Dia de poesia – Pedro Homem de Mello – Não choreis os mortos

Conheça a comovente história por detrás do famoso túmulo do "Anjo do  Sofrimento" - Histórias com Valor | Estátuas do cemitério, Weeping angels,  Estátuas de anjo

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar… guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

(in “Caravela ao Mar”)

(Imagem Pinterest.com)

O perfume das madressilvas

Madressilva Banco de Imagens e Fotos de Stock - iStock

Uma janela não é uma simples abertura na parede. Uma janela pode ser tudo o que quisermos que ela seja – o quadro animado, a fonte de sons, o elo com a vida, o símbolo da esperança…
Foram meses, quase ano, de isolamento social. De dor e tristeza. De muita angústia.
E a janela quase sempre cerrada – não havia utilidade em ser aberta nem diferença em permanecer fechada.
A rua estava sempre deserta, as outras janelas, aferrolhadas. Os jardineiros desapareceram e as rosas não mais floriram. Eu me perguntava: como isso tudo acabará? O que será de nós?
As calçadas, abandonadas, já não eram mais o ponto de reunião e de animadas brincadeiras das crianças do quarteirão. Por isso a janela ficou muito tempo fechada. Era menos triste do que permanecer aberta para o silêncio e o nada.
A vida estava do avesso. E o avesso se tornou o lado certo para se tentar sobreviver.
Até esta manhã. O ruído de rodinhas de bicicletas, e o infalível assovio dos meninos chamando os outros para a rua, logo cedo, deram a ideia de que ainda estamos vivos.
Tímidas, as crianças começaram a chegar, trazendo bolas, boliches, piões e outros brinquedos.
Logo a gritaria se instalou, naquele caos que só as crianças sabem organizar e nele se entendem.
Havia sol na manhã. Abri a janela. Era outra paisagem ou eu já me esquecera como eram as manhãs ensolaradas do lado de fora dessa janela?
Encantada, deixei-me ficar ali por horas, assistindo jogos e disputas. Admirada da resiliência desses humaninhos que não se deixaram aniquilar pela desesperança que dominou os adultos durante a peste. E que voltavam à vida com todo o ardor de quem sempre acreditou.
As mães chamaram para o almoço. E eles se foram. Provavelmente ficaram em casa para os estudos online.
Mas minha janela permaneceu aberta.
Para celebrar a vida. Ainda estamos vivos. Somos sobreviventes desse ano de horror e medo.
Perdemos pessoas queridas. Choramos mortes. Mas nós sobrevivemos.
E de todo esse caos que tivemos de enfrentar, vejo que renasceremos um dia, e esse dia está próximo.
Nunca mais haverá o mundo livre que já conhecemos e vivemos. Os sorrisos – depois que for abolido o uso compulsório dessas horríveis máscaras – não serão os mesmos. Porque as almas entristeceram. A espontaneidade dos abraços dos antigos encontros será substituída por frios acenos distantes. O medo também foi compulsório. E abraçar alguém se tornou perigoso.
A maior morte que enfrentamos nessa experiência foi dos sentimentos. Famílias separadas. Abraços, aconchegos, beijos, proibidos. Encontros desmarcados. E tudo, durante esse ano, se resumiu ao medo e ausência. Tristeza e saudade.
E quem não teve medo foi obrigado, do mesmo jeito, a se isolar. E foi apontado como negacionista, idiota, fronteiriço. Porque a ordem era dominar pelo medo. E sempre que alguém não se curva às imposições, torna-se malvisto. Subversivo. Ignorante do perigo.
Porque é preciso pensar com a manada. E andar no meio da manada. Ou será alvo fácil.
Foi muito triste ver que as pessoas simplesmente aderiram a uma ideia de perigo sem ao menos pensar, avaliar a situação, ter a opção de correr riscos. Apenas se deixaram dominar por uma ideia vendida pela mídia.
E assim um ano foi perdido. Vidas foram destruídas.
Mas aqueles que resistiram, aqueles que serão os primeiros a reagirem na hora determinada, estes terão forças para o recomeço e, quem sabe, até mesmo se tornarem motivação para que outros saiam das ostras e voltem à vida.
Porque haverá vida depois da peste. Disso tenho certeza.
Ainda cantaremos juntos nossas canções e celebraremos a vida que continua com brindes e alegria.
Empresas reabrirão, empregos serão restaurados. E, todos juntos, conseguiremos colocar novamente nossa vida, nossa família, nossa cidade e nossa Pátria de pé.
Todos os dias desses tempos de peste, eu tenho me preparado para o fim dela. Não pensava em me esconder, não receava adoecer nem mesmo morrer. Mas tinha a mente fixa no momento do renascimento, do recomeço.
Quero de volta minha vida nômade. Quero minha praia na manhã ensolarada. Quero minha mesa no bar ao anoitecer.
Cruzar estradas, mares e céu em busca de outros mundos, voltar à vida que sempre tive, sem rotina, sem parada, sem medo de morrer.
Escrever, publicar, discutir – com pessoas e não com letras ou imagens de computador – e ver brotar a vontade de viver e de seguir adiante, construindo um futuro não só para mim, mas para todos os que vêm e virão depois de mim.
Vou deixar meu legado de luta e disposição para ajudar nas mudanças que a humanidade precisa para não sucumbir ao voraz apetite do consumismo nem à falta de liberdade das dominações.
Ainda brindarei com muitos outros resistentes nossa vitória sobre o medo e – mais importante – sobre a dominação pelo medo.
Porque os homens se levantarão e voltarão à vida com a vontade de crescer e de vencer que demonstravam antes que fossem engolidos pela onda de medo que dominou o mundo.
E tenho planos, muitos planos, para recomeçar do ponto onde parei para me recolher nesse isolamento não desejado. Eu sobrevivi. E honrarei o destino que me deixou viver quando tantos sucumbiram, física ou emocionalmente, diante de um vírus.
Assim foi meu dia de renascer, quando tive a certeza de que estamos de volta.
Agora, quando chega a noite com a doçura da lua crescente – símbolo maior da esperança de que virão as noites de lua cheia – é o momento de fechar minha janela. Apenas por uma noite, porque será aberta todas as manhãs. Será aberta pelo simples motivo que estou viva.
Mas hesito a fechá-la: o calor do dia e a brisa do anoitecer ativaram todo o perfume das flores, e fico mais uns minutos com minha janela aberta, para voltar a sentir a delicadeza do doce perfume das madressilvas em flor
.

(Imagem: banco de imagens Stock)

Por que?

Se não era para ficares, por que chegaste tão cedo?

Se era para partires, por que vieste um dia?

Igual uma chuva, tão desejada, mas que não dura,

Porque vem o sol que apaga todos os sinais

Ou um céu estrelado por mais lindo e admirado,

Vem o amanhecer, o dia que a faz desaparecer

Se era para acabar e causar tanta dor, por que começou?

Se era para caíres em seguida, por que alçaste esse voo?

Da mesma forma que as marcas deixadas na areia

São em seguida desfeitas pelas ondas do mar

E os frutos, tão caprichosamente concebidos na natureza

São derrubados e destruídos pelo vento insensível

Se não pretendias amar, por que o juraste em falso?

Se não era para ser amor, por que surgiu esta paixão?

Como nuvens formando as mais lindas figuras

Que não permanecem, somem à primeira brisa?

Tudo que temos são as brancas espumas do mar

Que se desfazem quando se deitam em sua amada areia

Se não era para beijares, por que me deste este abraço?

Se não pretendias me levar, por que me chamaste?

Memórias do blog – há dois anos – Lições do mar

Uma vez – era 1º de janeiro de 1986 – eu resolvi nadar da praia até a escuna,  nas imediações de uma ilha, dispensando o barquinho de transporte. Fui. Sozinha. Os grupos de nado já tinha ido mais cedo.

A certa altura minha cervical travou – imediatamente o braço esquerdo “morreu”. Eu tenho uma lesão que paralisa o lado esquerdo, desde que meu pescoço ficou embaixo de um caminhão, aos 18 anos.

Eu tentei mais duas ou três braçadas. Só o direito respondia. E também sabia que se forçasse muito, a perna esquerda também paralisaria. Já era acostumada com o problema.

Respirei fundo para clarear as ideias e dominar o pânico – se você apavorar e engolir água, vai ficar ali para sempre.

Virei de costas e comecei a boiar. Bem solta, leve, achando bom.

Era céu e mar. E eu.

Pescadores desaparecem no litoral potiguar; apenas a jangada que usavam foi  encontrada | Blog do BG

Fui rodando com a marola, para me localizar.

A praia estava muito longe. Não daria para voltar.

O barco estava muito longe. Não daria para alcançar.

Então eu fui me posicionando numa linha reta e o local onde uma família – mãe e duas crianças pequenas, que não podiam voltar nadando – esperava na praia pelo barquinho de resgate.

E ali fiquei. Uns quinze a vinte minutos, até meu pessoal, que já estava no barco, notar que eu não estava mais nadando e precisava de socorro.

Só uns quinze a vinte minutos.

Mas, sozinha, deitada sobre o mar e coberta pelo céu, eu era o nada, o nada-do-mais-profundo-nada no meio de duas imensidões – o mar e o céu, quando então o tempo toma outra dimensão.

Vinte minutos são a eternidade.

Sobrevivi.

Estou aqui.

Outra pessoa, não mais a que entrou no mar e ficou vinte minutos aguardando um escaler para ser resgatada.

Conclusão:

Aprendi, em quase vinte minutos, que não se luta com a vida. Mas, pela vida, ainda que permanecer imóvel e calma seja a única chance possível de vitória.

Sou a única responsável pela minha vida e pela minha sobrevivência. Ninguém pode lutar por mim.

O que vida me manda, aceito com alegria.

Se for amargo, bebo de uma vez e esqueço.

Se for doce, saboreio em pequenos goles, para durar mais.

A vida é o que é. Reina absoluta até que a morte nos resgate.

(Imagem do banco de imagens da internet)

Dia do beijo, hoje

Hoje, 13 de abril, é comemorado o Dia Internacional do Beijo, (que tanto pode ser comemorado no dia 13/04 quanto no dia 06/07).

Não há nada mais terno, mais gostoso, mais encantador do que um beijo.

Ninguém consegue lembrar todos os beijos que deu ou ganhou na vida.

Mas um único beijo  – ah, AQUELE beijo – esse ninguém esquece.

Anos se passam, mas de repente, num descuido da mente, quando a saudade fala mais alto, aquele beijo é lembrado. Algumas vezes num doce sorriso, outras numa dolorida saudade.

De repente, música que tocava no momento daquele longínquo beijo começa a tocar, e por mais distraído que se esteja, a alma volta voando no tempo e traz de volta aquele toque mágico do beijo inesquecível.

Sinto pena de quem não tem um beijo inesquecível, de quem não tem um beijo para recordar, para fazer sonhar.

Felizes aqueles que levam dentro de si a lembrança desse beijo inesquecível…

Para comemorar essa data, posto aqui textos de diversos autores, que falam sobre o beijo. Começo com o magistral Olavo Bilac:

Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida, 
ou talvez o pior…Glória e tormento, 
contigo à luz subi do firmamento, 
contigo fui pela infernal descida! 

Morreste, e o meu desejo não te olvida: 
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, 
e do teu gosto amargo me alimento, 
e rolo-te na boca malferida. 

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, 
batismo e extrema-unção, naquele instante 
por que, feliz, eu não morri contigo? 

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto, 
beijo divino! e anseio delirante, 
na perpétua saudade de um minuto…

E mais Bilac

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira
E aplaque o meu desejo
Ferve-me o sangue:
Acalma-o com teu beijo.

Mensagem do Poeta - Poesias e Mensagens : 49) - Um Beijo Aapaixonado

E sigo com Dominguinhos:

Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu
É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais

E ainda Martha Medeiros

Foi um beijo… 

foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinquente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca

Lladró: Porcelain sculpture "Passionate kiss" - ars mundi

E Chico Buarque

Soneto

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono…

Beijo apaixonado de French Photographer

Ainda, Adélia Prado

A vida é muito bonita,
basta um beijo
e a delicada engrenagem movimenta-se,
uma necessidade cósmica nos protege.”

E encerro com Augusto Branco:

Te levarei ao inferno
para te dar um beijo ardente
E meus braços queimarão
Ao agarrarem teu corpo em brasa

Quero te ter louca, cálida,densa, inconsequente
Pra viver contigo um romance tórrido eternamente
E exorcizar de mim este sentimento que me abrasa

Te levarei ao inferno 
Pra que tu sejas meu paraíso
Te levarei ao inferno para te dar um beijo ardente…

A um passo da eternidade - YouTube

Há muito, muito, a se falar do beijo. Do abraço, da paixão e da saudade. Mas hoje passei a palavra a outros…

(Imagens do banco de imagens da internet)