Dia de poesia – O Grito

O Grito

(Renata Pallotini)

 

Se ao menos esta dor servisse

se ela batesse nas paredes

abrisse portas

falasse

se ela cantasse e despenteasse os cabelos

 

se ao menos esta dor se visse

se ela saltasse fora da garganta como um grito

caísse da janela fizesse barulho

morresse

 

se a dor fosse um pedaço de pão duro

que a gente pudesse engolir com força

depois cuspir a saliva fora

suja a rua  os carros  o espaço  o outro

esse outro escuro que passa indiferente

e que não sofre tem o direito de não sofrer

 

se a dor fosse só a carne do dedo

que se esfrega na parede de pedra

para doer  doer  doer visível

doer penalizante

doer com lágrimas

 

se ao menos essa dor sangrasse 

(de Chão de Palavras)

 

 

Vida

Vida, vida… ah, vida, o que ou quem é você?

Recebemos sem pedir, e será tirada sem nossa licença.

Não nos pertence. Mas não vivemos sem.

Não é nossa, mas não podemos trocar com a de outra pessoa.

O que é essa abstração que chamamos de vida?

Sempre ouço: “Você tem sua vida”… será que tenho minha vida?

Será que tenho uma vida?

Ou apenas vivo?

Há alguém vivo que não tenha vida?

Por que algumas pessoas deixam a própria vida descerem ralo abaixo?

E ainda ficam tentando se intrometer na vida dos outros?

Também ouço: “Ah, você, sim, sabe viver, aproveitar a vida…”.

Alguém vive sem saber viver?

Quando nos dão a vida ela vem com um manual para saibamos viver?

E “aproveitar”? o que seria aproveitar a vida?

Tirar proveito daquilo que ocupamos temporariamente sem nos pertencer?

O que faz parecer que um vive melhor, “aproveita” melhor, “sabe viver melhor”?

Todos nascem igualmente – nus, assustados, vulneráveis…

Vão morrendo ao longo da vida – alguns de uma vez e outros lentamente.

A cada segundo que pensam vivido, na verdade apenas se aproximaram mais um segundo da morte.

Também a expressão “minha vida!”… ninguém é dono da vida. Apenas vive.

Viver, para mim, é apenas e simplesmente, ficar segurando a vida enquanto se espera a morte.

Hoje

Hoje, nesse exato dia, mudei radicalmente minha vida.

Depois de pouco mais de 34 anos, assinei meu pedido de aposentadoria.

Amanhã serei aposentada. Contando com 39,5 anos de serviço. É muito tempo, é mais do que muitas vidas.

Estranhamente, no momento em que saí do prédio da PGJ, já deixei de me sentir procuradora. Como se nunca o tivesse sido, não obstante minha dedicação ao trabalho.

Devolvi minha toga – que sempre chamei de mortalha, um vestidão preto e sem graça, que todos vestem no mesmo modelo. Devolvi meu token, não tenho mais assinatura digital. E senti que me devolveram parte da minha vida.

Estou aliviada. E, de certa forma, estranhando essa nova realidade. Pela primeira vez, desde os quinze anos de idade, estou desempregada. E estou achando isso muito bom.

Com mais um livro para ser lançado – provavelmente no próximo mês – de agora em diante serei Maria Alice, brasileira, escritora… 

A árvore

A velha árvore lançava sua grande sombra a quem dela necessitasse. Nunca recusou aconchego e frescor a quem quer que fosse.

Ali fixada desde tempos esquecidos, vira crianças que cresceram brincando sob sua fronde se tornarem namorados, e um dia trazerem suas próprias crianças para ali se divertirem. Alguns já traziam netos, enquanto outros deixaram de vir.

Os homens passavam, mas a grande árvore ficava.

Tantas modas mudaram, tantas casas foram construídas ao redor, tantos carros apareceram…

Até o dia em que a terrível motosserra chegara e os homens importantes discutiram, brigaram, e marcaram várias de suas companheiras, condenando-as à morte.

Mas ela, sabe-se lá porque, fora poupada de destino tão horrível. E continuou, firme e verde, lançando sua sombra, abrigando ninhos e testemunhando a vida passar.

Um dia outros homens vieram medindo tudo, e riscaram o chão, anunciando que o progresso vinha chegando.

E inúmeras máquinas, fazendo muito barulho, traçaram duas paralelas perfeitas, abriram o chão, nivelaram, e cobriram. Com uma dura, horrível e fedorenta substância preta-acinzentada, onde antes era a grama macia, verde e cheirosa.

Para esse serviço, os malvados, sem piedade, cortaram quase metade das raízes da velha árvore.

Ela passou dias e dias se sentindo mal. Muita dor, tontura, náuseas, sentia que balançava a qualquer ventinho que desse.

Mas a natureza, dedicada, com toda a delicadeza providenciou a cicatrização das pontas amputadas. Só não podia lhe dar novas raízes ou melhorar seu equilíbrio.

A velha árvore já não era a mesma. O verde de sua folhagem mudou de tom, tomando, ela também, nuances de cinza.

Já não se divertia com os folguedos infantis. E sentia muita dor quando agora as crianças brincavam nos balanços fixados em seus galhos, o que antes a divertia tanto.

Veio o inverno. Muito frio para uma mutilada árvore de sua idade. Quando voltou a primavera, metade de seus galhos não teve forças para novas folhas.

Sua sombra já não era tão aconchegante.

A velha árvore morria, mas ninguém percebia.

Aflita, ela olhava em volta, mas via só asfalto e calçadas. Já não existiam mais árvores de sua idade, ela estava ficando sozinha no mundo.

O sol tentava dar-lhe algum calor e amor, ela agradecia, mas já não reagia.

Sentia muita sede, com apenas algumas raízes, já não havia circulação suficiente para levar água aos galhos. O tronco mirrava aos poucos.

As pessoas a olhavam com estranhamento e já não ficavam por perto. Temiam sua queda.

Então a árvore, envelhecida, mutilada, abandonada e sedenta, pediu compaixão aos céus.

Suas preces foram ouvidas.

O sol se recolheu, respeitoso que era, e uma chuva fina, agradável, leve, começou a cair.

As folhas foram se lavando, os galhos ficaram úmidos, as raízes restantes se encharcaram. As lágrimas da velha árvore desciam aos borbotões pelo tronco, junto com as gotas da chuva.

Quando anoiteceu, a natureza silenciou. E a velha árvore se curvou sobre si mesma, deitando no solo mansamente, onde repousou sua ramada. Estava morta.

Les flammes à Notre-Dame de Paris

Hoje não dá para escrever.

O coração chora e alma soluça ao verem o grande incêndio destruindo Notre-Dame de Paris.

Quantas missas, quantos passeios.

E quantas lutas ela assistiu…

Quantos seres ela abrigou com seus segredos…

Paris perde hoje seu mais importante símbolo, o monumento histórico mais visitado do mundo.

Diz Actualités, de l’Agence France-Presse:

Le feu, dont la gravité restait encore à déterminer, a pris dans les combles de la cathédrale, monument historique le plus visité d’Europe, ont indiqué les pompiers. Selon le porte-parole de Notre-Dame, l’incendie se serait déclaré aux alentours de 18H50.

Cet incendie intervient au premier jour des célébrations de la Semaine sainte qui mène à Pâques, principale fête chrétienne.

Environ 13 millions de touristes visitent le bâtiment chaque année.

Triste dia, que jamais será esquecido. Como não chorar ao ver a agulha caindo no meio das chamas, tombando a Catedral de dor, sobre si mesma????

Triste, muito triste. Tragédia na História da humanidade. Ela nos acolhia desde o ano de 1.200… 

 

 

Lições do mar

Uma vez – era 1º de janeiro de 1986 – eu resolvi nadar da praia até a escuna,  nas imediações de uma ilha, dispensando o barquinho de transporte. Fui. Sozinha. Os grupos de nado já tinha ido mais cedo.

A certa altura minha cervical travou – imediatamente o braço esquerdo “morreu”. Eu tenho uma lesão que paralisa o lado esquerdo, desde que meu pescoço ficou embaixo de um caminhão, aos 18 anos.

Eu tentei mais duas ou três braçadas. Só o direito respondia.

Eu sabia que se forçasse muito, a perna esquerda também paralisaria. Já era acostumada com o problema.

Respirei fundo para clarear as ideias e dominar o pânico – se você apavorar e engolir água, vai ficar ali para sempre.

Virei de costas e comecei a boiar. Bem solta, leve, achando bom.

Era céu e mar. E eu.

Fui rodando com a marola, para me localizar.

A praia estava muito longe. Não daria para voltar.

O barco estava muito longe. Não daria para alcançar.

Então eu fui me posicionando numa linha reta e o local onde uma família – mãe e duas crianças pequenas, que não podiam voltar nadando – esperava na praia pelo barquinho de resgate.

E ali fiquei. Uns vinte minutos até meu pessoal, que já estava no barco, notar que eu não estava mais nadando e precisava de socorro.

Só uns vinte minutos.

Mas, sozinha, deitada sobre o mar e coberta pelo céu, eu era o nada, o nada-do-mais-profundo-nada no meio de duas imensidões – o mar e o céu, quando então o tempo toma outra dimensão.

Vinte minutos são a eternidade.

Sobrevivi.

Estou aqui.

Outra pessoa, não mais a que entrou no mar e ficou vinte minutos aguardando um escaler para resgate.

Conclusão:

Aprendi, em vinte minutos, que não se luta com a vida. Mas, pela vida, ainda que permanecer imóvel e calma seja a única chance possível de vitória.

Sou a única responsável pela minha vida e pela minha sobrevivência. Ninguém pode lutar por mim.

O que vida me manda, aceito com alegria.

Se for amargo, bebo de uma vez e esqueço.

Se for doce, saboreio em pequenos goles, para durar mais.

A vida é o que é. Reina absoluta até que a morte nos resgate.

(Foto de Maria Alice)