Meu coração silenciou

Meu coração silenciou.

Como num vácuo do tempo e dos sentimentos.

Foi-se a ansiedade, foi-se a angústia.

Tomou-se de uma profunda calma e então serenou.

Bate agora tranquilo dentro de um compasso confortável.

Não sangra nem grita. Não dispara nem ameaça parar.

Cumpre sua nobre função. Apenas isso.

Já não há mais emoção.

Nada o atinge nem perturba.

Sinto falta de sua desordem, seus sobressaltos.

Falta daquela adrenalina continuamente ativa.

Porém já não encontro nada disso.

Meu coração silenciou.

Simplesmente a paixão se acabou.

Conversa com meu avô – nº 08

Eita, vô, se nem para nós, aqui embaixo, está fácil de entender, imagino aí de cima, sem seguir passo a passo os acontecimentos políticos… mas, vamos lá, vou tentar explicar:

Eu não sei porque a manifestação dessa vez foi no sábado e não no domingo, mas era, sim, o mesmo pessoal – os brasileiros honestos e trabalhadores, abrigados sob a bandeira verde-e-amarela. A diferença é que agora a luta é mais difícil, mais complicada: é preciso dar um jeito nos ministros do supremo.

Claro que tem mais lixo na política, mas acontece que seis desses sinistros se uniram para acabar com o país, com o governo, com a democracia. Estão a favor da quadrilha que roubou o país. Estão fazendo o diabo para a esquerda voltar ao poder.

Para conseguirem o intento, começaram a legislar, e inventar umas regras excêntricas, o que levou à libertação do nove dedos. Que nunca foi preso de verdade. Estava numas dependências cinco estrelas da superintendência da polícia federal em Curitiba, com geladeira, telefone, esteira ergométrica, namorada… tudo pago por nós.

O maior problema agora é que ele continua inelegível, por força de condenação em âmbito criminal. Por esse motivo aqueles seis respeitáveis senhores, estão tramando um golpe final na justiça do país e na operação lavajato – a maior operação do mundo contra a corrupção – e pretendem simplesmente anular os processos do larápio-mor.

Por isso as manifestações. Ou acabamos com o supremo ou o supremo acaba com o Brasil.

Como? O atual Presidente da República? Ah, vô, com esse estamos tranquilos. Está, aos trancos e barrancos, tirando o país do atoleiro em que a esquerdalha nos deixou. Contra ele temos o congresso – câmara e senado, em sua maioria composto por traíras e bandidos, e o supremo. Pois é, ainda assim o cara está conseguindo ótimos resultados, que dão esperança de melhorarmos um pouco.

Nos países vizinhos o que aconteceu foi que na Venezuela continua aquele horror de violência e fome, na ditadura esquerdista à la castro, conforme já conversamos. Exatamente, vô, parece que não tem saída. Pobre povo venezuelano, está num sofrimento danado.

No outro país vizinho, o índio cocaleiro fraudou de novo as eleições bolivianas e foi de novo eleito. Mas dessa vez o povo não aceitou o resultado da eleição e foi para a rua protestar. No começo houve violência, mas a polícia lá se lembrou do ídolo Simon Bolivar – “Maldito sea el soldado que apunta su arma contra su pueblo”, e simplesmente o índio perdeu o apoio e renunciou.

Enquanto isso, no Chile, onde o governo é de direita, a canalhada está provocando caos, violência, desabastecimento, todas as dificuldades, para tentar derrubar o presidente. Estão incendiando universidades e igrejas católicas. Uma profanação atrás da outra.

Na Argentina, los hermanos se lembraram de suas origens e elegeram novamente a Kirchner. Vão afundar em mais miséria ainda.

É isso, vô, o quadro atual da América do Sul, “pegando fogo” na luta entre os parasitas de esquerdas e os trabalhadores de direita.

Há, sim, muita esperança para o país. Se o supremo e o congresso pararem de atrapalhar, ainda voltaremos a ser uma potência.

Mas, se Deus quiser – e vai querer – sairemos vencedores. Vamos voltar à ordem, ao crescimento, dar um fim a esse desemprego cruel que está destruindo famílias.

Deu para entender, vô?

Por que “um pouco”?

Ah, é isso mesmo – há uma parcela de vagabundos no Brasil lutando contra o país, e eles têm mais voz, fazem mais barulho. Mas é minoria. Serão aniquilados, pode esperar.

Então, vô, qualquer coisa me chama que tento explicar. Até…

Rotina

 

Noite de domingo. Mais uma semana vivida. Menos uma semana para se viver…

E depois de um domingo preguiçoso, sempre vem uma segunda-feira acelerada. Já fico cansada só de pensar.

Quando estamos nos acostumando com o ritmo da semana, chega o esperado sábado. E desaceleramos. Mais um domingo de pura ociosidade. Nunca fui acostumada à vida madraça, mas agora, já na soleira do fim, estou apreciando viver sem muita obrigação. Mesmo assim, ainda acho que estou com muitos compromissos.

Sonho com o dia em que acordarei nos dias de semana sem absolutamente nada para fazer. Nem tirar o carro da garagem. Talvez mesmo nem destrancar as portas. Vaguear pela casa, em silêncio, sem tv ligada, sem ninguém falando nada.

Preparar meu café da manhã em qualquer horário – não fará a menor diferença se me levantar 5h45 ou 10h15.

Deitar para fazer nada até o corpo gritar que precisa se movimentar. Daí preparar alguma refeição – do meu jeito, sem carnes nem gorduras, saborear lentamente e continuar vadiando até a noite chegar. Passar a tarde lendo deitada em uma rede.

 Como não sou de ferro, ao anoitecer tomar um bom whisky, na varanda, pensando na vida boa que estou levando.

E assim continuar até ir dormir de novo.

Essa seria minha nova rotina. Mas acredito que vai ficar no sonho, porque minha realidade é bem diferente. Mas, como enfrentar a realidade sem sonhar?

O tempo não passa

Nessa hora morta entre o final da tarde e o anoitecer, o dia já se foi, mas a noite ainda não chegou. Hora de saudade doer, de ansiedade surgir, de fazer um balanço do dia – e sempre o resultado é negativo.

Dizem: “anoiteceu, acabou o dia, o tempo passa rápido…”. Não, isso não é verdade.

Nós passamos e o tempo fica, ainda que os homens acreditem que o tempo é que passa. Não, o tempo fica.

Todos os dias amanhece, entardece e anoitece. Igualmente.

Não há dia nem noite envelhecidos, nem de cabelos brancos, nem alquebrados.

Podem ser chuvosos ou luminosos. Nublados ou ensolarados. Mas com vida. Sempre. O tempo não se cansa. Não se desgasta. Apenas existe.

Enquanto a humanidade envelhece, apodrece, se torna incômoda.

Os homens passam, as gerações se findam, ninguém mais se lembra de quem estava aqui há cinquenta anos atrás.

Mas todos sabem como foi o dia de hoje há cem anos atrás: amanheceu, entardeceu e anoiteceu. Com ou sem sol. Com ou sem lua. Mas estava aí, exatamente como o dia de hoje.

O tempo não é cruel. Cruel é a vida, que nos açoita continuamente. Cruéis são os sonhos, que nos iludem e nos decepcionam porque não se realizam.

Cruel é apaixonar-se e ficar sofrendo em solidão aguda.

Cruel é a fragilidade do corpo humano.

O tempo, ah, o tempo é indiferente às misérias dos homens. Apenas se limita a assistir a batalha diária dessas criaturas insignificantes diante da majestosidade da eternidade.

Uma lembrança

 

Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)

 

Caminhando hoje ao longo das praias Pitangueiras e Astúrias, na altura das pedras que as separam, o mar dificultava a passagem, pela maré alta.

As fortes ondas traziam coroas de espuma tão branca que era um espetáculo quando se chocavam contra as pedras. Parei ali, para atravessar passo a passo só enquanto as ondas recuavam para nova investida.

Cenas de um passado muito distante voltaram-me à mente.

Um grupo de jovens entre 18 e 22 anos, todos amigos, alguns irmãos, outros namorados.

Todos apaixonados por praia, ficávamos horas entre a areia e os banhos de mar. Até o corpo não aguentar mais. Daí casa, banho, um cochilo, e rua de novo. Ser jovem é não sentir cansaço, ter disposição para tudo.

Reuníamo-nos na pizzaria. Era um festival de muitas pizzas, porque o apetite era enorme. E    devorávamos tudo, e ainda sempre terminávamos com as infalíveis pizzas doces – califórnia, romeu e julieta, morango com chocolate. Hoje eu não comeria nenhuma. E, no máximo,  como duas fatias de pizza básica. Mas aos 20 anos a história era outra…

Alimentados e felizes, era hora de ir para o apartamento da família da Sílvia, namorada do Fernando. Exatamente naquele ponto da cidade, onde as praias se dividem, no Edifício Sobre as Ondas.

E, luzes apagadas, sentados no chão, alguém tocando violão, todos cantando, fascinados deixávamos o tempo escoar enquanto olhávamos a força do mar, em ondas com brancas espumas, “entrando” sob o edifício para bater nas pedras.

Cada um seguiu seu caminho, Carlos se casou com Marta, Fernando com Silvia, uns casais se separaram, outros nem se formaram…

Mas a doce lembrança daquele tempo vadio, onde tudo era alegria, ficou cravado na saudade que não desaparece…

Um dia…

A minha alegria é a melancolia. (Michelangelo Buonarroti)

 

Um dia vou ser feliz. Feliz mesmo. De verdade. Não essas pequenas alegrias que esticamos ao máximo para nos sentirmos felizes por algum tempo. Mas Feliz. Assim mesmo: Feliz.

Um dia, não agora.

Sou feita de saudade e melancolia. Desesperança e ansiedade. Isso não é ser feliz. Nem mesmo alegre. Para ser sincera, muitas vezes penso que felicidade é uma palavra que inventaram para que a humanidade fosse eternamente frustrada. Porque nunca vi ninguém exatamente, plenamente e ostensivamente feliz. Alegre, talvez, mas feliz? Nunca.

Mas um dia serei feliz. Prometo.

Nada irá sombrejar meu olhar, que será claro, límpido, luminoso, como só o olhar das pessoas felizes pode ser. E meu sorriso… nada o impedirá. Aberto, cristalino, verdadeiro – o sorriso de alguém feliz.

Meus braços estarão sempre ocupados num abraço sem fim e minhas mãos derramando carinhos em alguém que muito me encante.

Serei só ternura, maciez e aconchego.

Mas não agora. Isso no dia em que eu for feliz…

Para o Darcy

Para se somar às tristezas e às perdas de 2019, chega-me a triste notícia do falecimento de Darcy. Meu muito querido amigo Darcy Passos.

                                                     

Pessoa extraordinária, de memória privilegiada, cultura invejável, e um humor inigualável. O seu lugar no coração dos amigos jamais será preenchido.

Conhecemo-nos há mais de trinta anos. E a amizade e o entrosamento foram instantâneos. Da mesma forma que tivemos sérios embates pelas nossas posições políticas frontalmente opostas, demos muitas risadas. Muito mais diversão e alegria do que desentendimentos. E quantos whiskies bebemos juntos… daria para encher muitas garrafas… E declamamos, e cantamos, e dançamos… encontrar o Darcy era, por si só, uma festa. Se fosse em uma festa, sem dúvida ele era a alma, o centro da reunião. Tinha uma rara capacidade de agregar as pessoas, com amigos de todas as idades.

Quando começou a lambança na política, perguntei-lhe um dia (com a liberdade que os verdadeiros amigos têm) o que ele estava achando do cenário. Com uma indescritível tristeza nos olhos ele me respondeu que “não foi para isso que passei tudo o que passei na vida nem que minha família sofreu o que sofreu”, disse que não mais queria saber de política… ele, o grande Darcy, tivera sua maior desilusão.

Certa vez, fizemos uma viagem de navio em que não parava de chover. Então ficávamos todos no bar o dia inteiro… “derrubamos” o bar do Costa… acho que não sobrou uma garrafa de whisky no estoque. Dias inteiros de cantorias e risadas…

Todos os seminários que participamos, suas verdadeiras aulas quando lhe era dada a palavra. 

Hoje você partiu, Darcy. Nunca mais cantará nem declamará para mim. Guardo com carinho as lembranças de nosso último encontro. Já doente, você não podia me ver. Cantei para você uns versos do Vinicius que você cantava para mim e de imediato você falou “Alice!!!!”. Chorei naquele dia, Darcy, ao ver como a vida estava sendo cruel com você, lembrava-me que sempre eu lhe dizia que quando você não fosse mais usar seu privilegiado cérebro, se você o daria para mim… quanta tristeza, meu amigo, e você não está mais aqui para fazer uma graça, para me fazer rir, para tentar me alegrar…

Como choro agora, enquanto escrevo e ouço Vinicius cantando as mesmas músicas e já começo a sentir saudade de você. Quem conviveu com você entende a falta que sentiremos de sua presença amiga, calma, ponderada, lúcida e genial.

Obrigada, Darcy, por seus ensinamentos. Por tudo que me ensinou de política, geopolítica, instituições e constituições… de amor, paixão, sentimentos, poesias… pelo seu bom humor…

Obrigada, Darcy, por todas suas anedotas, mesmo as que eram sobre mim e me faziam rir tanto… por todos os whiskies que compartilhamos.

Vá, meu querido amigo, em paz, que você merece o descanso eterno. Até um dia, se Deus quiser…