china, média letalidade. Muitos ganham nas costas do coronavírus.     

Fique em casa. Continue em casa. É para seu bem.     

Mais de 2.000 empresas já fecharam as portas definitivamente nesta cidade. Não é pouco. As cadeias produtora e empregatícia se ressentem. Há um inevitável efeito dominó. Quatro meses de isolamento horizontal. Tudo fechado.     

Quem sai é obrigado a portar máscara.     

E chegamos à conclusão que as recomendações, medidas, portarias, decretos dos governos estaduais e municipais, as máscaras e o isolamento não surtiram efeito. Porque a peste continua atacando.     

E contra a dengue, o que se faz? Não há decretos, portarias, medidas, absolutamente nada.     

O mosquito da dengue reina soberano nos domínios da cidade. Faz vítimas e mais vítimas. Ninguém nota, porque alunos e professores não faltam às aulas por causa da dengue – TODAS as escolas estão fechadas há mais de 120 dias.     

As pessoas não faltam do trabalho por causa da dengue. As lojas, empresas, prestadoras de serviços, e tudo o mais está fechado. 

Ou seja, não está fazendo a menor diferença se tem gente com dengue ou morrendo de dengue.

Mas que morra em casa. Porque, se for para o hospital, fatalmente vai morrer de covid. Basta ler a lista diária dos mortos: …, 82 anos, diabetes, neoplasia / …, 74 anos, diabetes, doença pulmonar / …, 72 anos, doença renal crônica / …, 68 anos, doença neurológica …    

Ou seja: qual morreu de covid? Nenhum. Podiam estar COM covid quando morreram, mas as comorbidades que mataram.     

E a dengue, qual a desculpa?     

Terrenos sujos, canteiros de avenidas cheios de mato, caçambas, lixo, depósitos, tudo com água parada.

Sem falar nos imundos quintais particulares. E nas dezenas de depósitos de ferro velho.     

Mas tudo bem, deixa a dengue em paz, que implicância…

Vida de ostra

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Fomos – todos nós – transformados em ostras.    

Se não formos alforriados desse isolamento idiota, acabaremos até mesmo produzindo pérolas.    

As ostras que estão machos deixam seus espermatozoides na água, onde são absorvidos pelas fêmeas para a fecundação (detalhe: ostras são hermafroditas, alternando seu gênero seguidamente). Os óvulos, uma vez fecundados, são expelidos em forma de larvas, e, amadurecendo, se fixam em um lugar. Dali nunca mais sairão.      

Se algo entra no interior da ostra e a irrita, ela irá se defender do invasor recobrindo-o com camadas de nácar (a conhecida madrepérola), isolando-o completamente de seu organismo. Isso será a valiosa pérola.    

Antes da peste chinesa nós vivíamos livres – ao menos aqui no Ocidente.      

Veio a doença e precisamos nos fixar em algum lugar e nunca mais sair.    

Muitos estão morrendo em sua prisão sem condenação. Assim, sua fixação em um lugar foi fatal.    

A falta de informações concretas e lógicas, a disseminação do pânico e alarmismo desenfreado levaram à histeria coletiva – todos se trancaram, fecharam-se em si mesmos, como conchas. Verdadeiras ostras.    

E, constantemente bombardeados pelas notícias negativas, pela convivência forçada, pelo medo do futuro que se mostra a cada dia mais inseguro, todos começaremos a produzir o nácar que nos blindará, isolando dentro de nós o desespero do confinamento compulsório, da falta de expectativas, da névoa pesada que se forma no horizonte de nossa vida.    

Só nos falta, mesmo, até o fim dessa situação-limite, começarmos a produzir pérolas…

Ostra feliz não faz pérola!

(Venço, hoje, meu próprio desafio, de postar por cem dias seguidos no blog. Pode não ter sido fácil, mas foi bastante divertido)

Viver e morrer

Dans l’Histoire des temps la vie n’est qu’une ivresse, la Vérité c’est la Mort. ( L.-F. Céline)

Seria a morte apenas o reverso da vida? da mesma forma que o lado cara de uma moeda jamais poderá ver o lado coroa, a vida e a morte nunca se poderiam ver nem encontrar?    

Ou a morte é a continuidade da vida em outro lugar, como acontece quando nos mudamos de cidade, e continuamos com a mesma vida, mas ao redor tudo se torna diferente?    

A morte é apenas o fim da vida, ou o começo de outra existência, da mesma forma que a fase borboleta sucede a fase crisálida?  

A vida só vai até a morte. E a morte, é para sempre?    

O que é a morte? Ou melhor, o que é a vida?    

O que vale mais a pena – viver ou morrer?    

Tudo o que se faz na vida é provisório – o trabalho, o amor, a moradia, porque a morte virá. E na morte, tudo é definitivo?    

Em um momento você está aí, hígido, alegre, trabalhando, pensando, comemorando. Daí a instantes, dentro do conceito tempo infinito, está morto, cremado ou enterrado em um caixão. Você só está vivo até morrer. Mas estará morto para sempre.    

A vida, nesse conceito do infinito, seria, então um lampejo, um breve instante, porque todos passam mais tempo morto do que vivo.    

Talvez a vida fosse, então, como um aperitivo, uma avant-première, para se ter uma ideia do que é viver. Porque, na verdade, estão, todos, sendo preparados para morrer. 

E alguns sequer aproveitam essa prévia que nos é graciosamente concedida. Não vivem por medo de morrer.    

Respiram o mínimo possível, comem o mais saudável possível, não bebem bebidas alcóolicas, não se entregam às paixões. Vivem apenas para se guardarem para a morte.     

Ou nem vivem. Apenas esperam morrer. Alguns até se matam antes que morram.    

Sem consciência de que todos morrerão, quantos passam a vida acumulando bens, sem aproveitar o que a vida lhes oferece, apenas pensando em aumentar patrimônio. Sem entender que tudo ficará nessa Terra, para favorecer quem nunca fez nada para ter o sacrifício de uma vida não vivida.    

A vida é tão curta, tão frágil! Tem a duração e a resistência da chama de uma pequena vela. Começa a queimar no nascimento e não para até se extinguir na morte.     

Como uma onda do mar, que se desfaz e desaparece logo que arrebenta e se torna visível com suas espumas. Ou uma nuvem, feita de nada, que o vento espalha e some no céu azul sem deixar vestígios. 

Qualquer abalo, um mínimo sopro, e a chama se apaga. A vida se acaba subitamente. Não há meio de preservá-la ou prolongá-la.    

Se somos tão diferentes no curso da vida, a morte nos iguala a todos.     

Por isso, ame mais um pouco, apaixone-se mais intensamente, beba mais um copo, dê mais um sorriso.

Porque sempre pode ser o último.

Escritor

A definição de escritor é banal: escritor é quem escreve.

Hoje, Dia Nacional do Escritor, medito sobre ser escritor. Porque não se está escritor – ou se é ou não se é escritor. Não dá para ser mais ou menos escritor. Não é possível ser escritor apenas às vezes.

Escrever está no sangue. Corre nas veias, invade todos os sentidos, inunda nosso ser e somos praticamente obrigados a deixarmos qualquer outra atividade para escrevermos.

Cada escritor tem uma maneira toda peculiar de colocar no papel – ou na tela – suas palavras. São muitas as histórias dos hábitos – alguns bens esquisitos, como, por exemplo, escrever imerso em um barril de água ou uma banheira; só escrever completamente nu; escrever ouvindo trechos de óperas; escrever sentado no chão… – mas, em comum, todos têm a paixão que leva a escrever.

Inspiração, criatividade, fantasia, seja lá o nome que se possa dar ao impulso que leva a transmitir, por escrito, algo que se traz na alma, sem esse ímpeto não existe escritor.

Complicado responder quando nos fazem a clássica pergunta: “de onde você tira inspiração?”, porque não “tiramos” inspiração de nenhum lugar.

Apenas, dentro de nós, surge uma ideia ou uma outra pessoa que pede para sair. Precisamos ajudá-la a ganhar a liberdade. Tornar-se um texto – poesia, crônica, conto, romance, qualquer forma de escrito – e lançar-se ao mundo.

Quando temos um romance começado, por vezes o deixamos de lado. Os personagens surgem em nossos pensamentos, ganham vida própria, reclamam que estão abandonados, e temos de voltar ao texto e dar novo impulso. Escrevemos o nascimento dos personagens, mas eles vivem a própria vida e muitas vezes tomam outro rumo totalmente diverso daquele que a princípio imaginávamos que teriam.

Não há dúvida que ler bastante ajuda a ser escritor, mas não faz o escritor. Ter um bom dicionário também é grande ajuda, mas não basta para ser escritor. Escrever é sair de dentro de si e assumir múltiplas personalidades, é mostrar ao mundo seus mais íntimos pensamentos e sentimentos. Desnudar sua alma.

Não é possível tornar-se um escritor. Já se nasce escritor, ainda que não se escreva ou que se demore a começar a escrever. Não há curso, faculdade, apostila, nada que possa levar uma pessoa a ser um escritor. Porque a escrita nasceu dentro das veias.

O impulso de escrever é irresistível. Há uma necessidade física de escrever, não é possível viver com todas as frases, todos os textos dentro do cérebro.

Não é preciso ritual nem preparação. Necessários uma superfície – qualquer uma – e um objeto que a marque. E 26 letras, alguns sinais e pontos. Está pronto o arsenal do escritor.

Porque a escrita, essa não se aprende em nenhum lugar, não tem para comprar, não tem como vender. Vem do ponto mais fundo das memórias, dos sentimentos acumulados, de algum lugar inacessível de dentro do ser. Quando tudo isso excede a capacidade de armazenamento, é preciso escrever.

Escritor é quem tem a sensibilidade de deixar outros viverem dentro de si.

Escrever é o transbordar das emoções.


Escrevendo – ou lendo – 2020

Por que foi que cegamos. Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso. Diz. Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem. (Ensaio sobre a cegueira, José Saramago)

Ler junto - A Crítica de Campo Grande Mobile

Se, atualmente, alguém me perguntar sobre um livro que explique ou retrate nossa realidade, terei dificuldade em apontá-lo.     

Talvez faça um “mix”.     

O mundo foi alterado. O nosso “modus vivendi” desapareceu para sempre. Depois de escrita a História, alguns fatos sempre são destacados como causadores de mudanças graves e notáveis. Na minha opinião, os futuros historiadores grafarão “depois do atentado das torres gêmeas” que foi o primeiro fato mais catalisador do curso da História depois do final da Segunda Guerra. Teve consequências no mundo todo.

Alguns anos de neurose com relação à segurança, sustos, e então vêm os “naufrágios com morte maciça dos refugiados e imigrantes no Mar Mediterrâneo”, sacudindo o mundo de seu comodismo e mostrando o horror que acontecia do outro lado da civilização.

A par disso, terríveis e violentas manifestações da natureza causando mortes e danos.     

E, depois, eles dirão: podemos apontar como fato que marcou o fim de uma era, a “pandemia pela peste chinesa no ano de 2020 – o ano que não existiu”.     

Quando o mundo parou, os aviões pousaram definitivamente, as pessoas foram trancafiadas em suas casas, passaram a andar mascaradas em todos os países do mundo, inegavelmente algo mudou. E para bem pior.

Olhando para trás, não só estes últimos 129 dias em que fomos brutalmente atingidos, mas desde cerca de duas décadas atrás, quando o Brasil começou a caminhar sem rumo, para chegar nesse caos, entendo que posso apontar alguns autores que viram ou previram a realidade atual.

Tudo começa com “A revolução dos bichos”, de George Orwell. Difícil acreditar que foi escrito na década de 40, por um inglês, e não no Brasil depois de 2003.       

Passamos por Tomasi de Lampedusa, com toques de Marcel Proust e Leon Tolstói.     

A situação política vai-se complicando. Entramos em Jorge Amado e Eça de Queiroz.      

Aldous Huxley e seu “Admirável Mundo Novo” surgem no horizonte próximo.     

De repente, simultaneamente somos jogados nas páginas de Garcia Marquez, por um neo-alienista de Machado de Assis, e passamos a viver um pesadelo de Franz Kafka, com pinceladas de Albert Camus, Daniel Defoe e José Saramago.     

E, diante de tudo isso, acredito que voltamos a Orwell, e, que, finalmente, “1984” chegou.     

Basta escolher. Todos nos trazem a 2020.

Dia de poesia – Florbela Espanca – Conto de Fadas

Florbelaespanca Instagram posts (photos and videos) - Picuki.com

Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A Princesa do conto: “Era uma vez…”