Passado – ou sempre presente?

O que é o passado? Aquele passado que não sai da mente, do sentimento, da vontade…

Aquele passado que a saudade faz ser presente…

Se você lê um livro, acaba cada capítulo, vira a página, e o capítulo é passado.

Não estará esperando, páginas à frente, para ser relido. Leu. Acabou. Passou.

Você está viajando, em cada cidade do caminho há um trevo. Você passa pelo trevo e a cidade ficou lá atrás.

Não estará alguns quilômetros à frente esperando na beira da estrada. Passou. Acabou.

Mas a vida, ahhhhh, na vida não existe passado. Há fatos vividos, mas não passados.

Você vive. Pensa que acabou. Que seguiu em frente.

Mas, de repente, lá está o acontecimento martelando na mente, no coração, na saudade, no hábito… e você revive tudo – uma, duas, dez, vinte vezes. E, se engraçado, ri de novo. Se triste, chora como se tivesse acontecido nesse instante.

E vê que não passou. Está tudo vivo, em brasa, ainda que sob algumas cinzas, dentro do coração. O coração, traiçoeiro, mistura tudo dentro de nós. E a mente, maliciosa, traz de volta o que você queria ter esquecido.

Então você chega à conclusão de que, na vida, não existe passado. Você vive a mesma sensação tantas vezes quantas o coração e a memória a trouxerem à tona.

Não há passado. Há calendários e datas, regulando o tempo.

Mas, dentro de nós, tudo é sempre presente.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Nós – e nós

Se há só um nó, já somos nós?
Com quantos nós se faz um nós?
Nós somos laços ou somos nós?
Quantos laços se desfazem sem ser nós,
Quantos laços viram nós?
De quantos laços somos nós?
Já fomos laços ou sempre nós?
Como se desmancham os nós,
Aqueles que nos tornaram nós?
Se já não existem mais nós,
Será que ainda existe nós?

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Passos à deriva (Memória)

Não marquei o caminho
Nem segui meus próprios passos 
Nem deixei pegadas
Apenas caminhei – fui adiante
Sem rumo, sem paradas
Sem querer ir nem querer ficar
Sou caminhante nesta vida
Passei por tantos lugares
Dos quais não me lembro o nome
Nem mais sei a direção
Sigo num só sentido
Seguindo o vento que me engana
Buscando o mar que me espera
Olhando as estrelas que me guiam
Chegarei. Um dia sei que chegarei
No lugar para onde vou
No lugar onde haverá amor
E, quem sabe, até mesmo
Poderei dizer “eu sou feliz”

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Fernando Pessoa – Há dias de tanta angústia

Há dias de tanta angústia
Que não sei do que ela é.
Não sei se me sobra o sonho.
Não sei se me falta a Fé.

É uma angústia que nasce,
Como de um solo, de mim,
Que parece ser eu todo
Com razão de ser assim.

E esmaga-me toda a alma,
Confunde todo o meu ser
E tudo gira em meu torno
Sem eu o compreender.

Mágoa como um portão velho,
Ferrugem da quinta em fim,
É uma angústia que cai,
Como num solo, por mim…

(Imagem: banco de imagens Google)