
Hoje, um sábado

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Nascida nas águas turvas dos vales,
cujos cabelos desdobraram-se em raízes
mergulhadas no musgo mundo
da incompreensão,
onde cada flor de lótus
é o milagre do desabrochar
rasgando a enlameada razão.
Em meio às impurezas mundanas,
flutua no reflexo da lua
palpitando cantigas, um coração.
As raízes sujeitas ao lodo
que se apega às dores,
enche-as de amor, mulher.
Desfolha-te os cabelos das amarras
abre o caminho da aurora
de onde verte a luz. E te agarras.
Segue com tuas flores.
Eu não sei amar sem liberdade (Vinicius de Moraes)

E quem sabe? Quem consegue amar sem liberdade? Como amar sem ser livre? Cassar a liberdade do outro em nome do amor é fácil, como se fosse possível alguém se adonar do outro. Mas ninguém aceita abrir mão da própria liberdade.
Não se abre mão da liberdade. Nem da vida. Nem do ar. Nem da alegria. Nem de nada em nome do amor. Dominar não é amar.
Convencionamos eternizar o amor. Vitaliciar a paixão recíproca. Se o amor empalidece, se a paixão esfria, ficam as cadeias sociais que obrigam à permanência encarcerada. E, assim, sufocar qualquer tendência à liberdade.
Convencionamos condenar a liberdade, como se fosse um mal.
Liberdade é a essência do ser humano. Liberdade é o termômetro do amor.
Se amamos, assim o fazemos por sermos livres para amar.
Não amamos compulsoriamente. Não sabemos amar por obrigação. Sequer amamos quem queremos. Um dia, simplesmente, descobrimos o amor brotado em nossa alma. E amamos. Sem medidas, sem limites.
Mas isso não pode ser o fim de nossa liberdade. Porque o amor não sobreviveria ao cativeiro.
Só ama quem é livre para amar.
E, o mais lindo do amor, é exatamente que, dentre todas as pessoas do mundo, amamos especialmente aquela determinada pessoa.
Amar não é perder as asas nem renunciar aos sonhos. Mesmo amando continuamos alados, e, se não voamos só, é porque queremos ficar. Não queremos partir em voo solo, preferimos compartilhar o ninho, os sonhos, os voos.
E, se temos a sorte de sermos correspondidos, com toda a liberdade de ir embora, ficamos.
Ficamos porque temos a liberdade de ir embora. Mas, se amamos, a liberdade nos permite permanecer.
É, portanto, necessário ser livre para poder amar.

Cresci, tal flor de lis
De raízes vincadas
E pétalas delicadas
Num jardim, entre as demais
Encontraste-me...
E em tuas mãos
Em cuidados me entreguei
E amaste...
E amei..
Oh.. doce desabrochar
Te fizeste Sol e abundância
Mas tu, eras jardineiro
E eu...
Para ti uma, entre mil
Não erraste, não errei
Assim és, o aceitei
E sabes?
Vives nesse jardim
Rodeado de beleza efêmera
Já eu...
Ah..meu amor, eu...
Fui semente perdida levada pelo vento
Apenas aí cresci
E não sou rosa de jardim
Sou flor vadia
Enfrento intempéries
Solos agrestes
E me alimento das chuvas
E não preciso de ti
Tu...
Sê jardineiro de outras flores
Nesse teu jardim
Não erraste
Não errei
Amaste
Amei...
Mas eu sou do mundo
E o mundo, cuida de mim..

Era um simples jardim.
Chão de terra, canteiros limitados por pedras rústicas, sem luzes nem fontes. Um simples e humilde jardinzinho. Mas o suficiente para ser vivido.
Ali colhia as flores necessárias para dar um pouco de cor à sua pálida vida.
Não estava bem cuidado, ultimamente se descuidara do jardim encantado. De suas alegrias. Até de si se descuidara.
Caminhou vagamente por entre as flores, com cuidado para nenhuma esmagar com os passos incertos, agora inseguros com que caminhava pela vida.
Curvou-se e colheu algumas – uma aqui, outra acolá, algumas de cores mais vivas, outras mais desbotadas, algumas ainda em botão e outras já desabrochadas.
Sentindo um calor no peito, segurou firme seu arranjo e entrou. Colocou todas sobre a mesa onde as separou com capricho e paciência, começando ajuntar as flores da paixão, depois, de um lado colocou os amores idos, desabrochados e já perdidos, de outros o amor ardente – flor em botão que prometia alegrias, fazendo o contraste espalhou as amizades verdadeiras – coloridas e poucas – e as escorou com as demais, pessoas, sentimentos e sensações que passaram sem deixar muitas lembranças, desbotadas e quase insignificantes.
Trouxe, por fim, o mais precioso e frágil vaso de cristal que encontrou, seu próprio coração, e pôs-se a arrumar com carinho cada camada de flor. E altiva, linda e bem no meio, colocou com todo cuidado, a mais viva e bonita das flores: a flor da saudade.
(Imagem: banco de imagens Google)

— Então, isto é um adeus? — perguntou Alice, sua voz carregava tristeza, mas um sorriso forçado tentava disfarçar.
O Chapeleiro, com um olhar profundo, respondeu:
— Se você acha que isso é um adeus, então realmente não me conhece. O adeus é uma ilusão; você nunca se vai de verdade. Quem te guarda na memória sempre te traz de volta. Despedir-se é não compreender o verdadeiro sentido de partir, porque para dizer adeus você teria que apagar cada vestígio de sua existência. E isso, minha querida Alice, é impossível. Eu jamais deixarei você ir, assim como você jamais se libertará de mim. Chame isso de tortura ou de maldição, mas eu prefiro pensar que você é o meu espelho. E ninguém pode escapar do próprio reflexo.
Então o Chapeleiro suspirou, um sorriso louco brilhou em seus olhos:
— Vou seguir você até o inferno, se for preciso.
(Alice no País das Maravilhas)