Texto de Antonio Carlos A. Gama – Cogitações vadias


“Entendo!” disse a Rainha, que nesse meio tempo estivera examinandoas rosas. “Cortem-lhes as cabeças!” e o cortejo foi adiante, três dos soldados ficando para trás para executar os desventurados jardineiros, que correram para Alice em busca de proteção.
“Vocês não serão decapitados!” disse Alice, e os enfiou num grande vaso de flores que estava ali perto. Os três soldados andaram ao léu por um ou dois minutos, à procura deles, e em seguida saíram tranquilamente atrás dos outros.
“Cortaram-lhes as cabeças?” gritou a Rainha.
“As cabeças rolaram, para o deleite de Vossa Majestade!” os soldados gritaram em respostas.
“Muito bem!” gritou a Rainha. “Sabe jogar croqué?”
(Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll)

Segundo nos ensinam os velhos compêndios escolares, o homem é um mamífero bípede, composto de cabeça, tronco e membros.
De acordo ainda que com aquelas lições, o homem se distingue dos outros animais pela sua racionalidade, vale dizer, o homem é o único animal que pensa (ou pensa que pensa).
“Penso, logo existo”. A famosa máxima cartesiana bem expressa a importância atribuída à racionalidade ou racionalismo do homem, que compreenderia dois componentes básicos: a alma e o corpo.
A alma seria uma “substância pensante em extensão” (“res cogitans”), da qual o corpo seria apenas “extensão no tempo e no espaço” (“res extensa”).
E por dar tanto valor à capacidade de pensar, o homem considera como a parte mais importante da sua anatomia a cabeça, que é onde se concentram os órgãos e sentidos nobres, como o cérebro, a visão,
audição, o olfato e outros. A cabeça seria, pois, a sede da razão, do pensamento, da memória, da imaginação, das sensações.
Haja vista o sem número de locuções formadas a partir do vocábulo “cabeça”: aquele dotado de talento ou inteligência tem “cabeça forte” ou “boa cabeça”; o que sabe manter a serenidade e a calma é “cabeça fria”; o que é desatento e distraído vive com a “cabeça no ar ou na lua”; quem se porta com altivez e nada tem do que se envergonhar pode andar de “cabeça erguida”; ao contrário, aquele que é submisso e subserviente vive de “cabeça baixa”; o triste e acabrunhado está de “cabeça inchada”, enquanto o teimoso e casmurro tem a “cabeça dura”; quem está confuso ou atrapalhado “não sabe onde tem a cabeça” e o que toma um prejuízo ou sofre alguma perda “leva na cabeça”. O chefe ou o comandante de uma instituição ou grupo, de objetivos lícitos ou criminosos, é o seu “cabeça”, (atenção: qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência). O marido ou varão já foi legalmente considerado como “cabeça do casal”, função essa que não mais se justifica nem sustenta diante da justa paridade reconhecida às mulheres, que alguns têm o mau gosto de chamar de “varoa”. Até mesmo a parte principal de um dispositivo de lei é o seu “caput” ou “cabeça”.
Em razão disso, o homem tem verdadeiro pavor de “perder a cabeça”, seja literalmente, o que redundaria no fim da sua existência terrena, seja no sentido metafórico, de não se controlar e se deixar arrebatar até a prática de atos impensados. Isso talvez explique a vetusta tradição dos colarinhos duros e abotoados, das gravatas atadas ao pescoço, como forma de assegurar que a cabeça não se desprenda e saia voando por aí como um balão. Se bem que — como o próprio Freud explica — às vezes uma gravata é só uma gravata.
Como é livre o pensar, direito esse consagrado pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e pelas Constituições democráticas contemporâneas, fico cá a meditar com meus botões sobre a importância de, pelo menos de vez em quando, perder a cabeça. Por mulher, livro, música, pintura, comida, bebida ou mera vadiação.
Melhor ainda seria ter várias cabeças e poder trocá-las, como a um chapéu, conforme as vicissitudes da vida. Antes de sair de casa, iríamos até o armário ou cabide e escolheríamos a cabeça mais adequada para a ocasião ou ao nosso estado de espírito. Como nem sempre é necessário o uso do chapéu, poderíamos simplesmente sair sem cabeça alguma, o que, por ser corriqueiro, não causaria espanto aos circunstantes, nem assustaria as criancinhas, como a mula sem cabeça.
Seria também muito bom tomar emprestada a cabeça da mulher ou do marido, dos filhos, pais, irmãos, amigos, colegas de trabalho e até mesmo de alguns desafetos ou estranhos, e assim poder conhecê-los, pensando com a cabeça deles. Quem sabe ainda, a exemplo de roupas, vídeos e automóveis, alugar de vez em quando uma cabeça diferente.
Ultimamente, tenho praticado perder a cabeça, como o faço agora. E sempre que a retomo, sinto que ela e eu estamos bem melhores do que antes.
Talvez seja esse o próximo grande passo na evolução da espécie, desde aquele primeiro passo dado pelos nossos antepassados anfíbios que se puserem em pé e trocaram o pântano pela luz do sol.

Poesia da casa – Nós – e nós

Se há só um nó, já somos nós?
Com quantos nós se faz um nós? 
Nós somos laços ou somos nós?
Quantos laços se desfazem sem ser nós,
Quantos laços viram nós?
De quantos laços somos nós?
Já fomos laços ou sempre nós?
Como se desmancham os nós,
Aqueles que nos tornaram nós?
Se já não existem mais nós,
Será que ainda existe nós?

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Paul Géraldy – Confissão

Eu bem sei que, ciumento, exigente, impulsivo,
irritado, infeliz por cousas tão banais,
eu vivo a provocar discussões sem motivo...
Mas eu amo tão mal porque eu amo demais.

E atormento você, e persigo... Você havia
de ser melhor amada e mais feliz também,
se não fosse você a minha única alegria,
e se este amor não fosse o meu único bem.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Remanso

Águas límpidas, nascentes súbitas
onde os corações, barcos ansiosos
encontram um ponto de chegada
e se ancoram, agora sossegados

Sem passado nem futuro
nada buscam nem esperam
apenas se deixam ficar, seguros
em um suave balançar

Essas águas se fundiram
se misturaram e fizeram apenas uma
tão calma, tão fresca, transparente
a calma em meio a tanto caos

Da mesma forma que esses barcos
companheiros de chegada e de destino,
assim nossos corações se ancoraram
no remanso deste amor que nos uniu 

(Imagem: Lola Serrano, banco de imagens Google)