Dia de poesia – Clovys Torres

Hoje trago um poema de meu amigo Clovys Torres…

 

Se eu fosse poeta, te faria poesias…

se eu fosse escritor, te escreveria romances…

se eu fosse jardineiro, te cultivaria jardins…

se eu fosse doido, te faria loucuras..se eu fosse músico, te dedicaria canções….

se eu fosse bailarino, dançaria com você.

Só que não sou nada e me entrego inteiro!

Eu roubei o relógio do tempo.

 

Vem, vamos brincar com a eternidade

e então seremos românticos,

cantaremos em nossos jardins

e dançaremos como loucos pelas bordas do mundo!

 

Venha, vamos colorir o mar, engolir a lua e

coreografar o vento!

 

Venha,

vamos ser loucos,

fazer loucuras

sem saudade

da lucidez…

 

Se eu fosse sensato,

não te convidaria, 

eu sei que você virá!

e em seus olhos trará

o oceano inteiro

e eu te beberei

como um rei!

 

Sem medo de me afogar!

(de “Curva de vento”)

 

Dia de poesia – Perda

                                       Perda

Quando te fores

Leva a maresia e o cheiro das arribas em desassossego

Leva as cores do sol destronado

O vento amarrado à lama e este vinagre

da tua ausência

Leva tudo a que já me habituara.

Sabes,

Fica aqui um mar de luas caídas

sempre que levas o barco

e abandonas minhas mãos no cais.

(Isabel Cabral)

Abraço

As nossas mãos se encontraram e se entrelaçaram

mas não foram apenas minhas mãos que você tocou,

como também não foram apenas suas mãos

que apertei entre as minhas mãos

naquele intenso, eterno e breve momento

em que nossos olhos se viram e nossos olhares se cruzaram.

 

Entramos dentro da alma, um do outro. Então

suavemente nossos corpos se tocaram

e no ritmo do desejo se enlaçaram

em um abraço de amor e rendição.

Na paz do instante em que fomos apenas um:

dois corpos unidos no abraço acontecido.

 

Senti meu coração bater junto do seu.

Seu sangue corria tentando se misturar ao meu.

Momento divino, anjos aplaudiram,

estrelas surgiram para nos ver.

A noite chegava aos poucos,

prometendo a lua dos namorados.

 

Todos os sons mundanos cessaram, só ouvimos nossa respiração.

Então a magia cessou, os corpos se afastaram;

os olhares, constrangidos, se voltaram a outras direções

e as mãos se soltaram, tímidas e envergonhadas

por terem proporcionado aquele abraço infinito

que durou eternamente por alguns segundos.

 

Um breve, fugaz e infinito momento nos uniu novamente

Antes que a nova separação se impusesse entre nós dois.

Mas aqui na minha alma você permaneceu,

deixando um rastro de querer dentro de mim.

E arrancou um pedaço de meu ser

e o levou consigo, para sempre, em sua alma

No dia em que nos separamos

No dia em que nos separamos o sol brilhava

E pássaros inundavam o ar com seu canto delicado.

Naquela noite a lua, insensível, surgiu radiante

E reinou soberana liderando o séquito de estrelas brilhantes.

E as flores da noite se abriram e perfumaram os caminhos.

As aves, amantes, aos pares se recolheram aos ninhos,

E o vento soprou mansinho,

apenas leve brisa a acalentar as folhas.

Nada nem ninguém viu meu desespero, tanto sofrimento;

Lágrimas escondidas misturadas ao sangue

corriam em minhas veias,

Não houve dentro de mim qualquer alegria,

qualquer alívio ou bálsamo

Somente a dor aguda de mais uma separação,

que me inundava toda

E ocupava os lugares onde até então era só alegria,

sorriso e êxtase.

Amanheceu um novo dia.

A natureza não se abala com a dor alheia.

Como se tudo estivesse bem, o sol brilhou novamente.

Dia de Poesia – Encontro das águas

Encontro das Águas

(Quintino Cunha – poeta cearense e amazonense de coração)

Vê bem, Maria aqui se cruzam: este
É o Rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
como as saudades com as recordações.

Vê como se separam duas águas,
Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.

É um simulacro só, que as águas donas
D’esta região não seguem o curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;

Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!

Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto é também limpa, engana:
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.

Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza, mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
Neste céu d’água, brutalmente enorme.

Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!…