
Para pensar 51

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


A flor que atiraste agora,
quisera trazê-la ao peito;
mas não há tempo nem jeito...
Adeus, que me vou embora.
Sou dançarina do arame,
não tenho mão para flor:
Pergunto, ao pensar no amor,
como é possível que se ame.
Arame e seda, percorro
o fio do tempo liso.
E nem sei do que preciso,
de tão depressa que morro.
Neste destino a que vim,
tudo é longe, tudo é alheio.
Pulsa o coração no meio
só para marcar o fim.
(Imagem: banco de imagens Google)

Um milhão de preocupações. Enquanto espero o semáforo ficar favorável, mentalmente faço a lista do que já fiz e do que ainda falta fazer. A fila anda. Dez metros e para tudo de novo. Sinal fecha novamenteo. O dia é curto para tanto afazeres. Preciso ir ao banco, ao correio, ao cartório, à fisioterapia, ao mercado, almoço para fazer… e parada no semáforo, como se estivesse tudo feito a tempo…
Vida moderna. Só se corre. Não importa sua disposição. Sua necessidade. Sua vontade. Seu tempo não é seu. O que importa é dar conta de tudo.
No veículo ao lado, emparelhado com o meu, a garota-motorista canta a plenos pulmões junto com a música que toca em seu carrinho moderno e lindo.
Linda ela também. Além da beleza própria da juventude, a alegria do canto e a liberdade que deve estar sentindo em seguir sua vida dirigindo o próprio carro – sinal que já está começando a dirigir a própria vida – lhe dá um plus em beleza.
Fico encantada vendo sua leveza e sua alegria. Parece se divertir com o engarrafamento. Ou não tem horário para chegar, ou não tem compromissos para cumprir.
Apenas curte o momento. O trânsito parou? Ótimo momento para se cantar, parece pensar.
E canta. E com a mãos segue o ritmo batucando sobre o volante.
Não sofre de passado mal resolvido, não sofre de futuro que não está conseguindo resolver. Apenas vive o presente. E o presente é um baita engarrafamento causado por obras na pista e excesso de veículos circulando.
Ela está certa. Não dá para sair voando. Não se pode passar por cima dos outros. O jeito é curtir o caos.
Ligo minha música, uma hora conseguiremos sair desse trecho congestionado, e, mais contida talvez pelos anos já vividos, canto internamente…
(Imagem: banco de imagens Google)

A saudade, sorrateira, nunca pediu licença para entrar.
Espaçosa, oportunista, adentra na alma e se entranha no existir de forma inseparável.
Fere, machuca, sangra. Nunca cicatriza. Ferida viva para não deixar esquecer.
Porque a ausência tão presente ainda vive dentro de cada um. Não é passado.
É presente, mais forte do que jamais foi a presença.
A ausência é constante, é concreta, muito mais do que era a presença. Não deixa qualquer dúvida.
Esta saudade louca impõe a ideia obsessiva.
Amanhece-se e anoitece-se com ela ao lado. Apenas não se adormece com ela, não se pode mais dormir de verdade. A saudade não permite.
Ela controla, domina os pensamentos, não consente que se tenha vida própria, desejos nem os próprios pensamentos.
Pulsa como oceano de emoções controversas, em marés de desejo e saudade.
E, para caber mais saudade, para ter mais espaço, ela expulsa a paz, a alegria e todos os sonhos.
E nos transforma em um mar de saudade.
(Imagem: foto de Maria Alice)

Esse mar, tão lindo, imenso e indomável
vem, gentil, tocar a meiga areia da praia
e a fina areia, grãos de cristal, ao sabor do vento,
sempre espera, ansiosa, o toque de seu mar.
O vento a esparrama, a desfaz, a carrega
para longe e a mistura em outras praias e some
mas o mar, esse nunca a abandona, ele vai,
mas logo volta, apaixonado e se entrega...
Os amores são tão opostos, e a areia
sempre só, rolando na praia, abandonada,
sabe que o mais constante é o frágil e insípido vento
mas não é ele, por ser quem é, o preferido da eleita.
E a areia, sofrida, espera angustiada, a mudança
da lua e das marés - sabe que ele voltará sempre
e, salgado, impetuoso e amoroso, vem não para ficar,
mas também, para sempre, jamais a deixará
(Imagem: foto do acervo pessoal da autora)