De quarentena a setentena

Hoje, 28.05, completo setenta dias de quarentena. Que já virou setentena. Difícil para uma pessoa que mora em duas ou três cidades ao mesmo tempo. Eu quase sempre trabalhei em uma cidade e residi em outra. Assim, sempre tive mais de um domicílio.

Podia ser cansativo, mas era divertido. Viver sem rotina nenhuma. Ir num dia e voltar no outro, por um imprevisto qualquer. Ir para ficar três dias e ficar quarenta dias. Tudo podia acontecer.

Quando residia no Guarujá e trabalhava em São Paulo, aconteceu o vazamento de gás de amônia em um depósito do porto. Tenho forte reação alérgica a amônia. Resultado: mais de trinta dias sem ir a minha própria casa…

Minha vida era uma viagem. Em sentido literal.

De repente, uma quarentena cancela todos meus compromissos. Saio de São Paulo e vou para Ribeirão Preto, pensando que seria um período de 15 a 20 dias.

Estou completando 70 dias… uma eternidade.

Eu anoiteço e amanheço há 70 noites no mesmo quarto, ouvindo os mesmos ruídos, vendo o céu da mesma janela. Isso é horroroso. Porque impede de me sentir viva. Vida, para mim, é o movimento. É a estrada, é o avião, é o ir. Nunca o ficar foi viver.

Não consigo imaginar o tédio insuportável das pessoas que nascem e morrem na mesma cidade, ou, pior ainda, na mesma casa.

Gosto de mudar. De casa, de cidade, de vida, de tudo. Nasci nômade, mas me perdi da minha tribo e vim parar em uma sociedade tradicional. Só que nunca me acostumei a esse estilo de vida. Em média eu me mudo de casa ou de cidade a cada cinco anos. Monto outra casa, reformo, equipo, decoro… e vivo. De repente, largo tudo e vou para outro lugar.

Essa mesmice dessa quarentena sem fim está “um porre”. Porque não se trata simplesmente de ficar em casa. Até gosto muito de ficar na minha casa. Mas não gosto de não poder sair. De não poder reunir pessoas. De não encontrar. De não poder ir comprar um equipamento para substituir um que deixou de funcionar.

Na verdade, odeio tudo o que é proibido tanto quanto tudo o que é compulsório. Da mesma forma que não aceito pautar minha vida pelo “tem que”, também não me venham com o “não pode”. Da minha vida sei eu.

Mas essa situação, inusitada, me pegou desprevenida. Não posso ser fator agravante do risco de contrair a peste para as pessoas com as quais convivo, e, que por suas idiossincrasias, já são de grupo de alto risco.

Então tenho de fazer de conta que me conformo. Mesmo porque não é possível sequer ir tomar meu infalível café – todas as cafeterias estão fechadas.

Nem ir para São Paulo – tudo fechado, nada funciona…

Em suma, por absoluta falta de opção (não de vontade), cumpro o isolamento que me foi imposto.

Espero que acabe logo. Minhas asas estão “coçando”. Se eu não voar, morrerei de tédio.

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