Dia de poesia – Mia Couto – Amei-te sem saberes

Hoje não devia ser dia de poesia. Mas esse poema do Mia Couto me encantou, li e reli. E resolvi partilhar com vocês. 
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão 
eu te amei 
e acariciei 
o teu imperceptível crescer 
como carne da lua 
nos nocturnos lábios entreabertos 

E amei-te sem saberes 
amei-te sem o saber 
amando de te procurar 
amando de te inventar 

No contorno do fogo 
desenhei o teu rosto 
e para te reconhecer 
mudei de corpo 
troquei de noites 
juntei crepúsculo e alvorada 

Para me acostumar 
à tua intermitente ausência 
ensinei às timbilas 
a espera do silêncio 

Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho’

Outros Poemas de Mia Couto:

Como um vulcão

Trouxe a poesia dentro de si:

Chegou mansamente e aqui ficou.

Pousou em meu peito com a leveza

De uma delicada borboleta

Que pousa em uma pétala de flor.

Coloriu meu dia e minha vida,

Até então sempre cinzentos;

Alegrou minha alma e minha vida

Que eram imersas em tantas tristezas.

Despertou toda a paixão latente

Como um vulcão adormecido

Que volta subitamente à vida.

Abriu as comportas do desejo,

E, desde então, acreditei que,

Encantados de tanto amor,

Seguiríamos sempre juntos.

Hoje a saudade, em forma de lágrimas

Inunda meu rosto com quentes gotas.

Saudade é privilégio de quem foi feliz

E esse sentimento, quando muito intenso,

Se liquefaz tal como magma em lava,

E esse vulcão, que então explodiu de paixão,

Volta à quietude de seu letárgico sono

E, novamente entorpecido, em sua ausência

Adormece triste e eternamente.

Hoje é dia de poesia – Ferreira Gullar – Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ainda de saudade

Saudade 
«É uma mania que a alma tem
De ouvir o que não é dito.
De sentir o que não se toca,
de ver o que não pode ser visto.
saudade,
é um pedacinho da gente,
Que alguém sem pedir permissão,
Leva para bem longe.»

(Marcelo Vico)

 

 

Quantas vezes eu já escrevi sobre saudade. E quantas mais sobre saudade eu li…

Saudade, essa presença incômoda de uma ausência que não nos abandona.

Esse sentimento de gosto amargo que adoça a vida com doces lembranças.

Essa presença invisível que nos acompanha dia-a-dia, hora-a-hora.

Esse fio mágico que não conhece distâncias e nos mantêm unidos a quem se foi.

Ah, saudade, eu peço, me deixe em paz. Procure outra alma para fazer seu ninho.

Quero viver sem pensar, sem lembrar, quero viver sem ter saudade.

Mas, imagino, sem saudade, a vida seria um deserto onde somente se avança

Onde não há um velho porto à nossa espera para voltarmos

As portas se trancam à nossa passagem e impedem o regresso

Porque sentir saudade é voltar um pouco e encontrar quem se foi

É trazer de volta sensações, cheiros, toques, abraços que se foram

Viver sem saudade é viver sem lembranças doces

É trilhar o atalho até à morte sem se ter vontade de ficar

Então eu peço: Saudade, fique! Não me deixe nunca!

Sonhos

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado montado num cavalo branco

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado de carroça ou a pé

Já nem precisa ser encantado, nem mesmo príncipe… apenas encantador

Mas se não puder ser encantador, que seja apenas atencioso

O tempo passou e levou todos os sonhos da juventude

E a vida não deu outro tempo para construir novos sonhos

E o tempo não parou para que alguém notasse a falta deles

E a vida seguiu sem sonhos, só na dura realidade que não deixa pensar

O tempo da diversão deu lugar ao tempo da responsabilidade

A leveza da juventude cedeu sua vez à intensidade da maturidade

E a vida se tornou um parque de responsabilidade, de deveres sem direitos

Um dia ao longe a vida mostra um lindo príncipe em um belo cavalo branco

Impossível alcançá-lo ou ser notada por ele no borralho da realidade

Então vem à mente a vontade já indisfarçável de fugir. Não com o príncipe

Mas montar seu próprio cavalo e, finalmente com as rédeas nas próprias mãos, 

Simplesmente ir…

Dia de Poesia – Machado de Assis – À Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro. 

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro. 

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados. 

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.