
Palavra de Eugénio

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Sobre a mesa, a pilha de boletos a pagar e lembretes de outras dívidas.
A cada dia o sumidouro de dinheiro cresce. Mas não há como pagar.
Por pura diversão, senta-se à mesa e começa a separar os papéis.
De um lado, aqueles que vêm como logotipos coloridos.
De outro, todos os que são assepticamente em branco-e-preto.
A pilha destes últimos é maior.
Boleto sem um enfeitinho, nada colorido, apenas números e letras pretos em fundo branco do papel. Agressivos. Ameaçadores.
Quando recebe um boleto em preto-e-branco tem a impressão de que o credor está ameaçando – “paga ou vai se arrepender!”
Já os coloridos trazem uma cobrança mais amigável, tipo “olha, você está me devendo, se você pudesse pagar seria bom para nós dois – eu preciso do dinheiro e você se livraria da dívida…”
Depois junta todos novamente. E separa por semana – as dívidas mais antigas nas pilhas mais próximas, depois da próxima semana, até chegar nas últimas cobranças, da semana imediata, que, hipoteticamente, seriam as últimas a serem pagas.
Só sabe quais são as mais antigas – não mudam, enquanto que as mais próximas perdem diariamente o posto quando outras, mais recentes, adentram pousam sobre a mesa.
Assim os dias se sucedem. Não sai de casa. É uma forma de economizar. Mas, mesmo assim, os boletos chegam. Sua diversão é usá-los como objetos lúdicos para se distrair.
Já pensou em emendar uns nos outros e fazer de todos uma toalha de mesa tipo de um patchwork de papéis.
Também pode guardar cestos deles e depois fazer uma bela fogueira no meio do quintal na noite de São João.
Mas, no fundo da alma, o que queria mesmo, era arranjar um emprego e conseguir pagar. Sua melhor vingança contra a vida seria apenas isso: ter meios de pagar as dívidas.
Olha para a imagem da santinha e repete o mantra: “por favor, minha santinha, ajuda a arrumar um emprego”. Mas a santinha não ouve.
Vai dormir. Sem pensar no que virá. Se pensar, não conseguirá adormecer. Então tenta esquecer essa realidade. Como se não fosse assunto seu. Porque deixa, para amanhã, os boletos de amanhã.
(Imagem: banco de imagens Google)

Pipas no ar, em um céu sem nuvens
Tom de azul, do mais profundo azul
Pleno inverno, as árvores se despem
E as folhas brincam e correm nas ruas
Ruidosamente em secas risadas.
O mundo descansa quase em plena paz
Acreditando no poder do vento
Em levar consigo toda tristeza
Em varrer o pó de todos amores
Em limpar da vida o que não fica
Em trazer de volta a chuva que falta.
Dando adeus ao passado, as árvores
Balançam os galhos agora sem ninhos
Os pássaros, em bandos já se foram
Aves de arribação, fugiram do frio;
Velhos amores também se foram
Deixando abertos os corações em sangue
Pulsando na espera de novas paixões.
Venta, agosto, venta, que é sua missão
Ventar limpando a terra e a vida,
Deixando limpos os caminhos e atalhos
Para tantas novas caminhadas,
Novos amores, novos sorrisos,
De mãos dadas pela vida afora
Seguindo o vento que a todos levará
Ao final que em algum ponto espera.
Redemoinhos de vento na terra
Luzes no céu, estrelas no nada
São os ventos do mês de agosto
Prenúncio de nova primavera
(Imagem: banco de imagens Google)

Não levaste a minha carne
mesmo que se tenha misturado com tua.
E não levaste o meu sangue
mesmo que se tenha embebido do teu.
O prazer não se leva e mal se recorda,
e nem fica no rosto como tatuagem.
Então...depois de tudo o que ficou?
- Talvez as palavras que ao ouvido te dizia.
Não as saudades da carne, mas da poesia
(Imagem: página Alma poética)

Quando olho para mim não me percebo
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
(Imagem: banco de imagens Google)
