O pescador de Sorrento

Na terça-feira última, 28.05.2019, foi o lançamento do meu livro de contos – O pescador de Sorrento.

Esse é meu terceiro livro solo, sendo certo que participei, ainda, de cinco antologias.

É sempre uma emoção ver um livro “nascer” e seguir seu curso. Haverá outros? não sei… espero que sim!  agradará os leitores? não sei, espero que sim…

O conto que deu nome ao livro se desenrola no ambiente do mar, e, para o lançamento, foi-me preparada, pela Nina Kuznetzow, uma mesa que trazia o fundo do mar. Linda.

Esse cuidado ao preparar a mesa que me destinou, essa demonstração de carinho, valem mais do qualquer palavra.

Deixo, aqui, imagens da beleza do arranjo da Nina:

 

 

Para meu pai

Quando eu era só a criança que ainda habita em mim, pequena e assustada, ele era meu herói-todo-poderoso.

Matava as baratas que me aterrorizavam, explicava os barulhos noturnos e afastava os fantasmas. Dirigia o carro para fora dos temporais e o tirava de todos os atoleiros… Montava o cavalo com a maior facilidade, e cavalgava lindamente. Tinha uma pontaria incrível, acertava os discos lançados, e nunca voltou de mãos vazias das caçadas.

Ele remava no rio. Ele me levava mar adentro e ensinava a não ter medo.

Nunca contei para ele, mas eu morria de medo da pinguela na fazenda, principalmente quando anoitecia e eu passava sozinha – às vezes carregando algum objeto – sem enxergar nada e temendo cair no rio. Mas nada dizia, porque ele admirava e elogiava a coragem. E poderia não querer mais me levar junto. Quando a água estava alta, aí ele me dava a mão para atravessar e o medo desaparecia.

Então eu cresci. E seus ensinamentos mudaram. Era sobre a seriedade no trato com as pessoas, a honestidade nos negócios, e a justiça em todas os atos.

Era sobre respeito e religião.

Era sobre ter responsabilidade sobre os próprios atos, assumir os erros.

E a vida fluiu, seguiu seu curso.

E seus lindos olhos verdes se iluminavam cada vez que eu regressava à casa, e seu sorriso me acolhia.

Nunca cobrou nada de mim. Entendia minha vida corrida e a necessidade da minha ausência. Mostrava que se orgulhava de minhas conquistas, sempre companheiro e atencioso.

Sem nunca dar um palpite na minha vida, foi sempre companheiro e conselheiro.

Agora ele se foi. Nesta semana, há quatro dias atrás, eu o vi sendo levado, cercado de filhos e netos, deixando um vazio e uma dor que nunca terão fim.

Não consigo imaginar como será a realidade do dia-a-dia sem ele, sem seu apoio, seu sorriso, suas observações.

E, frágil e me sentindo abandonada, tenho medo dos rios que ainda atravessarei. Então, voltando a ser apenas aquela criança indefesa, eu peço – “pai, por favor, pega na minha mão em todas as pinguelas que eu tiver de atravessar, está escurecendo na minha vida”.

Conversa com meu avô – nº 06

Então, vô, quanto tempo sem nos falarmos… tudo anda complicado aqui, o senhor sabe de alguns dos problemas.

Ah, o senhor quer saber o que está acontecendo na política, que só de piscar já perde o fio da meada e não entende mais nada…

Pois é, vô, coisa de doido que só no Brasil se vê.

Depois que a Dilma foi tirada da Presidência da República, o vice eleito com ela assumiu o mandato até a próxima eleição, é, o Temer, sim, o que tem a chave da cadeia – vai preso e sai, vai preso de novo e sai de novo…

Tivemos as eleições em outubro e quem ganhou para Presidente da República foi um Capitão paraquedista do Exército, já reformada, chamado Jair Bolsonaro.

Esse mesmo, vô, que já era deputado federal, da bancada da bala. O homem foi até esfaqueado durante a campanha para sair do caminho e dar passagem ao hadad, candidato do Lula.

Claro que o Lula continua preso – se der condenação em todos os processos que ele responde, deverá ficar muito tempo preso, mas os petistas e esquerdistas em geral acham que ele deve ser presidente de novo. Fazer o que…

Então, o Capitão Bolsonaro foi eleito. O cara é sério, vô, não aceita corrupção nem corruptos. E por isso o congresso nacional está em polvorosa.

Ele não negociou nenhum cargo, em nenhum escalão do governo. E nem solta dinheiro para negociatas e troca-troca com deputados.

O nhonho, quer dizer, o Maia, presidente da câmara – não, vô, não é o Cesar Maia, mas o filho dele, o Rodrigo – de pirraça está impedindo o homem de governar.

Sim, além de não votarem nada, ainda estão atrapalhando até a reforma ministerial do novo governo. Eu sei que nunca o congresso se meteu em assuntos administrativos, mas acho que era porque os deputados enfiavam os afilhados e apaniguados nos ministérios e nas estatais, então ficava tudo bem.

Agora acabou o toma-lá-dá-cá.

Ah, agora o senhor entendeu o que está acontecendo, não é?

Pela primeira vez desde que o Tancredo Neves não foi presidente estamos diante de um governo que não quer lambança. Um homem que está de olho nas próximas gerações de brasileiros e não nas próximas eleições brasileiras.

Então chegamos num impasse – o Presidente da República não pode praticar nenhum ato, os esquerdistas acham que enchendo a internet de mentiras vão derrubá-lo e convocar novas eleições para colocar o lula ou qualquer pau-mandado no lugar.

Por isso essa manifestação no próximo domingo, vô. Até os militares já reformados (cerca de 85.000) estão convocando o povo para ir às ruas e mostrar apoio ao Presidente eleito e ainda exigir uma pauta do congresso.

Ah, e tem ainda o caso dos sinistros do supremo. Que comem lagosta com vinhos estrelados (eu pensava que era proibido bebidas alcóolicas em repartições públicas) e também atrapalham o governo em tudo e os senadores se recusam a dar andamento aos pedidos de impeachment dos ministros. Vai ser parte da reivindicação.

Fica sossegado que seus netos e bisnetos estarão lá, todos de verde-e-amarelo, com a Bandeira do Brasil nas mãos, defendendo o futuro da Nação.

Claro que voltarei aqui para contar para o senhor o que aconteceu nas manifestações. E não tem perigo, quem é a favor desse governo é gente do bem, não faz quebra-quebra, não joga bomba nem apanha da polícia, que está do nosso lado.

Fica aí no céu torcendo por nós e pelo Brasil, vô. Até a próxima,

(nota da blogueira: desde 2014 essas conversas com meu avô vêm sendo publicadas no Alinhavando letras, sobre os problemas políticos do país).

Dicionário emocional

ADEUS: quando o coração que parte deixa metade com quem fica

AMIGO: alguém que fica para ajudar quando todos já se foram

CIÚME: quando o coração fica apertado porque nao confia em si mesmo

CARINHO: quando encontramos nenhuma palavra para expressar que sentimoes e deixamos que as mãos falem por nós      

LEALDADE: quando se prefere morrer a trair o outro

LÁGRIMA:  quando o coração pede aos olhos que falem por ele

MÁGOA: espinho que colocamos no coração e depois esquecemos de retirar

PESSIMISMO: quando perdemos a capacidade de ver em cores

SOLIDÃO – quando estamos cercados de pessoas mas o coração nao vê ninguém por perto

(desconheço a autoria)

Arte

Desde sempre convivi com arte.

Arte no sentido clássico. Arte como atividade humana que desperta uma emoção.

Estética, beleza, harmonia…

Assim foi durante a infância e adolescência, quando estudava música e fazia conservatório musical, com aulas de história da música e história da arte.

Também pelo interesse e estudo sobre a matéria. Sou fascinada pela música e pela escultura, as quais considero a expressão máxima da capacidade humana de tocar a alma de outro ser humano.

Admiro as outras artes, como a pintura – não sei desenhar nem o elefante dentro da cobra do Pequeno Príncipe. Admiro quem desenha, quem escreve, quem pinta, quem encena, quem canta, quem dança…

Ao mesmo tempo, infelizmente, presenciamos uma nova era artística. De onde o belo foi banido.

Nada de bonito, nem de harmônico, nem de sentimento estético.

A arte foi desconstruída para dar espaço a pessoas completamente sem talento.

Imagino, aqui, os museus do futuro …

Mila

Há muito, muito tempo, ele escrevia na Folha. E publicou essa crônica, que levou seus leitoras às lágrimas. E minha querida tia Teca – tia, segunda mãe, amiga, companheira, com sua extrema sensibilidade, teve o cuidado de guardar. Trouxe-me para que relembrasse. Aproveitei para digitalizar e imortalizar. E a transcrevo aqui, para que outros tenham a ventura de conhecer um pouco do grande Cony:

 

                                          Mila

                                Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO – Era pouco maior do que minha mão; por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

            Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?

             Amá-la – foi a resposta e também acredito que ela ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigia minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

             Tendo-a a meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

             No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem amor do que o meu peito, levei-a até o fim.

             Eu me considerava um profissional devente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

             Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.