Conversa com meu avô – nº 06

Então, vô, quanto tempo sem nos falarmos… tudo anda complicado aqui, o senhor sabe de alguns dos problemas.

Ah, o senhor quer saber o que está acontecendo na política, que só de piscar já perde o fio da meada e não entende mais nada…

Pois é, vô, coisa de doido que só no Brasil se vê.

Depois que a Dilma foi tirada da Presidência da República, o vice eleito com ela assumiu o mandato até a próxima eleição, é, o Temer, sim, o que tem a chave da cadeia – vai preso e sai, vai preso de novo e sai de novo…

Tivemos as eleições em outubro e quem ganhou para Presidente da República foi um Capitão paraquedista do Exército, já reformada, chamado Jair Bolsonaro.

Esse mesmo, vô, que já era deputado federal, da bancada da bala. O homem foi até esfaqueado durante a campanha para sair do caminho e dar passagem ao hadad, candidato do Lula.

Claro que o Lula continua preso – se der condenação em todos os processos que ele responde, deverá ficar muito tempo preso, mas os petistas e esquerdistas em geral acham que ele deve ser presidente de novo. Fazer o que…

Então, o Capitão Bolsonaro foi eleito. O cara é sério, vô, não aceita corrupção nem corruptos. E por isso o congresso nacional está em polvorosa.

Ele não negociou nenhum cargo, em nenhum escalão do governo. E nem solta dinheiro para negociatas e troca-troca com deputados.

O nhonho, quer dizer, o Maia, presidente da câmara – não, vô, não é o Cesar Maia, mas o filho dele, o Rodrigo – de pirraça está impedindo o homem de governar.

Sim, além de não votarem nada, ainda estão atrapalhando até a reforma ministerial do novo governo. Eu sei que nunca o congresso se meteu em assuntos administrativos, mas acho que era porque os deputados enfiavam os afilhados e apaniguados nos ministérios e nas estatais, então ficava tudo bem.

Agora acabou o toma-lá-dá-cá.

Ah, agora o senhor entendeu o que está acontecendo, não é?

Pela primeira vez desde que o Tancredo Neves não foi presidente estamos diante de um governo que não quer lambança. Um homem que está de olho nas próximas gerações de brasileiros e não nas próximas eleições brasileiras.

Então chegamos num impasse – o Presidente da República não pode praticar nenhum ato, os esquerdistas acham que enchendo a internet de mentiras vão derrubá-lo e convocar novas eleições para colocar o lula ou qualquer pau-mandado no lugar.

Por isso essa manifestação no próximo domingo, vô. Até os militares já reformados (cerca de 85.000) estão convocando o povo para ir às ruas e mostrar apoio ao Presidente eleito e ainda exigir uma pauta do congresso.

Ah, e tem ainda o caso dos sinistros do supremo. Que comem lagosta com vinhos estrelados (eu pensava que era proibido bebidas alcóolicas em repartições públicas) e também atrapalham o governo em tudo e os senadores se recusam a dar andamento aos pedidos de impeachment dos ministros. Vai ser parte da reivindicação.

Fica sossegado que seus netos e bisnetos estarão lá, todos de verde-e-amarelo, com a Bandeira do Brasil nas mãos, defendendo o futuro da Nação.

Claro que voltarei aqui para contar para o senhor o que aconteceu nas manifestações. E não tem perigo, quem é a favor desse governo é gente do bem, não faz quebra-quebra, não joga bomba nem apanha da polícia, que está do nosso lado.

Fica aí no céu torcendo por nós e pelo Brasil, vô. Até a próxima,

(nota da blogueira: desde 2014 essas conversas com meu avô vêm sendo publicadas no Alinhavando letras, sobre os problemas políticos do país).

Dicionário emocional

ADEUS: quando o coração que parte deixa metade com quem fica

AMIGO: alguém que fica para ajudar quando todos já se foram

CIÚME: quando o coração fica apertado porque nao confia em si mesmo

CARINHO: quando encontramos nenhuma palavra para expressar que sentimoes e deixamos que as mãos falem por nós      

LEALDADE: quando se prefere morrer a trair o outro

LÁGRIMA:  quando o coração pede aos olhos que falem por ele

MÁGOA: espinho que colocamos no coração e depois esquecemos de retirar

PESSIMISMO: quando perdemos a capacidade de ver em cores

SOLIDÃO – quando estamos cercados de pessoas mas o coração nao vê ninguém por perto

(desconheço a autoria)

Arte

Desde sempre convivi com arte.

Arte no sentido clássico. Arte como atividade humana que desperta uma emoção.

Estética, beleza, harmonia…

Assim foi durante a infância e adolescência, quando estudava música e fazia conservatório musical, com aulas de história da música e história da arte.

Também pelo interesse e estudo sobre a matéria. Sou fascinada pela música e pela escultura, as quais considero a expressão máxima da capacidade humana de tocar a alma de outro ser humano.

Admiro as outras artes, como a pintura – não sei desenhar nem o elefante dentro da cobra do Pequeno Príncipe. Admiro quem desenha, quem escreve, quem pinta, quem encena, quem canta, quem dança…

Ao mesmo tempo, infelizmente, presenciamos uma nova era artística. De onde o belo foi banido.

Nada de bonito, nem de harmônico, nem de sentimento estético.

A arte foi desconstruída para dar espaço a pessoas completamente sem talento.

Imagino, aqui, os museus do futuro …

Mila

Há muito, muito tempo, ele escrevia na Folha. E publicou essa crônica, que levou seus leitoras às lágrimas. E minha querida tia Teca – tia, segunda mãe, amiga, companheira, com sua extrema sensibilidade, teve o cuidado de guardar. Trouxe-me para que relembrasse. Aproveitei para digitalizar e imortalizar. E a transcrevo aqui, para que outros tenham a ventura de conhecer um pouco do grande Cony:

 

                                          Mila

                                Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO – Era pouco maior do que minha mão; por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

            Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?

             Amá-la – foi a resposta e também acredito que ela ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigia minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

             Tendo-a a meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

             No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem amor do que o meu peito, levei-a até o fim.

             Eu me considerava um profissional devente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

             Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

 

 

 

 

Dia de poesia

O Grito

(Renata Pallotini)

 

Se ao menos esta dor servisse

se ela batesse nas paredes

abrisse portas

falasse

se ela cantasse e despenteasse os cabelos

 

se ao menos esta dor se visse

se ela saltasse fora da garganta como um grito

caísse da janela fizesse barulho

morresse

 

se a dor fosse um pedaço de pão duro

que a gente pudesse engolir com força

depois cuspir a saliva fora

suja a rua  os carros  o espaço  o outro

esse outro escuro que passa indiferente

e que não sofre tem o direito de não sofrer

 

se a dor fosse só a carne do dedo

que se esfrega na parede de pedra

para doer  doer  doer visível

doer penalizante

doer com lágrimas

 

se ao menos essa dor sangrasse 

(de Chão de Palavras)

 

 

Vida

Vida, vida… ah, vida, o que ou quem é você?

Recebemos sem pedir, e será tirada sem nossa licença.

Não nos pertence. Mas não vivemos sem.

Não é nossa, mas não podemos trocar com a de outra pessoa.

O que é essa abstração que chamamos de vida?

Sempre ouço: “Você tem sua vida”… será que tenho minha vida?

Será que tenho uma vida?

Ou apenas vivo?

Há alguém vivo que não tenha vida?

Por que algumas pessoas deixam a própria vida descerem ralo abaixo?

E ainda ficam tentando se intrometer na vida dos outros?

Também ouço: “Ah, você, sim, sabe viver, aproveitar a vida…”.

Alguém vive sem saber viver?

Quando nos dão a vida ela vem com um manual para saibamos viver?

E “aproveitar”? o que seria aproveitar a vida?

Tirar proveito daquilo que ocupamos temporariamente sem nos pertencer?

O que faz parecer que um vive melhor, “aproveita” melhor, “sabe viver melhor”?

Todos nascem igualmente – nus, assustados, vulneráveis…

Vão morrendo ao longo da vida – alguns de uma vez e outros lentamente.

A cada segundo que pensam vivido, na verdade apenas se aproximaram mais um segundo da morte.

Também a expressão “minha vida!”… ninguém é dono da vida. Apenas vive.

Viver, para mim, é apenas e simplesmente, ficar segurando a vida enquanto se espera a morte.

Hoje

Hoje, nesse exato dia, mudei radicalmente minha vida.

Depois de pouco mais de 34 anos, assinei meu pedido de aposentadoria.

Amanhã serei aposentada. Contando com 39,5 anos de serviço. É muito tempo, é mais do que muitas vidas.

Estranhamente, no momento em que saí do prédio da PGJ, já deixei de me sentir procuradora. Como se nunca o tivesse sido, não obstante minha dedicação ao trabalho.

Devolvi minha toga – que sempre chamei de mortalha, um vestidão preto e sem graça, que todos vestem no mesmo modelo. Devolvi meu token, não tenho mais assinatura digital. E senti que me devolveram parte da minha vida.

Estou aliviada. E, de certa forma, estranhando essa nova realidade. Pela primeira vez, desde os quinze anos de idade, estou desempregada. E estou achando isso muito bom.

Com mais um livro para ser lançado – provavelmente no próximo mês – de agora em diante serei Alice Rosa, brasileira, escritora…