Dia de Poesia – Clarice Lispector – Eu te deixo ser

Escuta: Eu te deixo ser, deixa-me ser então…

Me deixa ser aquela que chega em silêncio,

mas que quando passa deixa seu rastro.

Me deixa ser aquela dúvida infinita,

ou quem sabe todas as respostas imediatas.

Me deixa ser aquela menina desprotegida

ou aquela mulher segura de si.

Me deixa ser aquela que faz seu coração bater mais forte,

ou talvez sua maior decepção.

Me deixa ser a conselheira amiga

ou poderei ser a sua destruição.

Te deixo ser você…

te deixo pensar com sua própria mente

andar com suas próprias pernas

Ter seus amigos e amigas,

seus anseios e suas dúvidas

Te deixo ser livre

mas nunca em hipótese alguma,

me deixe de canto, ou faça algo que necessite do meu perdão.

Não pense que por eu ter dois opostos, dois lados…que eu tenha duas caras…

Não, isso não!

Sou o que você imaginar…

Mas vou além da sua imaginação, portanto

Me deixa ser sua razão, que eu te deixo ser a minha… 

Segue a vida

Segue a vida sua linha contínua

nada a detém nem desvia

Não

  foi

       porque

                  nos

                      separamos

Que eu deixei de te amar

Mas

     você

            deixou

                        de

                           me

                               querer

E o mundo não acabou

O                                 Os

sol                               pássaros

ainda                          continuam

brilha                         a cantar

Assim é a vida

(de Pena e Poesia, 2016)

Dia de Poesia – A Camões – Manuel Bandeira

Quando n’alma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não passa,

Em teu poema de heroísmo e de beleza.

 

Gênio purificado na desgraça,

Te resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça

O amor da grande pátria portuguesa.

 

E enquanto o fero canto ecoar na mente

Da estirpe  que em perigos sublimados

Plantou a cruz em cada continente,

 

Não morrerá, sem poetas nem soldados,

A língua que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.

 

Dia de poesia – Timidez – Cecilia Meireles

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

Noite de paz

Queria conhecer a noite eterna

E nela adentrar

Deitar, adormecer na calma da escuridão

Do silêncio da ausência de vida

Calmamente, imergir no nada

E ali ficar

Sem a ansiedade de um novo amanhecer

Sem a angústias das dores da madrugada

Sem a nova manhã – que vai chegar

Sem um dia a mais – que vai chegar

Sem ter de sentir a dores – que vão chegar

Sem nenhuma decepção – que vai chegar

Sem ter de enfrentar problemas – que vão chegar

Apenas docemente adormecer sem pensar

Ouvindo minha interna música de acalanto

Sentindo o calor aconchegante de estar em paz

E assim morrer

E não amanhecer

 

Hoje é dia de poesia – Margarida Vieira – Não me deixes morrer longe do mar

 

não me deixes morrer longe do mar
das vagas de palavras que me sussurras
quando fechas os olhos espraiando os lábios
e as tuas mãos são algas apetecidas

não me deixes morrer longe do mar
das asas aladas de pássaros vivos
que ecoam as noites em amor escritas
salgadas por temperos escondidos

não me deixes morrer longe do mar
das marés tão certas de incerteza
como a vida preceder o tempo
ou o horizonte ser infinito com rosto

não me deixes morrer longe… de ti

 

Canção/Poesia – VIAGEM

Hoje amanheci “ouvindo” essa canção. Tão doce, tão marcante… vale a pena conhecer a letra. Trata-se de Viagem, de Paulo Cesar Pinheiro e João de Aquino

Oh! tristeza me desculpe,
Estou de malas prontas,
Hoje, a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar…

Vamos indo de carona,
Na garupa leve, de um vento macio,
Que vem caminhando,
Desde muito longe,
Lá do fim do mar…

Vamos visitar a estrela,
Da manhã raiada,
Que pensei perdida,
Pela madrugada,
Mas que vai escondida,
Querendo brincar…

Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas,
Minha poesia, dançam nossa valsa,
Pelo céu, que o dia,
Fez todo bordado de raios de sol…

Oh! poesia, me ajude,
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias,
Pelos campos verdes, que você batiza,
De jardins do céu…

Mas, pode ficar tranqüila,
Minha poesia, pois nós voltaremos,
Numa estrela guia, num clarão de lua,
Quando serenar…

Ou talvez, até quem sabe,
Nós só voltaremos, num cavalo baio,
No alazão da noite, cujo nome é raio,
Raio de luar…

 

Para quem quiser conferir, copie e cole: