
Para pensar 20

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Coração, por favor, s’assossegue!
Assim você incomoda – bata mais devagar,
dentro de um só compasso, sem pressa,
não tente bater tudo de uma vez,
que você ainda não vai descansar:
a sua vez de parar ainda demora acontecer;
então se poupe, meu lindo,
e me deixe, ao menos, respirar!
(Imagem: banco de imagens Google)


Essa frase tem uma sonoridade outonal fabulosa, quase poética – como se fosse um início de depressão, uma nostalgia infinda, um toque sutil de um sofrimento indefinido.
No entanto, nada mais é que uma constatação da natureza, observação de agrônomo: Não se ajuntam as folhas mortas.
E por que?
Porque muitas folhas, quando caem e forram o chão passam a exercer papel importante no enriquecimento do substrato local, por isso devem ser deixadas ali, onde tombam, ainda que os ventos carreguem parte delas. Mas as que ficam, estas não devem ser juntadas.
Isso foi tirado de um artigo publicado por Alain Lompech no Le Monde, que dizia: Les hibiscus mauves perdent déjà leurs feuilles qui s’amoncellent sur la pelouse. La tondeuse les ramassera. Mais celles qui tombent ao pied de cet arbuste resteront là où elles sont. Elles se décomposeront su place et enrichiront la terre en surface. Em attendant, elles sont d’um bien beau jaune. …. Elles protégeront du froid les Begonia evansiana qui poussent ao pied de la glycine. …
É a poesia da natureza por si mesma: as folhas caem porque é outono. Forram o chão cobrindo a terra. Que prazer caminhar sobre folhas mortas, seu som, seu cheiro…
O vento as leva, as ajunta, mas arbustos prendem algumas e as seguram a seus pés. E essas lhe servirão de cobertor, protegerão do frio intenso. E se decomporão no local, enriquecendo a terra que as acolheu.
E assim tudo se renova.
E nós, o que fazemos quando chegamos ao outono de nossa vida?
Caímos, porque o inverno da velhice não perdoa os que sobrevivem…
E somos varridos e ajuntados ou servimos de proteção, fonte de calor e nutrientes para aqueles que vêm depois de nós?
A escolha depende de cada um, não quando chega ao outono pessoal, mas na construção de sua vida.
Há pessoas que seguramos conosco, queremos que continuem ali, como guias, fonte de amor, de calor. Outras preferimos que as tempestades varram e ajuntem bem longe de nós.
Temos que tentar ser para os outros – arbustos novos que vêm depois, nosso futuro – as folhas a serem agarradas, valorizadas e não o lixo que é levado pela tempestade da vida.
E temos também que agarrar e segurar junto de nós as folhas das quais dependemos para ter um pouco de calor quando nosso inverno chegar, reconhecer e valorizar essas folhas tombadas de rara beleza em seu amarelo de outono.
(Imagem: banco de imagens Google)

Não deixe que eu desame
Eu não sou de desamar
Eu sou de ir fundo
Eu sou de entregar
Abrir os braços a encontrar
Alargar o sorriso
Escancarar o coração
Eu sou de mergulhar
De sentir gora a gota
De experimentar – experenciar
Eu gosto mesmo é de estar
Mas, não me deixe desamar
Eu esvazio
Eu esfrio a alma
(Imagem: foto de Maria Alice)

Conforme o tempo passa nossas vontades, nossos gostos vão se alterando. Coisas importantes, cuja falta seria fatal, já não importam.
Pessoas sem as quais não viveríamos se desfazem na fumaça do esquecimento.
Outras prioridades vêm e tomam conta do pensamento, do desejo e da necessidade.
Acho que isso é amadurecimento – ou envelhecer mesmo.
Por exemplo, coca-cola. Fazia parte da dieta, da rotina, de tudo. Agora passo meses sem um copo de coca-cola e descobri que não morri por isso, embora imaginasse, antigamente, que não sobreviveria sem ela.
Outra coisa é viajar.
Sempre adorei viajar.
Sempre estive pronta para pegar a mala (malinha, que não gosto de carregar a casa quando saio) e ir. Ia para todo lado. Sozinha, acompanhada, com todo mundo, com alguém… Mas ia.
Pegava o carro e cortava estrada para qualquer lado que me atraísse. Era um prazer dirigir, viajar sozinha. Hoje pago para não chegar perto de um volante (confesso que metade do problema são esses indecentes motoqueiros – cabriteiros, porque aquelas maquininhas estão mais para cabritas do que para motos). Se posso vou de táxi em todo lugar só para não tirar o carro da garagem.
Dirigir hoje, para mim, é castigo.
Também avião.
Avião era sapato, usava para me deslocar sem qualquer problema.
Agora estou acomodada – ou preguiçosa…
Só de pensar em aeroporto me dá arrepio.
Tenho uma vontade etérea de ver outros lugares, de voltar outras vezes para a Itália, novamente para Paris. Um desejo constante de estar lá.
Mas não tenho a menor vontade de ir até Paris. Não consigo mais me imaginar dando plantão no aeroporto, enfrentando a falta de educação da maioria das pessoas no interior do avião. A neura dos policiais aeroportuários, a esteira da bagagem.
Iria, feliz, se pudesse ser teletransportada.
Será que isso é envelhecer?
(Imagem: foto de Maria Alice)