Ventos de agosto (Memória)

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Pipas no ar, em um céu sem nuvens

Tom de azul, do mais profundo azul

Pleno inverno, as árvores se despem

E as folhas brincam e correm nas ruas

Ruidosamente em secas risadas.

O mundo descansa quase em plena paz

Acreditando no poder do vento

Em levar consigo toda tristeza

Em varrer o pó de todos amores

Em limpar da vida o que não fica

Em trazer de volta a chuva que falta.

Dando adeus ao passado, as árvores

Balançam os galhos agora sem ninhos

Os pássaros, em bandos já se foram

Aves de arribação, fugiram do frio;

Velhos amores também se foram

Deixando abertos os corações em sangue

Pulsando na espera de novas paixões.

Venta, agosto, venta, que é sua missão

Ventar limpando a terra e a vida,

Deixando limpos os caminhos e atalhos

Para tantas novas caminhadas,

Novos amores, novos sorrisos,

De mãos dadas pela vida afora

Seguindo o vento que a todos levará

Ao final que em algum ponto espera.

Redemoinhos de vento na terra

Luzes no céu, estrelas no nada

São os ventos do mês de agosto

Prenúncio de nova primavera

Mais um triste Dia dos Pais

“Terceiro ano seguido que, órfã, nada tenho a comemorar no dia dos pais. Esse ano, com a partida do meu padrinho, mais órfã do que nunca. Republico, aqui, a mensagem de 2020, neste – agora – triste dia – para mim.

“Pai, há dezessete meses o senhor nos deixou. No dia mais triste de toda a minha vida. Porque eu não estava preparada para me tornar órfã. Sabíamos que sua ida era iminente, mas ainda o tínhamos aqui. Com seu carinho, sua presença.    

O senhor sempre foi nossa força, nosso incentivador, o centro de nossa família. E, de repente, não está mais aqui.      

Seu lugar vazio na mesa da casa de nossa mãe dói. Muito.

Chegar lá e não ter o senhor para me receber é de uma tristeza indescritível.

Onde está seu sorriso acolhedor? Onde estão seus lindos olhos amorosos? Por que tínhamos de nos separar assim?    

Tantas lembranças, tantas, que não cabem em um só coração.   

Meu lugar na mesa era a sua esquerda. E o senhor sempre teve um jeito todo próprio de manter a mão esquerda sobre a mesa. E eu, muitas vezes, deixava meu talher e pegava na sua mão. O senhor abaixava os olhos, olhava fixamente nossas mãos unidas. Depois olhava para mim e sorria.    

Ah, pai, o que eu não daria para ter novamente seu sorriso.

O senhor sempre sorria: sorria de alegria, sorria de galhofa, quando fazia suas brincadeiras, e seus olhos sorriam junto. Tenho tanta saudade de seu olhar, pai…  

Suas rimas, que podiam até irritar a mamãe, mas divertiam os filhos e netos – especialmente a Carolina – “espera aí, vovô, fala de novo que vou escrever…”… Suas paródias… “… a tal da angélica, moça…” … “…un automobile, naquela esquina…”…    

Sua voz, pai, explicando seu ponto de vista, sempre ponderado, nos dando um norte, sendo um farol para nosso pensamento, ainda ecoa dentro de mim.    

As histórias de sua infância, da onça, dos tiros, as lembranças de meu avô, (primeiro pai que perdi)… Invernadinha, Negro Dionísio, Tio Ary saltando de guarda-chuva, Romeu montando no burro… tantas histórias, tantas risadas. Ninguém nos conta mais histórias, pai. Ninguém mais conhece o Guilherme J. Kuhll…    

Lembra-se da estrada para Morro Agudo? Quantas vezes encravamos para aqueles lados em dias de chuva. Hoje nem se sabe mais o que é encravar. O que é pneu lameiro. O que são correntes… E o senhor nos tirava de todos os embaraços.      

E quando o senhor perdeu a paciência com a tal da Odila ou Otília, não me lembro mais do nome, só da feia cara da funcionária de mau humor, na faculdade Toledo de ensino de Presidente Prudente e me mandou de volta para terminar a faculdade em Ribeirão Preto. Sofri, pai, porque eu não queria morar em pensão, não queria morar em outra cidade. Mas fui. E assim que peguei meu canudo vazio das mãos do Dr. Pessini, voltei para casa.

Estou aqui, pai, nesse final de dia, vendo o mar que o senhor tanto amava e nos ensinou a amar também, e tomando meu whisky “regulamentar” como o senhor dizia. E me lembrando de quantos whiskies tomamos juntos – foi o senhor quem me ensinou a gostar do single escocês. E tantas outras coisas na vida que o senhor me ensinou. Só se esqueceu de me ensinar como continuar sozinha, sem sua valiosa opinião, seu apoio incondicional e seu amor de pai.    

Não vou comemorar, pelo segundo ano seguido, o dia dos pais. Porque nada tenho a comemorar – só a saudade que tenho do senhor, só a falta que eu sinto de um abraço de pai, que nunca mais terei.     

Sei que não serei merecedora de ir a seu encontro na eternidade, mas queria muito, pai, pelo menos uma vez, de relance que seja, vê-lo e abraçá-lo. Mesmo que fosse por uma única vez.       

Saudade, meu pai. Muita saudade, e tristeza nesse dia dos pais, e meu eterno amor de filha.”

(obs. – na foto acima, meu pai, Carlos, com a bisneta Helena, de meu acervo pessoal)

Flora Figueiredo – Ausência

Dia de poesia – espaço para Ana Acto

 

De novo, na praia – (Memória – publicado em 10.08.2020, nos tempos sombrios do isolamento…)

Depois de mais de sete meses ausente, aguardando a reabertura da vida, ontem consegui ir à praia. Encerrei meu involuntário isolamento. Saí na estrada. E ninguém mais vai me segurar.     

Cheguei na praia, fiz minha saudação ao mar, amor maior na minha vida. E perguntei: sentiu minha falta? O que você tem para mim? E ele me mandou o primeiro presente.   

  

A praia sem a fedentina dos fritadores de pastel e camarão estava bem mais agradável. Continua proibida a permanência com cadeiras, barracas, guarda-sol… então as pessoas caminham, algumas se sentam na areia, mas há uma outra dinâmica. E a limpeza da água é algo que faz pensar que, de certa forma, essa peste ajudou em alguma coisa.     

Não há mais montanhas de lixo na areia no final do domingo. Infelizmente, porém, alguns abestalhados não entenderam e levam seus fedidos cães para a praia, para o mar. E vemos cocô de cachorro na areia.       

Esse povo precisa de fiscalização e penalização. Não basta a regra. Só o chicote funciona.     

Fiz uma longa caminhada.       

Sem usar máscara. Coloquei essa indecência para descer no elevador e atravessar a rua. Chegando na praia, tirei. RESPIREI! Vi pessoas caminhando de máscara. Nada tenho contra. Tem bobo para tudo na vida. Mas minha rinite alérgica praticamente desapareceu em dois dias. 

Arrastei cinco quilômetros esse mar, até sentir a musculatura reagir. Aí caminhei o restante pela areia. Em seguida, para encerrar, tomei um longo banho de mar – que, curiosamente, mesmo sendo inverno, não está gélido, mas agradável. Em alguns pontos até quentinho.   

Renasci.     

Hoje, voltei à praia, o sol mais forte, bem menos pessoas, tudo mais bonito.     

E o mar, feliz de me ver, trouxe vários presentes: 

Faltam dois, com os quais presenteei duas garotinhas – um de cerca de um ano e meio que abriu um lindo sorriso quando passei perto dela. E outro, dei para Giovana, uma morena que mais parecia uma boneca se mexendo, por volta de três anos de idade que encontrei perdida e a ajudei a encontrar a mãe.       

Depois fui para o mar.      

E lá fiquei até cansar.      

A areia me acolheu, o mar me aquietou, o sol me aqueceu e Deus me abençoou. Porque aqui, nesta praia, é o único lugar do mundo onde me sinto realmente abençoada. Onde meu corpo e minha alma ficam em paz.     

Um dia eu voltarei a morar aqui. O mar sabe disso. E vai me esperar.

Dia de poesia – Mia Couto – A demora