Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Poesia da casa – Vazio

Deixo de mim neste caminho que percorro
Todos os sonhos, os planos, os quereres
Deixo o passado, deixo o futuro
E levo comigo, somente o presente
Esse presente indesejado, infeliz
Que não traz os louros do passado
Nem promessas do porvir que não sonhei
Se um dia fui alguém ou tive valia
Tudo isso ficou nessa névoa empoeirada
Que deixei um dia em alguma estrada
Que percorri, sem rumo nem destino
Porque me perdi de mim e do que fui
Nunca esperei muito do que um dia seria
E não marquei por onde andei para impedir
A volta ou o simples desejo de retornar
Assim sigo tendo apenas, como meus
O dia que me impele e a noite que me acalma
O vento que me segue e os astros que me guiam
(Imagem: foto de Maria Alice)
Tristeza (memória)

Por que sou triste? Não sei…
Como também não sei se deveria ser alegre.
Às vezes nos cansamos da felicidade breve
porque ela sempre se vai e a tristeza vem.
A felicidade sempre traz tristeza,
enquanto a tristeza nunca se torna alegria…
Melhor ficar triste de uma vez
e não ficar temendo a tristeza,
porque ela, sim, é inevitável.
Há duas certezas nessa vida:
Ser triste e morrer.
(Imagem: banco de iamgens Google)
da insônia

A madrugada foi feita para se pensar. Não para se dormir.
Quem tem insônia sabe a verdade por trás dessas palavras.
Alguns minutos ou mesmo uma ou duas horas de sono. E ela chega. Deita-se a seu lado. E te faz acordar.
Silêncio total. Escuro sepulcral. Mas ela está ali. Insistente. Presente. Atrevida e arrogante.
E impede o sono.
A expressão “noite em claro” é mais do que adequada: de olhos abertos se vê o escuro total, mas, se tentar fechar os olhos, está tudo claro, como se houvesse uma potente lanterna acesar dentro do cérebro.
Tortura.
O pensamento voa. Por vezes até algumas lágrimas surgem, lembrando noites não tão solitárias, em que a insônia não encontrava espaço.
Ela não respeita cansaço. Nem tristeza. Nem necessidade de dormir.
Ela força a mente a trabalhar enquanto todas as pessoas abençoadas do mundo dormem seu sono de paz.
Ela é a própria ausência da paz. A imagem do tormento.
Força que se recordem coisas tristes, que seria melhor serem esquecidas. Força a saudade a doer até sangrar a alma.
Mostra a pequenez do ser humano em sua nudez absoluta.
E é fiel: não te trai, não te esquece, não se atrasa – todas as madrugadas chega no mesmo horário.
Quem sabe um dia encontrará outro mortal para atormentar e te deixará, finalmente, dormir…
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Cruz e Souza – Lubricidade

Quisera ser a serpe venenosa
Que dá-te medo e dá-te pesadelos
Para envolverem, ó Flor maravilhosa,
Nos flavos turbilhões dos teus cabelos.
Quisera ser a serpe veludosa
Para, enroscada em múltiplos novelos,
Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
E babujá-los e depois mordê-los…
Talvez que o sangue impuro e flamejante
Do teu lânguido corpo de bacante,
Da langue ondulação de águas do Reno
Estranhamente se purificasse…
Pois que um veneno de áspide vorace
Deve ser morto com igual veneno…
(Imagem: banco de imagens Google)
A felicidade e o sofrer

Meu amigo poeta se diz triste, muito triste. Posta em seu blog poesias lindíssimas, inspiradas em sua tristeza.
As músicas que mais emocionam são aquelas que versam sobre a tristeza, o desencanto, a desilusão, a perda; os filmes mais vistos e lembrados são os mais tristes.
E no entanto vivemos em uma busca infinita pela felicidade.
Que não vende jornais, não aparece no noticiário da TV, não prende telespectador de novela…
Paradoxal o ser humano. Será que gosta de sofrer? Ou gosta que os outros sofram? Então por que buscar tanto a tristeza para as horas de lazer?
Em seu livro WERTHER, diz o autor Goethe, no prefácio: “E a ti, homem bom, que sentes as mesmas angústias do desventurado Werther, possas tu encontrar alguma consolação em seus sofrimentos!”
Será então que ao ver outro sofrer ainda mais profundamente o sofredor encontra algum consolo, sente diminuída a própria dor? O abraço dos sofredores acalma a ambos, quando os dois corações contritos se encontram e batem em sintonia por alguns segundos?
O que é sofrer? A dor física, o abandono afetivo, o desvalimento emocional, a fome, a sede, a miséria… como definir o sofrer em uma palavra ou ideia?
Em seu pensar Platão já afirmava que a felicidade tem muitas faces, é o calor para quem tem frio, o alimento para o esfaimado, o aconchego para o abandonado… então concluo que o sofrimento também pode se apresentar sob muitas formas.
Ideia corrente é que rico não sofre. Nada mais falso.
O dinheiro em si não é causa nem de sofrimento nem de felicidade. O que o dinheiro pode comprar é fonte de conforto, proteção, distração. Mas isso seria felicidade?
O que o dinheiro não pode comprar não está à disposição de ninguém em particular: o amor, o afeto sincero, a companhia, o aconchego, a ternura… mas tudo tão efêmero que dura o tempo de uma noite de verão na nossa vida.
Se não sofremos não damos valor à felicidade. Quando estamos felizes também não damos valor à felicidade, pois a pomos a perder tão levianamente como se fosse o cachorro, que mesmo batido volta para lamber a mão do dono.
Na verdade acho que não sabemos direito o que é a felicidade. Conhecemos mais o sofrer do que o ser feliz.
Mas a felicidade que se foi não volta mais. O momento vivido se perde no passado e se esgarça como uma musseline ao sol. Temos só o agora, este exato momento fugidio que quando nos damos conta de sua existência já desborda para o passado.
Na verdade só temos futuro e passado. O presente é tão efêmero que não conseguimos retê-lo por frações de segundo. Ele não chega. Apenas passa por nós, na sua eterna viagem do futuro para o passado.
Mesmo assim, com a vida passando tão ligeira por nós, insistimos em sofrer…
O poeta Vicente de Carvalho conseguiu nos passar uma definição de felicidade de uma forma única e muito apropriada:
Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos
(Imagem: banco de imagens Google)