
Espaço para Raul Minh’alma

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Não vejo a vida como as estações do ano, terminando com o triste inverno depois do longo outono. Prefiro medir a minha vida pelas floradas anuais.
Tudo se repete com tanto ritmo, até nos faz pensar que vivemos repetidamente a mesma história. Não há um novo ano, mas o mesmo ano se repetindo indefinidamente enquanto vivemos…
No início, a profusão dos verdes – muita chuva, gramados, samambaias, heras, os intensos verdes contrastando com o azul forte do céu.
Então o calor se acalma e vêm a temporada das quaresmeiras em flor. A cidade coberta de tons de rosa, desafiando os olhos para conseguirem enxergar tanta beleza.
Em seguida, a explosão das flores das paineiras, outros tons róseos, que desaguam em uma neve branca cobrindo calçadas e praças quando a paina se liberta e é levada pelo vento.
De repente, entram os ventos de agosto – intensos, por vezes violentos, e a bandeira nacional se completa com o verde fazendo fundo para a profusão dos ipês amarelos colorindo lindamente a paisagem.
Os caminhos e gramados se tornam amarelos com as flores ali espalhadas.
Vão-se os ventos, vai-se agosto e irrompe setembro – o tão esperado setembro.
Explodem os ipês brancos, as calçadas se tornam uma sucessão de flores brancas, a vista descansa, sabendo que logo as chuvas retornarão – quanto mais secos os meses anteriores, mais linda a florada do ipê branco, que anuncia abundância de chuvas nos próximos meses.
A natureza se recolhe, pela seca prolongada. As flores se exibem, desesperadas para chamar a atenção e então receberem água.
Os ipês se despedem de suas flores, alguns ipês rosados resistem. Mas todas as flores se vão, tingindo as calçadas.
E começa a beleza ímpar, o arrebatamento dos flamboyants nas praças e nos canteiros de avenidas.
Originário do distante Madagascar, atingindo até 12 m de altura, com diâmetro da copa muitas vezes superior a esse número, traz a sombra para nosso calor tropical e enche de alegria nossos olhos com suas flores de fortes tons.
Realmente seu nome é adequado à sua florada – pois as flores flamejantes nos lembram exatamente o fogo ou as chamas de uma fogueira.
E vejo as mesmas ruas, agora vestida de tons alaranjados, avermelhados, tudo misturado dando a impressão de que as árvores se curvam sob flores em chamas.
E o calor avança, tropical e violento, e as flores rasteiras voltam a dominar a paisagem, desenhando os caminhos, colorindo os lugares, antes que tudo volte aos verdes originais, enquanto aguardam a próxima florada das quaresmeiras…
(Imagem: banco de imagens Google)

Recomece mesmo se os seus pés cansarem.
Mesmo se o seu coração estiver sem forças, mesmo se os seus olhos lacrimejarem.
Recomece mesmo com medo do futuro e com receios por já terem ferido o seu coração.
Tenha certeza que vai dar tudo certo.
Ame seus detalhes, ame ser você.
Porque ninguém além de você vai entender os seus calos e as suas cicatrizes.
Então, é você por você, não espere nada de ninguém.
Faça sempre por você. Se valorize, se ame.
Porque pra fazer parte da sua vida tem que entender que é preciso profundidade.
Recomece não pelos outros, mas sim, porque você merece que entendam o quanto você é uma pessoa corajosa e extraordinária.
(Imagem: banco de imagens Google)

Não sei se faz bem pensar muito. Ou esse meu estranho hábito de pesar, analisar, classificar e arquivar tudo é um vício a ser combatido? E o que é pior: isso não é feito no sentido estritamente racional, mas com o agravante das emoções. Por isso a vida machuca. O existir dói tanto.
Rapida ou lentamente os dias – pétalas do tempo – se desprendem e vão deixando a tristeza de um tempo já passado, mas não necessariamente vivido. E tudo se arquiva nos escaninhos do pensamento.
Como o sabor de um doce já acabado, o gosto procurado em vão nas memórias trazidas nos inúteis alforjes invisíveis que carregamos vida afora.
A vida é tão curta, tão frágil e sem sentido, que nos perdemos tentando segurá-la ou prolongá-la, ignorando a grande verdade: não depende de nós.
E o pensamento nos persegue, nos tortura, durante todo nosso existir. Não há como interrompê-lo. Assim como respirar, pensamos 24 horas por dia. E não conseguimos sequer domar os pensamentos. Quantas vezes tentamos afastar alguns, que insistem, como se fossem incômodas moscas, a voltear em nossa cabeça. Mas eles voltam. E, comodamente se instalam como obsessões, para torturarem sem piedade.
Imaginamos controlar o pensamento com técnicas de meditação e outras invenções. Mas na primeira obsessão vemos que nada foi domado. O pensamento domina a mente, a vontade, a alegria de viver. Alguns problemas se destacam e se sobrepõem a tudo, deixando-nos cegos a tudo o mais. Tornam-se o centro do viver e minam a vida hora após hora.
A espiral do pensamento toma conta do instante presente e aniquila o futuro.
Como seria bom desligar o pensamento por algum tempo, como se apaga a luz ou se desliga um celular para que não incomode! Ficar algumas horas ou mesmo alguns dias sem pensar.
Não pensar absolutamente nada. Ficar exatamente como um aparelho desligado.
E, nesse tempo, não pensar, não sofrer, não doer…
(Imagem: banco de imagens Google)


Agosto. Mês das pipas. Com tanto vento sempre foi o mês preferido dos pipeiros. Esperávamos ansiosos os dias de vento para então empinarmos nossos papagaios e sonharmos nossos sonhos de altos voos.
Agosto, chamado também de mês do cachorro louco. Até hoje não encontrei nenhuma explicação no mínimo razoável para essa crendice boba.
Agosto, mês do desgosto. Seja por ser a data de partida das caravelas, na época das grandes navegações, seja por uma sucessão de infaustos acontecimentos políticos que se deram coincidentemente nesse mês, seja pela passagem da constelação de Leão, que se tornava visível nessa época e os romanos temiam que fosse um dragão que passeava no céu… mas nada comprovado que esse mês traga mais gosto ou mais desgosto do que os outros onze meses do ano…
Nada tenho a favor ou contra o mês de agosto. Mas, não nego, esse mês me desperta um prazer especial – ver os ipês em flor.
Apaixonada que sou por plantas em geral, o ipê ocupa um lugar especial em minha predileção.
Assim, quando fiz minha primeira casa, plantei dois ipês amarelos marcando o caminho que levava à piscina. E, no fundo da casa, oito ipês, alternando roxos e amarelos, ao longo da calçada.
E esperava, ansiosa, as primeiras floradas de agosto.
Dia 1º de agosto era aniversário de minha mais que querida Maria Hortencia (quanta saudade, quanta tristeza desde aquele trágico dia 21 de maio).
Ela passava na minha casa para o café – servido no balcão da cozinha, seu lugar preferido – e para conferir se o ipê havia florido em homenagem a seu aniversário.
Ainda que uma singela florzinha, no dia 1º de agosto, um dos ipês do jardim amanhecia com seu ponto amarelinho e assim homenageava a aniversariante.
Era o presente de aniversário da Maria Hortencia.
Depois de sua precoce partida os ipês amarelos continuaram a homenagem. Todo dia 1º de agosto amanhecia com a primeira flor aberta no ano. E a saudade dela doía mais fundo nesse dia, no abraço que não podia ser dado.
O tempo passou. Primeiro ela se foi para o outro lado do espelho. Depois de algum tempo, fui embora da cidade, passados alguns anos, os ipês também morreram.
Ainda há agosto, ainda há ventos. Mas já não empino pipas nem tenho ipês no quintal.
(Imagem: banco de imagens Google)