A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
“Terceiro ano seguido que, órfã, nada tenho a comemorar no dia dos pais. Esse ano, com a partida do meu padrinho, mais órfã do que nunca. Republico, aqui, a mensagem de 2020, neste – agora – triste dia – para mim.
“Pai, há dezessete meses o senhor nos deixou. No dia mais triste de toda a minha vida. Porque eu não estava preparada para me tornar órfã. Sabíamos que sua ida era iminente, mas ainda o tínhamos aqui. Com seu carinho, sua presença.
O senhor sempre foi nossa força, nosso incentivador, o centro de nossa família. E, de repente, não está mais aqui.
Seu lugar vazio na mesa da casa de nossa mãe dói. Muito.
Chegar lá e não ter o senhor para me receber é de uma tristeza indescritível.
Onde está seu sorriso acolhedor? Onde estão seus lindos olhos amorosos? Por que tínhamos de nos separar assim?
Tantas lembranças, tantas, que não cabem em um só coração.
Meu lugar na mesa era a sua esquerda. E o senhor sempre teve um jeito todo próprio de manter a mão esquerda sobre a mesa. E eu, muitas vezes, deixava meu talher e pegava na sua mão. O senhor abaixava os olhos, olhava fixamente nossas mãos unidas. Depois olhava para mim e sorria.
Ah, pai, o que eu não daria para ter novamente seu sorriso.
O senhor sempre sorria: sorria de alegria, sorria de galhofa, quando fazia suas brincadeiras, e seus olhos sorriam junto. Tenho tanta saudade de seu olhar, pai…
Suas rimas, que podiam até irritar a mamãe, mas divertiam os filhos e netos – especialmente a Carolina – “espera aí, vovô, fala de novo que vou escrever…”… Suas paródias… “… a tal da angélica, moça…” … “…un automobile, naquela esquina…”…
Sua voz, pai, explicando seu ponto de vista, sempre ponderado, nos dando um norte, sendo um farol para nosso pensamento, ainda ecoa dentro de mim.
As histórias de sua infância, da onça, dos tiros, as lembranças de meu avô, (primeiro pai que perdi)… Invernadinha, Negro Dionísio, Tio Ary saltando de guarda-chuva, Romeu montando no burro… tantas histórias, tantas risadas. Ninguém nos conta mais histórias, pai. Ninguém mais conhece o Guilherme J. Kuhll…
Lembra-se da estrada para Morro Agudo? Quantas vezes encravamos para aqueles lados em dias de chuva. Hoje nem se sabe mais o que é encravar. O que é pneu lameiro. O que são correntes… E o senhor nos tirava de todos os embaraços.
E quando o senhor perdeu a paciência com a tal da Odila ou Otília, não me lembro mais do nome, só da feia cara da funcionária de mau humor, na faculdade Toledo de ensino de Presidente Prudente e me mandou de volta para terminar a faculdade em Ribeirão Preto. Sofri, pai, porque eu não queria morar em pensão, não queria morar em outra cidade. Mas fui. E assim que peguei meu canudo vazio das mãos do Dr. Pessini, voltei para casa.
Estou aqui, pai, nesse final de dia, vendo o mar que o senhor tanto amava e nos ensinou a amar também, e tomando meu whisky “regulamentar” como o senhor dizia. E me lembrando de quantos whiskies tomamos juntos – foi o senhor quem me ensinou a gostar do single escocês. E tantas outras coisas na vida que o senhor me ensinou. Só se esqueceu de me ensinar como continuar sozinha, sem sua valiosa opinião, seu apoio incondicional e seu amor de pai.
Não vou comemorar, pelo segundo ano seguido, o dia dos pais. Porque nada tenho a comemorar – só a saudade que tenho do senhor, só a falta que eu sinto de um abraço de pai, que nunca mais terei.
Sei que não serei merecedora de ir a seu encontro na eternidade, mas queria muito, pai, pelo menos uma vez, de relance que seja, vê-lo e abraçá-lo. Mesmo que fosse por uma única vez.
Saudade, meu pai. Muita saudade, e tristeza nesse dia dos pais, e meu eterno amor de filha.”
(obs. – na foto acima, meu pai, Carlos, com a bisneta Helena, de meu acervo pessoal)
Há muito tempo que ele não está.
No entanto, é uma ausência de porta aberta, por onde passam saudades sem medo. Cuido delas com os canteiros de jasmim, as borboletas amarelas, a Polonaise de Chopin, a luz das manhãs de outono, a batata assada no espeto, a " Nossa Senhora do criado-mudo", o pé de limão bravo, o mingau de fubá, a caixinha de segredos perfumada de alecrim. Conversamos através da Ave Maria e o pressinto sorrir com a folia das crianças que, vez por outra, revelam semelhanças com o bisavô que não chegaram a conhecer. É assim que preencho o espaço vazio que papai deixou. Aprendi com ele a correr descalça pelas trilhas a despeito dos ventos contrários e das destemperanças. Nosso abraço foi interrompido muito cedo, mas em algum lugar etéreo nossas almas se tocaram
Véus se sobrepõem
Impostos por quem os usa
Castrando o que sonho
Encobrindo, incautos, meus medos
Enclausurei-me na minha inóspita ignorância
Cerquei-me de muros e cercas
E sim, sei...
Que muros podem ser derrubados
Cercas puladas
E a ignorância...
Bem! a ignorância , sempre me foi abstracta
Nem sei bem, que receio
Nunca me cingi ao escrutínio alheio
Expectativas criadas?
Talvez, mas apenas minhas
Respiro devagar
E me embargo, cautelosa
A um mar tempestuoso
Por isso vos peço...
Não me procurem
Nem esperem na amurada
Nem tampouco toquem os sinos à minha chegada
Pois nem eu sei , de minha partida...
Depois de mais de sete meses ausente, aguardando a reabertura da vida, ontem consegui ir à praia. Encerrei meu involuntário isolamento. Saí na estrada. E ninguém mais vai me segurar.
Cheguei na praia, fiz minha saudação ao mar, amor maior na minha vida. E perguntei: sentiu minha falta? O que você tem para mim? E ele me mandou o primeiro presente.
A praia sem a fedentina dos fritadores de pastel e camarão estava bem mais agradável. Continua proibida a permanência com cadeiras, barracas, guarda-sol… então as pessoas caminham, algumas se sentam na areia, mas há uma outra dinâmica. E a limpeza da água é algo que faz pensar que, de certa forma, essa peste ajudou em alguma coisa.
Não há mais montanhas de lixo na areia no final do domingo. Infelizmente, porém, alguns abestalhados não entenderam e levam seus fedidos cães para a praia, para o mar. E vemos cocô de cachorro na areia.
Esse povo precisa de fiscalização e penalização. Não basta a regra. Só o chicote funciona.
Fiz uma longa caminhada.
Sem usar máscara. Coloquei essa indecência para descer no elevador e atravessar a rua. Chegando na praia, tirei. RESPIREI! Vi pessoas caminhando de máscara. Nada tenho contra. Tem bobo para tudo na vida. Mas minha rinite alérgica praticamente desapareceu em dois dias.
Arrastei cinco quilômetros esse mar, até sentir a musculatura reagir. Aí caminhei o restante pela areia. Em seguida, para encerrar, tomei um longo banho de mar – que, curiosamente, mesmo sendo inverno, não está gélido, mas agradável. Em alguns pontos até quentinho.
Renasci.
Hoje, voltei à praia, o sol mais forte, bem menos pessoas, tudo mais bonito.
E o mar, feliz de me ver, trouxe vários presentes:
Faltam dois, com os quais presenteei duas garotinhas – um de cerca de um ano e meio que abriu um lindo sorriso quando passei perto dela. E outro, dei para Giovana, uma morena que mais parecia uma boneca se mexendo, por volta de três anos de idade que encontrei perdida e a ajudei a encontrar a mãe.
Depois fui para o mar.
E lá fiquei até cansar.
A areia me acolheu, o mar me aquietou, o sol me aqueceu e Deus me abençoou. Porque aqui, nesta praia, é o único lugar do mundo onde me sinto realmente abençoada. Onde meu corpo e minha alma ficam em paz.
Um dia eu voltarei a morar aqui. O mar sabe disso. E vai me esperar.
O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.