A grandeza do silêncio

Hoje apenas repasso uma mensagem recebida:

 

A Grandeza do Silêncio

 

O silêncio é doçura:

Quando não respondes às ofensas,

Quando não reclamas os teus direitos,

Quando deixas à Deus a defesa da tua honra.

 

O silêncio é misericórdia:

Quando te calas diante das faltas de teus irmãos,

Quando perdoas sem remoer o passado,

Quando não condenas, mas intercedes em segredo.

 

O silêncio é paciência:

Quando sofres sem te lamentares,

Quando não procuras consolação junto aos homens,

Quando não intervéns, esperando que a semente germine lentamente.

 

O silêncio é humildade:

Quando te apagas para deixar aparecer teu irmão,

Quando, na discrição, revelas dons de Deus,

Quando suportas que tuas ações sejam mal interpretadas,

Quando deixas os outros a glória da obra inacabada.

 

O silêncio é fé:

Quando te apagas, sabendo que é Ele ( Jesus ) quem age…

Quando renuncias às vozes do mundo para permanecer na Sua presença…

Quando te basta que só Ele te compreende.

 

O futuro de todos nós

L’avenir c’est ce qui dépasse la main tendue. (Louis Aragon)

 

O que significa de verdade Depois, Amanhã, Futuro? 

Vivemos em função do futuro, do depois, do amanhã, do que há de vir e do que há de ser. Que desconhecemos. Às vezes nem acontece, pois acabamos antes que o futuro chegue. 

Mas se não tivermos essa ideia de futuro, não dá para viver, ficaria tudo sem sentido, seria terrível viver se só existissem o hoje e o ontem. 

Então vivemos em função de algo que desconhecemos, não atingimos, não enxergamos, o abstrato mais absoluto. Se pudéssemos, nem que fosse por um só momento, uma única vez em toda a existência, afastar a cortina tênue mas indevassável que esconde o que está à frente e espiar um mínimo que fosse do nosso futuro… 

Veríamos talvez dias ensolarados e floridos, amores bem resolvidos, paixões bem vividas, bonança e alegria. 

Também poderíamos ver choro e ranger de dentes… 

Agora que caminho entre o outono e o inverno de minha existência, vejo o quanto tenho para olhar para trás, e que nunca me foi dado ver uma hora, um segundo sequer do que há de vir. 

Tenho milhares de lembranças – principalmente boas, porque minha memória seletiva não me deixa fixar muitas recordações amargas, somente aquelas necessárias para não repetir erros passados – e com elas recheio o edredon que há de me agasalhar quando chegarem as horas derradeiras. 

Como não posso nem poderei conhecer o que virá depois, levo comigo a luz de muitas lembranças e algumas saudades para iluminar o caminho, que não sei onde vai dar, não sei onde vou chegar. Mas continuo firme, caminhando adiante, indo ao encontro desse amanhã que nunca chega. 

E tecendo abstratamente conceitos sobre o desconhecido, vou imaginando o que é amanhã, o que é futuro. 

Quando o novo dia nasce deixa de ser amanhã para se tornar hoje. 

Quando pensamos que chegamos no futuro, vemos que ele na verdade é o presente, e muitas vezes já é passado… é tentar segurar fumaça, reter água, guardar neve… 

A grande certeza da vida é a morte e o grande enigma é o futuro. Que nunca chegará.

Poeta

–  Onde você vai, poeta?

–   Vou buscar inspiração.

–  Para que, poeta?

–  Para escrever meus versos, não deixar a poesia morrer.

–  E onde tem inspiração para buscar?

–  Não sei. Vou procurar.

–  Procurar, onde?

–  Vou andar pelas ruas com olhos de criança, ver em cada pessoas um amigo, em cada lágrima uma tristeza, em cada mão um pedido.

Vou andar pela praia, ver em cada onda um grito, em cada gaivota uma fuga, cada pedra um descanso.

Vou subir a montanha, ver em cada árvore uma súplica, em cada monte um aviso, em cada regato um bálsamo.

Depois vou olhar para o céu, ver em cada nuvem um presságio, em cada pássaro uma paixão, em cada estrela um esplendor.

Se nada disso me inspirar, vou então buscar um amor, um amor de muita paixão, muita densidade e muita intensidade. E quando perder esse amor, o sofrimento que vou experimentar fatalmente me trará muita, muita inspiração. 

E assim o poeta se foi, não encontrou inspiração, nem amor… e sua poesia morreu.

Sem fome

 

A beleza que seduz poucas vezes coincide com a beleza que faz apaixonar. (José Ortega y Gasset

 

Vejo as esquálidas modelos da semana da moda de São Paulo. Sei que fotos e câmaras “aumentam” visualmente o equivalente a uns cinco quilos. Então constato que elas são ainda mais magras do que aparentam.

Que crueldade essa ditadura da magreza extrema. 

Para elas, que sonham com o estrelato das passarelas e se submetem a exigências antinaturais, que contrariam a própria essência de sua humanidade, que é a total negação do prazer do paladar. 

E também cruel para todas nós, as outras. Porque vivendo uma vida normal, em um mundo onde há abundância de comida, cômodos meios de conservar essas comidas – já não temos medo da seca nem do inverno, porque sabemos que nosso alimento não faltará mais, não atravessamos épocas de escassez nesta parte do mundo, o que é uma conquista do homem do XXº – é totalmente impossível, se formos saudáveis, mantermos essa magreza.  

No século XIX o norueguês Knut Hamsun escreveu o livro Sult (Fome), uma história sobre um jovem escritor sem teto, incapaz de arranjar trabalho e morrendo de fome vagando pelas ruas da Christiania (atual Oslo). Apesar de suas roupas estarem em farrapos e de sua aparência famélica, ele consegue manter sua dignidade e seu toco de lápis. Durante a narrativa ele vaga pelas ruas da cidade e eventualmente tem seus artigos publicados por jornais locais. Percebendo a queda de seus cabelos e já não mais conseguindo manter no estômago suas poucas refeições duramente conseguidas, ele acaba indo como marujo num navio russo a caminho da Inglaterra. 

Enquanto você lê esse livro tem remorso de se alimentar. A fome do protagonista é tão aguda, tão doída, que faz você se sentir mal por não compartilhar tamanha privação. E mostra a crueldade da fome, e a luta do jovem para não perder sua dignidade em razão da total falta de recursos e perspectiva.

Mas nós, cidadãos do século XXI, habitantes de um país onde a comida não falta, temos motivo para passar fome, somente porque os organizadores de desfiles de moda endeusam os esqueletos e detestam as carnes? 

A extrema magreza ou é fruto de doença ou de privação de alimentos. Não é natural. 

Então porque fazermos moda para cabides de arame (nem podem ser equiparadas aos gordinhos cabides de madeira) que se movem? 

Sei que os trajes ali mostrados não servem para a rua, mostram tendências, idéias e delírios de criadores inventivos. 

Mas o festival de ossos pontudos não atrai. 

Da mesma forma as fotos femininas em revistas – nunca, jamais, teremos aquela perfeição. Porque mesmo aquelas mulheres ali retratadas não a possuem. 

Antigamente era fita crepe e retoque a caneta. Hoje, mais práticos, os photoshops da vida se encarregam de criar uma perfeição virtual. 

E as mulheres, em sua grande maioria, se desesperam, frequentando massagistas malucas, clínicas clandestinas de cirurgias plásticas, se deformando e até perdendo a vida em busca de uma perfeição inatingível e inexistente. 

Será que não sabem que os homens não diferem celulite de estria, gordura localizada de celulite, e assim por diante? Veem o conjunto da obra, mas não analisam centímetro a centímetro o material? Na verdade, o carrasco são as outras mulheres, essas sim, que se comprazem em enxergar defeitos nas outras. 

Uma mulher normal – nem gorda, nem magra, sem excessos – que se ama e se aceita, sensual sem vulgaridade, alegre e de bem com a vida é atraente por natureza. 

A excessiva preocupação com a aparência somente tem gerado, de um lado, infelicidade para as mulheres, e de outro, lucros astronômicos para homens e mulheres que se aproveitam desse desespero. 

Por isso, quando surgem nas passarelas aquelas mortas-de-fome pálidas e com cara de infeliz, preparo minha taça de frutas com uma generosa porção de sorvete, e aproveito as noites do verão para curtir esse prazer. Sem medo de ser feliz.

De cinema

O último voo

Muitas vezes sou positivamente surpreendida a assistir a algum filme do qual não tinha informação nem recomendação.

Há algum tempo assisti ao Le denier vol, de Karin Dridi. Embora com roteiro um pouco fraco, a história é ótima por si mesma – a busca da aviadora Marie Vallières de Beaummont, no Saara francês, pelo aviador Willian Lancaster, a qual ali desapareceu em abril de 1933 quando tentava bater um recorde no voo entre a Inglaterra e a África do Sul, voando por sobre o deserto.

Fiel à história, o filme tem fotografia maravilhosa, o que não é fácil em um cenário que é pura areia…

                                 

Esse filme é digno de ser assistido e nos leva a uma questão: até onde deveremos agir por amor ou paixão; e desde que ponto esse agir se torna obsessão?

O final, surpreendente, não decepciona, porque a vida é como ela é e não como queremos que ela seja…

O tempo

 

A tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem. (Oscar Wilde)

 

 

A tela continua branca, depois de uns dez minutos que aqui estou.

Se escrevesse à moda antiga diria que a folha continua branca. Os pensamentos voam, não necessariamente junto com o tempo.

Porque o tempo voa de forma ordenada, com a lógica cronológica… Os pensamentos, pelo contrário, voam desordenadamente, vão, voltam, somem, outros surgem, como papéis soltos em uma ventania.

É exatamente isso: uma ventania.

Acho que mais que uma ventania minha mente enfrenta um tornado, um furacão.

E assim fica difícil agarrar um único pensamento, laçá-lo como um cavalo selvagem, domá-lo para finalmente o expor.

Nenhuma ideia passa perto o suficiente para ser então apreendida.

São sensações dos novos tempos, da vida moderna.

Recebemos simultaneamente milhares de informações, não temos tempo hábil para processá-las. Nossa memória superficial não recebe a faxina necessária para separar o que não precisa guardar e se livrar disso e enviar para a memória profunda tudo o que precisa ser arquivado.

Usamos melhor nosso computador do que nosso cérebro, ignorando que o computador é burro, sem nosso cérebro ele nada vale.

Enquanto estou aqui escrevendo minha mente vagueia por preocupações, serviços por fazer, tarefas não cumpridas, montando mirabolantes agendas inexequíveis, indagando se acharam o avião que sumiu no mar, se vai fazer frio no final de semana, preciso ir ao supermercado, quero acabar um colete de tricô para usar ainda neste inverno…

Para viver de acordo com este tempo tão curto levantamos cada dia mais cedo, vamos dormir mais tarde, e nem por isso o tempo rende mais.

E nesse roldão envelhecemos sem perceber. Por vezes um acontecimento extra nos tira dessa confusão e nos damos conta de quanto tempo passou desde a última vez que… saímos para dançar; visitamos uma querida prima idosa; fomos caminhar lentamente sábado à tarde à beira-mar tomando um sorvete de casquinha, … ou saímos para dirigir pelo puro prazer de dirigir, ou de moto só para pilotar, indo a lugares próximos, pitorescos, para encontrar um grupo de amigos também em passeio sem nenhum propósito que não seja passear, numa demonstração explícita e assumida de deixar o tempo passar.

São singelos prazeres que já não nos permitimos, porque não podemos perder tempo.

O tempo não nos pertence, não está em nossa posse, por isso não podemos perdê-lo. O tempo pertence ao tempo, e não passa, apenas gira.

Nós é que passamos.

E com toda nossa pressa, com toda nossa eficiência, passaremos, e o tempo, brincalhão e gozador, continuará girando indefinidamente em redor dos homens que tentam inutilmente segurá-lo.

(07/06/09)