Dia do abraço

 

Recebi, hoje, várias mensagens referentes ao “dia do abraço”.

Eu nem sabia que existia um dia do abraço. Sempre pensei que abraços fossem dados diariamente, gratuitamente, por prazer e com alegria.

Mas, descobri que há um “dia do abraço”…

Há pessoas que eu queria tanto abraçar e delas receber um abraço.

Mas aquele tipo de abraço que envolve, acarinha, aconchega, dá paz e vontade de nunca mais sair dali, de tão gostoso que é.

Pessoas que abraço sempre e gosto de abraçar.

Pessoas que nunca mais abracei, mas tenho muita saudade de abraçar e ser abraçada.

Aquele momento único dentro de um abraço, quando os corações se encontram e batem dentro do mesmo compasso, dizendo um ao outro: “ estou aqui, estou com você; pode contar comigo”.

Sempre achei que o abraço foi uma das maiores descobertas – ou invenções? – da humanidade. Nada é tão confortável quanto um abraço de verdade, dado com emoção.

Só uma coisa me preocupa: pode-se abraçar nos outros dias do ano, ou só hoje?

Anotações de viagem _ Pompeia

11/01/2011 

 

Pompéia! Um sonho de infância conhecer Pompéia e o Vesúvio! 

Valeu a pena sonhar tanto, porque é maravilhoso estar neste lugar. 

Chuvisca, nada que atrapalhe o caminhar pelas ruelas desta cidade tão interessante.       

A erupção foi no ano 79 d.C. e já havia fast foods em Pompéia. 

Importante porto marítimo da época, cidade de comerciantes e tripulações variadas, vendiam comida pronta em lojas. Algumas resistiram ao tempo. Moderno, não? 

           

O curioso é que a lava do vulcão não atingiu a cidade para destruí-la. Apenas a intensa nuvem de cinzas a atingiu e cobriu, matando as pessoas asfixiadas.             

Os corpos permaneceram na posição em que as pessoas estavam, buscando fugir da chuva de cinzas ou ao menos proteger o nariz para conseguir respirar.            

                

 A cinza se solidificou e a cidade permaneceu adormecida – literalmente adormecida sob as cinzas do vulcão.  

No fim do século XVI, ao ser aberto um canal de irrigação no vale do rio Arno, ao escavarem sob o monte Civita foram descobertas algumas construções soterradas. 

Posteriormente no ano de 1748 começaram a investigar o que existiria no local, sob patrocínio do rei Charles de Bourbon, de Nápoles. 

Depois de cerca de quinze anos de investigações chegaram à conclusão que se tratava da lendária Pompéia, que teria existido de verdade. Somente em 1864, sob a batuta do arqueólogo Giuseppe Fiorelli todo o trabalho foi terminado e surgiu a encantadora Pompéia, silenciosa, preservada e trazendo farta história. 

E ali passamos quase um dia, visitando casas – desde as mais simples até a mais suntuosa que está aberta, com seus mosaicos, várias salas e inúmeros dormitórios, uma das únicas da época a possuir dois jardins, o que mostra a opulência de seu proprietário. 

Voltei no tempo, recordando os livros que já li sobre o fim de Pompéia. 

Vi um pouco de seu povo, que morto por asfixia, teve seu espaço vital preservado sob as cinzas, possibilitando fosse o corpo moldado em cera líquida, vários corpos expostos, mostrando a posição em que foram surpreendidos pela morte. 

As pedras das ruas de Pompéia… testemunha de um tempo passado que não voltará.

As placas de ruas com sinais, em razão do afluxo de marinheiros de muitas línguas que ali permaneciam esperando embarque… 

         

E a luminosidade única da cidade que um dia o vulcão, tão lindo, tão imponente e aparentemente inofensivo, pensou conseguir aniquilar…

Dia de poesia

Sem energia elétrica em pleno século XXI – e sem nenhuma previsão de volta do fornecimento, só tenho o celular para postar.

Esse belíssimo poema é de Konstatin Simonov, poeta russo e correspondente de guerra.

 

Espera-me e eu voltarei,

mas espera-me muito.

Espera-me quando cair a neve

e chegarem as chuvas tristes,

quando chegar o calor,

não deixes de esperar.

Espera-me, quando já

ninguém esperar e se tiver

esquecido já o ontem.

Espera-me mesmo que as cartas

não cheguem de longe.

Espera-me quando todos

estiverem já fartos de esperar.

Espera-me e eu voltarei,

não ames – peço-te –

quem repetir de memória

que é tempo já de olvidar;

mesmo que mãe e filho julguem

que eu não existo mais.

Deixa que os amigos, ao lume,

se cansem de esperar e bebam

vinho amargo em memória de mim.

Espera-me e não

te apresses a beber com eles.

Espera-me e eu voltarei,

para que a morte se encha de raiva.

O que nunca me esquecer

dirá talvez de mim: coitado, teve sorte.

Jamais compreenderão

aqueles que jamais esperaram.

Tu é que me salvaste do fogo.

De como sobrevivi

saberemos tu e eu,

porque simplesmente me esperaste,

como ninguém me esperou.

(Konstantin Simonov)

O burro filósofo

Hoje trago um texto de Humberto de Campos, que considero interessante…

 

O burro filósofo

                               Olhando a campina imensa, que se estendia diante dos seus olhos resignados, trocavam ideias, naquela tarde, entre as cercas daquele pequeno quintal da fazendo, um cavalo e um burro.

                               – Não sei porque – dizia este – mas eu gosto desta prisão. Aqui eu tenho tudo: palha, repouso, água e, uma vez ou outra, o pequeno esforço de uma viagem, que nem ao menos me fatiga.

                               – Pois eu – opinou o cavalo, mastigando um punhado de capim, que lhe dançava na queixada – eu não penso assim, dessa maneira. Para mim, o essencial é essa ventura de correr pelas campinas, medindo, com as minhas patas, a extensão das várzeas enormes…

                               – São opiniões… replicou humildemente o burro

                               – E cada um deve respeitar as opiniões alheias… tornou o cavalo.

                               Momentos depois, entrou no curral um homem calçando botas de montaria. Trazia na mão um rebenque. Chegou, meteu um cabresto na cabeça do cavalo, puxou-o para fora, selou-o, montou-o e partiu.

                               À tarde, continuava o burro a comer a sua palha, quando o cavalo entrou no curral. Vinha suado, cansado, humilhado.

                               – Foste passear? – perguntou-lhe o asno.

                               – Fui. Dei umas voltazinhas por aí.

                               – E que tal?

                               – Excelente. A campina estava tão bonita…

                               – Foste até a lagoa?

                               – Não; não pude.

                               – Por que?

                               – Ora, por que? Porque o homem que ia montado, puxava a todo o momento, as rédeas, dando-me direção inteiramente contrária àquela que eu pretendia.

                               O burro soltou um relinchozinho perverso e disse:

                               – Aí está em que um cavalo se parece com um homem. A liberdade é seu sonho; e, no entanto, quando se diz livre, é exatamente quando mais sofre a tirania do cabresto, do rebenque e da espora!

                               E baixou a cabeça filosoficamente sobre o monte de palha.

(Humberto de Campos)

Poesia para o sábado de chuva

Sábado, carnaval, MUITA chuva e visitas… para não falhar no propósito de postar 100 dias seguidos, mas, também, sem tempo para escrever, preencho o post com uma de minhas poesias favoritas: Duas Almas… que me encanta desde sempre…

Duas Almas

(Alceu Wamozy)

 

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,

Entra, e, sob esse teto encontrarás carinho:

Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

 

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada

E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,

Entra, ao menos até que as curvas do caminho

Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

 

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

Podes partir de novo, ó nômade formosa!

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…  

Momento

Pousou na mansidão que envolve o amanhecer

Sem tristeza nem alegria, no silêncio simples da manhã

Trouxe em si o doce perfume que evoca lembranças

E mostrou que para tudo há um novo recomeço

O amor, vestido de paixão, bateu à porta

E em ondas desordenadas passou a ocupar o espaço

Como um vento confundiu todas as coisas e

Numa lufada espantou tudo o que era triste, tudo

O que não era mais, tudo o que deixara de ser

Como se fosse uma estrela, ou um satélite

Seguia, encantada a teu redor: esperava, adivinhava até,

A tua chegada – planeta maior, com vida própria, em

Constante movimento, arrastando tudo pelo caminho.

Sabendo ser passageiro, não me preocupei em prender-te

Apenas dei o espaço necessário para um descanso

No aconchego gostoso de um encontro quase impossível

Quando então a natureza amiga se aquietou e permitiu

A imobilidade do momento eterno que se fez

Entre teu chegar e teu partir

Silêncio pelo menino morto

Esse texto foi escrito em 03 de setembro de 2015. O mundo já esqueceu… 

 

O menino deitado na areia

Adormeceu

Espera por seu pai

De quem se perdeu.

O menino deitado na areia

Fugiu de sua pátria

Fugiu da guerra e do horror

Fugiu da fome e da violência.

No vento frio da noite

Segurava na mão de seu pai

O menino deitado na areia

Tinha pai, tinha mãe e irmão.

No vento da noite o balanço do mar

No frio da noite as ondas imensas

No escuro da noite seu corpo no mar.

Não viu onde foi seu irmão

Não ouviu mais a voz de sua mãe

Não achou mais a mão de seu pai.

E as ondas do mar levaram o menino

E o deixaram na beira da praia.

Adormecido ali ficou o menino.

O pequenino na areia da praia.

Rostinho virado de lado não viu

A cem metros estava seu irmão

Deitado na areia da praia

Dormindo na beira do mar.

Não mais se deram as mãos

Não mais se viram os rostos.

O menino deitado na areia

Deixou um planeta chocado

Sacudiu o conforto de todos

Arrancou lágrimas de dor

Porque não brincava o menino

Não aproveitava a alegria da praia

O menino deitado na areia

Fugindo do horror e da guerra

Não dormia o menino na areia:

Estava morto o menino

Deitado na areia da praia

Morrera nas ondas do mar.