Dia de poesia – Florbela Espanca – Conto de fadas


Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas que não tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
– Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa do conto “Era uma vez...”

(Imagem: banco de imagens Google)

Lobo ferido

Ao longe lambe suas feridas

Espera – talvez, um gesto de chamada

Desdenha, talvez, de um gesto de chamada

Esse lobo, alongado, que se afasta

Que não se basta mas se imagina

Onipotente e suficiente

Mostra os dentes para os mansos

E cai na armadilha dos ardilosos…

Inquieto, já não sabe o que busca,

Esse lobo que abandonou sua alcateia

E agora vaga, solitário e faminto…

(Imagem: banco de imagens Google)

Do grupo Alta Cultura – O sábio Diógenes e o grande Alexandre

Do lado esquerdo lhes apresento Diógenes, um pedinte que morava dentro de um barril de madeira,o mesmo foi pupilo do célebre Antístenes de Atenas, por sua vez fundador do Cinismo e notável discípulo de ninguém menos do que o próprio Socrátes.

Diógenes era natural de Sínope (hoje, uma cidade da Turquia), mas quando questionado sobre sua naturalidade, se havia ou não nascido em Atenas, respondia simplesmente que era “uma criatura natural do cosmos, e não de uma cidade nem de um estado”.

Por desprezar praticamente tudo o que considerava mundano, vivia em trapos e perambulava pelas ruas atenienses carregando uma pequena lamparina acesa. Diógenes falava que estava a procurar pelo menos um homem de verdade, um que vivesse por si mesmo, que não fosse apenas membro de um rebanho. Acabou capturado por piratas e posto a venda como escravo. No mercado, foi comprado por um nobre que lhe incumbiu da instrução de seus dois filhos.

Do lado direito o homem mais poderoso de sua época, dono de uma riqueza e território incalculáveis, Alexandre O Grande.

O imperador ouvirá falar muito sobre sua sabedoria e foi de encontro nas proximidades do porto.

Ao encontrá-lo disse a Diógenes:

“Sou Alexandre, aquele que conquistou todas as terras. Peça-me o que quiser que eu lhe darei. Palácios, terras, honrarias, escravos ou tesouros jamais vistos. O que você quer, ó Sábio?”. Diógenes, levantou os olhos e respondeu: “Senhor, apenas não tire de mim o que não pode me dar . Lhe agradeço pelas ofertas, agora pare de fazer sombra e saia da frente do meu sol”.

Sim, tudo o que ele precisava naquele momento era de paz e tranquilidade, e nada que oferecessem a ele seria maior do que isso. A autossuficiência e a decisão de viver uma vida simples, criaram tamanha lucidez intelectual, que servem de exemplo até os dias de hoje sobre como viver segundo suas próprias convicções. Alexandre pensativo disse a seus companheiros, que estavam rindo da situação, “Se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes”.

*Escultura do encontro entre Alexandre e o filósofo cínico Diógenes encontra-se na cidade grega de Corinto.

Créditos : Doug Silva grupo Gigantes da literatura .

Poesia da casa – Ao amor desconhecido (Memória)

Você, amor que virá para mim, estará na minha vida, 
Como a chuva inesperada que transforma a paisagem
Seja bem-vindo desde já, sua chegada me alegra
Chegue logo, o mais cedo que você puder
Traga consigo a beleza do infinito azul do céu
O mistério dos perigos do profundo azul do mar
Todas as nuances do verde da natureza
O perfume de cada flor que surge nos campos
A transparência das águas que lavam a Terra
E a ternura que existe em cada noite de amor
Espero ansiosa sua chegada na minha vida
Trazendo a luz e o encanto para minha caminhada
Traga todos os sorrisos e todos os abraços
Tudo o que a vida me tirou e está me devendo
Porque você, meu amor, será minha redenção.

(Imagem: banco de imagens Google)

Da série “Foi poeta, sonhou, e amou na vida” – 03 – Sergei Alexandrovich Yesenin

Adeus, meu amigo, adeus… Com esta frase deixou o mundo um dos maiores poetas que a Rússia já teve, Sergei Alexandrovich Yesenin foi um dos mais populares poetas russos, conhecido em todo o mundo Yesenin nasceu em 03 de outubro de 1895 em Konstantinovo. Ainda criança aos nove anos de idade ele começou a escrever suas poesias e em 1912 mudou-se para Moscou, e assim firmou o primeiro passo de sua carreira como escritor.

Em Moscou trabalhou como revisor em uma empresa de impressão matriculou-se na Universidade Shanyavsky a qual ficou por um ano e meio. Sua poesia foi sempre inspirada no folclore russo. Em 1915, mudou-se para Petrogrado e em 1916, publicou seu primeiro livro de poemas, Radunitsa (em russo: Радуница). Através de suas poesias sobre o amor e a vida simples, ele se tornou um dos poetas mais populares da sua época.

Seu primeiro casamento foi em 1913 com Anna Izryadnova, uma colega de trabalho da editora, com quem teve um filho, Yuri. Nos anos seguintes foi convocado para o serviço militar, e mais tarde apoiou a Revolução de Outubro de 1917, acreditando que a revolução traria uma vida melhor, mas logo se desiludiu e criticou as regras bolchevique em poemas. Yesenin teve uma trajetória emocional instável e casou duas vezes Foi casado também com a bailarina Isadora Duncan e teve dois filhos e uma filha.

Em setembro de 1918, fundou sua própria editora chamada «Companhia do Trabalho dos Artistas da Palavra» (em russo «Трудовая Артель Художников Слова»). Juntamente com Anatoly Marienhof, fundaram o movimento literário russo de Imaginismo.

Vitima de uma forte depressão tirou a própria vida, e seu corpo foi encontrado no quarto de um hotel no dia 27 de Dezembro de 1925 aos 30 anos de idade, fato este, que causou grande comoção na população. Seu último poema Adeus, meu amigo, adeus (До свиданья, друг мой, до свиданья) de acordo com Lobo Ehrlich foi dado a ele no dia anterior e que Yesenin contou que por não ter tinta na sala, teve que escrever com seu sangue.

Embora fosse um dos mais renomados entre os poetas russos a maior parte de seus escritos foram proibidos pelo Kremlin durante os governos de Joseph Stalin e Nikita Khrushchev, apenas em 1966 as suas obras foram republicadas. Hoje os poemas de Yesenin são ensinados a crianças russas; muitos têm sido musicados e gravados como canções populares.

Aqui está sua ultima obra, o poema escrito com sangue que em russo se chama “До свиданья, друг мой, до свиданья”.

ADEUS, MEU AMIGO, ADEUS

Adeus, meu amigo, adeus,
Querido amigo, que trago no coração.
A separação predestinada
Para mais tarde promete novo encontro.

Adeus, meu amigo, sem aperto de mão nem palavras.
Não lamentes e não haja dor nem pena, –
Nesta vida morrer não é nada de novo,
Mas também nada de novo é viver.

(Texto publicado pela ALAR, em 31.07.2014)

(Imagens: Banco de imagens Google)

Poesia da casa – A alma e o nada

No mais profundo do ser
Está sua alma inatingível
Com sua consistência de nuvem
Em suas paredes de fumaça
E sua força de névoa
Não ser
Não estar
Apenas existir
Como algo inconsútil
Que não se rompe
Não se entrega
Não se deixa dobrar
Ali permanecer
No silêncio do nada
Entre as pregas do querer
No regaço do desejo
Do avental do amar
Até o final
Em busca do sentido
Achar o sentido no nada
Quando não restar mais 
Do que uma onda de quietude
E uma partida sem volta.

(Imagem: banco de imagens Google)