A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Se quiser saber quem eu sou, venha até mim, eu lhe mostrarei.
Venha, calce esses meus sapatos de trabalhar. Ande muito com eles. Passe pelos caminhos que eu passei, tropece onde tropecei, se desequilibre onde eu caí…
Por muitos anos ande com esses meus sapatos de trabalhar – por muitas décadas eu os usei diariamente. Enfrente os maus colegas, desvie das rasteiras, engula os desaforos, mas não tire esses meus sapatos de trabalhar.
E depois calce esses meus sapatos da vida particular. Enfrente todo o desamor e a tristeza. Caminhe sozinho e com medo por estradas assustadoras, segure você mesmo sua mão porque ninguém fez por mim nem fará por você. Quando a noite vier, não tire esses meus sapatos da vida particular, continue, em total solidão, caminhando com eles, mesmo na escuridão, sem nada enxergar à frente.
E então calce esses meus sapatos de atravessar o inferno. Sabendo que na entrada deverá tirá-los porque o inferno se atravessa descalça. Eu o fiz várias vezes. Por mais terrível que seja, eu asseguro – há uma saída. Então não pare de caminhar. Se e quando conseguir sair, poderá calçá-los novamente.
Depois disso, poderá dizer que me conhece.
E os meus sapatos de ser feliz? Você quer caminhar com eles também? Desculpe-me negá-los, mas não os tenho…
Qual a mais bela poesia já escrita? – pergunto-me neste dia 21 de março, em que se comemora o Dia Mundial da Poesia.
Quem foi o maior poeta de todos os tempos? Algum famoso, algum anônimo, alguém muito famoso ou um ilustre desconhecido?
Há poesias belíssimas. Poesias feinhas. Poesias emocionantes. Poesias chatinhas… e nem toda poesia é poética… e alguns textos não poéticos que são verdadeiras poesias.
Não existe poeta sem poesia. Mas existe poesia sem poeta.
Porque o poeta apenas transcreve a poesia que existe em algum lugar – dentro ou fora dele.
A poesia está na alma, no sangue, no querer, no sofrer. E está no ar. No mar. Na natureza. Nas relações humanas. Nos sons. Nos céus.
Em todo lugar há poesia. Até na dor.
A ideia de uma Beatriz descendo do Paraíso para pedir ao poeta Virgilio que guie seu amado Dante para fora do inferno já é, em si, uma poesia extrema.
E, depois da peregrinação pelos círculos do inferno, o ingresso e a passagem pelo Purgatório, com encontro de tantos conhecidos, finalmente o Poeta chega ao Paraíso, onde a alma de Beatriz o espera.
O amor de Beatriz o leva à redenção. O que de mais poético do que essa simples ideia?
Isso é poesia.
Exilado, para não ser queimado vivo em Florença, o poeta Dante se retirou para Ravena, onde faleceu e ali está seu túmulo. Entretanto, em Firenze, na lateral da nave da Basílica Santa Croce, foi construído um túmulo para ele, onde se encontra uma escultura que emociona: debruçada sobre a tumba, a Poesia chora a morte do Poeta, em um túmulo condenado a ser vazio…
Os sonetos de Camões. Por obra do fidalgo D. Gonçalo Coutinho, ocorreu a primeira homenagem ao grande poeta, agora já morto: em 1595 mandou preparar a primeira edição da lírica do poeta e ordenou que seus restos mortais fossem transladados para a nave central da Igreja de Sant’Anna, onde repousam sob a lápide com a inscrição “Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos poetas de seu tempo: viveu pobre e miseravelmente e assim morreu. Esta campa lhe mandou aqui pôr D; Gonçalo Coutinho, na qual se não enterrará pessoa alguma”. Depois do desmoronamento da referida Igreja, no terremoto de 1755, seus restos mortais acabaram sendo transferidos para Lisboa, onde repousa no Mosteiro dos Jerônimos, ao lado do túmulo de D. Sebastião. (Fonte: Até que o amor me mate, de Maria João Lopo de Carvalho).
E tantos os poetas, e tantas as poesias.
Neste dia mundial da poesia deixo aqui um soneto, poesia na mais pura forma, escrito pelo insuperável Luís Vaz de Camões, um dos maiores escritores de língua portuguesa e ainda, um dos maiores representantes da literatura mundial, mundialmente conhecido, escrito para usa amada prematuramente falecida:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
E eu pensei que partia Que era livre, nada a me prender Então parti. Fui embora Sem rumo, sem Norte
Apenas fugi. De tudo. De todos. E, principalmente, de mim.
No impacto da coragem Não pensava em mais nada Estava, finalmente, livre! Livre!
Busquei estradas, percorri atalhos Deitei em bosques, nadei em remansos Era só para mim que as nuvens dançavam O céu era inteiramente meu As estrelas sorriam e piscavam para mim
Mas logo o encanto se perdeu A angústia voltou a me perturbar O que eu queria? O que eu buscava?
O escuro novamente se fez em minha alma E, vi, com tristeza, que não era livre Apenas fugira de um lugar Mas não encontrara a liberdade Porque trazia comigo, dentro do meu peito A prisão que me limitava
A tristeza infinita Da saudade eterna que habita Dentro do meu mais profundo existir E não deixa minha alma voar: