Brincadeiras

Vamos conjugar o verbo amar

Eu te digo – eu te amo!

Você me responde – eu te amo!

Mas só no presente do indicativo

Não quero as falsas promessas do futuro

Nem as lágrimas do pretérito sempre imperfeito

 

Depois vamos brincar de abraçar

Eu abro meus braços e vou até você

Você abre seus braços e vem até mim

E nos encontramos no meio do caminho

Assim nos abraçamos fortemente

Em um abraço que não tem mais fim

 

Depois faremos o ritual de separar

Você me diz “eu te odeio” e então

Eu olho para você com olhos de desprezo

Não precisaremos inventar desculpas

Eu seguirei meu caminho solitário

E no sentido oposto você  partirá.

Não me chame outra vez!

 

Não me chame mais uma vez

Pode ser que eu não resista

A saudade dos teus braços

Poderá me arrastar até você

A falta do seu olhar apagou a luz dos meus olhos

A ausência dos seus beijos amargou a minha boca

E não mais tendo seu ombro para recostar

Eu não encontrei mais descanso

A vida é exatamente o que dela fazemos

Mas, às vezes, caímos em armadilhas

E nos distanciamos tanto assim

E o longe se instala em nossa vida

Sempre é hora de retomarmos as rédeas

E darmos novo rumo ao tempo

Antes que seja tarde demais

Por isso, não me chame mais uma vez

Não me diga de novo “venha…”

Pode ser que eu não resista…

Dia de Poesia – Carlos Drummond de Andrade – Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

Esse amor

Malgrado todas as dificuldades,

tantas lágrimas e tanta angústia,

a cada dia mais doce e mais forte

esse amor resiste.

 

Sempre que fraquejamos diante da vida,

e encontramos uma força insuspeita dentro de nós,

então temos a certeza que só seguimos adiante pois

esse amor existe

 

Às dores que suporta a cada dia,

ao peso que a vida sempre impõe,

sem vacilar, nem fender, sem se ausentar,

esse amor assiste.

 

Nossos sentimentos são feitos de quase nada

e se trincam, e se partem, e se confundem

mas é na firmeza – e não em desespero, no que

esse amor consiste.

 

Quando a tristeza chega e se instala

e pensamos que já não teremos saída, vemos

adiante a luz que que nos aguarda , pois com ela

esse amor coexiste

 

Os anos passando tão rapidamente

deixam um rastro de lembranças,

e a certeza de que vale lutar, porque

esse amor insiste.

 

E no longo caminhar rumo ao destino final,

vamos com alegria e determinação, sem medo,

avançando no suceder dos dias, com a certeza que

esse amor persiste

 

E quando se acaba o dourado outono,

e se aproxima o cinza inverno da vida,

podemos seguir confiantes no futuro porque

esse amor nunca desiste.

Tempestade

 

 

 

        Nas asas do vento

        da noite em que chove

        O som à distância

        O medo da noite

 

        “Não vá” – diz o vento

        “Eu vou” – diz a chuva

        e corre ligeira

        em busca do mar

 

       Um risco no céu

      um estrondo na terra

      um raio no espaço

 

     O vento ventado é nada

     a chuva caída é água

     a esperança que volta é vida

Dia de poesia – Mia Couto – Amei-te sem saberes

Hoje não devia ser dia de poesia. Mas esse poema do Mia Couto me encantou, li e reli. E resolvi partilhar com vocês. 
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão 
eu te amei 
e acariciei 
o teu imperceptível crescer 
como carne da lua 
nos nocturnos lábios entreabertos 

E amei-te sem saberes 
amei-te sem o saber 
amando de te procurar 
amando de te inventar 

No contorno do fogo 
desenhei o teu rosto 
e para te reconhecer 
mudei de corpo 
troquei de noites 
juntei crepúsculo e alvorada 

Para me acostumar 
à tua intermitente ausência 
ensinei às timbilas 
a espera do silêncio 

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

Outros Poemas de Mia Couto:

Como um vulcão

Trouxe a poesia dentro de si:

Chegou mansamente e aqui ficou.

Pousou em meu peito com a leveza

De uma delicada borboleta

Que pousa em uma pétala de flor.

Coloriu meu dia e minha vida,

Até então sempre cinzentos;

Alegrou minha alma e minha vida

Que eram imersas em tantas tristezas.

Despertou toda a paixão latente

Como um vulcão adormecido

Que volta subitamente à vida.

Abriu as comportas do desejo,

E, desde então, acreditei que,

Encantados de tanto amor,

Seguiríamos sempre juntos.

Hoje a saudade, em forma de lágrimas

Inunda meu rosto com quentes gotas.

Saudade é privilégio de quem foi feliz

E esse sentimento, quando muito intenso,

Se liquefaz tal como magma em lava,

E esse vulcão, que então explodiu de paixão,

Volta à quietude de seu letárgico sono

E, novamente entorpecido, em sua ausência

Adormece triste e eternamente.