Dia de poesia – utopia (autoria desconhecida)

haverá  um tempo que não precisaremos medir as
palavras
será um
"eu te amo"
"te quero por perto"
e "que saudade de você" para todo lado.

por todo canto
será um
"há quanto tempo eu não te vejo"
"por onde você esteve?"
"estou apaixonado
".

e sem medir as palavras
conseguiremos aumentá-las
esticá-las
e colocá-las
em pessoas
não em intenções

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Walter Duarte – Era uma vez… uma foto

Ela é estrela radiante,
que faz inveja ao luar,
olhos par de diamantes,
luzes do dia ao raiar.

Seu jeito... singelo encanto,
talvez mel em sua fala,
soubesse, compunha um canto
para tentar agradá-la.

a divagar cá me ponho,
se ela for somente um sonho,
eu não queria acordar.

Tenho-a na minha lembrança,
no coração, a esperança,
quem sabe um dia a encontrar.

Ventos do pensamento (Memória)

A tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem.
(Oscar Wilde)

A tela continua branca, depois de uns dez minutos que aqui estou. Se escrevesse à moda antiga diria que a folha continua branca. Os pensamentos voam, não necessariamente junto com o tempo.

Porque o tempo voa de forma ordenada, com a lógica cronológica.. Os pensamentos, pelo contrario, voam desordenadamente, vão, voltam, somem, outros surgem, como papéis soltos em uma ventania.

É exatamente isso: uma ventania.

Acho que mais que uma ventania minha mente enfrenta um tornado, um furacão.

E assim fica difícil agarrar um único pensamento, laçá-lo como se fosse um cavalo selvagem, domá-lo para finalmente o expor.

Nenhuma ideia passa perto o suficiente para ser então apreendida.

São sensações dos novos tempos, da vida moderna.

Recebemos simultaneamente milhares de informações, não temos tempo hábil para processá-las. Nossa memória superficial não recebe a faxina necessária para separar o que não precisa ser guardado e se livrar disso e enviar para a memória profunda tudo o que precisa ser arquivado.

Usamos melhor nosso computador do que nosso cérebro, ignorando que o computador é burro, sem nosso cérebro ele nada vale.

Enquanto estou aqui escrevendo minha mente vagueia por preocupações, serviços por fazer, tarefas não cumpridas, montando mirabolantes agendas inexequíveis, indagando se acharam o avião que sumiu no mar, se vai fazer frio no final de semana, preciso ir ao supermercado, quero acabar um colete de tricô para usar ainda neste inverno…

Para viver de acordo com este tempo tão curto levantamos cada dia mais cedo, vamos dormir mais tarde, e nem por isso o tempo rende mais.

E nesse roldão envelhecemos sem perceber. Por vezes um acontecimento extra nos tira dessa confusão e nos damos conta de quanto tempo passou desde a última vez que saímos para dançar; visitamos uma querida prima idosa; fomos caminhar lentamente sábado à tarde à beira-mar tomando um sorvete de casquinha, ou simplesmente saímos para dirigir pelo puro prazer de dirigir, ou de moto só para pilotar, indo a lugares próximos,  pitorescos, para encontrar um grupo de amigos também em passeio sem nenhum propósito que não seja passear, numa demonstração explícita e assumida de deixar o tempo passar. São singelos prazeres que já não nos permitimos, porque não podemos perder tempo.

O tempo não nos pertence, não está em nossa posse, por isso não podemos perdê-lo.

O tempo pertence ao tempo, e não passa, apenas gira. Nós é que passamos.

E com toda nossa pressa, com toda nossa eficiência, passaremos, e o tempo, brincalhão e gozador, continuará girando indefinidamente em redor dos homens que tentam  inutilmente segurá-lo.

Poesia da casa – Pequeno pássaro

Quando você pega meu coração em suas mãos
e o acaricia, como se fosse um pequeno pássaro ferido 
e então eu vejo como ele realmente é:
fraco e vulnerável em sua dolorida fragilidade, 
um pequeno e indefeso pássaro caído do ninho
que sobrevive no medo, no abandono e sobressalto,
sem nada esperar do futuro, sem nada ter vivido.
Não sei se você compreende esta minha inquietude,
que se traveste de insensatez quando busca o amor.
Esse coração, qual pequeno pássaro doído,
se sente seguro e protegido em suas mãos fortes:
essas mãos que povoam meus sonhos 
e preenchem meus dias,
mãos que me acarinham, mãos que me buscam
e me levam até você, em encantado aconchego,
com o cuidado de quem segura fino cristal .
Você sabe que poderei quebrar ao menor movimento,
porque já são tantas trincas de dores já passadas...
E cuidadosamente, você segura em suas mãos 
esse meu coração que bate pelo seu, que eu
sinto derramar em mim toda a ternura do mundo
e então consigo entender o sentido da vida.
(Imagem: banco de imagens Google)

Jardim de saudades (Memória)

Imagem relacionada

A vida é como um bosque. Por vezes cerrado, difícil de atravessar. Outras vezes, recanto de luz e poesia. Ao longo dos caminhos, flores em profusão. Flores do amor. Da paixão. Da saudade.

Flores: as cores da natureza. Para ressaltar a maravilha de todos os tons de verde contra o azul do céu, surgiram as flores. Com suas cores, tamanhos e formas variadas. Uma mais bela e exuberante do que a outra, encanto aos nossos olhos, alimentos de pássaros e de sentimentos.

Cada uma com seu destino. Morrer na haste ou ser colhida? Diz-se que colhemos as flores que mais gostamos; e cultivamos aquelas que amamos.

Colhidas, vão para os vasos de mesas e aparadores. Altares e sepulturas. Festas e velórios. Em cada arranjo, uma mensagem. De alegria ou de tristeza. De chegada ou de despedida.

Em meio a páginas de livros, guardo flores. E pétalas. Muitas flores e muitas pétalas. Recebidas de pessoas inesquecíveis, ainda que muitas vezes afastadas pelo decorrer da vida.

Flores ofertadas por amores e amigos. Mas sempre flores. Nada mais belo, mais singelo e mais emocionante do que receber flores. Seja uma singela flor, colhida apressadamente no canteiro da praça, seja um arranjo caprichosamente elaborado por mãos hábeis e olhos experientes em misturar cores, tamanhos e texturas. A emoção de receber é a mesma. Sempre.

Algumas vezes as flores são simbolicamente ofertadas. Na impossibilidade de ser uma flor real, entrega-se um afago, um olhar carinhoso, um abraço sincero. E nossa alma recebe como se fossem flores imateriais, que guardaremos para sempre.

São as rosas as mais belas, as mais perfeitas da natureza? Talvez, desde o botão de rosa, que já é lindo antes mesmo de se abrir, até a rosa exaurida em sua beleza totalmente exposta.

As margaridas, alegres em seus miolinhos de cores contrastante com as pétalas em sua volta.

As prímulas, efusão de cores. As orquídeas, elegantes e atemporais. A delicadeza do miosótis. A ostentação das tulipas coloridas.

Caminhos de hortênsias. Buganvílias nas beiras das estradas… Hibiscos nas praças, cravos e cravinas nos canteiros. Alamandas fazendo arcos nas passagens, onze horas, buquês de lantanas, gerânios, lírios, cíclames, flores do campo. A elegância das camélias e gardênias, a alegria do girassol e das astromélias. Cascata de petúnias. Dama-da-noite atendendo pedidos das pessoas no tempo da florada, com seu perfume inconfundível.

São tantas as flores, que é difícil escolher uma.

Tive, um dia, meu jardim de rosas. Lindas. Rosas brancas, vermelhas, cor-de-rosa, coral e suas nuances. Uma roseira – arbustiva e linda – me retribuía meu amor com rosas de duas cores diferentes. Tanto mais eu as amava, mais elas floresciam.

Foi-se meu jardim de rosas. Foi-se meu tempo de cultivar flores. Mas tudo deixou saudade. Cultivo, hoje, em minha vida, um vasto jardim de saudades. Das pessoas que se foram (especialmente meu pai, que partiu recentemente para conhecer as flores do céu). De situações alegres. De tempo em que as risadas eram mais frequentes que as lágrimas. Saudade de ter mais amanhãs do que ontem na minha vida.

Hoje, à falta de um jardim de flores coloridas, trago em mim esse jardim de flores de saudade.

(publicado pela Oficina do Livro na antologia Um Jardim em Palavras)

(Imagem: banco de imagens Google)