Dia de poesia – Ser poeta – Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

Atalho secreto

Somos opostos. Em tudo:

eu sou mar, você é rio;

você é floresta, eu sou cidade;

eu sou sol, você é lua;

você é noite, eu sou dia.

Mas quando nossos olhares se cruzam

nossas mãos se tocam e

nossos corpos se encontram na maciez dos lençóis,

tudo isso desaparece.

Se antes um era prata e outro, ouro,

somos, agora, apenas dois loucos de paixão.

E nos amamos ardentemente,

amalgamando nossas naturezas,

derrubando todas as barreiras

em uma fusão enlouquecida e inseparável.

Nesse hiato de um inesperado eclipse

entre meu sol e sua lua, sua noite e meu dia,

nossos mundos se reduzem a um ponto –

Um único ponto desse vasto universo

onde todas as estrelas vêm brilhar

e invejar esse doido amor

que tudo desmonta, tudo desmente

e nos une e mistura esses mundos,

até chegar o inevitável e triste momento

quando, encantados, seguimos adiante,

cada qual trilhando um caminho próprio.

Mas neste universo em que todas as linhas se tocam,

perpendiculares, paralelas, convergentes,

divergentes, retas ou curvas,

sempre haverá um mágico momento,

em que elas se encontram no finito da vida,

como estradas que em algum ponto se atravessam.

E quando nossos destinos se cruzam,

não há mais céu nem terra

nem há mais claro nem há mais escuro.

Existe, então, esse atalho secreto,

apenas um ponto de amor

a desafiar toda a lógica dos homens

e mostrar a esse mundo descrente

que podemos provocar o destino

e escrever, nós mesmos, nossa trajetória…

Dia de poesia – Alberto Caeiro

              XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois

Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,

E que para de onde veio volta depois

Quase à noitinha pela mesma estrada.

 

Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas…

A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco…

Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas

E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

(de O Guardador de Rebanhos)

 

Dia de Poesia – Zorongo (*)

 

Essas mãos de meu carinho

te estão bordando uma capa

com recamo de alelis

e com esclavina de água.

Quando tu foste meu noivo

pela primavera branca

os cascos de teu cavalo

quatro soluços de prata.

A lua é um poço pequeno,

as flores não valem nada,

o que vale são teus braços

quando de noite me abraçam,

o que vale são teus braços,

quando de noite me abraçam.

(Garcia Lorca)

(*) Baile popular andaluz

Bolha de sabão

 

Paira, um momento, tão linda

Coloridamente flutua e roda

E sobe, e desce, e vem, e vai

Tocada por quase imperceptível brisa

 

E, como um ímã, hipnotiza

Já não vemos mais nada ao redor

Nossos olhos, fixos e encantados

Seguem a bolha de sabão pelo ar

 

Ela brinca com cada um que a vê

Chega perto e sorrindo foge

Não se deixa tocar nem prender

Sua vida é encantar e alegrar

 

Mas não nasceu para ficar

Tem de ir, flutuar, deslumbrar

Até que, num súbito momento,

Se desfaça no ar e quebre o encanto…

 

Assim também foi minha paixão

Surgiu num de repente da vida

Bailou, flutuou, me encantou

Hipnotizada eu a segui deslumbrada

 

Suas cores eram as mais lindas

Sua existência se tornou meu existir

E a brisa, teimosa, a levava de mim

Angustiada num momento insano tentei detê-la

 

E diante de meus olhos, agora molhados de lágrimas

Ela se desfez no ar e deixou-me a lembrança

De toda sua beleza, de tanta leveza

E então, no meu sofrer aprendi:

 

Nunca toque, nem tente prender a paixão

Porque ela é mera bolha de sabão…

Hoje é dia de Poesia – Canção

 

Canção

(Cecília Meireles)

 

Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

– depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre de meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio…

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito;

praia lisa, águas ordenadas,

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas

De namorar

Namoradas e namorados,

Tão enamorados…

Seguem de mãos dadas

Olhos nos olhos

Pensando no que virá

O futuro em comum

Começando com um sonoro

Felizes para sempre!!!!!

Namoradas e namorados,

Sempre tão enamorados

Não sabem que o tempo

Leva rápido a juventude

Chegará a idade da responsabilidade

Até mesmo se esquecerão que

Tudo começou com um

Felizes para sempre!!!!!!!!!!!!!!!!!

Aproveitem, namoradas

Aproveitem, namorados

Que tempo melhor não há

Namorar é intensidade

É leveza, é diversão

É apaixonar-se – 

a melhor parte da vida…

Aproveitem, namorem

Namorem muito, namorem bastante

E mesmo assim, um dia sentirão falta

De simplesmente namorar

Estar junto sem compromisso

Sem boletos nem cobranças

Vivendo sem amanhã

No embalo da paixão