
Por hoje, quarta-feira…

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


O poeta não gosta de palavras
escreve para se ver livre delas.
A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.
Quando
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.
Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.
Com raiva
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.
Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença: é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga
Ao brutal fim do meu poema.
(Imagem: banco de imagens Google)
Meu pai partiu. Fisicamente. Porque no amor ele nunca se foi. Na saudade. Na necessidade de sua companhia. E, de certa forma, ele ficou. Porque está presente nesta grande família que ele criou por puro amor. Está presente no amor, nas lembranças, nas reuniões, a ausência mais presente entre nós.

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis sobre um fundo de manchas já cor de terra — como são belas as tuas mãos — pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram na nobre cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta, uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste alimentando na terrível solidão do mundo, como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos nodosas… essa chama de vida — que transcende a própria vida… e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…
(Imagem: foto de Maria Helena Ferreira da Rosa)

E sou o que você quiser
Sou o que você precisar
Sou aquela que estará sempre
- e para sempre – a seu lado
Na cama eu sou fêmea
Na vida eu sou mulher
Na trilha, sou companheira
No atalho, sou cúmplice
Sou sua mãe, sua amiga
Sua amante e sua irmã
Posse ser seu guia e seu farol
E posso ser a escuridão
Posso ser a asa que voa
E posso ser o ninho que acolhe
Posso ser o berço que embala
E posso ser a roda que impele
Sou sempre aquela peça
No lugar certo, insubstituível
E sou sempre, facilmente, e para sempre
a sua principal vítima
(Imagem: foto de Maria Alice)
Pour connaître la rose, quelqu’un emploie la géometrie et un autre emploie le papillon. (Paul Claudel)

Voando leve e colorida, como se fosse uma flor com asas, a graciosa borboleta pousa silenciosamente sobre uma folha.
Como pode essa maravilha etérea e cheia de esplendor ter sido, um dia, a feia e desengonçada lagarta, ou larva de borboleta… mistério da natureza.
Com olhos superpotentes – formados por 12.000 – doze mil! – partes minúsculas que permitem enxergar em 360 graus, e ainda seus dois pares de asas, esses magníficos insetos são movidos “a bateria solar”, uma vez que suas asas dependem da energia solar para voarem.
As borboletas são místicas. Depois do ciclo lagarta, vem o estágio da crisálida. Ali, sob a dura casca pendurada por fios, desenvolve-se a borboleta em almofada de seda.
Então a curiosa metamorfose acontece e surge a borboleta.
Todo esse caminho deve ser naturalmente percorrido. Se alguém, inadvertidamente, tenta apressar e abre o casulo, não haverá a borboleta. Ela só pode viver quando chegar seu exato momento.
E, uma vez livres, têm tantos significados para os humanos.
Quem assistiu ao filme “Suplício de uma saudade” jamais poderá avistar uma borboleta sem se lembrar das duas cenas que envolvem os protagonistas e as borboletas.
Para uns é sorte, para outros, o amor chegando, ou a felicidade, a fortuna…
E os pequenos bichinhos, pesando cerca de 1 grama, voam, indefesos e, aparentemente, ignorando o que os humanos pensam a seu respeito.
Não devem ser capturadas, e, se nascidas em cativeiro, perdem sua natureza.
Por exemplo, a magnífica borboleta monarca, que voa 5.000 km em sua migração anual do Canadá para o México, em busca de calor – criadas em cativeiro, perdem a capacidade da migração.
A liberdade é sua essência.
Eu as vejo como flores sem raízes, voando livres, felizes por terem atingido esse estágio na vida, depois de tanta feiura, clausura e sofrimento.
Ela entende minha admiração, alça voo, faz pequena reverência perto de mim, e voa em busca de seu destino.
(Imagem: banco de imagens Google)