Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Dia de poesia – Ana Acto – Um dia…

Um dia vou aceitar...
Que nem todas as pessoas gostam de mim,
E estará tudo certo...
Que nem todos me querem ver feliz
Talvez porque a vida lhes seja amarga
Que nem todos se regozijam com meu sucesso, minhas conquistas
E está tudo bem...
Um dia, vou conseguir entender
Que minhas dores são apenas minhas
E que partilhá-las me poderá trazer algum conforto
Mas nem todos as entenderão
Que nem todos os que se dizem meus amigos, realmente o são
Mas os saberei distinguir
Que meus instintos e intuição me tentam proteger
E constantemente os ignoro, em negação
Que nem todo o amor proclamado, assim o é
Por vezes é apenas paixão, possessão e conquista
Mas o saberei decifrar
Que meus medos não são mais fortes que minhas vontades
E não os deixarei vencer
Que quando me olham,
Não me vêem realmente
Nem quando um sorriso é liberto à minha passagem
Significa saudade ou sinceridade
Que quando sinto meu coração esfriar
Não me estou a tornar insensível ou fria
Talvez apenas erga uma capa como protecção
Um dia ...
Um dia, irei aceitar
Um dia, irei entender
Um dia, irei perceber
E parar de desculpar tanto, as escolhas e atitudes alheias
Um dia... talvez....
E só espero, que quando esse dia chegar
Não seja já, tarde demais...
Palavras de Angela Caboz

Trouxe-te rosas!
Cuida delas como não soubeste cuidar de mim. Cuida dos espinhos para que eles alimentem as pétalas azuis, das rosas de que tanto gostas.
Trouxe-te algumas rosas e levei tantos silêncios carregados de palavras guardadas que me disseram o que não queres falar. São páginas de sentimentos guardados à espera do momento certo que até poderá nunca chegar.
Trago-te um pouco dessa cor que brilha nos teus olhos, para decorar esta escuridão em que deixaste quem te ama. Trouxe-te alguns sorrisos para guardares no bolso esquerdo do coração, aquele onde guardas tudo o que é, ou já foi, importante.
Querias transformar-me numa alma livre que dançasse à chuva sem ter medo de se molhar. Mas, eu quero dizer-te que a chuva da vida não molha corpos apaixonados, talvez por isso nunca tenhas querido dançar comigo.
Guarda as rosas. Guarda-as bem para que te lembres de quem te amou por tudo o que não lhe disseste.
A flor e a brisa

Quando a brisa sussurrou,
a flor tentou responder.
Mas a brisa, tão leve, já passara
desesperada, a flor olhou em volta,
não mais a avistava.
Tentou se soltar, para a seguir...
Tão delicada, tão frágil,
viu suas pétalas caírem
E ouviu a risada do vento,
que rápido passava, apressado,
Tentando alcançar a brisa
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Eugénio de Andrade – Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te
antes de a morte se aproximar, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Ainda Quintana
