Categoria: DeAlice
Dia de poesia – Paulo Leminski

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui
(Imagem: banco de imagens Google)
O preço da verdade (memória, agosto 2020)

Qual o preço da verdade? Por que nunca admitimos nossos erros e nos recusamos a assumir a responsabilidade e pagar esse preço?
Por mais escura que seja a noite, haverá um amanhecer luminoso. E tudo será exposto, tudo será visto, a verdade conhecida e restabelecida.
Não adianta tentar se esconder, como a lua por trás das nuvens, porque o vento a desnudará.
Guardamos dentro de nós comportamentos infantis, como acreditar que se cobrirmos nossos olhos com as mãos, estaremos invisíveis. Mas, nunca estivemos nem estaremos. Há pessoas que mal enxergam o que está à frente dos próprios olhos. Há outras que nem precisam dos olhos para enxergar. Simplesmente sabem o que está acontecendo, captando no ar o que lhe tentam esconder.
Fugir nunca foi solução. Porque sempre se pode fugir. Mas nunca haverá um lugar para permanecer escondido.
E disfarçar a culpa é ainda pior. Porque a cara da criança que quebrou o pote mostra claramente o que aconteceu. Ainda que se tenha tentado esconder os cacos.
Diz-se – com muita propriedade – que se pode enganar alguns por muito tempo, e muitos por algum tempo. Mas não se pode enganar todos o tempo inteiro. É verdade. E, se alguém é enganado, isso não aconteceu porque o outro é mais esperto. Mas porque o enganado acreditou, confiou ou amou demais.
Enganar é apenas se aproveitar da confiança e da boa-fé do outro, e não significa ser mais esperto nem mais inteligente.
Acredito que para ser considerado adulto, o primeiro passo é assumir os erros. Ainda que o preço da verdade seja alto e implique até mesmo em rompimentos sofridos. Mas seria uma forma de se demonstrar um mínimo de dignidade.
(Imagem: banco de imagens Google)
Meu canto

Eu canto
em forma de poesia
Porque meu canto
é minha liberdade
É o voo do pássaro
liberto
Não o canto do pássaro
cativo
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Manuel Bandeira – Último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
(Imagem: IA)
Rotina (memória)

Noite de domingo. Mais uma semana vivida. Menos uma semana para se viver…
E depois de um domingo preguiçoso, sempre vem uma segunda-feira acelerada. Já fico cansada só de pensar.
Quando estamos nos acostumando com o ritmo da semana, chega o esperado sábado. E desaceleramos. Mais um domingo de pura ociosidade. Nunca fui acostumada à vida madraça, mas agora, já na soleira do fim, estou apreciando viver sem muita obrigação. Mesmo assim, ainda acho que estou com muitos compromissos.
Sonho com o dia em que acordarei nos dias de semana sem absolutamente nada para fazer. Nem tirar o carro da garagem. Talvez mesmo nem destrancar as portas. Vaguear pela casa, em silêncio, sem tv ligada, sem ninguém falando nada.
Preparar meu café da manhã em qualquer horário – não fará a menor diferença se me levantar 5h45 ou 10h15.
Deitar para fazer nada até o corpo gritar que precisa se movimentar. Daí preparar alguma refeição – do meu jeito, sem carnes nem gorduras, saborear lentamente e continuar vadiando até a noite chegar. Passar a tarde lendo deitada em uma rede.
Como não sou de ferro, ao anoitecer tomar um bom whisky, na varanda, pensando na vida boa que estou levando.
E assim continuar até ir dormir de novo.
Essa seria minha nova rotina. Mas acredito que vai ficar no sonho, porque minha realidade é bem diferente. Mas, como enfrentar a realidade sem sonhar?
(Imagem: do acervo pessoal da autora)