
Como viveremos no esquecimento
se perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos conservar.
mas levamos anos a esquecer alguém
que apenas nos olhou.
Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

Como viveremos no esquecimento
se perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos conservar.
mas levamos anos a esquecer alguém
que apenas nos olhou.

Quando a moça o viu pela primeira vez, apaixonou-se. Era o pássaro mais lindo que já vira, de canto mais doce que já ouvira.
Deixou-se ficar, enlevada, à janela, olhando para ele como hipnotizada. Ele a notou. E cantou ainda mais bonito para fixar sua atenção. E pousou na janela, tão perto quanto uma ave chegaria de alguém.
Quando imaginou que ele viria até ela, ele, simplesmente, voou para longe e desapareceu.
Ela não mais o viu nem ouviu. Mas nunca o esqueceu. Tinha certeza que ele voltaria.
Então teceu um cordãozinho fino, com delicada laçada, onde o prenderia quando ele estivesse novamente ali.
O cordãozinho ficou guardado em uma caixinha de porcelana ao lado da janela. Muito tempo se passou.
Ela, já nem tão moça mais, um dia ouviu novamente o canto que a encantou. Chegou até a janela e o viu, na árvore mais próxima. Ele cantava em direção à janela.
Quando a viu, voou até o batente e mostrou toda a beleza de suas cores e de seu canto. E entrou na casa, ali ficou.
Ela guardou o cordão da laçada, acreditando que ele viera por vontade própria e ali ficaria para sempre, onde era tão amado.
Não o prendeu. Nem mesmo tentou prender. Deixou-o livre como nascera. Feliz por ele estar ali.
Até o dia em que ele voou. Desapareceu. Nunca mais ela viu o pássaro nem ouviu seu canto. Mas não o esqueceu.
Ela, ainda hoje, já senhora, é vista na janela, olhando para a árvore, segurando, nas mãos, um fino cordãozinho do amor com uma delicada laçada da paixão.
(Imagem: “A janela”, óleo sobre tela de Maria Alice)

El pasado, es un tiempo caminado,
en esa improvisada senda
de momentos inquietos que quedan
en esa descolorida fotografía en grupo,
de perfiles y sombras,
de reflejos y luces,
de movimientos quietos,
desgastada y corroída por el tiempo
que en el aroma de la noche,
cuando el pensamiento se desvía
del instante chasquido de la vida;
ese momento eterno
donde los temores son dudas
y las equivocadas decisiones,
peregrinan por la senda pedregosa
de tu mente confundida,
moviéndose con torpe paso
hacia ese cajón perfumado
de lamentos perfectos
de la inmemorial del presente
donde acudes para recordar
aquellos arrepentimientos
que escriben el futuro,
porque eres consciente
de que cuando la tinta se agote
y la sombra de la fotografía
solo sea una imperfecta mancha
tú ya no estarás aquí.
(Imagem: banco de imagens Google)
.

Dorme desnuda que mesmo de longe
velo por ti e te protejo do frio
com o calor do meu amor,
a força do meu pensamento.
O teu perfil me mantém vivo
e teu olhar transcende a ausência.
Teu cheiro vaga no ar distante.
Sinto mesmo assim e vivo por ele.
É noite e estamos perto.
Se há um espaço físico,
ele é menor que tuas mãos.
Vemos a mesma lua,
o mesmo céu,
o mesmo sol.
Distância existe?
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Há um copo sobre a mesa.
Não é um copo de fino cristal. Nem um copo para bebidas especiais.
Apenas um copo.
Simplesmente aquela vasilha de forma cilíndrica para auxiliar na ingestão de líquidos.
Há uma mesa.
A mesa não está posta. Não ostenta toalha de cambraia de linho bordada à mão, nem porcelanas inglesas ou portuguesas. Não há elegantes guardanapos bordados nem talheres de prata.
Só a tosca madeira nua, castigada pelo tempo, trazendo marcas de queimados e molhados, que mostram o uso diário durante décadas.
Há um silêncio.
Não o silêncio respeitoso do momento de meditação durante a missa. Nem aquele que impera nos velórios.
Nem o silêncio da expectativa dos primeiros acordes de um concerto. Nem o silêncio do medo ao enfrentar uma situação de perigo.
Apenas um silêncio.
Surdo. Pesado. Asfixiante.
E há penumbra.
Não a penumbra das alcovas que abriga os corpos em brasa dos que se amam.
Nem a penumbra que antecede o amanhecer.
Mas uma penumbra dolorida das janelas que permaneceram fechadas com as cortinas cerradas.
Há, na penumbra sufocante, um silêncio cortante, com um simples copo sobre a velha a mesa.
Foi tudo o que restou depois de anos de morte, tristeza, desolação e isolamento.
(Imagem: foto de Maria Alice)