Vivendo na madrugada

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Madrugada. A hora mais escura na noite, que precede o amanhecer. A hora em que o mundo se cala. Ouço o silêncio, às vezes quebrados pelos metais e pedras dos mensageiros do vento se chocando no embalar da brisa. Como um chocalho a embalar a criança que resiste dentro de mim.

Madrugada não foi feita para dormir. Mas para pensar. Sonhar acordada.

São vários conjuntos, nem todos sonoros, ao redor da minha varanda. De todas as formas – golfinhos, sinos, borboletas, pedras, pássaros, mandalas, estrelas; feitos de pedras variadas, de cobre, de madeira, de vidro… cada um com sua beleza.

Quando um deles vem me chamar na madrugada e me transporta para meu outro mundo, saio de mim e o sigo numa jornada única, partilhada entre mim e minha alma.

E atravesso o portal do tempo, da distância, da vida e do querer.

Por algumas horas, antes que o sol quebre esse encanto, renasço na alegria de existir, na companhia da solidão amiga, no regresso a mundos onde nunca fora antes.

Meus mensageiros trazem até mim quem está longe, quem partiu, quem não está. E vozes, e luzes, e cantos e carinhos há tanto já perdidos.

Brincamos de roda, cantamos ritmos, tudo envolto no mais absoluto e solene silêncio da madrugada. Nessas horas, em que estou mais viva do que durante o dia, sinto o prazer da vida, ab pelo escuro e pelo silêncio.

E, quando a brisa os avisa que está partindo antes que a aurora a flagre desarrumando a ordem da noite, eles se calam, minha alma volta para mim, e então adormeço, até o raiar do novo dia.

(Imagem: Foto de Maria Alice)

Os desvãos do nada

Trinta raios convergem para o meio de uma roda

Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.

Molda-se o barro para fazer um vaso;

É o espaço dentro dele que o torna útil.

Fazem-se portas e janelas para um quarto;

São os buracos que o tornam útil.

Por isso, a vantagem do que está lá

Assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está.

(TaoTe Ching, cap. 11)

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Quando o nada é o que preenche, a utilidade está no não-espaço, enxergamos outro lado da realidade.

Nosso concreto, nosso visível, tátil, sensível, já não se impõe. Atravessamos o espelho e vemos o outro lado – exatamente o abstrato, o que não vemos, não sentimos, e encontramos conforto nessa outra realidade.

Quantas vezes nos agarramos ao que existe, enquanto, na verdade, queríamos apenas o que não está lá fisicamente.

Vivemos uma vida de apego ao material. Ao que vemos. Ao que podemos ostentar. Ao que sentimos, ao que podemos dividir. Ao que pegamos, ao que podemos exibir. Sem perceber que o mais importante era o nada, o vão, o intangível. E não damos importância ao que realmente nos marca, nos alegra, nos toca e nos emociona.

Os detalhes valem mais que o todo. Os desvãos contam os segredos . Onde nada se mostra, tudo existe.

O que dói não são as lágrimas que vemos. Mas a dor invisível que as causou.

O que importa não são os braços, mas os abraços.

Um dia, apenas a ausência será a nossa companhia.

O que fica não é a presença, mas a saudade.

E o nada, o que mais nos preenche.

(Foto: Stock Photo)

Mulheres à beira-mar – Sophia de Mello Breyner Andresen