A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Blogueira, escritora, poeta... porque escrever é preciso
Doeu. Doeu muito. Doeu demais. Ainda que lhe quebrassem todos os ossos do corpo ao mesmo tempo ou se lhe esmagassem todos os músculos Se lhe arrancassem todos os órgãos Ou lhe tirassem a pele em vida, Nada Absolutamente nada Doeria tanto quanto essa ausência Por isso agora parte Já não chora – as lágrimas secaram Já não dói – esgotou a capacidade de sentir dor Já não sofre – exaurido na dor já sentida Parte. Apenas parte. Sem lamento. Sem sofrimento. Sem bagagem. Sem adeus.
Nostalgia é saudade do que vivi,melancolia é saudade do que não vivi.(Carlos Heitor Cony)
Quantas vezes abro meus e-mails esperando um especial, o qual não sei de quem viria nem o que falaria, mas um e-mail que enchesse minha alma de alegria.
Nunca vem.
Quantas vezes espero ouvir tocar o telefone na certeza ansiosa de é alguém para dar uma boa notícia – alguém que não sei quem, nem sobre o que, mas que fosse como um sol num dia frio.
Nunca toca.
Quantas vezes começo o dia na certeza que algo extraordinário há de acontecer, que transforme minha vida como num sonho mágico.
Nunca acontece.
E assim vivemos: sempre esperando algo maravilhoso que nunca chega.
Começamos a ter saudade do que nunca vivemos, vontade de voltar a lugar onde nunca fomos.
E uma profunda tristeza vai crescendo dentro de nós, tomando conta de tudo e apagando as luzes da alegria.
Perdemos a vontade de tudo, quando amanhece só queremos sumir, passar para debaixo da cama e ali ficar, quietinhos, no escuro, esquecidos do mundo.
Cada tarefa a cumprir é um calvário. Sorrir, comer, trabalhar, até mesmo pensar é penoso.
E como não podemos parar vamos nos arrastando vida a fora, carregando um peso incrível que não é nosso e nem sabemos porque temos de suportar.
Aí um dia, sem mais nem menos, um belo dia, quando acordamos ouvimos um sabiá cantando do lado de fora da janela.
Abrimos a janela e vemos um lindo sol lá fora, sorrindo para nós e nos convidando para a vida.
Leves, felizes, retomamos nossa vida, deixando para trás a melancolia, que volta então, cabisbaixa, para seu cantinho, e fica por ali esperando um dia em que estivermos distraídos para pular de volta no centro de nossa vida e tomar conta de tudo novamente.
Calmaria
... Embarco
Mar adentro
Pescador de poesia.
Barco deslizando
Eu, poeta
...Versos...
Pescando.
Me esperas na areia
Brilho no olhar
Que anseia
Pelos poemas que te trouxe do mar.
Não tenho mais os olhos de menina nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou. Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins. (Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: dou-te os meus ganhos. A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada. Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora: esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor, a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais, a dar-te regaço de amante e colo de amiga, e sobretudo força — que vem do aprendizado. Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés — mesmo se fogem — retornam, cujas correntes ocultas não levam destroços mas o sonho interminável das sereias.
Poeta, onde é sua morada? Quero encontrá-lo, ver onde vive, do que é feito seu mundo. O poeta me recebe, mas não é bem uma casa onde ele mora. Sua morada é o mundo, seu telhado é o céu De dia ele avista as nuvens, à noite dialoga com as estrelas Também não tem paredes, porque o poeta é livre Seus limites são os limites do Universo Não precisa portas nem janelas, não há cercas nem muros O chão do poeta é o imenso oceano Pisa nas espumas das ondas, repousa nas marolas Os vizinhos do poeta são as matas, os rios, A natureza tranquila e exuberante Na casa do poeta se ouvem o mar, o vento e o silêncio E os suspiros da paixão não correspondida Se veem os quadros das lágrimas dos que choram por amor Pode-se tocar o concreto sofrimento dos abandonados Tudo é etéreo, tudo é difuso Porque o poeta medita, em profunda solidão, vive dentro de si para conseguir ver o mundo Procurando a morada do poeta, não a vi Ela não está sobre a terra, não está no horizonte Descobri então que o poeta, na verdade Mora na alma dos apaixonados Vive a eterna dor da finitude da paixão Em contraste com o amor infinito Sua alma abriga todas as penas humanas E seus olhos enxergam o que ninguém vê O poeta mora na brisa que sopra No brilho de cada estrela da madrugada Nos pingos da chuva mansa que nos acalma Nos sons do pranto do desesperançado Ah, poeta, agora que consegui vir à sua casa Deixa-me, eu também, morar nesse universo…
Foi em um 19 de outubro que nasceu o Poeta. O maior Poetinha do século XX. O grande Vinicius de Moraes.
E, nesse dia 19 de outubro, de certa forma, no Brasil, nasceu a Poesia. Porque por suas mãos ela tomou forma. Por suas paixões ela se fez. Por sua vida ela viveu. Impossível separar Vinicius da Poesia. Eram um só. Ele vivia para ela e ela vivia por ele.
Por isso tão especial essa data – 19 de outubro – dia dos que amam, sofrem, se embriagam de paixão. Dia de Vinicius de Moraes.
SAMSUNG CAMERA PICTURES
Desesperados vamos pelos caminhos desertos Sem lágrimas nos olhos Desesperados buscamos constelações no céu enorme E em tudo, a escuridão. Quem nos levará à claridade Quem nos arrancará da visão a treva imóvel E falará da aurora prometida? Procuramos em vão na multidão que segue Um olhar que encoraje nosso olhar Mas todos procuramos olhos esperançosos E ninguém os encontra. Aos que vêm a nós cheios de angústia Mostramos a chaga interior sangrando angústias E eles lá se vão sofrendo mais. Aos que vamos em busca de alegria Mostramos a tristeza de nós mesmos E eles sofrem, que eles são os infelizes Que eles são os sem-consolo...
Quando virá o fim da noite Para as almas que sofrem no silêncio? Por que roubar assim a claridade Aos pássaros da luz? Por que fechar assim o espaço eterno Às águias gigantescas? Por que encadear assim à terra Espíritos que são do imensamente alto?
Ei-la que vai, a procissão das almas Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento Andando pela infinita planície que leva ao desconhecido As bocas dolorosas não cantam Porque os olhos parados não veem. Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo Tudo neles é a negação do anjo... ...são os Inconsoláveis. (Os inconsoláveis. RJ, 1933)