Dia de Poesia – Antonio Carlos Augusto Gama

Lindo poema de meu amigo Antonio Carlos Augusto Gama, ou Gama, ou Gaminha:

 

Algum dia serei pedra
e entre tantas
ela me escolherá
para carregar no dedo

Nalguma primavera serei flor
quiçá amarela
que ela colherá
para entremear nos cabelos

Um dia serei areia
numa praia deserta
e em mim ela deixará
a marca etérea do seu caminho

Nalgum verão serei linho
e ela me vestirá
para sentir na pele nua
o abraço tênue do meu carinho

Alguma vez serei água
e ela me beberá
para matar a sede
que é apenas minha

Enfim já não serei eu
mas ela saberá
que fui somente seu

Onde está o meu amor

Olhando o suave movimento das folhas

perguntei-lhes: Onde está o meu amor?

Será que está por perto? Balançando ao vento,

elas assim me disseram: Não! Não! Não!

 

Vi os pássaros brincando, num voo sem

pressa e sem rumo. Disse-lhes: Vocês, aí do alto,

veem mais longe, respondam: Podem ver o meu amor?

Em círculos, se foram gritando: Não! Não! Não!

 

Sentindo o vento passar, gritei-lhe: Escute-me,

você passou tantos lugares, me diga:

Meu amor está chegando? Rindo e sibilando,

passando rápido, avisou: Não! Não! Não!

 

Procurei por todo lado, busquei na terra e no mar.

Onde estará o meu amor? Mas nunca o encontrei.

Voltei triste para meu canto, chorando de dor e de pena,

ali você me esperava, e, abrindo os braços, sorriu…

Cirandando

Eu quero entrar numa ciranda

Uma ciranda só de amor

Se você me ama dá-me um beijo

E um abraço e vá-se embora

Que eu continuo rodando

Procurando onde parar

Outros beijos vou ganhar

Outros abraços eu darei

E depois dizer adeus

E a ciranda continuar

Em minha roda vou rodando

Minha ciranda cirandando

E de tanto cirandar

Você vou reencontrar

E você vai cirandando

Outros beijos vai beijando

Outros abraços abraçando

Até que um dia na ciranda

De tanto que cirandou

Também vai me encontrar

E então juntos nesta vida

Para sempre cirandar

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Sacrifício da Aurora

Um dia a aurora chegou-se
Ao meu quarto de marfim
E com seu riso mais doce
Deitou-se junto de mim
Beijei-lhe a boca orvalhada
E a carne tímida e exangue
A carne não tinha sangue
A boca sabia a nada.

Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
Palavras que me dizia
Transfiguravam-se em neve
Era-lhe o peso tão leve
Era-lhe a mão tão macia.

Às vezes me adormecia
No meu quarto de marfim
Para acordar, outro dia
Com a Aurora longe de mim
Meu desespero covarde
Levava-me dia afora
Andando em busca da Aurora
Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

Hoje, ai de mim, de cansado
Há dias que até da vida
Durmo com a Noite, ausentado
Da minha Aurora esquecida…
É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!

Venha de braços abertos

Quando você vier

Venha de braços abertos

Para um abraço sonhado e desejado

Que não aguenta mais esperar

Mas venha também com o sorriso aberto

Os olhos brilhando de alegria

Venha alegrar esses outros olhos

Que não querem mais chorar

E venha ainda com coração aberto

Ao encontro deste outro coração

Que se abriu, que amou, que sangrou

E mesmo assim não desistiu de amar

Porque quem esperou por tanto tempo

Sofreu toda a tristeza da separação

Não desistiu em tantas dificuldades

E está aqui firme, esperando sua volta

Está com os braços abertos,

O sorriso, e o coração abertos, transbordando

De saudade, cheios de tanta ausência e

Carentes desse abraço tão sonhado

Da alegria que só esse sorriso poderá trazer

E do calor que virá do seu coração.

Por isso, o mais cedo que puder, venha.

Venha, e já chegue com os braços abertos

Dia de Poesia – João M C Gomes

É nas minhas madrugadas
que mais sinto a tua ausência
depois de mais uma noite
em que a solidão
dormiu na minha cama.
Na minha mão,
não sinto a tua mão,
no meu peito,
não sinto o teu braço,
e o calor da perna
que traçavas sobre a minha
é agora ausente
e parte de um sonho amordaçado.
O tempo do amor
diluiu-se nos dias de tristeza incontida,
e as luzes que nos iluminavam
deixaram morrer as flores
que trazíamos sedentas
dentro de nós.
As sombras desceram sobre a nossa paixão,
cobrindo de espanto e de dúvidas,
os dias de amor, antes fácil,
destruindo as searas que lavrávamos,
nos nossos corpos e na nossa alma.
Mas é nas madrugadas,
que te revejo e ainda te sinto presente,
sem encontrar solução
para a dor que trago no peito,
e o arrependimento de te deixar partir
deste corpo e desta mente
carente e amordaçada,
como um castelo desmoronado,
por um simples sopro de uma mulher,
que me amarrou,
nas linhas do seu cabelo,
e me deixou exausto de sede e de fome,
na solidão de um amor inacabado.