Dia de Poesia – Mário Quintana – O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

(Mário Quintana)

 

Descobertas e invenções

Da discussão nasce a luz, diz o ditado… mas não estou disposta a discutir e a luz pode ser acesa no interruptor ao alcance da minha mão…

Estou pensando nas maiores descobertas e invenções da humanidade – do meu estrito e pessoal ponto de vista. Para muitos – quase unanimidade, as maiores descobertas foram os movimentos da Terra, as leis do movimento, a seleção natural, dentre outras. Já as maiores  invenções foram as ferramentas básicas, a roda, a bússola etc. e tal. Não concordo nem discordo, mas tenho minha própria lista a respeito.

Acho que as maiores descobertas – aquelas que mais benefícios trouxeram à humanidade são, em primeiro lugar, o domínio do fogo. Como imaginar a vida sem um macarrão ou uma pizza, com o queijo derretendo do calor do fogo?

Daí decorre que, dominado o fogo, nada melhor que a descoberta da pipoca – até o nome “pipoca” já induz à ideia de alegria. Impossível viver sem.

Depois, vem a descoberta do ciclo da lua – o que possibilitou inventar a semana (não muito interessante) mas, principalmente, o FIM DE SEMANA. O que seria de nós, meros mortais, sem sábados e domingos?

Para alegrar nosso fim de semana, a descoberta da possibilidade de banho de mar – sábado que se preze, se passa à beira-mar, com longas caminhadas e alguns mergulhos.

Mas, sozinho não tem graça, então, depois da paixão, a maior descoberta foi que dar flores é garantia de uma companhia para os fins de semana. Porque namorar é muito bom, e não há namorada que não ame receber flores.

De outro lado, quais seriam, para mim, as maiores invenções da humanidade? Vamos lá:

De início, a maior de todas invenções foi a rede. Uma rede resume tudo o que precisamos para viver preguiçosamente – ela nos balança como um berço, ela nos acolhe e nos abraça, na rede dormimos, lemos, bebemos nosso whisky em paz e, para quem tem sorte, da rede dá para ver o mar.

Para o segundo lugar, acho que a maior invenção da humanidade foi o indispensável e ultrademocrático chinelo havaiano. Porque são bárbaros, confortáveis, coloridos, leves, calçam todos igualmente – ricos e pobres, feios e bonitos, altos e baixos… maravilha do mundo moderno.

Temos, ainda, na minha lista, a bola. Não a roda nem o círculo (cuja invenção eu louvo, mas acho a bola mais importante). A bola é objeto usado desde o berço até os últimos dias no hospital. Seja para brincar, correr atrás, fazer ginástica, até uma pequena para cuidar de artroses e movimentos. É o brinquedo-utilidade que acompanha a humanidade sempre.

Outra invenção maravilhosa foi o livro. Não só a escrita, mas o livro físico, aquele “amarrado” de papel que levamos para todo lado. Quer ser feliz? Una a rede, a pipoca e o livro… nada mais é preciso. Um livro pode ser muita coisa na nossa vida – viagem, conhecimento, descoberta, paixão, romance, drama, terror, suspense… nada mais poderoso que um livro para abrir a mente.

Há ainda o cinema – ou filme – que também nos transporta para outro mundo e dá um sabor todo especial ao dia.

Aí está a minha lista. Nem todos concordariam, mas avisei que era lista pessoal.

E você? Na sua opinião, quais as maiores descobertas e invenções da humanidade

Asas para voar

O desejo de liberdade é mais forte que a paixão. Pássaro, eu não amaria quem me cortasse as asas. Barco, eu não amaria quem me amarrasse no cais.                     (Rubem Alves)

                             

Empresta-me tua asa, hoje quero voar sozinha…

Porque para voarmos juntos precisei me desfazer de uma de minhas asas.

Mas agora irei só…

Quero ir a lugares que você não iria

Voar sobre outros mares, conhecer outros lagos

Ver florestas e campos de terras tombadas

Outros povos, outras realidades

Quero voltar a sentir as nuvens a meu redor

Ver do alto a beleza das curvas dos rios

Viver a liberdade do voo solo

Cansei de não mais voar alto

De nunca mais voar longe, sem destino

Preciso me sentir livre

Minhas raízes estão em suas mãos

Prometo voltar logo

Mas, para que eu possa ir, eu peço:

Empresta-me tua asa…

Velho barco

 

Não gostava de se ver no espelho depois de tirar toda a maquiagem.

Sabia não ser bonita, mas conseguia efeitos mágicos quando maquiada. Odiou-se por tudo. Ele a deixara. Culpava-se por não ser bonita, não conseguir prendê-lo, não ser interessante… Mas o amava e achava que ele jamais a deixaria.

Ele brincava com ela. Porque tinha certeza que ela estava sempre disponível, e ele zombava dessa paixão intensa, ia e voltava, não a respeitava.

Já sentia saudade dele, de suas mãos, do conforto de seu peito, de seus braços… mas ele dissera que dessa vez era para sempre. Ele não voltaria mais, estava firme em outra relação e amava outra mulher.

Conseguiu manter sua dignidade e não chorou na frente dele nem implorou para que ficasse. Talvez na aflição do momento não tenha entendido direito o que ele dizia. Agora, sozinha, mastigava mentalmente cada palavra. De certa forma sentia alívio. Nunca sabia se estavam ou não juntos, porque ele era inconstante. Mas cada vez que ele voltava ela se sentia a mais feliz das criaturas. Mesmo sabendo que logo ele sumiria de novo. Por esse prisma, era realmente melhor saber onde pisava, mesmo que isso custasse a separação.

Começou a chorar.

Entendeu, então, que era apenas um barco abandonado num cais…

Dia de Poesia – Cecília Meireles – Eu sou aquela pessoa

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

a que não se recusa, a esse final convite,

em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

 

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

já de horizontes libertada, mas sozinha.

 

Se a Beleza sonhada é maior que vivente,

dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

 

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas

vão as medidas que separam os abraços.

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

 

“Agora é livre, se ainda recordas”.

Mais uma noite

A noite chega com seus mistérios. Para alguns a noite “desce”. Não sei se ela estava no alto, esperando o horário para descer… Outros dizem “cai” a noite… será que ela ainda existiria se caísse todos os finais de tarde desde que o mundo existe?

De onde vem a noite?

Aos poucos ela vai mudando as cores do dia, esmaecendo as luzes, afastando o sol, até tomar conta de tudo.

A transição entre o dia e a noite – a linda e poética “hora crepuscular” – fascina.

A noite, para nós, é curta, porque a usamos para dormir. Não a vemos. Não a vivemos.

Mas eu já a vivi intensamente.

Às vezes sinto saudade de tempos passados, quando era possível sair em São Paulo por volta de 21h00, de carro, e ir em vários bares, até amanhecer o dia seguinte. Vida leve. Vida boa. Que não voltará jamais.

Agora, o silêncio da noite, quebrado unicamente pelo incessante cantar do mar, me ajuda a adormecer.

Sobre o escuro mar noturno, dezenas de luzes dos navios fundeados. O único sinal de vida que posso visualizar.

Fico a ouvir o mar e esperar que algumas estrelas venham enfeitar o céu.

A alternância impassível entre dia-e-noite escancara meu envelhecimento. Quantas noites já tive em minha vida?

Seguramente mais de vinte mil.

Se o anoitecer aqui na praia é lindo, não menos maravilhoso era o anoitecer no sítio, numa montanha da Mantiqueira. Em noites de lua cheia eu ficava na varanda, vendo o pasto se pratear ao luar e aproveitava cada minuto daquele alumbramento.

E todos os dias da minha vida terminaram em um anoitecer. Assim como minha vida, onde também já anoitece.

Mágoas

Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água… (Chico Buarque)

 

 

Mágoas e mais mágoas… quantas mágoas trazemos na alma, de tantas desatenções, de tantas decepções…

Com quantas mágoas se faz uma tristeza?

Difícil fazer de conta que não magoa, fazer de conta que não sente nada… o pote vai enchendo e a qualquer momento transbordará. Por mais delicado que alguém seja, nada impede que outro o magoe profundamente, por egoísmo, por vaidade, para se mostrar superior, em razão de complexo de inferioridade.

E o coração corta e sangra a cada mágoa. E vai ficando cheio de cicatrizes. Alguns são tão magoados que se protegem por uma couraça. Mas estouram da mesma forma, através de terríveis somatizações, porque é impossível não transbordar.

E se temos medicamentos à vontade para as dores do corpo, nenhuma existe para a dor da alma – a mágoa.

Algumas pessoas colecionam cristais, outras, soldadinhos de chumbo. Eu coleciono mágoas. Tenho de todos os tipos, cores e tamanhos. Causadas por tantas e tão diferentes pessoas e ações.

Vivo me policiando para não magoar quem convive comigo. Engulo alguns desaforos, enfrento decepções, mas procuro não magoar. O inverso não ocorre. Às vezes tenho a impressão que as pessoas se dedicam a me magoar. Pouco se importam com minha dor. Não conhecem minha alma.

Mas meu coração, tal como o pote da canção, está à beira de transbordar…