Poetas

Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos. (Cora Coralina)

 

O que faz de um ser humano um poeta?

A tristeza? As adversidades? As dores dos amores não vividos ou não correspondidos?

O que desperta esse ser poeta?

A beleza? O amor? A natureza?

Já dizia o Poeta (poeta, só o Poeta, assim, com artigo definido e letra maiúscula é Vinicius de Morais) que ninguém é poeta por saber rimar…

E não é mesmo. Para fazer rima basta um dicionário.

Para ser poeta é preciso muito, muito mais…

Mais que um dicionário, um papel e um lápis.

Mais que um grande amor, muita paixão e a saudade doída da separação.

E um sentimento humano tão grande, tão maciço, que sufoca, não deixa respirar e faz chorar.

Pode ser que com tudo isso surja um poeta. Mas mesmo com tudo isso e ainda mais, muitos não se mostram poetas.

Não sabem ver a beleza da flor que virá quando olham um simples botão; nem prever o brilho das estrelas antes do anoitecer.

Não sabem ouvir a voz dos anjos nem o pranto não chorado dos que sofrem calados.

Não veem em cada ser à sua volta uma criação divina, à imagem e semelhança do Pai.

E, principalmente, não soltam os freios do próprio sentir, mantendo em cárcere privado o próprio amor, afundados em egoísmo.

Esses jamais serão poetas.

Porque poetas olham para a terra bruta e enxergam o jardim que poderia ser.

Olham a poça d’água e pensam na infinidade do mar. Olham para as pedras e sonham montanhas.

E, mais que tudo isso, vêem com os olhos do coração, o qual mantêm solto, sem freios nem rédeas, ao acaso da sorte e ao sabor das paixões.

Por isso vêem outro mundo na nossa realidade, e nos levam aos píncaros das emoções, despertam sensações indescritíveis, fazem-nos sentir a alma como as cordas retesadas de um violino.

A beleza de sua produção é diretamente proporcional ao sofrimento que experimentam. Porém alguns, em face de uma grande dor, num momento de ternura e raiva destroem toda sua produção e nunca mais escrevem. Muito triste quando isso acontece.

Na felicidade nada conseguem expressar.

Há poetas da vida, das palavras, dos sons, das cores… porque há poesia em tudo, em cada esquina, em cada parede, em cada face. É preciso ter olhos especiais de poeta para enxergar.

E para quem não enxerga, há os poetas, que podem ver e traduzem a todos a beleza e a dor que veem e que sentem.

Por isso são imortais, centenas de anos se passam, mas a poesia é presente, é viva e não morre jamais.

Abençoados sejam os poetas.

(obs. – escrito aos 18/04/09 , antes de me descobrir ou de me assumir poeta…)

No escuro

Hoje está difícil. Depois de uma mais-que-típica segunda-feira, com direito a DOIS períodos de espera em consultórios médicos, para agravar a situação, agora estamos no escuro. Breu total.

Daí a dificuldade, reverter a conexão do computador para bluetooth e usar o celular como roteador pelo acesso pessoal. Mas não ficarei sem postar por causa de uma dificuldade qualquer.

Para quem não sabe,em parte do meu tempo, eu moro em uma cidade chamada Ribeirão Preto. A porta do inferno de calor.

Aqui só há duas estações no ano, bem definidas: verão e inferno. Atualmente estamos no verão. Daqui uns quarenta dias começará o inferno.

Bem, agora no começo da noite, começou a chover. E, como sempre quando chove nestas cidadezinhas de interior, acabou a energia elétrica. Nunca morei em nenhum lugar (e olhe que já me mudei 23 vezes de cidade) – em que tivesse tanto problema de energia. Progresso à moda ribeirão-pretana, tipo rabo de cavalo – cresce para baixo. E não é tempestade nem chuva de verdade. Garoão desgraçado e raios.

Uma chuvinha que está aumentando a sensação de estufa e afastou qualquer possibilidade de vento. Estou derretendo. Detesto calor. Se não estivesse caindo tanto raio, colocaria uma chaise na prainha da piscina e iria dormir dentro da água.

Mas, por coincidência, formatei e editei um conto hoje – O causo da grande noite.

É uma batalha entre a noite e a escuridão. Gosto da noite. Da quietude e da solidão confortáveis que só a noite me traz.

Gosto do escuro. Há uma vela no chão, lá no canto do quarto, porque meu marido não é adepto da escuridão. Mas eu sou. Tenho olhos de gato e enxergo no escuro. Não preciso de luzes.

Agora só espero que com tanta tecnologia, um discípulo de São Carrier invente um ar-condicionado com bateria solar. Porque ou eu digito ou uso a mão para me abanar com um leque…

Amor 37 anos depois

Ganho de brinde uma revista – “TODOS”, em uma farmácia.

Leio tudo que tem letra – leio até sopa se o macarrão for de letrinhas. Então começo a ler a revista. Interessante. Vários depoimentos, superação, histórias de pessoas tipo “gente como a gente”.

Aí vem a reportagem da capa “A emoção do reencontro”.

É a história de Rosângela e Hugo. Foram namorados, noivos e, sem explicação, ela terminou tudo. Sofreram separados. E assim permaneceram.

Cada um seguiu sua vida, tiveram seus casamentos, suas separações.

Um dia, já sozinho, Hugo liga para ela e pede para conversarem. Quando se encontram, a antiga paixão explode. Eles voltaram a sentir o mesmo da juventude. E finalmente, 37 – trinta e sete – anos depois, eles se casaram.

Penso a respeito disso que li. A historia se repete, com variações, como um tema musical.

Vejo que algumas vezes, mesmo devastados, com o coração em farrapos, temos de seguir adiante, deixando o amor/paixão para trás. E, aos trancos, voltamos a viver.

Chegamos ao ponto de ignorar completamente nosso passado, negar o amor que sentimos e simular novo amor, nova paixão, ter outros relacionamentos.

Mas, no íntimo, sabemos que deixamos – bem lá atrás – uma porta aberta. Deixamos de propósito ou por um lapso da paixão.

E essa paixão não vivida nos assombrará nas madrugadas frias e nos momentos de solidão. Mesmo assim a negaremos.

Feliz quem um dia volta a olhar nos olhos de quem tanto amou a vida toda. Como nesse caso de Rosângela e Hugo, que voltaram a se encontrar 37 anos depois da separação.

E se deram uma segunda chance e são felizes.

Que surpresas a vida guarda para cada um de nós?

Livros e mais livros

Olho à minha volta e vejo livros. 

Livros no escritório, livros na sala, livros na mesinha de  cabeceira no quarto…(e na cozinha alguns livros de culinária). Moro em mais de uma casa, e, ao todo, são milhares de livros. Que sempre fazem falta na casa em que não estão. 

Além de ler preciso TER os livros. Preciso de sua forma, seu cheiro, seu toque, sou altamente viciada em livros. Por vezes leio um livro, fico em êxtase, volto à livraria para comprar mais cinco e seis para dar de presente. 

E, com alguma apreensão, volta e meio tenho notícia a tentativa da limpeza étnica que pretendem fazer com relação aos livros, substituindo-os pelos – atualmente – e.books – já houve outros nomes, em tentativas que não deram certo. 

Ainda menina nova assisti a um filme aterrador: Fahrenheit 451. Esse é o grau de destruição na escala Fahrenheit, e era sobre uma sociedade totalitária onde a leitura era proibida e os livros queimados. Saí do cinema em estado de choque, só de pensar que um dia poderia vir a ser verdade (quantos filmes de ficção hoje são pura realidade?), e havia no filme a terra dos homens-livros, que decoravam os livros e pretendiam republicá-los quando não mais fosse crime. 

Nunca me dediquei a decorar um livro (não decoro nada – de tanto ler algumas poesias ficaram gravadas em minha mente, como seres vivos que ali se alojaram, mas não por esforço de decorar) – porque decorar um livro não me satisfaria – preciso do livro de papel para segurar, para sentir. 

Quando estou terminando um livro que tenha particularmente me agradado, de preferência grosso, começo a sentir uma nostalgia do livro que se finda, da saudade que terei dos personagens que ficarão dentro daqueles papéis depois que o fechar e o devolver à estante.

Por isso sofro só de pensar em uma sociedade onde não mais teremos livros de papel, mas maquininhas de leitura. 

Não sobreviverei. Tenho certeza.

Insanidade

La jalousie est le plus grand de tous les maux, et celui qui fait le moins de pitié aux personnes qui les causent. La jalousie nait toujours avec l’amour; mais elle ne meurt pas toujours avec lui.  (François de la Rochefoucauld)

 

Porque um dia se encantou com um olhar, se apaixonou. E porque uma vez se apaixonou, sentiu amor.

Aquilo que imaginava fosse sentir amor gerava necessidade de cuidar, de mimar, de estar sempre junto. E assim passou a se dedicar inteiramente a esse sentimento. E acreditava que muito amava.

E porque cuidava passou a se sentir dono. Tinha o dever de zelar e o direito de vigiar, de limitar, de controlar.

E assim, por acreditar que isso era amor, passou a ter ciúme.

Sem perceber que o ciúme não é amor, que se adonar não é amar, que amar não é estar apaixonado. Confundiu tudo.

Era uma sede insana de dominar. Que começou a minar a paixão, destruir o amor.

Precisava se sentir no comando. Tinha de ser obedecido.

Seu sentimento endureceu no ódio. Que nasceu do ciúme.

Subitamente percebeu que não havia mais paixão. Que não havia mais nada. Que seu ciúme pusera tudo a perder.

Enlouquecido, resolveu matar o que pensava ser amor. E aquela que o personificava. Agora só lhe restava se matar também.