
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Dia de saudade e poesia – (44 anos sem) Vinicius de Moraes – Os inconsoláveis

Desesperados vamos pelos caminhos desertos
Sem lágrimas nos olhos
Desesperados buscamos constelações no céu enorme
E em tudo, a escuridão.
Quem nos levará à claridade
Quem nos arrancará da visão a treva imóvel
E falará da aurora prometida?
Procuramos em vão na multidão que segue
Um olhar que encoraje nosso olhar
Mas todos procuramos olhos esperançosos
E ninguém os encontra.
Aos que vêm a nós cheios de angústia
Mostramos a chaga interior sangrando angústias
E eles lá se vão sofrendo mais.
Aos que vamos em busca de alegria
Mostramos a tristeza de nós mesmos
E eles sofrem, que eles são os infelizes
Que eles são os sem-consolo...
Quando virá o fim da noite
Para as almas que sofrem no silêncio?
Por que roubar assim a claridade
Aos pássaros da luz?
Por que fechar assim o espaço eterno
Às águias gigantescas?
Por que encadear assim à terra
Espíritos que são do imensamente alto?
Ei-la que vai, a procissão das almas
Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento
Andando pela infinita planície que leva ao desconhecido
As bocas dolorosas não cantam
Porque os olhos parados não veem.
Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo
Tudo neles é a negação do anjo...
...são os Inconsoláveis.
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Miguel Carlos Vitaliano – Lágrima

Turva a visão e
aos poucos brota
o líquido morno a
inundar os olhos.
Transborda pela pálpebra
e rola rosto abaixo
driblando a barba rala
e por fazer.
Um lenço apara
a tristeza
e guarda a saudade
no bolso.
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – Quando

Quando o céu se desfaz em nuvens
E as nuvens mergulham no mar
Quando o mar se desfaz em espumas
E as espumas se perdem na areia
Quando a areia se desfaz em vento
E o vento se perde no infinito,
O tempo, paralisado, se extasia
E o dia se desfaz no anoitecer
(Imagem: foto de Maria Alice)
Dia de Caio Fernando de Abreu

Dizem que a gente tem o que precisa. Não o que a gente quer. Tudo bem.
Eu não preciso muito. Eu não quero muito. Eu quero mais.
Mais paz. Mais saúde. Mais verdade. Mais harmonia. Mais noites bem dormidas. Mais noites em claro. Mais eu. Mais você. Mais sorrisos. beijos e aquela rima grudada na boca.
Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingo de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: não é muito quando é demais.
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – Maldito seja

Eu desejo a você toda a infelicidade do mundo.
que todas as palavras que lhe digam sejam mentiras
que todos os amores sejam falsos
que teus caminhos sejam sempre enganosos
todas as águas fervam a seu toque não matem sua sede
todas as frutas que morder se tornem asquerosas ao paladar
que no chão onde for pisar a terra se torne fogo ou nojenta lama
e as árvores todas percam as folhas para negar sombra
e as raízes que serviriam de travesseiros no repouso
se tornem venenosas serpentes a seu contato
que nunca mais encontre descanso nem encontre paz
que nunca mais seja abraçado nem tocado com carinho.
que sua sede nunca se aplaque e sua fome leve à morte
que cada dor a mim causada abra dez chagas no seu corpo
que cada palavra usada para me machucar se transforme
em dez pedradas certeiras e abram dolorosas feridas
só não desejo que para cada lágrima que derramei
venha a derramar dez – porque não lhe será possível
derramar uma lágrima sequer por aquelas que me causou:
desejo que, diante da infelicidade que colherá pelo que
plantou, e desejará chorar por todo o mal que um dia
me fez, de seus olhos não saiam lágrimas, mas sim
escorra sangue – gotas de sangue de tardio arrependimento.
(Imagem: banco de imagens Google)