
Para pensar 14

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Você nunca perde alguém apenas uma vez.
Perdemo-lo todos os dias, nos silêncios e memórias que ficam. Perdemo-la à noite, quando fechamos os olhos e a sua ausência nos abraça. E perdemos ele novamente todas as manhãs, abrindo os nossos olhos para um mundo onde ele partiu.
Perde-se nas pequenas coisas do dia-a-dia: uma xícara de café deixada vazia, uma cadeira deixada desocupada ou um par de sapatos pendurados no corredor. Perdemo-lo ao pôr do sol, quando a luz desvanece e a escuridão se instala. E a gente perde procurando respostas em um céu estrelado, cheio de silêncio.
Perdemos nas grandes ocasiões, aqueles momentos que deveriam ser comemorações: aniversários, formaturas, casamentos, festas de formatura. E também perdemos em dias comuns, aqueles que passam sem brilho mas onde sua falta é sentida.
Uma música que ele adorava cantarolar, o cheiro familiar do seu perfume, o sabor de uma receita que ele dominou tão bem: tudo isso nos traz de volta a ele. Perdemos nas conversas que nunca teremos, nas palavras que queríamos dizer, e nos sonhos compartilhados que nunca se realizarão.
Perdemo-lo nos lugares que visitou, nos que ele gostaria de ver, e em tudo o que poderia ter sido. As estações passam, e a sua ausência é sentida a cada mudança: quando a neve cai, as flores abrem, a erva cresce, as folhas caem.
Dia após dia, mês após mês, ano após ano, a sua ausência continua a ser uma realidade. Recolhemos os pedaços do nosso coração partido, tentamos seguir em frente, mas perdemos novamente cada vez que percebemos que nunca mais vai voltar. Não importa o quanto sentimos falta dele. Não importa o quanto o amássemos. Eles estão fora.
O tempo passa e o leva mais longe. O nosso cabelo fica grisalho, o nosso corpo fica cansado e a nossa memória desvanece. A cara dela está a começar a desaparecer. Uma foto desbotada torna-se a única ligação tangível com ele, e dás por ti a pensar: “Isto foi realmente ontem, ou isto foi outra vida? ”
Você nunca perde alguém apenas uma vez. Perdemo-lo todos os dias, vezes sem conta, para o resto das nossas vidas.

Aquelas mãos, tão queridas
tantos anos presas às minhas
tão gentis, tão firmes, tão seguras
já não estão em mim, não estão comigo
não me sustentam nem me procuram
Aquelas mãos, tão queridas
tão macias, aconchegantes, carinhosas
aquelas mãos se foram
e não voltarão jamais
(Imagem: banco de imagens Google)

Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo
Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio
Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces


Nada como um bom desafio para nos levar à ação.
Quando “inaugurei” esse blog, nos idos de 2008, postava algumas crônicas, sem regularidade temporal, não mantendo assiduidade.
E o blog caminhou, cresceu, e, há alguns anos, eu me desafiei para postar por 100 dias seguidos.
Esses 100 dias transcorreram com posts diários. Venci meu próprio desafio.
Algum tempo depois, já com um número de leitores assíduos, resolvi “abrir” espaço para outros autores. Assim, famosos, anônimos, conhecidos e desconhecidos tiveram textos, crônicas ou poemas, aqui publicados. Se lia ou recebia algo que “me tocava”, transcrevia no blog.
Também as fotos que ilustram os posts, se não eram anexos aos mesmos, eram escolhidos no banco de imagens da internet ou fotos que amigos me enviavam.
Durante o tempo de isolamento fiz novo desafio: postar 200 dias seguidos. Aqui já eram textos meus e alheios. Mas cumpri o propósito e, por 200 dias, religiosamente houve publicação.
O blog, mais que uma faceta da minha “carreira” de escritora, é uma alegria no meu dia, um prazer vir aqui e conversar com quem me lê. Com quem me honra com o cuidado de também vir aqui, aceitar meu cafezinho virtual e ler a publicação do dia. Tento não falhar. São leitores de mais de 40 países.
Inventei algumas séries com dias certos na semana, começou com biografia de meus poetas preferidos, músicas, e, atualmente, a série “Para pensar”, sempre aos domingos.
A vida nos traz novidades, boas e más surpresas. Motivos para rir e motivos para chorar. Acontecimentos para serem lembrados e acontecimentos para serem esquecidos. Vontade de viver e vontade de desistir. Vamos nos conhecendo enquanto vamos vivendo. Os outros? Esses nunca conheceremos de verdade. Só a face que nos é mostrada.
Escrever é como olhar pela mesma uma janela e ver, a cada dia, uma nova paisagem. Que só existe dentro de nós, mas temos como mostrá-las aos outros e conseguir que também vejam pelos nossos olhos. É abrir uma porta inesperada e levar junto o leitor, para conhecer esse novo mundo.
Por vezes a realidade é leve. Em outras, muito pesada para nossos frágeis ombros. Mas precisamos continuar. A caminhada só cessa na morte. Quantas vezes pensamos não aguentar mais, porém de algum lugar dentro de nós, vem uma força até então desconhecida e continuamos a luta…
E, há quase um ano, em momento de intenso desânimo, para me provocar, “chamar para a guerra”, fiz novo desafio: publicar por 300 dias seguidos, sem falhar um sequer.
E, mais uma vez, consegui. Hoje, completo TREZENTOS dias de publicações seguidas.
Às vezes penso que sou movida a desafio.
Houve ocasiões em que já estava por volta de 23h e eu me lembrava que nada havia postado. Imediatamente, vinha para o escritório e, antes das doze badaladas (sentido literal, uma vez que tenho em casa um carrilhão que me canta as horas em doces badaladas), estava postada a publicação do dia.
Não importa em qual das minhas casas estou – ou se em algum hotel. Foram trezentas publicações.
É gratificante saber que consegui.
E, ainda, agora tenho plena certeza que é melhor não me desafiarem. Porque, uma vez desafiada, vou até o final. Não paro enquanto não vencer…
(Imagem: foto de Chico Escolano)