Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Espaço para Ângela Caboz

Se te dói
não tentes apagar;
a dor é a memória
a procurar o seu lugar.
Em cada segundo de dor
há uma vida que não se esquece;
é essa recordação
que nos faz valorizar o amor
sem lamentar o que nos dói.
Se te dói
deixada que seja a saudade
a vir ter contigo para serenar
essa tua vontade de voltar
ao que já está acabado
Deixa esse passado
vai em busca da eternidade;
a lembrança não pesa,
a carga que tens sobre os ombros
são os lamentos sem cor
com que queres costurar um amor
já sem pontas para se lhe pegar
Deixa que te doa
porque tudo o que te dói
tem uma história para contar
e um tempo para esquecer.
@angela caboz
Dia de poesia – Mia Couto – Já não há mais domingos

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.
E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.
Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.
Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.
Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?
Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.
Todas as mortes gastei
para viver contigo.
Sem dor

Doeu. Doeu muito. Doeu demais.
Ainda que lhe quebrassem todos os ossos do corpo ao mesmo tempo
ou se lhe esmagassem todos os músculos
Se lhe arrancassem todos os órgãos
Ou lhe tirassem a pele em vida,
Nada
Absolutamente nada
Doeria tanto quanto essa ausência
Por isso agora parte
Já não chora – as lágrimas secaram
Já não dói – esgotou a capacidade de sentir dor
Já não sofre – exaurido na dor já sentida
Parte.
Apenas parte.
Sem lamento. Sem sofrimento.
Sem bagagem. Sem adeus.
(Imagem: banco de imagens Google)
Nostalgia

Nostalgia é saudade do que vivi,melancolia é saudade do que não vivi.(Carlos Heitor Cony)
Quantas vezes abro meus e-mails esperando um especial, o qual não sei de quem viria nem o que falaria, mas um e-mail que enchesse minha alma de alegria.
Nunca vem.
Quantas vezes espero ouvir tocar o telefone na certeza ansiosa de é alguém para dar uma boa notícia – alguém que não sei quem, nem sobre o que, mas que fosse como um sol num dia frio.
Nunca toca.
Quantas vezes começo o dia na certeza que algo extraordinário há de acontecer, que transforme minha vida como num sonho mágico.
Nunca acontece.
E assim vivemos: sempre esperando algo maravilhoso que nunca chega.
Começamos a ter saudade do que nunca vivemos, vontade de voltar a lugar onde nunca fomos.
E uma profunda tristeza vai crescendo dentro de nós, tomando conta de tudo e apagando as luzes da alegria.
Perdemos a vontade de tudo, quando amanhece só queremos sumir, passar para debaixo da cama e ali ficar, quietinhos, no escuro, esquecidos do mundo.
Cada tarefa a cumprir é um calvário. Sorrir, comer, trabalhar, até mesmo pensar é penoso.
E como não podemos parar vamos nos arrastando vida a fora, carregando um peso incrível que não é nosso e nem sabemos porque temos de suportar.
Aí um dia, sem mais nem menos, um belo dia, quando acordamos ouvimos um sabiá cantando do lado de fora da janela.
Abrimos a janela e vemos um lindo sol lá fora, sorrindo para nós e nos convidando para a vida.
Leves, felizes, retomamos nossa vida, deixando para trás a melancolia, que volta então, cabisbaixa, para seu cantinho, e fica por ali esperando um dia em que estivermos distraídos para pular de volta no centro de nossa vida e tomar conta de tudo novamente.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Dia de poesia – Alex Avena – Barco
Calmaria ... Embarco Mar adentro Pescador de poesia. Barco deslizando Eu, poeta ...Versos... Pescando. Me esperas na areia Brilho no olhar Que anseia Pelos poemas que te trouxe do mar.
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)
