
Hoje é isso

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Pise levemente, ela está perto
Sob a neve,
Fale suavemente, ela pode ouvir
As margaridas crescerem.
Todo o seu brilhante cabelo dourado
Manchado de ferrugem,
Ela que era jovem e bela
Caída em pó.
Como um lírio, branca como a neve,
Ela mal sabia
Que era uma mulher,
tão docemente ela cresceu.
Tábua do caixão, pedra pesada,
Jazem sobre seu peito,
Eu aflijo meu coração sozinho
Ela está em descanso.
Paz, Paz, ela não pode ouvir
Lira ou soneto,
Toda a minha vida está enterrada aqui,
Acomode terra sobre ela.
(Imagem: banco de imagens Google)

Abro um livro antigo deixado em um canto da minha estante. Lido e relido há algumas décadas, de repente ficou esquecido.
Agora o recuperei e folheei.
Do meio de suas folhas, cai um pequeno cartão amarelecido pelo tempo passado.
Recolho do tapete e viro para ver o que é. Duas linhas verdes, paralelas e rústicas, cortam verticalmente o papel perto da borda esquerda. No alto, o desenho de alguns corações sobrepostos, como se fossem vitórias-régias.
Embaixo do coração, em letra cursiva, Mooni Ezra – design.

Respiro fundo antes de abrir e ver o interior. Sinto-me invadir por um misto de saudade e ternura. Mooni. Meu querido Mooni!
Com as mãos um pouco trêmulas, emocionada abro essa lembrança de um passado distante.
Um convite para sua festa de aniversário.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Lembro-me desse evento, da delicadeza e do carinho com que Mooni sempre me recebia – no ateliê ou em sua linda casa.
De suas obras maravilhosas, inspiradas na natureza.
Por seu entusiasmo com o Brasil, onde considerava ser o melhor lugar para se viver.
Dos flamingos. Das cacatuas. De seu amor pelas aves.
Dos almoços com coquetéis e vinhos.
Das ostras a Rockefeller no Manhatann, harmonizadas com um pinot grigio ou chablis. Algumas vezes um champagne branco, brut.
Quantas conversas. Mooni, que superou suas provações, era leve. Mostrava-me outro lado da vida e abria meus horizontes.
Quantas risadas. Sabia ser ácido no tom certo. Seus comentários – irônicos ou não – sempre cabiam inteiramente no contexto…
E fico imersa em tantas lembranças de um amigo tão presente, tão querido, tão bonito e sempre gentil e doce, poliglota, imigrante que morria de saudade da Pátria e da mãe que ficara para trás. Ele – Mooni – foi uma das poucas pessoas que nunca passaram, porque mesmo ausente da vida, é tão presente na realidade, nas imagens, nas recordações, que é um amigo sempre comigo.
Mooni, que partiu tão cedo…
(Imagens: fotos de Maria Alice)

A gentileza é tão fácil.
É fazer uma comida de surpresa, é convidar a um cinema de imprevisto, é pedir uma conversa séria para apenas se declarar, é comprar uma lembrancinha, é chamar para um banho junto, é oferecer massagem nos pés, é perguntar se está bem e se precisa de alguma coisa, é tentar diminuir a preocupação do outro com frases de incentivo.
Quando o amor para de um dos lados, o relógio intelectual morre.
Não se vive desprovido de gentileza.
A gentileza é o amor em movimento.
(Imagem: banco de imagens Google)
A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos… (Pablo Picasso)

Tema recorrente, a decepção.
Quantas e quantas vezes um coração é capaz de sobreviver a uma decepção?
Qual a pior decepção – no amor, na família, nas amizades…
Há uma decepção pior ou melhor que a outra?
Se tudo for decepção, será possível continuar vivendo mesmo assim?
São infinitas as perguntas.
Mas não tenho as respostas.
Quanto a mim, remendando aqui e acolá esse velho coração tão judiado, tenho conseguido lidar com tantas tristezas e decepções. Sem choro, sem desespero. Com minha fonte inesgotável de defesa para me manter viva e em paz.
E sem perder nem a doçura nem a vontade de ser feliz e fazer o outro feliz.
Como suporte, desenvolvi o mecanismo da morte em vida: quem me decepciona além de um ponto determinado na minha escala de suportar os seres humanos, simplesmente morre para mim.
Morre definitiva e irremediavelmente. Seja amor, seja familiar, seja amigo. Morre uma única vez. Morre em vida.
Ultimamente vi morrer em vida pessoas que muito prezei em minha vida. Mas ultrapassaram todos os pontos da escala de suportabilidade de atos alheios…
Então morreram em mim. Sem flores, sem enterro, sem choro.
Para sempre.
(Imagem: banco de imagens Google)
(Escrevi esse texto aos 01/06/2015 , mas continua tão atual, parece que escrevi ontem, hoje, essa madrugada… então resolvi postá-lo hoje. Porque a realidade continua sempre igual).
