Para o Darcy

Para se somar às tristezas e às perdas de 2019, chega-me a triste notícia do falecimento de Darcy. Meu muito querido amigo Darcy Passos.

                                                     

Pessoa extraordinária, de memória privilegiada, cultura invejável, e um humor inigualável. O seu lugar no coração dos amigos jamais será preenchido.

Conhecemo-nos há mais de trinta anos. E a amizade e o entrosamento foram instantâneos. Da mesma forma que tivemos sérios embates pelas nossas posições políticas frontalmente opostas, demos muitas risadas. Muito mais diversão e alegria do que desentendimentos. E quantos whiskies bebemos juntos… daria para encher muitas garrafas… E declamamos, e cantamos, e dançamos… encontrar o Darcy era, por si só, uma festa. Se fosse em uma festa, sem dúvida ele era a alma, o centro da reunião. Tinha uma rara capacidade de agregar as pessoas, com amigos de todas as idades.

Quando começou a lambança na política, perguntei-lhe um dia (com a liberdade que os verdadeiros amigos têm) o que ele estava achando do cenário. Com uma indescritível tristeza nos olhos ele me respondeu que “não foi para isso que passei tudo o que passei na vida nem que minha família sofreu o que sofreu”, disse que não mais queria saber de política… ele, o grande Darcy, tivera sua maior desilusão.

Certa vez, fizemos uma viagem de navio em que não parava de chover. Então ficávamos todos no bar o dia inteiro… “derrubamos” o bar do Costa… acho que não sobrou uma garrafa de whisky no estoque. Dias inteiros de cantorias e risadas…

Todos os seminários que participamos, suas verdadeiras aulas quando lhe era dada a palavra. 

Hoje você partiu, Darcy. Nunca mais cantará nem declamará para mim. Guardo com carinho as lembranças de nosso último encontro. Já doente, você não podia me ver. Cantei para você uns versos do Vinicius que você cantava para mim e de imediato você falou “Alice!!!!”. Chorei naquele dia, Darcy, ao ver como a vida estava sendo cruel com você, lembrava-me que sempre eu lhe dizia que quando você não fosse mais usar seu privilegiado cérebro, se você o daria para mim… quanta tristeza, meu amigo, e você não está mais aqui para fazer uma graça, para me fazer rir, para tentar me alegrar…

Como choro agora, enquanto escrevo e ouço Vinicius cantando as mesmas músicas e já começo a sentir saudade de você. Quem conviveu com você entende a falta que sentiremos de sua presença amiga, calma, ponderada, lúcida e genial.

Obrigada, Darcy, por seus ensinamentos. Por tudo que me ensinou de política, geopolítica, instituições e constituições… de amor, paixão, sentimentos, poesias… pelo seu bom humor…

Obrigada, Darcy, por todas suas anedotas, mesmo as que eram sobre mim e me faziam rir tanto… por todos os whiskies que compartilhamos.

Vá, meu querido amigo, em paz, que você merece o descanso eterno. Até um dia, se Deus quiser…

Pipas ao vento

Senhor, acalmai os ventos. / Tornai nosso céu azul.
Abençoai nossas pipas e papagaios, para que sejam lançadas com muita paz e segurança.
Senhor, iluminai nossas almas, para que dela flua uma beleza sincera e harmoniosa.
Senhor, tu és soberano, dai-nos a sabedoria divina para transformar nossos sonhos em realidade.. 
(Oração do Pipeiro) 

Dançam, coloridas, as pipas no ar. Ventos de agosto. Hora de soltar papagaio. Ou pipa, ou pandorga, ou arraia, cafifa, quadrado, pepeta ou ainda outros nomes por esse Brasil afora. 

A praia, terreno livre, sem fios, sem trânsito, é o local mais que apropriado para essa brincadeira, que vem de tempos imemoriais, comprovadamente mais de 200 anos a. C, na China. 

É muito interessante toda a atividade que envolve essa brincadeira – fazer, ou melhor, construir a pipa é uma arte. Que um de meus irmãos, Paulo Cesar, dominava com maestria e tinha paciência de ensinar à exaustão quem quisesse aprender. 

Na falta da praia em nossa cidade, usávamos as calçadas e ruas, praças e canteiros centrais das avenidas para empiná-las. 

E eram várias ao mesmo tempo. 

Uma corridinha, e a pipa solta começava a subir. A arte de dar linha e puxar, soltar e prender, se cabeceava era preciso recolher e corrigir a rabiola. 

Para recolher era preciso muito cuidado, ou poderia cabecear e bater no chão, se espatifando e portanto estaria imprestável. Não podíamos desperdiçar o papel.  

A cada uma que subia e se estabilizava, a linha correspondente, presa numa lata vazia de ervilha, massa de tomate ou palmito, que era trazida até o chão e firmada com uma pedra grande. 

E ficávamos, extasiados, assistindo ao colorido balé aéreo que as pipas proporcionavam. 

E desta forma as tardes de agosto se iam entre a escolha dos bambus, seus cortes, a confecção das pipas e a melhor parte, que era empinar. 

Se o vento aumentava anunciando chuva, as pipas eram cuidadosamente recolhidas e guardadas para a próxima tarde. Uma relação realmente de carinho, como se as pipas tivessem vida própria. Talvez carregassem em si um pouco do sonho de voar de cada um de nós. Na impossibilidade de subirmos nós mesmos, dávamos linha a nossas pipas, e nos realizávamos ao vê-las voando mais e mais alto. 

Assim na vida venho construindo e empinando pipas figuradas. Quantos relacionamentos começaram na escolha do bambu certo, buscado direto na moita, que foi colhido, cortado, aplainado para que as pontas deixassem de machucar. Depois o corte do papel, cujas cores deviam combinar em tons e contrastes agradáveis aos olhos. 

Com muito afeto era construída a pipa do relacionamento, e chegava a hora mais terrível: ver se conseguiria empinar esse relacionamento, se dando linha ele iria alto, ou iria cabecear e se espatifar no asfalto da vida. 

Se não dermos linha nossa pipa não sobe. O ciúme é a negativa da linha – nega à pipa sua própria natureza de voar alto. E a pipa no chão se quebra mais fácil ainda. 

A perfeição da pipa está na altura de seu voo – quando mais alto conseguirmos empinar, soltando a linha generosamente, mais bonita de se ver, mais perfeita como pipa. 

Mas dando linha corremos o risco de vê-la ir-se para sempre, restando-nos apenas a lembrança de suas cores a sorrirem do alto. 

Muitas vezes – que acontece reiteradamente em minha vida – quando minha pipa voava alto, dançando linda contra o céu azul, outra pipa traiçoeira, com cerol, sorrateiramente a arrebatava de mim. 

Ou, ela própria, rebelde, por si mesma, arrebentava a linha e se ia, deixando o vazio na paisagem que compunha. 

Sobraram-me a lembrança do carinho com que a construí, sua figura a bailar no ar, e o resto da linha que ficou em minhas mãos. 

Só quem empinou pipas em criança e perdeu outras depois de adulto sabe a poesia que há nas pipas voando alto, mas não livres. Porque quando se soltam e partem no voo solo deixam de ser pipas, são varetas grudadas em papéis soltos no vento, sem dono, sem destino, sem volta… 

Vejo-as, agora, daqui de minha janela, sorrindo para mim e para a praia aqui em embaixo, e morro de inveja das pipas que voam alto e dos moleques que as prendem à Terra.

Que vontade de empinar uma pipa!

(Guarujá, 20.08.2008)

Como é que se esquece alguém que se ama?

Texto lindíssimo do jornalista português Miguel Esteves Cardoso, que vale a pena ser lido:

 

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

(Miguel Esteves Cardoso, in ‘Último Volume’)

Angelita di Anzio

 

Conta-se – não se sabe se lenda ou verdade – a estória de uma menina de cinco anos encontrada chorando numa praia no Lazio, quando do desembarque dos Aliados, já no fim da Segunda Guerra.

Segundo se sabe por estórias contadas no local, ela foi encontrada pelo soldado escocês Royal Scots,  fuzileiro, e alguns dos seus camaradas, talvez mesmo por alguns soldados brasileiros.

Levaram a criança da praia, onde estava sozinha, e tentaram encontrar sua família ou descobrir alguma coisa, mas nada conseguiram, deram-lhe o nome de Angelita e a confiaram a uma enfermeira. Dias depois ambas – Angelita e a enfermeira – morreriam durante um bombardeio.

A estória se popularizou e a cidade de Anzio, onde se deram os fatos, resolveu construir um monumento à menina, que foi feita pelo escultor Sergio Cappellini, inaugurado em 22 de janeiro de 1979 (Dia Mundial da Criança), onde se vê a garota cercada por gaivotas.

A dor da saudade

Carrego em mim todas as dores do mundo. As dores do corpo e as dores da alma.

Dores crônicas, agudas, lancinantes…

As dores físicas que já suportei levariam outras pessoas ao desatino.

Mas eu sempre aguento. Uma hora a dor vai passar, eu sei.

Difícil aguentar as dores da alma. Doem mais do que prender o dedo na porta, do que cólica de rins, ou quebrar a perna…

Dentre elas as piores são as dores da indiferença e da saudade.

O contrário do amor não é o ódio. Ambos são sentimentos fortes e motivantes. O verdadeiro contrário do amor é a indiferença. Que machuca, marca fundo na alma. Dói intensamente. E não passa.

E a dor da saudade?

Abrir os braços para o vazio e abraçar a ausência de quem se foi?

Voar sozinho em seus sonhos porque o outro desistiu de voar com você?

Acordar de madrugada e não ter mais aquele alguém a seu lado, mas somente o frio e o nada?

Isso é saudade. Isso dói lancinante. De dar vontade de desistir de tudo e morrer. Essa dor eu não aguento. Ela não passa, jamais.

Saudade é tudo o que não há. É o nada. É o vazio. O buraco escuro onde nos debatemos sem a menor possibilidade de sair.

Saudade é a dor conjunta de todas as partes do corpo. Porque dói a alma, dói nossa essência, dói nossa vontade de continuar vivendo.

É sentir o toque de quem já se foi, ouvir a voz que não fala mais, sonhar o impossível que não acontecerá.

É mais que solidão. Porque solidão não é falta. E saudade é feita apenas de ausência.

Saudade é a presença da ausência que nos acompanha constantemente.

É lanhar-se em pedras quentes para sentir outra dor maior, bater a cabeça nas rochas para parar de pensar na falta de uma presença.

São lágrimas sem fim, bálsamo do coração, que aliviam a dor da alma.

Sentir saudade é sofrer. Beber até a última gota do cálice do sofrimento atroz. E doer e doer e doer. Dia e noite. Como um mecanismo que não cessa de rodar e moer a dor e despejá-la sobre nós.

Saudade é o não saber do outro, que não está mais perto, que não dá notícias… não saber se está bem, se pensa em nós, se está longe por amar outra pessoa ou por mero orgulho…

Saudade é tristeza, é querer voltar no tempo por um instante ao menos e sentir a felicidade que a causou. E quanto mais se lembra, mais saudade se sente e mais se sofre, como em uma espiral infinita de pensamentos e sentimentos.

Tenho saudade, sim. Muita saudade.

E muita dor.

Amigos

One day in your life when you find that you’ve always waiting
For the love we used to share, just call my name, and I’ll be there
(Don Eliot)

 

O que é um amigo? São tantas as respostas que nós nos sentimos perdidos na hora de definir amigo.

Algumas definições – clássicas nesse mundo do descartável – são hilárias, outras, sentimentais e outras ainda parecem verdadeiras.

… amigo não é o que separa a briga, mas o que chega do seu lado dando voadora no agressor…

…amigo não é aquele que impede seu pranto, mas o que enxuga sua lágrima…

…amigo não é a sombra, que só te acompanha enquanto o sol brilha…

Fui e sou pessoa de poucos amigos. Não sei bem o porquê.

Em criança preferia os livros às brincadeiras – por volta de cinco anos de idade os adultos descobriram que eu já sabia ler – ninguém me ensinara, mas eu lia, e, curiosamente, não sabia ainda escrever porque não fora alfabetizada, mas sabia ler. Ler não me magoava. Ler não me feria.

As outras crianças em geral eram más – mesmo quando entrei na escola, não tinha amigos. Resultado: hoje sei que fui uma criança solitária, e por isso mesmo gosto da solidão, me sinto bem comigo mesma.

Sempre tive a companhia dos irmãos e primos, família numerosa, à moda antiga, unida e amorosa. Para que precisaria de estranhos?

Muitas pessoas não conseguem manter amizade com os próprios irmãos, e se desmancham em amizades com estranhos. Não entendo isso.

Mas, ao longo dos anos, obrigada à convivência social, fiz alguns amigos, além das relações familiares.

E vejo que amizade não é algo que se põe na balança, que se mede em centímetros… não adianta porque a conta não bate – sempre alguém dá mais, cede mais, se doa mais…

Mas é bom ter amigos, ainda que não sejam tão amigos, mas sejam mais que simples conhecidos ou colegas de trabalho.

Se algum, por uns momentos, se dispõe a pegar a outra alça da nossa sacola da vida, já torna momentaneamente mais leve nosso caminhar.

Os encontros, as conversas descompromissadas, a convivência alegre e despreocupada da relação volátil, isso é tempero de viver.

Alguns amigos são tão passageiros que sequer marcam nossa existência, nem sei se podemos denominá-los amigos, ainda que frequentem nossa casa e se façam muito presentes por um breve tempo. Mas nada trazem, não somam, não acrescentam.

Outros, porém, se tornam parte de nossa existência, e ainda que fiquemos muito tempo sem encontrá-los, quando temos a sorte e a felicidade de um reencontro, a conversa flui leve, a distância não existe e o tempo de separação não interferiu no carinho mútuo. Esses eu acredito que são os verdadeiros amigos. Mesmo distantes estão, de alguma forma, a nosso lado.

Concluo, então: amigo é o que ficou quando todos já se foram, sejam os amigos/irmãos de sangue ou de vida.

No escuro

Hoje está difícil. Depois de uma mais-que-típica segunda-feira, com direito a DOIS períodos de espera em consultórios médicos, para agravar a situação, agora estamos no escuro. Breu total.

Daí a dificuldade, reverter a conexão do computador para bluetooth e usar o celular como roteador pelo acesso pessoal. Mas não ficarei sem postar por causa de uma dificuldade qualquer.

Para quem não sabe,em parte do meu tempo, eu moro em uma cidade chamada Ribeirão Preto. A porta do inferno de calor.

Aqui só há duas estações no ano, bem definidas: verão e inferno. Atualmente estamos no verão. Daqui uns quarenta dias começará o inferno.

Bem, agora no começo da noite, começou a chover. E, como sempre quando chove nestas cidadezinhas de interior, acabou a energia elétrica. Nunca morei em nenhum lugar (e olhe que já me mudei 23 vezes de cidade) – em que tivesse tanto problema de energia. Progresso à moda ribeirão-pretana, tipo rabo de cavalo – cresce para baixo. E não é tempestade nem chuva de verdade. Garoão desgraçado e raios.

Uma chuvinha que está aumentando a sensação de estufa e afastou qualquer possibilidade de vento. Estou derretendo. Detesto calor. Se não estivesse caindo tanto raio, colocaria uma chaise na prainha da piscina e iria dormir dentro da água.

Mas, por coincidência, formatei e editei um conto hoje – O causo da grande noite.

É uma batalha entre a noite e a escuridão. Gosto da noite. Da quietude e da solidão confortáveis que só a noite me traz.

Gosto do escuro. Há uma vela no chão, lá no canto do quarto, porque meu marido não é adepto da escuridão. Mas eu sou. Tenho olhos de gato e enxergo no escuro. Não preciso de luzes.

Agora só espero que com tanta tecnologia, um discípulo de São Carrier invente um ar-condicionado com bateria solar. Porque ou eu digito ou uso a mão para me abanar com um leque…