Verso e reverso

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Se um dia sou pura paixão,

No outro apenas sou tédio

Tempero o frio e o fervendo

Mas não deixo o morno vencer

Se a vida é corda bamba

Dispenso rede de proteção

Meus riscos, eu os corro todos

Não fujo de nenhum perigo

Muitos até preciso enfrentar

Porque sei que só verei o arco-iris

Se esperar a tempestade acabar

Não tenho rotina nem sou previsível

Do que a vida oferece, bebo até a última gota

Porque se hoje transbordo paixão

Amanhã serei apenas saudade

Quando for partir

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Deixe todo o peso, todo o excesso para trás e parta

Tudo o que faz mal, tudo o que angustia deve ficar

Não leve a poeira de antigas paixões já vividas

Nem a tristeza de tudo que morreu antes de florescer

 

Não leve nada do que nunca mais usará na vida –

Sejam amizades vencidas, amores rompidos, roupas apertadas,

Cadeiras desconfortáveis, louças quebradas, perfumes usados.

Faça uma nova bagagem, leve e prazerosa, do que é necessário

 

Leve apenas essa alegria e essa sede infinita de viver que você tem

Leve ainda as cobertas que sempre afastaram o frio e aqueceram sua alma

E também as lembranças de todos os momentos felizes que viveu

 

Se é para uma nova vida, a partida é um verdadeiro rompimento.

Lembre-se de deixar livre um espaço para um novo amor apaixonado

E faça, com toda sua força, desse momento um renascimento.

Dia de poesia – Mia Couto – O amor, meu amor

 

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Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Dia de Vinicius de Moraes – A rosa desfolhada

 

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa

Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado
Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão, jogado

E em cada canto
Teu desencanto, tua melancolia
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia

E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia
Do fato consumado

Silenciosa ficou a rosa
No chão despetalada
Que eu com meus dedos, tentei a medo
Reconstruir do nada

O teu perfume, teus doces pelos
A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada

para ouvir e conferir:

 

Dia de poesia – Miguel Torga – Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

Dia de Poesia – Roberto Ferrari – Apaixonados

Somos dois loucos apaixonados
Vivendo em nosso mundo de amor,
Longe dos percalços da vida…
Como se fôssemos para o nosso paraíso
Onde o cantar dos pássaros e o murmurinho da cascata nos fazem companhia.
Beijos e carícias
Tomados de amor.
Nada importa,
O que importa é essa vontade
De ficarmos juntos,
Onde só o tempo nos persegue,
E nosso único refugio são as estrelas e a lua
Testemunham nossa paixão;
Paixão que aflora em nossa pele
E só temos ouvidos para as juras de amor,
E pensamentos de ficarmos eternamente juntos
Nesse paraíso encantado,
Onde as ondas da paixão
Vem e ficam,
Porque somos dois loucos…
APAIXONADOS!!!
Amo-te para todo sempre!!!

Dia de Poesia – Miguel Torga – Poema Melancólico a não sei que Mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos

Destes anos de vida que passaram;

Nos meus versos ficaram

Imagens que são máscaras anónimas

Do teu rosto proibido;

A fome insatisfeita que senti

Era de ti,

Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,

Conto as desilusões no rol do coração,

Recordo o pesadelo dos desejos,

Olho o deserto humano desolado,

E pergunto porquê, por que razão

Nas dunas do teu peito o vento passa

Sem tropeçar na graça

Do mais leve sinal da minha mão…