Dia de Poesia – Pedro Homem de Mello – Cisne

 

 

Amei-te? Sim. Doidamente!
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente…

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente…

Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde… e foi doente!

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas…

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!

Por que te amei?
– Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

– Talvez viesse de mim.
E da minha poesia…

Do que é feita a saudade?

A saudade é feita de pequenos retalhos

De momentos felizes já passados e vividos

De beijos antigos ainda tão lembrados

De mãos que não nos tocaram, mas desejamos.

 

A saudade é feita de variados cacos

De recordações de olhos que nos viram

De tantas vozes que já não mais ouvimos

De muitos carinhos que agora já não temos

 

A saudade é feita de tantas lembranças

De pessoas que não ficaram em nossa vida

De algumas paixões ardentes que já esfriaram

 

A saudade é feita de todos esses pedaços 

De nossa alma que ficaram pelos caminhos

E agora, recolhidos, estão guardados no coração.

Dia de poesia – Luís de Camões – Soneto

Pois meus olhos não cansam de chorar

tristezas, que não cansam de cansar-me;

pois não abranda o fogo em que abrasar-me

pode, quem eu jamais pude abrandar;

 

não canse o cego Amor de me guiar

a parte donde não saiba tornar-me;

nem deixe o mundo todo de escutar-me,

enquanto me a voz fraca não deixar.

 

E se em montes, rios, ou em vales,

Piedade mora, ou dentro mora Amor

em feras, aves, plantas, pedras, águas,

 

ouçam a longa história de meus males

e curem sua dor com minha dor,

que grandes mágoas podem curar mágoas.

Gotas de mar

Trazia em si o encanto da imensidão

Nos olhos inundados de mar

Se movia no ritmo de ondas

Como se vivesse em um barco

 

Trazia na alma uma imensa paixão

Alimentava-se de amor, luz e alegria

Amava a espuma frágil da vida

Como se fosse personagem de romance

 

Trazia uma esperança de felicidade imbatível

Acreditava que o amor venceria tudo e todos

Até o momento em que viu seu mundo cair e

Sentiu a tristeza do abandono e solidão

 

E quando de seus olhos brotaram

As gotas do mar que trazia em si

Pela face tristemente correram,

Lágrimas salgadas como água do mar

Dia de Poesia – Mário Quintana – O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

(Mário Quintana)

 

Dia de Poesia – Cecília Meireles – Eu sou aquela pessoa

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

a que não se recusa, a esse final convite,

em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

 

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

já de horizontes libertada, mas sozinha.

 

Se a Beleza sonhada é maior que vivente,

dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

 

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas

vão as medidas que separam os abraços.

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

 

“Agora é livre, se ainda recordas”.

Dia de poesia – Mia Couto – Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

(In “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”, 1999)