Dia de poesia – Carlos Drummond de Andrade – O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

No dia dos pais

Um dia, disse Guimarães Rosa: “Não gosto de passarinho. Não gosto de violão. Não gosto de nada que põe saudades na gente.”

Eu sempre amei passarinho. Fui criadora oficial. Além dos “meus”, sempre os busquei livres na natureza, encantada com seu voo – quanta liberdade! – e plumagem, e canto, e tudo.

Hoje, domingo, meu terceiro Dia dos Pais depois de órfã, acordei com o canto dos passarinhos.

Havia um que eu não conseguia identificar. E me lembrei do meu pai, e me lembrei de Guimarães Rosa, e minha orfandade doeu de forma ainda mais doída.

Passei não só a infância, mas a vida, pedindo a meu pai que me dissesse que pássaro estava cantando – e ele os sabia todos.

Ouvia um pouquinho e identificava.

Assim fui aprendendo, eu também, a identificar os pássaros invisíveis na natureza pelo canto.

Um dia – o dia marcado pelo Pai, o dia certo para ele, mas muito cedo para mim, ele partiu. E me vi, naquela manhã, órfã. E desde então sinto falta de algo no mundo, na vida, um vazio que nada preencherá jamais.

É o lugar do meu pai no meu mundo e na minha vida.

E ele faz essa falta nas grandes e pequenas coisas. Quantas vezes preciso de uma opinião (que ele só externava se buscada, nunca deu “palpite” na vida dos filhos), de uma orientação, de uma mão firme para atravessar um perigo, de um interlocutor para conversar sobre tudo e sobre nada, e, ainda, alguém para me dizer o gosto das comidas, os cuidados com o carro, ou que pássaro está cantando e de onde vem o canto, quando não visualizo a ave que canta…

Não tenho mais meu pai. E tudo isso acabou.

Hoje é Dia dos Pais. Era um dia santificado para mim. Fazia qualquer sacrifício para estar com meu pai nesse dia. Agora estou sozinha. O Dia dos Pais continua, mas não tenho mais meu pai.

E isso é muito triste.

A saudade dele é imensa, indescritível.

E, nesse amanhecer, tão triste, quando ouvi os pássaros cantando, e principalmente quando não identifiquei um deles, entendi plenamente a frase de Guimarães Rosa – esse passarinho pôs mais saudade em meu coração.

Partida

O isolamento social dos bolsonaristas: cortar todas as conexões com os  agentes da morte - DAGOBAH

Um dia chegará minha vez de partir.

Quando a Ceifeira vier para me buscar,

Pedirei que me dê um minuto a mais.

Um singelo minuto apenas.

E nesse minuto reviverei tanta coisa

Eu me lembrarei das – poucas – alegrias

E das tantas tristezas que um dia conheci.

Levantarei os véus das pesadas mágoas

E perdoarei todos aqueles que as provocaram.

Não quero levar nada comigo.

Deixarei tudo aqui.

Ela me olhará aflita porque estou demorando

E eu direi: – um minuto apenas, um minuto!

E abençoarei todos os que se preocuparam comigo

E um dia me fizeram feliz de alguma forma

E pedirei que o Pai perdoe e abençoe aqueles que

Me feriram sem se importar com meus sentimentos.

E me despirei das vaidades acumuladas neste mundo,

Para seguir sem bagagem, sem peso, sem lembranças.

Quando ela, impaciente, cobrar minha rápida partida

Eu direi: – um minuto, eu só lhe pedi um minuto!

E abraçarei minha mãe e meu pai

E meus irmãos e minhas irmãs

E direi: – não sofram – vocês me fizeram feliz!

Eu apenas parto antes de todos e os esperarei

E prepararei a chegada de cada um no momento

Certo de partirem para o lado de lá.

Impaciente, ela baterá o cabo da foice contra o chão

E dirá: – vamos, você está demorando muito

E eu direi: – você me deu um minuto de prazo, espere!

E então irei me despedir do meu amor,

Para que não sofra com minha falta e seja feliz;

Direi que parto em paz por ter sido amada e que

Seu olhar me ajudará a atravessar o espelho

E me dará coragem para não sentir medo, e ainda que

A lembrança do seu amor me guiará do outro lado.

Então, chegado o momento, olharei de frente

Para essa indesejada e inevitável pessoa e direi:

– Estou pronta, vamos lá!

E, em paz, eu partirei…

Dia de Poesia – Rafael Almeida – Eternidade

Distante assim meu riso é pranto
É lágrima de saudade
De tristeza metade
E metade de encanto
Um tanto felicidade
E amor outro tanto!

Distante assim sou casa vazia
Sou do beijo lembrança
Sem par em dança
Resquício de alegria
Amor que não se cansa
Distância tripudia!

Tão perto assim sou mãos dadas
Um dormir nos braços
Acordar no abraço
De bocas coladas
É um não cansaço
De fazermos nada!

Tão perto assim sou você
Um caso perfeito
Seu corpo, seu beijo, seu jeito
E um medo de perder
Sou amor que bate no peito
Eternidade a me envolver.

Um dia

Hoje vou repetir esse post, porque tenho esperança que esse dia há de vir…

A minha alegria é a melancolia. (Michelangelo Buonarroti)

Um dia vou ser feliz. Feliz mesmo. De verdade. Não essas pequenas alegrias que esticamos ao máximo para nos sentirmos felizes por algum tempo. Mas Feliz. Assim mesmo: Feliz.

Um dia, não agora.

Sou feita de saudade e melancolia.

Desesperança e ansiedade.

Isso não é ser feliz. Nem mesmo alegre. Para ser sincera, muitas vezes penso que felicidade é uma palavra que inventaram para que a humanidade fosse eternamente frustrada. Porque nunca vi ninguém exatamente, plenamente e ostensivamente feliz. Alegre, talvez, mas feliz? Nunca.

Mas um dia serei feliz. Prometo.

Nada irá sombrejar meu olhar, que será claro, límpido, luminoso, como só o olhar das pessoas felizes pode ser. E meu sorriso… nada o impedirá. Aberto, cristalino, verdadeiro – o sorriso de alguém feliz.

Meus braços estarão sempre ocupados num abraço sem fim e minhas mãos derramando carinhos em alguém que muito me encante.

Serei só ternura, maciez e aconchego.

Mas não agora.

Isso só no dia em que eu for feliz…