A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Todas as vidas gastei para morrer contigo. E agora esfumou-se o tempo e perdi o teu passo para além da curva do rio. Rasguei as cartas. Em vão: o papel restou intacto. Só os meus dedos murcharam, decepados. Queimei as fotos. Em vão: as imagens restaram incólumes e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas. Com que roupa vestirei minha alma agora que já não há domingos? Quero morrer, não consigo. Depois de te viver não há poente nem o enfim de um fim. Todas as mortes gastei para viver contigo.
Doeu. Doeu muito. Doeu demais. Ainda que lhe quebrassem todos os ossos do corpo ao mesmo tempo ou se lhe esmagassem todos os músculos Se lhe arrancassem todos os órgãos Ou lhe tirassem a pele em vida, Nada Absolutamente nada Doeria tanto quanto essa ausência Por isso agora parte Já não chora – as lágrimas secaram Já não dói – esgotou a capacidade de sentir dor Já não sofre – exaurido na dor já sentida Parte. Apenas parte. Sem lamento. Sem sofrimento. Sem bagagem. Sem adeus.
Nostalgia é saudade do que vivi,melancolia é saudade do que não vivi.(Carlos Heitor Cony)
Quantas vezes abro meus e-mails esperando um especial, o qual não sei de quem viria nem o que falaria, mas um e-mail que enchesse minha alma de alegria.
Nunca vem.
Quantas vezes espero ouvir tocar o telefone na certeza ansiosa de é alguém para dar uma boa notícia – alguém que não sei quem, nem sobre o que, mas que fosse como um sol num dia frio.
Nunca toca.
Quantas vezes começo o dia na certeza que algo extraordinário há de acontecer, que transforme minha vida como num sonho mágico.
Nunca acontece.
E assim vivemos: sempre esperando algo maravilhoso que nunca chega.
Começamos a ter saudade do que nunca vivemos, vontade de voltar a lugar onde nunca fomos.
E uma profunda tristeza vai crescendo dentro de nós, tomando conta de tudo e apagando as luzes da alegria.
Perdemos a vontade de tudo, quando amanhece só queremos sumir, passar para debaixo da cama e ali ficar, quietinhos, no escuro, esquecidos do mundo.
Cada tarefa a cumprir é um calvário. Sorrir, comer, trabalhar, até mesmo pensar é penoso.
E como não podemos parar vamos nos arrastando vida a fora, carregando um peso incrível que não é nosso e nem sabemos porque temos de suportar.
Aí um dia, sem mais nem menos, um belo dia, quando acordamos ouvimos um sabiá cantando do lado de fora da janela.
Abrimos a janela e vemos um lindo sol lá fora, sorrindo para nós e nos convidando para a vida.
Leves, felizes, retomamos nossa vida, deixando para trás a melancolia, que volta então, cabisbaixa, para seu cantinho, e fica por ali esperando um dia em que estivermos distraídos para pular de volta no centro de nossa vida e tomar conta de tudo novamente.
Calmaria
... Embarco
Mar adentro
Pescador de poesia.
Barco deslizando
Eu, poeta
...Versos...
Pescando.
Me esperas na areia
Brilho no olhar
Que anseia
Pelos poemas que te trouxe do mar.
Não tenho mais os olhos de menina nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou. Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins. (Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: dou-te os meus ganhos. A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada. Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora: esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor, a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais, a dar-te regaço de amante e colo de amiga, e sobretudo força — que vem do aprendizado. Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés — mesmo se fogem — retornam, cujas correntes ocultas não levam destroços mas o sonho interminável das sereias.
Poeta, onde é sua morada? Quero encontrá-lo, ver onde vive, do que é feito seu mundo. O poeta me recebe, mas não é bem uma casa onde ele mora. Sua morada é o mundo, seu telhado é o céu De dia ele avista as nuvens, à noite dialoga com as estrelas Também não tem paredes, porque o poeta é livre Seus limites são os limites do Universo Não precisa portas nem janelas, não há cercas nem muros O chão do poeta é o imenso oceano Pisa nas espumas das ondas, repousa nas marolas Os vizinhos do poeta são as matas, os rios, A natureza tranquila e exuberante Na casa do poeta se ouvem o mar, o vento e o silêncio E os suspiros da paixão não correspondida Se veem os quadros das lágrimas dos que choram por amor Pode-se tocar o concreto sofrimento dos abandonados Tudo é etéreo, tudo é difuso Porque o poeta medita, em profunda solidão, vive dentro de si para conseguir ver o mundo Procurando a morada do poeta, não a vi Ela não está sobre a terra, não está no horizonte Descobri então que o poeta, na verdade Mora na alma dos apaixonados Vive a eterna dor da finitude da paixão Em contraste com o amor infinito Sua alma abriga todas as penas humanas E seus olhos enxergam o que ninguém vê O poeta mora na brisa que sopra No brilho de cada estrela da madrugada Nos pingos da chuva mansa que nos acalma Nos sons do pranto do desesperançado Ah, poeta, agora que consegui vir à sua casa Deixa-me, eu também, morar nesse universo…