Noite de paz

Queria conhecer a noite eterna

E nela adentrar

Deitar, adormecer na calma da escuridão

Do silêncio da ausência de vida

Calmamente, imergir no nada

E ali ficar

Sem a ansiedade de um novo amanhecer

Sem a angústias das dores da madrugada

Sem a nova manhã – que vai chegar

Sem um dia a mais – que vai chegar

Sem ter de sentir a dores – que vão chegar

Sem nenhuma decepção – que vai chegar

Sem ter de enfrentar problemas – que vão chegar

Apenas docemente adormecer sem pensar

Ouvindo minha interna música de acalanto

Sentindo o calor aconchegante de estar em paz

E assim morrer

E não amanhecer

 

Hoje é dia de poesia – Margarida Vieira – Não me deixes morrer longe do mar

 

não me deixes morrer longe do mar
das vagas de palavras que me sussurras
quando fechas os olhos espraiando os lábios
e as tuas mãos são algas apetecidas

não me deixes morrer longe do mar
das asas aladas de pássaros vivos
que ecoam as noites em amor escritas
salgadas por temperos escondidos

não me deixes morrer longe do mar
das marés tão certas de incerteza
como a vida preceder o tempo
ou o horizonte ser infinito com rosto

não me deixes morrer longe… de ti

 

Canção/Poesia – VIAGEM

Hoje amanheci “ouvindo” essa canção. Tão doce, tão marcante… vale a pena conhecer a letra. Trata-se de Viagem, de Paulo Cesar Pinheiro e João de Aquino

Oh! tristeza me desculpe,
Estou de malas prontas,
Hoje, a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar…

Vamos indo de carona,
Na garupa leve, de um vento macio,
Que vem caminhando,
Desde muito longe,
Lá do fim do mar…

Vamos visitar a estrela,
Da manhã raiada,
Que pensei perdida,
Pela madrugada,
Mas que vai escondida,
Querendo brincar…

Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas,
Minha poesia, dançam nossa valsa,
Pelo céu, que o dia,
Fez todo bordado de raios de sol…

Oh! poesia, me ajude,
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias,
Pelos campos verdes, que você batiza,
De jardins do céu…

Mas, pode ficar tranqüila,
Minha poesia, pois nós voltaremos,
Numa estrela guia, num clarão de lua,
Quando serenar…

Ou talvez, até quem sabe,
Nós só voltaremos, num cavalo baio,
No alazão da noite, cujo nome é raio,
Raio de luar…

 

Para quem quiser conferir, copie e cole:

Sonho

Lobo que surge na noite

Que traz consigo o encanto

Lobo que some na noite

Deixa um rastro de paixão

Seu chamado é irresistível

Ecoa dentro da alma

 

Todo anoitecer ponho-me à espera

Ansiosa, sem saber se esse Lobo virá

Ele me sabe mais do que eu o sei

Porém eu o sinto mais que ele me sente

Sua força é irresistível

Faz de mim um seu brinquedo

 

Quando esse Lobo surge a meu lado

E me conta coisas de outros mundos

Dos caminhos que trilhou

Mostra amores que desconheço

Sua promessa é irresistível

E me chama para que eu o siga

 

Sempre tento em vão não escutar

O que me fala esse Lobo

Sei que ainda o seguirei.

Não, Lobo, não torne a chamar

Seu chamado é irresistível

Um dia irei com você…

Dia de Poesia -Francisco Otaviano – Morrer… Dormir…

Morrer .. dormir .. não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores: 
Um punhado de terra, algumas flores, 
E às vezes uma lágrima fingida!

Sim! minha morte não será sentida; 
Não deixo amigos, e nem tive amores! 
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é podre no mundo.  Que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe,
Vem, pois, ó Morte, ao Nada me transporta!
Morrer… dormir… talvez sonhar… quem sabe?

 

 

Dia de poesia – Mia Couto – Saudade

 

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho”(Foto: Adriano dal MolinPôr-do-sol sobre o Rio MadeiraMirante II, Porto Velho, ROem 01.02.2007, às 17h02)