Piedade, Senhor

E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. (Lucas, 9:23)

 

 

Piedade, Senhor, a esta peregrina pecadora!

Piedade por minhas fraquezas que me levaram a pecar.

Piedade por não conseguir ajudar meu irmão a não viver em pecado.

Piedade por não entender os planos traçados para meu destino e por vezes me revoltar.

Piedade por tanto pedir e tão pouco agradecer.

Senhor, permita-me aliviar o peso da cruz dos irmãos e ajudá-los a carregá-la.

Eu peço, Senhor, que se algum dia cair sob o peso de minha cruz, consiga forças para me reerguer e continuar a cumprir minha caminhada.

Eu peço, Senhor, caminhe comigo, a meu lado, dando-me conforto e mostrando os perigos da caminhada e que eu perceba sempre que o Senhor caminha junto de mim.

Não peço, Senhor, que me alivie do peso da minha cruz, mas imploro, Pai, que fortaleça meu ombro para que possa carregá-la com alegria de dever cumprido.

Que a alegria de Cristo esteja sempre comigo, mesmo nas horas mais tristes, porque estas são parte de Seu plano para mim.

Que as forças nunca me faltem quando chegarem as tempestades da vida.

Que eu seja forte por mim e para socorrer o irmão que estiver sofrendo.

Piedade, Senhor, piedade de mim.

Quando enfim encerrar minha jornada, depois de cumprir Seus planos a mim destinados, que eu possa ajoelhar em Sua frente, ali depositar minha cruz e finalmente, olhar para Sua Sagrada Face.

Despedida

Ficou parada no vão da porta, observando enquanto a velha tia cochilava, tranquila, em sua poltrona. Sentiu-se inundada das lembranças daquela sala, o “seu” sofá, onde era a única pessoa autorizada a deitar… a mesa de canto, pequena, com duas poltronas onde tomavam chás, sucos ou café, com bolachinhas caseiras enquanto punham a conversa em dia.

Há três dias, no outro lado do mundo, recebeu uma ligação de sua mãe. Estava com voz preocupada que traduzia tristeza. Sua tia está morrendo, disse. Ela não diz nada, mas espera ansiosamente por você. Dá um jeito de vir.

Imediatamente entrou num site de passagens, fez a compra, largou tudo e voou quase um dia. Mas precisava vir.

Olhava com ternura a velha senhora, tão diminuída pela idade, os traços quase irreconhecíveis pela velhice, mas que tinha sido sempre seu mundo de amor incondicional.

A tia acordou. Olhou desinteressada ao redor. Notou o vulto encostado no batente. Levou um susto. Levantou o corpo, apertou os olhos.

– Você! Você!

Levantou-se e veio devagar, como se tivesse medo que ela desaparecesse, que não fosse real o que via…

Abriu os braços.

– Tia, estou aqui. Senti saudade e vim vê-la.

Abraçou o pequeno corpo e se perguntou onde estava aquela tia grande, sólida, que tanta segurança lhe dava.

Voltaram abraçadas até a poltrona, a tia se sentou. Ela se sentou no sofá ao lado. O sorriso da idosa a rejuvenescia décadas, era o mesmo riso de toda sua vida, desde o nascimento.

– Você deve estar cansada. Deita aí, minha filha.

Ah, como era bom essa voz, que continuava incrivelmente a mesma, aveludada e carinhosa, autorizando a deitar no sofá…

Deitou-se de forma a ficar de frente para a tia, vendo seu rosto e segurando sua mão.

Aquela mão que tanto a segurara… sempre lhe tirara os medos. Pedra, poça, muro, degrau, tudo que era intransponível, e a tia, com aquela mão estendida e a voz calma dizendo “Venha, princesa, pode vir que eu ajudo você a conseguir”.

Assim foi tudo o que conseguiu na vida. Até a carreira.

Aqueles mesmos braços que a seguraram forte quando bebê, a ampararam quando começou a andar, e deram adeus quando se foi para o outro lado do mundo buscar seu próprio caminho. “Vai com Deus, minha flor. E já sabe, estou aqui para o que precisar”.

Sabia. E como sabia. Como sempre soube, desde sempre. Estava ali, para resolver as disputas com os irmãos. Para ajudar nas lições da escola quando começaram a ficar difíceis. Para mediar os desentendimentos com os pais quando adolescente. Para completar o dinheiro quando as contas eram maiores que os meses. Para rirem juntas, delas mesmas, dos outros, das coisas…

Às vezes nem precisava pedir. Bastava pensar intensamente nela, e, como se adivinhasse, ela aparecia. “Está precisando de alguma coisa, minha querida? Posso ajudar?”

Toda a segurança que veio dela, e nunca percebeu que ela envelhecera, pois continuava a ser seu porto seguro. Nunca pensara nela como simples mortal. Sabia que um dia os pais e os irmãos morreriam, como morreram os avós e alguns tios mais velhos. Mas ela? Ela era eterna, imortal em seu imaginário.

– Pensando em que, florzinha?

– Nada, tia.

– Você deve estar cansada. Mas estou tão feliz que esteja aqui. Você está de férias?

– Estou. E vim ficar uns dias aqui com a senhora. Matar as saudades, rir um pouco. Estou carente de amor e colo…

– Veio no lugar certo, que bom que ficaremos juntas uns dias, como nos velhos tempos…

Sorriu alegre. Fechou os olhos e mergulhou em suas lembranças. Começou a cochilar.

Olhou com ternura para a tia, também estava cansada, com sono depois do longo e desconfortável voo. Adormeceu.

Acordou de repente, sem saber onde estava. Voltou à realidade. Alguém a cobrira com uma delicada colcha, o dia terminava e uma luminosidade mortiça entrava pelas frestas da cortina, tornando o ambiente surreal.

Viu que a tia cochilava, mas não se soltaram as mãos. As mãos que sempre se encontraram e se ampararam.

Voltou a dormir. Sonhou que voava junto com a tia. Não tinha asas. Mas as asas da tia bastavam para as duas voarem juntas. E foram se distanciando de tudo, a paisagem foi diminuindo, o corpo cada vez mais leve. E a tia a levava, e ela ia confiando cegamente porque estava segura, estava com quem sempre a protegera.

Repentinamente, as mãos se soltaram e ela se viu solta no ar, sabia que cairia, tentou gritar e acordou assustada, respirando com dificuldade.

A tia soltara sua mão, e, ainda guardando um sorriso de felicidade, mansamente se fora, voara para outra dimensão…

Vida vazia

Lentamente foi juntando seus pertences – tão pouca coisa – e colocando tudo na sacola puída.

Esta estatueta, por exemplo. Quantas recordações… A voz da mãe:

– “cuidado, não jogue bola na sala, vai quebrar minha estatueta…”

A pequena estátua – a única riqueza, o único enfeite da pobre sala…

E a bola passava rente, até que era raivosamente atirada por um adulto através da janela do quintal. E o jeito era ir para o quintal. O quintal…

Dois pés de laranja, dois canteiros de temperos, alface e cenoura, um grande abacateiro. Ao fundo, o pequeno pé de caju que nunca deu nada. Só companhia.

Em sua infância tão solitária nunca lhe faltara a companhia e o carinho do pé de caju – acolhedor, jeitoso, bom de subir e de sumir entre seus galhos.

De lá fitava o futuro que um dia viria… Seria grande, com poder e muito dinheiro. Quebraria com a bola quantos vidros, vidraças e estatuetas quisesse. Talvez até uns vasos de cristal, quem sabe…

Nos olhos de todos haveria respeito, admiração e, principalmente, temor. Queria impor ao mundo o medo que sentia de viver, de existir. O medo das terríveis surras de relho, que tanto machucavam sua carne tenra.

Medo do terrível escuro do quarto frio, das noites imensas com seus barulhos horríveis.

Também o medo da fome, que ia e vinha ciclicamente como ondas do mar, na alternância entre o emprego e o desemprego dos adultos.

Esse dia chegaria, ah, se chegaria… Podia imaginar cada dia de seu futuro, cada situação como se visse as figuras em um livro – como aqueles da sacristia da igreja, enormes e pesados.

Começou então a viver esperando esse dia chegar.

E seu futuro foi chegando de mansinho – chegou o dia de descer do cajueiro e nunca mais subir – era um pouco grande para a árvore de pequeno porte.

Assim chegou o dia de não ir mais ao quintal, de não levar mais surras, de não jogar mais bola.

E não teve mais quintal, não houve mais surras e nem jogo de bola.

Finalmente era adulto. 

Só não superou o medo do escuro do quarto e dos barulhos noturnos.

Esperava o dia, o grande dia em que amanheceria grande, com poder e riqueza. E o futuro chegou, e o futuro passou…

E continuou no passado, sem viver o presente, esperando o futuro, carregando consigo a  pequena estátua envolta em dois lenços de algodão, um pouco de roupa, umas imagens de santos, uns papéis amarelecidos, tudo cabendo na velha sacola, que carregava de asilo em asilo (até na prisão a levara).

Agora, era hora de sair dali também. Fechou a sacola e foi para um banco da praça, onde ficou, no presente sem emoções, sonhando com o passado que se fora morno, enquanto continuava a esperar o glorioso futuro.

Bolinho de arroz

Cozinhar é incrível. Acho que nada existe de mais prazeroso na vida.

Prazer para quem cozinha e mais ainda para quem degusta. Porque o paladar é o único sentido que nos acompanha praticamente a vida toda – nem a mais longa velhice o embota.

Sou mais do cozinhar do que do comer. Inclusive faço muitos pratos que eu mesma não como. Mas sei fazer. E o que mais me fascina na cozinha é a possibilidade do novo. Você nunca se entedia porque não vai fazer a mesma coisa todo dia. Nem muitas vezes. Há milhares de possibilidades de novidades. É só ir criando, experimentando e aperfeiçoando até sua ideia se tornar um prato notável.

Mas também há aqueles pratos que todos pedem para você repetir, que agradam sempre.

Assim vamos equilibrando os cardápios e oferecendo um tanto de novidades com outro tanto de pratos já conhecidos e apreciados.

Já dizia Brillat-Savarin que a descoberta de novo prato faz a humanidade mais feliz do que a descoberta de um novo planeta ou de uma nova estrela. E tinha razão.

A culinária francesa será sempre uma referência de equilíbrio de temperos e texturas. Incrivelmente saborosa e variada. Impressiona quatro dos sentidos – visão, olfato, paladar e tato.

Já nossa querida cozinha italiana, tão difundida e adaptada no Brasil nos satisfaz tanto o paladar quanto a gula.

A modernidade nos trouxe a horrorosa comida japonesa – feia, fedida e de gosto ruim. Mas, virou moda e os descolados têm de dizer que gostam daquelas gororobas esquisitas.

Vejo que nosso infalível arroz-com-feijão é imbatível na preferência de todas as gerações. E, para os iniciados, um baião-de-dois é banquete.

E, para “temperar” esse arroz com feijão, tudo o que existe de concreto e imaginável vai bem.

Desde o famoso prato russo, tão ao gosto do brasileiro – o Roscovo – que consiste em um arroz bem feitinho, refogado no alho acompanhado de um ovo frito na medida certa da consistência da gema – até as carnes mais sofisticadas.

O brasileiro é criativo. Além de dispor de uma variedade inestimável de vegetais, incluindo os temperos e as deliciosas pimentas, tem a seu dispor quase todos os tipos de carnes.

Não é preciso ir muito fundo, nem inventar muita moda. Nada agrada mais nosso paladar que nosso tradicional bolinho de arroz.

Cozinhar é um ato de amor. E fazer bolinho de arroz é a declaração desse amor.

A demain!

 

 

Não vou escrever hoje. Vou aproveitar para viver.

Quem quiser vir comigo, mesmo que não queira sair lá fora, basta abrir a janela e olhar para o céu.

Dia de fim de inverno, já primaveril. Céu muito alto e muito azul. Contra ele as árvores balançam folhas verdes. O contraste é incrível.

No alvorecer os pássaros cantaram celebrando o calor que chega e protestando pela chuva que tarda. E o dia se fez silêncio.

Ouve-se, ao longe, os gritos e risadas de algumas crianças que brincam. Um veículo passa buzinando, ouço o acelerar de uma motocicleta – deve ser das grandes pelo ronco bonito. Depois, o silêncio volta.

Eu poderia ficar aqui e escrever, mas vou ser sincera: ficar aqui dentro escrevendo com todas essa natureza gritando lá fora – Vem! Vem aproveitar esse dia de paz!”

Não resisto a esse apelo. Vou encerrar meu dia de escritório às dez horas da manhã e vou viver um pouco.

Tornerò. Domaine.

Analisando Alice

 

Sempre escutei:– Alice? No país das maravilhas?

E eu ficava muda, muito sem graça, e nada respondia.

Detestei a vida toda essa pergunta. Mas a ouvi milhares de vezes.

E nunca fui muito entusiasta dessa obra. Narrativa chata. Passa do ponto do non sense e por isso logo perdemos o interesse em continuar a leitura.

De um par de anos para cá, resolvi inverter.

– Alice? No país das maravilhas?

E eu respondo: – Eu mesma. A própria. E que maravilhas! Você nem imagina!

E agora o bobo que pergunta fica mudo, sem graça e com cara de idiota.

Analiso Alice – realmente, não tem nada a ver comigo.

Eu nunca fui curiosa (não sou até hoje), nunca entrei em uma toca seguindo um coelho. Posso ter entrado em várias tocas e até tocaias na vida, mas nunca por curiosidade. Por ingenuidade e por vontade, mas não curiosidade.

Talvez me identifique um pouco com o White Rabbit, “Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!”

Mas não tenho o hábito de me atrasar. Sempre fui pontual. Algum atraso foi totalmente involuntário e inevitável. Apenas seria o Coelho Branco no item andar com o relógio – mas, no meu caso, para ter a certeza de NÃO estar atrasada. Embora quase nunca relógio, afinal, sou uma sem hora.

O Chapeleiro Maluco? Nunca. Ele é meu avesso. Sigo regras, acho correto que tenhamos regras – especialmente as convenções à mesa e para possibilitar que mais de um ser humano permaneça no mesmo ambiente em que estou. Detesto quem tem por regra exatamente quebrar as regras.

A Lagarta? Pode ser em parte. Aceito toda a metamorfose que a vida nos impõe. Acredito que tenhamos de mudar continuamente para sermos sempre nós mesmos. Mas não seria inteiramente esse personagem.

A Rainha de Copas? Bem, não vou negar, tenho alguns pontos em comum com ela – todos sabem que meu pavio é bem curto e que, se pudesse, mandaria decapitar um par de existentes, seria muito bom ter o poder de livrar o mundo de algumas pessoas indesejáveis. Mas também essa Rainha é uma forma fora do meu número.

E nada a ver com os outros personagens.

Vivo num mundo real. Muito real. Tristemente real. Bem mais realidade do que eu gostaria. Minha alma poeta sonha com outro mundo, que crio e recrio para poder enfrentar esse aqui onde nos encontramos.

Mas não vivo no país das maravilhas. Nem vou falar em termos de país, porque atualmente o meu é péssimo.

E, decididamente, não sou a Alice que Lewis Carrol imaginou.  

Escolhas

Devine, si tu peux, et choisis, si tu l’oses (Pierre Corneille)

 

Quando a estrada se parte

E se tem de escolher um outro caminho

O coração dentro do peito se aperta

Entre a poeira conhecida do que já foi

E a luz do novo que virá

Onde estarão as flores nessa nova caminhada?

Onde a estrada será feita apenas de  pedras agudas

A nos lanhar os pés já tão cansados

De tantas caminhadas que já tivemos?

Todo o vazio da nossa existência

Que drenou a vontade de continuar seguindo

Súbito se torna intransponível

E vem o medo de assumir a escolha

Viver é difícil! Escolher é difícil!