Tristes memórias

Naquele dia “12 de abril de 1945” eu vi meu primeiro campo de horrores. Ficava próximo à cidade de Gotha. Nunca fui capaz de descrever minhas reações emocionais quando encarei pela primeira vez a evidência inquestionável da brutalidade nazista e o desrespeito cruel a qualquer senso de decência. Até então eu só conhecia aquilo em termos gerais ou através de fontes secundárias. Estou certo, no entanto, de que jamais, em qualquer momento, experimentei uma sensação de choque igual. Visitei cada canto e esconderijo do campo pois senti que era meu dever estar em posição, a partir de então, de testemunhar em primeira mão sobre aquelas coisas, caso em algum momento surgisse a crença ou hipótese de que “as histórias de brutalidade nazista foram apenas propaganda”. Alguns integrantes da equipe de visitação foram incapazes de prosseguir com o suplício. Eu não só o fiz como, assim que retornei ao quartel-general de Patton naquela tarde, mandei mensagens a Washington e Londres requisitando que ambos os governos enviassem instantaneamente à Alemanha um grupo aleatório de editores de jornal e grupos de representantes das legislaturas nacionais. Senti que a evidência deveria ser apresentada imediatamente aos públicos americano e britânico de uma maneira que não deixaria lugar para dúvidas cínicas.

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A evidência visual e o testemunho verbal da fome, crueldade e bestialidade foram tão esmagadores que me deixaram um pouco enjoado. Em um determinado cômodo, eles haviam empilhado vinte ou trinta homens nus, mortos de fome, e George Patton não foi capaz nem de entrar. Ele disse que ficaria enjoado se o fizesse. Eu fiz a visita deliberadamente, com a intenção de ser capaz de dar um testemunho em primeira mão dessas coisas caso no futuro surja uma tendência em atribuir essas acusações à mera “propaganda”. (Dwight D. Eisenhower, Comandante Supremo das Forças Aliadas)

Hoje, 27 de janeiro, é o dia dedicado à lembrança dos horrores da Segunda Guerra. Fixado nessa data, na qual, no ano de 1945, os soviéticos libertaram os prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. 

Mas não um dia de comemoração. Porque nada há a ser comemorado. Só muita lembrança triste. Opressiva.

Convivi com sobreviventes de alguns desses lugares. Chorei todas as vezes em que ouvi suas histórias.

Um traço comum entre todos era contar a história diversas vezes e mostrar o número tatuado no braço, como se tivessem medo que não eu não acreditasse. Eu sempre acreditei. Essa página horrível da história sempre me tocou profundamente, como se eu tivesse participado de tanto sofrimento.

E os relatos eram sempre assemelhados – crianças, ainda, levados com a família, não sabiam para onde estavam indo. Não havia nenhum tipo de divulgação do que viriam a sofrer, a que seriam submetidos. Ao chegarem, as famílias eram separadas – homens para um setor, mulheres para outro. Era a última vez em que se viam.

A maioria relata que a mãe não aguentou muito tempo, morrendo logo, de fome, fraqueza ou doenças ali existentes.

Outros relatam que sobreviveram porque eram os mais jovens da família e viram o pai / a mãe / irmãos ou irmãs mais velhos morrerem ou serem mortos.

Quando da chegada dos aliados, esses sobreviventes (sobreviventes?????) foram encontrados em condições indescritíveis, de acordo com seus salvadores.

Por isso 27 de janeiro não é dia de comemoração.

É dia de recolhimento, meditação. De pensarmos como a humanidade pode assistir a tal horror. E lutarmos para que o holocausto não seja esquecido e muito menos negado, e sempre lembrado nesse dia dedicado à memória das vítimas.

Marian Turski, 93 anos, judia polonesa sobrevivente, nos adverte : ”Auschwitz n’est pas tombé du ciel soudainement, Auschwitz trottinait, marchait à petits pas, se rapprochait, jusqu’à ce qu’il arrivât ce qui est arrivé ici” (Auschwitz não caiu do céu repentinamente, Auschwitz trotou, andou a passos pequenos, aproximou-se, até que aconteceu tudo o que aconteceu aqui), e termina suplicando aos políticos, poderosos e ao povo: “Não sejam indiferentes!”

Nunca estaremos totalmente livres de outro regime de horror. Mas se não negarmos que já existiu, se estivermos alertas aos primeiros passos (desde a abjeta substituição da bandeira de um país pela bandeira de um partido político nas manifestações públicas, por exemplo), unidos no bem e em nome do bem, conseguiremos evitar se repita.

Mas – volto a afirmar – hoje não é dia de comemorar nada, exatamente nada.

Da depressão

Quero ser forte o bastante para enfrentar as dificuldades do meu caminho, sem me tornar tão injusto a ponto de ignorar a dor das outras pessoas. Quero viver com plenitude cada momento que me ofereça conforto, sem deixar de dar a devida atenção às pequenas coisas da vida ou de ser grato por tudo que já me aconteceu de bom. Quero urgência na realização dos meus sonhos, sem que para isso eu venha a me transformar num ser egoísta e capaz de destruir os sonhos alheios só para atingir os meus objetivos. Quero que o amor seja o centro do meu universo, mas também quero que o meu universo seja o centro do amor de alguém. A paz interior se resume na arte de ser feliz e permitir que a nossa felicidade se espalhe por onde quer que a gente passe. Quero fazer do tempo o meu principal aliado, pois a vida é como uma linda poesia que se escreve um dia após o outro – por mais que seja bela, ela sempre há de terminar num esperado derradeiro e inevitável ponto final. (Coach Bueno)

 

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Esse rapaz – Roberto Bueno, mais conhecido como Coach Bueno – aparentava ter a vida que milhões de brasileiros sonham. Mudou-se para Flórida, nos Estados Unidos,  e lá conseguiu sucesso e dinheiro. Em dólares. Era personal trainer de ricos e famosos, lapidando corpos e angariando amizades. Esse texto acima foi sua última postagem. Outubro de 2019. Depois se suicidou.

Atônitos, todos se perguntaram – por que?

Ele “levantava o astral” de todos, postava mensagens ultra positivas, sempre tinha uma palavra para animar as pessoas. Cuidou de tantos, mas quem cuidou dele?

Essa é a triste realidade da depressão: poucas pessoas entendem a doença e menos pessoas ainda conseguem lidar com a situação e dar a assistência e o suporte que o deprimido necessita. Há muita depressão por aí que sequer é notada pela própria família do doente. Só quando chega nos últimos degraus da doença.

Sim, a depressão é uma doença. Não só psíquica. Mas física. O doente simplesmente não consegue sair sozinho. Necessita ajuda médica – de psiquiatra, medicamentos, apoio familiar e mesmo psicoterapia. Não sou da área, falo como observadora.

Justamente o apoio familiar é o que costuma faltar. No início, sem entender o que está acontecendo, os familiares passam a acusar o deprimido de estar desanimado, preguiçoso e coisas assim. Quando ele desaba, começam as besteiras – reza que passa, você precisa se animar, você precisa reagir… como se dependesse da vontade dele superar a crise.

Quando quase tudo está perdido, entendem o que está acontecendo e o levam ao médico. Começa o tratamento. A família respira aliviada – agora vai!, dizem todos.

Vai, vai se matar. Porque assim que começa a reagir aos remédios e tomar as rédeas da vontade, ainda se debatendo num buraco negro, vendo um horizonte que é do tamanho da boca do buraco, acredita que a única saída é morrer – e criou energia suficiente para isso.

Como o mundo está despreparado para lidar com a depressão! Deveria existir curso para as famílias dos deprimidos entenderem o que é isso e do que ele precisa.

A começar de vigilância – isso mesmo, mais que companhia, vigilância – 24 horas por dia, sete dias por semana.

Não é companhia para ver tv, conversar, nada. Apenas alguém “de olho” no doente.

E muito carinho, muita atenção, na forma de cuidados – mantendo-o alimentado, higienizado, acordado e prestando atenção em suas reações. E, quando começar a reagir, mais atenção ainda. É hora de convencê-lo a sair ao ar livre, caminhar um pouco, mas sem forçá-lo a nada.

É complicado? É. É difícil? É. É massacrante para quem fica nessa função? É.

Mas é a única forma de trazer de novo à vida quem afundou na depressão.

E, no dia em, já recuperado, ele voltar a sorrir, todo o esforço terá sido recompensado.

Dia de Vinicius de Moraes – A rosa desfolhada

 

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa

Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado
Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão, jogado

E em cada canto
Teu desencanto, tua melancolia
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia

E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia
Do fato consumado

Silenciosa ficou a rosa
No chão despetalada
Que eu com meus dedos, tentei a medo
Reconstruir do nada

O teu perfume, teus doces pelos
A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada

para ouvir e conferir:

 

Copos vazios

Colocou os dois copos sobre o granito frio da pia. Não conseguiu se afastar, ficou ali, como em transe, olhando para os copos vazios.

Delicadamente correu os dedos pelas bordas. E sentiu o cheiro do fim da bebida que ainda havia no fundo do copo.

Dentro de si também ainda havia o perfume do que se fora, de tudo o que sonhara, de um passado que agora estava definitivamente terminado. Quando o viu chegar não conseguiu conter uma alegria dentro do peito, acreditando que tudo voltaria a ser como antes. Não havia razão para se separarem. Mesmo ele estando errado, ela já o perdoara. Era mais importante mantê-lo em sua vida.

Conversaram muito. Ele admitiu que errara, que não devia ter se comportando como um moleque inconsequente, a ponto de destruir uma relação tão bonita. Estava visivelmente arrependido. Ela via crescer sua sensação que voltariam a ficar juntos.

Porém, a conversa tomou outro rumo.

E ele disse que nesses dias separados, pensara muito em tudo o que aconteceu, o que esperava ou não da vida, que na verdade repensara toda sua vida. E tomara uma decisão definitiva.

Estava indo embora.

Resolvera aceitar uma proposta que já pairava em sua vida há algumas semanas.

Portanto, viera apenas para se despedir porque não queria ir embora como quem foge. Não estava fugindo. Apenas recomeçando.

Terminou o whisky, deu-lhe um abraço e se foi.

Restaram na sala um coração cheio de dor e dois copos vazios…

De saudades e esperanças

Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades ou de esperanças. (Camilo Castelo Branco)

                         

Desafio do dia: interpretar essa frase, gravada acima, do grande escritor e poeta português, dirigida aos poetas.

Já registro, de início, que concordo, em parte, com o poeta lusitano.

Quem tem alma vazia de emoções ou cheia de materialismo, jamais conseguirá compor um único verso de uma estrofe.

Saudades e esperanças – exatamente o que alimenta a alma dos poetas.

Mas daí surge a dúvida: por que Camilo Castelo Branco diz “saudades ou esperanças”?

Ter saudades é incompatível com ter esperanças? Por que não saudades E esperanças?

Nesse particular eu discordo do talentoso escritor.

Sou poeta.

E minha alma é plena de saudades e de esperanças.

Porque ter só saudades, sem ter esperanças, fatalmente levará à desesperança. Que é mais que o simples desespero que causou o trágico fim do poeta português.

Isso porque a saudade nos isola, tira a realidade, deixa-nos sós, à beira do precipício.

A saudade, composta apenas de ausência, é o maior tormento de uma alma.

É o nada ao qual nos apegamos para não morrermos de desespero. Quando não resta mais nada, vem a saudade ocupar os espaços abandonados em nosso ser.

E se formos apenas saudade, não teremos outro futuro senão mergulhar no escuro vazio à nossa frente.

Mas, se ao lado da saudade, mantivermos a chama da esperança, tudo muda.

Porque a esperança é o oxigênio que mantém acesa a última vela no escuro do coração.

A função da esperança é manter vivas as brasas sob as cinzas da saudade; alimentar a vontade de viver.

Esperança é o fio que nos prende à vida e impede que nos lancemos no precipício do desespero, do abandono, da saudade.

Somente a esperança nos faz sobreviver à derrocada da solidão e da saudade.

Ouso, então, Poeta, por mais que respeite seu legado – por minha experiência de escrever, eu também, meus versos, e trazer a alma inundada de saudades e algumas esperança – corrigir sua frase: “Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades E de esperanças”.

O ciúme

Dorme ponte, Pernambuco, Rio Bahia

Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta

E se viu ferido justo na garganta

Que nem alegre, nem triste, nem poeta

Entre Petrolina e Juazeiro canta

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Sobre toda estrada, sobre toda sala

Paira, monstruosa, a sombra do ciúme

(Caetano Veloso)

 

Jalousie

Gelosia

קנאה

Eifersucht

Ljubomora

ζήλια

Celos

Zorgojn

غيرة

Féltékenység

Jealous

ねたみ

Cemburu

Ревность

Žárlivost

Kıskançlık

Isso é apenas uma amostra. O monstro destruidor de vidas existe em todos os cantos do mundo, em todas as línguas, em todos os povos.

Junto com a paixão, acredito que seja o sentimento mais devastador da alma humana.

Enquanto a paixão eleva o ser à potência máxima do prazer e da felicidade, o ciúme o rebaixa ao último degrau da indignidade, destruindo quem sente e quem é o objeto dele.

Quando se ouve – estou morrendo de paixão, temos diante de nós um ser humano encantado por outro ser. Mas se ouvir – matei por paixão, esse ser vil está mentindo. Matou por ciúmes. Ninguém mata por paixão.

E o que é exatamente o ciúme?

Para François de La Rochefoucauld, « O ciúme, o receio de deixar, o medo de ser deixado, são as dores inseparáveis do declínio do amor.”, enquanto Ivan Teorilang o define como “um dos mais infelizes sentimentos inerentes ao ser humano. Ele magoa, fere, destrói e mata, e se pode ter estas características, como associar isso ao amor?”.

Afirma o professor Eugenio Mussak que “não é errado sentir ciúmes.”, sendo que existem dois tipos de ciúmes, o externo e o interno, sendo o externo aquele que a pessoa dá causa, mediante provocação da outra pessoa, enquanto o ciúme interno decorre da própria insegurança ou falta de autoestima. E que “errado é transformar o ciúme em uma compulsão irracional”.

Na minha amadora e modesta opinião, não são dois tipos de ciúmes.

Quem se relaciona com uma pessoa vil que se dedica a despertar o sentimento do ciúme, e não põe um ponto final, simplesmente não tem autoestima. Não se ama. Ou seja, não há ciúme externo.

O ciúme é só interno. Nascido da insegurança, falta de autoestima, sentimento de inferioridade. Uma pessoa que na infância foi alvo de muita exigência, muitas críticas, ou agressões, quando adulto não terá ferramentas para desenvolver a autoestima suficiente para ter segurança em relacionamentos amorosos.

E esse sentimento de inferioridade com relação aos outros seres do mesmo sexo o fará imaginar sempre que está “perdendo” para o outro. Seja na posição social, seja, no desempenho profissional, seja no relacionamento pessoal com outras pessoas.

O ciúme é como a forte enxurrada – destrói tudo o que encontra pela frente. Arrasta a dignidade dos envolvidos. Acaba com o relacionamento. Deixa um rastro de sofrimento atrás de si.

Tudo, na maioria das vezes, gerado por uma ideia, uma simples suposição.

O ciumento se afunda na própria insegurança e começa a ver o que não existe. Parte de falsas premissas e obtém resultados equivocados.

Vive envenenado e envenenando. Até conseguir arrebentar a outra pessoa, que acabará por se afastar como autopreservação. Então dirá: “Eu estava certo. Estava sendo traído.” E ponto final.

Não há cura para o ciúme nem antídoto para um relacionamento que o ciúme já envenenou.

O relacionamento acaba – seja pela destruição física, seja pela derrota emocional do outro. E o ciumento terá o destino de viver sozinho, porque ninguém é obrigado a aguentar esse inferno que o ciúme traz consigo.

Se o céu é para todos, a ninguém é dado ter um inferno particular, só para si…

Inferno

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate

Diz o grande poeta Dante Aligheri que esta frase está na entrada do inferno – “Abandone toda a esperança vós que entrais aqui”. Não sei se o inferno tem entrada, muito menos se na entrada tem placa. Nem pretendo conferir.

Mas não nego que essa frase é instigante.

Sou movida a esperança. Esperança + perseverança = minha caraterística mais forte.

Poucas vezes desisti de algo. E não é bem desistir. Sou enxadrista. Às vezes chegamos em um ponto que a única saída é deitar o rei. Mas antes todas as tentativas foram feitas, todas as estratégias aplicadas.

Aí diz o Poeta: abandonai toda a esperança… Por que? Talvez porque ele pense que o inferno só tem a porta de entrada. Talvez porque ele vivia em algum inferno e não via saída.

O inferno não é no subsolo da vida nem da morte. O inferno é aqui.

Há pessoas que se especializam em tornar a vida dos outros um inferno particular. E há pessoas que permitem que outras tornem sua vida um inferno.

Aí tem mesmo de abandonar toda esperança se não tiver coragem para romper esse círculo vicioso de dominação.

Mas quem não desiste sabe que até no inferno há de ter uma porta de saída. Uma forma de se livrar das correntes que o prendem lá.

Esse inferno, que acontece nesta vida, e acredito ser o pior de todos, tem sim, uma porta de saída.

E uma palavra mágica que abre essa porta: “BASTA”. É só dizê-la. E não desistir antes e perder a esperança.