O tempo, o vento e o riacho

Na vida somos tempo, vento e riacho.

Porque há diferença no nosso agir, de acordo com as circunstâncias e as pessoas com as quais nos relacionamos. Com mais ou menos sentimentos, com mais ou menos intensidade, tudo depende do momento vivido.

Quando apenas passamos, indiferentes, somos tempo. Nada nem ninguém pode nos conter e poucos se dão conta de nossa passagem. Depois que já estamos longe, perplexos, perguntam-se por que nos fomos tão rápido, não nos detivemos um segundo sequer a mais diante do belo, do agradável, do que dá prazer. Mas somos o tempo – não podemos parar e seguimos rumo à eternidade.

Também somos vento.

Vento porque passamos tirando muita coisa do lugar, mostrando cantos que estavam perdidos no meio do pó acumulado de vidas desperdiçadas, passamos varrendo as folhas mortas, limpando os caminhos, bagunçando o cabelo das meninas e as saias das mulheres. Esvoaçamos em todas as direções, sem leme nem bússola. Levamos os papéis que estavam esquecido sobre as mesas. Sujamos de terra e areia as roupas estendidas nos varais, batemos portas e janelas com estrondo. Todos percebem nossa passagem, quando se dão conta que nada mais é como era antes de passarmos; mas nada nem ninguém pode nos conter. O vento nunca se detém nem para, apenas venta e segue seu destino.

E, outras vezes, somos riacho. Encontramos nossos semelhantes, com os quais cruzamos e por vezes caminhamos juntos alguns trechos e depois cada qual segue seu destino. Uns se perdem e secam pelo caminho. Outros aproveitam todas as chuvas e nascentes e se fortalecem. Seguem em correnteza volumosa, levando consigo tudo que conseguem alcançar, extrapolam seus limites, tornam-se rios. Por vezes se deixam até mesmo navegar. Mas não param. Nada pode contê-los – no máximo, represá-los temporaria e parcialmente, mas as comportas têm de ser abertas – seja pela partida em busca de outras oportunidades, seja pela separação, seja pela vontade de seguir seu próprio destino sem cordas nem anilhas. E seguem, com suas margens alargadas, cumprindo sua sina, que é morrer no mar.

Somos tudo isso. Simultaneamente. Destinos marcados e solitários. Por isso a inutilidade das preocupações e da ansiedade – seremos, apenas e sempre, – o deslocamento no caminho que nos leva do nascimento à morte.

Beatriz

Noite adiantada, encerrando expediente de repente escuto a música. Corro procurá-la no YouTube. Fecho os olhos e volto no tempo mais de trinta anos. E percebo que algumas vezes fui feliz. Muito feliz.

Só compensa voltar ao passado se for para lembrarmos as horas felizes, gratificantes, as pessoas maravilhosas que estiveram conosco, ainda que tenham ficado, por qualquer motivo, na névoa do que passou. Lembranças esmaecidas mas que trazem prazer quando ressurgem.

E, uma das formas que mais me trazem o passado que gosto de ter por perto, é exatamente ouvindo músicas. Minha vida tem sua própria trilha sonora. As pessoas que amei se transformaram em músicas. Os acontecimentos que me marcaram se tornaram sons.

E, de repente, ouço Beatriz. Da trilha sonora da peça Circo Místico, letra do Chico Buarque e música de Edu Lobo.

Lembranças tão vívidas de quem já partiu. Sons que sopraram cinzas da memória e trouxeram recordações de tempos felizes.

Viver é isso: esquecer o que machucou e, de vez em quando, recordar o que nos alegrou um dia.

Porque na nossa vida tudo passa. O tempo, que leva tudo de ruim embora, também leva o bom…

E fica a saudade, e ficam as lembranças, despertadas subitamente por um som, uma canção, um toque, uma voz, um cheiro…

Por isso a vida vale a pena – somos capazes de experimentar a felicidade e depois viver das migalhas de suas lembranças…

Dia da mulher – Mulher é bicho esquisito

 

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Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)

Mulher é bicho esquisito… já dizia a musiquinha antiga!

Mas que é esquisito, isso é mesmo.

Nas relações pessoais – familiares, afetivas, de amizade; nas relações profissionais, e, principalmente, nas relações consigo mesma. Aí a coisa ferve.

A mulher não se veste, se enfeita. E para quem? Na verdade, para si mesma. Ainda que ela tenha a necessidade da aprovação de outras mulheres, no fundo ela quer a própria aprovação. E quanto mais exigente e auto-crítica ela é, mais difícil essa aprovação.

Da hora em que sai da cama para escovar os dentes até dar início ao dia precisa de muito tempo.

A começar do banho: primeiro limpa a pele do rosto, examina minuciosamente a pele do rosto, as sobrancelhas, tira os excessos com a pinça, escova bem os cabelos, lixa as unhas e aí entra no banho.

Sabonete facial, sabonete corporal, esponja para as pernas, escova para as costas, pedra para os pés, fora as várias fases da lavagem dos cabelos.

Quando consegue sair do banho e se enxugar, começa a sessão dos mil-cremes e do indispensável nem-pensar-em-esquecer perfume.

E toma secador, e toma fixador e faz a maquiagem básica do dia-a-dia. Pronto, lá se foi mais de uma hora.

Chega a hora mais temida: de frente para o espelho, tem início o tira-e-põe de roupas. Uma está larga, a outra apertada, esta-a-cor-não-está-mais-usando, aquela-eu-já-usei-na-semana-passada….. quando a montanha de roupa tirada soterra a cama e a poltrona, pega qualquer uma, porque já está atrasada mesmo, veste correndo, dá uma olhadinha para ver se nada está marcando, coloca uns enfeitinhos, brinco, anel etc., escolhe uma bolsa e sapatos combinando e sai.

[aqui um parêntesis para uma lenda da necessidade da mulher fazer tudo isso: No início só existiam flores. Muitas, lindas, coloridas, perfumadas.

Mas – toda lenda tem um mas – algumas flores se revoltaram porque ficavam presas às raízes e foram questionar o Criador, querendo liberdade. Aí foi feito um trato: em troca do perfume elas poderiam se soltar. Aceitaram. E surgiram as borboletas: lindas, coloridas – sem perfume – mas

que podiam ir e voltar livremente, mas nunca se esqueceram das irmãs e por esse motivo sempre ficam rodeando as flores.

Mas – o segundo mas da lenda – um grupo delas não ficou satisfeito. Foram ao Criador questioná-lo o porque de serem tão pequenas, queriam ser criaturas grandes, mais visíveis. Em troca das cores, aceitaram o acordo e surgiu a mulher – grande, sem cor e sem perfume.

Por isso as mulheres se vestem e se enfeitam com cores e usam perfumes para lembrarem as flores que foram um dia.]

Pouco se importa se os homens a observam ou não, mas está preocupadíssima com o que vai pensar a amiga que a espera para o almoço ou a colega da mesa ao lado.

E vai com aquela cara de casual, de quem se levantou da cama correndo, pegou qualquer coisinha do armário e saiu sem se preocupar com a aparência.

Mulher é assim mesmo, esquisita.

Expressões

Usamos expressões populares sem nos darmos conta de seu real significado.

Assim, por exemplo, quando você fala que vai “Tirar uma soneca”. Tirar de onde? Da carteira, da bolsa? Tirar de quem? No máximo você vai dormir um pouco. Mas não vai tirar nada de ninguém.

E “Pregar uma peça”? pregar que peça? De carro, de roupa? Pregar onde, na parede, na porta? O que acontece é que você vai fazer alguém de bobo e se divertir por isso. Sem pregar nada em lugar nenhum.

Algumas pessoas dizem que vão aproveitar o final de semana para “Pegar uma praia”. Como assim? Pegar a praia e colocar em que lugar? Não podem simplesmente ir à praia e a aproveitar lá mesmo onde ela está?

Outros dizem que vão “Puxar uma palha”, mas a única coisa que fazem é ir dormir sem puxar nada.

Também quem costuma “Rodar a baiana” – nem rodar nem baiana. Apenas provocar um escândalo, constranger os outros com comportamento descontrolado. Não roda ninguém.

Há ainda pessoas que vivendo falando em “Fazer uma vaquinha” – na verdade, vão pedir dinheiro para outras pessoas. Sem nenhuma contraprestação. E não tem vaca nem vaquinha no meio. É quase extorsão.

Às vezes se ouve que alguém saiu tão nervoso, querendo “Comprar briga”. Pergunto: onde vende briga? Para que sair e gastar, se pode brigar de graça em casa, sem comprar nada?

Alguns vão à praia “pegar onda”. Mas o que se vê, na verdade, é a onda pegando todos. Nunca vi ninguém saindo do mar levando uma onda que pegou, mas já vi pessoas sendo levadas para o mar pela onda que as pegou…

Mulher

Mês da mulher. Semana da mulher. Dia da mulher…

Isso faz pensar. Procurar uma razão.

Será que precisamos – nós, mulheres – de tudo isso? Eu nasci mulher, então sempre foi natural e normal ser mulher. Todo esse mimimi torna esquisito não achar que ser mulher é algo extraordinário…

E o que há de tão diferente em ser mulher? Oras, nada. Apenas não ser homem.

Mulher é complicadamente simples ou simplesmente complicada?

Mulher é encantadoramente linda ou lindamente encantadora?

Mulher é femininamente sedutora ou sedutoramente feminina?

Mulher é tudo isso e mais um pouco.

Porque mulher é mais que doçura, maternidade, saltos altos e unhas pintadas. Cada mulher é um universo em si mesma. E deve ser desvendada para ser amada.

Os homens que pensam entender as mulheres são os que mais erram. E aqueles que tem mais medo de errar com as mulheres estão sempre acertando.

E, por mais paradoxal que possa parecer, homens e mulheres estão, nessa vida, perseguindo o mesmo objetivo: encontrar o verdadeiro amor e viver em paz. O resto é consequência.

E quando se encontram, se amam e se completam, ou melhor, se transbordam, não se preocupam com noite do homem nem com dia da mulher.

Tive por meus todos os dias da minha vida, por isso não me fez a menor diferença quando inventaram essa pataquada de dia da mulher, que atualmente já se transformou em semana da mulher.

Portanto, com ou sem dia próprio, eu celebro a vida e o viver todos os dias.

Resistir para viver

Ainda que pareça impossível de superar.

Ainda que isso pareça te esmagar todo dia.

Ainda que o desespero tente te fazer parar, aguente mais um pouco.

Não desista de você por nada, por ninguém.

A dor é a onda que passa. Você é o mar que fica.

(A menina e o violão)

 

Ah, palavrinha mágica essa tal de “superar”.

Quase ninguém se dá conta, mas se olhar de relance para trás, perceberá que ainda vive graças – exclusivamente – à própria capacidade de superação.

Desde quando se foi concebido já aconteceu uma superação. Dos milhares de óvulos e milhões de espermatozoides, a concepção se deu pelo encontro de um único óvulo e um só espermatozoide, que superaram todos os outros.

O nascimento requer uma incrível capacidade de superação. De um ambiente aconchegante, úmido, quente, silencioso e escuro, repentinamente a criança é exposta à luz, barulho, frio, secura e desconforto de um centro cirúrgico. Um choque. Mas superamos e sobrevivemos.

E assim pela vida afora – a separação traumática em relação à mãe nos primeiros dias de escola. As frustrações, o inevitável bullying para a maioria. Provas difíceis, notas baixas, quebras de expectativas. E superamos e sobrevivemos.

A confusa adolescência, as primeiras paixões, sem as quais pensávamos morrer. Tudo passou e nós não morremos.

Vida afora, nos estudos, nos empregos, nos amores, fomos lutando e nos superando para continuar existindo.

Tantos problemas a resolver. Tantos boletos a pagar. Tantos risos seguidos de tantas lágrimas. Tantas perdas pela via.

E resistimos. E superamos. E sobrevivemos.

Em nenhum momento a vida ficou mais leve nem mais fácil, mas nossa incrível capacidade de superação sempre nos fez cada vez mais fortes e com mais condições de seguir adiante. E se reinventar quantas vezes for preciso. Vencer todas as batalhas possíveis. Triunfar.

Por isso resistimos e insistimos. E, do alto – onde estamos graças a nós mesmos – olhamos em volta e dizemos: “eu venci”.

Isso é viver.

Vamos tomar um café?

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Quantas milhares de vezes eu disse a frase “Um café, por favor”. Em português, italiano, francês, inglês, espanhol… E mais: quantas centenas de milhares de xícaras de café eu já tomei nessa minha vida…

É quase automático. É natural.

E dizer – ou ouvir “vamos tomar um café.”?

Confesso – sou viciada em café. Cresci em uma família onde o café tem lugar de destaque. Sem hora para ser servido. Porque sempre teve café à disposição o dia todo. Além de tomar muito café, minha mãe nos incentivava a beber também. Desde pequenos, ainda no colo, já podíamos tomar café.

E assim fomos criados. E a geração depois de nós conheceu o café ainda bebês. Sempre despejando no pires, para esfriar.

E hoje minha mãe vê bisnetos bebendo café. Você chega na casa da minha mãe, e logo ela vai “passar” um café.

Isso em casa.

Sempre trabalhei fora. Então tive de engolir muito café horrível. Aqueles de fóruns pela vida afora, que eram feitos pela manhã e mantidos em grandes bules na água fervendo. Horrível.

Eu sempre gostei de café feito na hora. Por mim não precisaria nem existir a horrorosa garrafa térmica.

E, na cidade de São Paulo, com todos os cafés por todos os lados, como viver sem tomar café?

Expresso, curto, duplo, pingado, média, macchiato, cappuccino… Das padarias para as modernas e sofisticadas cafeterias, migramos e apuramos nosso gosto em saborear uma xícara de café.

Há cidades nas quais, assim como em São Paulo, encontramos cafés em todas as esquinas, com suas mesinhas para quem tem tempo sobrando ou quer ler um jornal, e balcão para quem não vai se demorar.

Em compensação, já estive em cidades onde simplesmente não existe uma cafeteria, e, no máximo uma máquina antiquada em alguma padaria, usando café de segunda. Mas não tenho opção, se não tomar café, não sobrevivo.

Meu dia começa com um expresso duplo, puro. Antes do meu café prefiro que nem falem comigo. Que respeitem – estou de pé mas não necessariamente acordada.

Minha máquina de expresso sempre pronta, quando passo pela cozinha ela me diz “Oi!”. E o baleiro ao lado, oferecendo todo tipo de café.

Irresistível.

Café, tal como amor, para ser bom tem de ser quente e forte. E acontecer a qualquer momento, não é preciso planejar nem combinar…

E o café com a irmã/amiga, no meio da tarde? Existe coisa melhor nessa vida?

Às vezes, na impossibilidade de um encontro real, tomamos, cada uma, isoladamente seu café em casa, mas virtualmente reunidas pela internet, numa confraternização.

Dificilmente encontramos pessoas que não apreciam o café.

Uma bebida democrática, abrasileirada, cheirosa, agradável, faz um bem danado ao corpo e à mente. Mantém as amizades. Acende as paixões. E pacifica as famílias.

E aí, aceita um café?