
Para pensar 46

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


– Quem é você?
– Eu sou a Paixão.
– Onde você mora?
– Na alma dos homens.
– Com quem você vive?
– Hoje eu vivo sozinha, mas antes eu vivia com o Amor. Um dia ele se foi, quando me viu com o Ciúmes. Conheci então a Tristeza, que era mãe da Saudade. Esta me deixou a filha Lembrança, filha também do Encanto.
– Quem são seus amigos?
– Só tenho uma amiga: a Esperança, que é inimiga do Orgulho, que vive com a Angústia.
(Imagem – banco de imagens Google)

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.
(Imagem: foto de Maria Alice)

Na hora de se soltar, chegou a sentir um início de sobressalto. Sabia a loucura que fazia, mas precisava daquela adrenalina. Toda primeira vez era assim.
Seria uma descida presa a mais de 100 metros de altura. Por cima da Serra do Mar. Mais de 500 metros de percurso no ar.
Sua diversão era se sentir solta no ar.
Começou com a asa delta. Daí veio o parapente, o paraquedismo, o sky diving. E, no meio de tudo isso, balonismo, tirolesas. Em criança frequentava um local de treinamento de artistas circenses, e amava o trapézio. Quando se soltava de um instrutor e “voava” até encontrar as mãos do outro treinador em outro ponto, sentia-se plena, dona de si. E ali descobriu que, se não nascera pássaro, voaria como pudesse.
Quando viu a altura dessa tirolesa, deu uma examinada nos itens de segurança – era a maior que já conhecera e sabia que qualquer erro na segurança poderia ser fatal.
Mas foi.
Com a coragem que era sua marca registrada, com a alegria de quem está fazendo o que mais gosta na vida.
E soltou-se. No Voo da Serra. Antes que sentisse qualquer temor, avistou a beleza exuberante e inigualável do verde intenso da Serra do Mar.
E, como por encanto, o mar surgiu à sua frente, com seu azul contra o azul diferente do céu, com seus recortes e sua espuma.
Sentiu que estava viva.
E entregou-se ao prazer de voar…
(Imagem: banco de imagens Google)

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
(Imagem: do acervo pessoal da autora)

Existem duas dores de amor. A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão envolvidos que não conseguimos ver luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.
Você deve achar que eu bebi. Se a luz está sendo vista, adeus dor, não seria assim? Mais ou menos. Há, como falei, duas dores. A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por ninguém. Dói também.
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender. Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um suvenir de uma época bonita que foi vivida, passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação com a qual a gente se apega. Faz parte de nós. Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente e que só com muito esforço é possível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a dor-de-cotovelo propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: eu amo, logo existo.
Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.
(Imagem: banco de imagens Google)