
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Para pensar 29

Saindo do forno – 8° livro

Le vent le cri (memória)
Neblina. Ar ainda um pouco frio. Espero o sol para – voltar – a caminhar, depois de quase um mês de febres e dores.
Só posso sair quando o ar esquentar. Para passar o tempo resolvo ouvir uma boa música. Procuro algo de Ennio Morricone, um dos maiores compositores do século XX.
Encontro esse videoclipe com O vento, o grito. Começo a ver.
Meu Deus, quanta beleza. A música eu já conhecia, e sempre considerei sensacional. Mas desconhecia esse vídeo.
Mas a natureza, a perfeição da mão de Deus em nossa vida, essa é inigualável.
Apago a luz, ponho em tela cheia e entro na paisagem.
Volta-me o desejo infantil de voar – voar por mim mesma, de ser pássaro. E vou junto com as gaivotas, mar adentro.
Mar, o que mais amo na natureza. Tenho esse “meu” imenso mar aqui em frente de casa, que não canso de olhar, admirar, perquirir, amar…
Surgem os golfinhos… mostram o que é surfar de verdade… Impossível conter a emoção que leva às lágrimas no encontro das aves com os golfinhos, todos em plena harmonia com céu e mar.
Como podem os homens – os terríveis e cruéis homens – prender pássaros em gaiolas e golfinhos em tanques, para ganhar dinheiro – maldito dinheiro – à custa desses animais. O primeiro instinto de todos os animais, inclusive do homem, é a sobrevivência, e o segundo é a liberdade. Que o homem nega aos demais.
E segue a música, tão linda tão doce, tão emocionante… O vento e o grito. O que é o vento? nada mais que a natureza a perscrutar seus domínios…
O tubo das ondas, mostrando a grandeza e doçura do mar… que o homem agride, tenta conter, e que por vezes, descontrolado, vem em busca de tudo que lhe foi tirado…
O vento e o grito. Que grito? o grito dos animais clamando por respeito e liberdade. O grito do mar pedindo que o deixem em paz.
E no final, surpreendente, a leveza da baleia quando em seu meio – a água que a sustenta.
Se tiver um tempo, abra o vídeo, ponha em tela cheia, apague a luz e se deixe levar. Se sentir seus olhos se umedecerem de emoção sinta alegria em seu coração por ter comungado com essa natureza divina e maravilhosa: http://youtube.com/watch?v=rRbyZ3eD-9M
(Guarujá, agosto de 2012)
Ventos de agosto (Memória)

Pipas no ar, em um céu sem nuvens
Tom de azul, do mais profundo azul
Pleno inverno, as árvores se despem
E as folhas brincam e correm nas ruas
Ruidosamente em secas risadas.
O mundo descansa quase em plena paz
Acreditando no poder do vento
Em levar consigo toda tristeza
Em varrer o pó de todos amores
Em limpar da vida o que não fica
Em trazer de volta a chuva que falta.
Dando adeus ao passado, as árvores
Balançam os galhos agora sem ninhos
Os pássaros, em bandos já se foram
Aves de arribação, fugiram do frio;
Velhos amores também se foram
Deixando abertos os corações em sangue
Pulsando na espera de novas paixões.
Venta, agosto, venta, que é sua missão
Ventar limpando a terra e a vida,
Deixando limpos os caminhos e atalhos
Para tantas novas caminhadas,
Novos amores, novos sorrisos,
De mãos dadas pela vida afora
Seguindo o vento que a todos levará
Ao final que em algum ponto espera.
Redemoinhos de vento na terra
Luzes no céu, estrelas no nada
São os ventos do mês de agosto
Prenúncio de nova primavera
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Mia Couto – O bebedor de sóis

No deserto,
onde o céu é redondo,
de mim mesmo sou miragem.
Na areia
me afundo, defunto,
até não haver sombra
senão sob cansaços de pálpebras.
Quando não há mais
que vento e dunas,
em mim invento o derradeiro oásis.
Uma raiz
então me convoca,
pedindo-me certo e definitivo.
Não nasci, porém,
para junto de fontes morar.
De novo,
vou por onde não há caminhos.
E só no fogo deixo pegada.