Dia de Poesia – Sophia de Mello Breyner Andresen

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

(imagem: foto de Maria Alice)

Texto de Angela Caboz – É bom sentir saudade

És a prova de que é bom sentir saudades!

A chuva cai lá fora e eu fico aqui, parada a olhar as gotas de água que desenham corações na calçada fria da rua. Olho e sinto o teu perfume na brisa fria que vem de braço dado com a chuva.

Hoje estou saudosista, dirias tu se estivesses aqui ao meu lado. Nesta manhã fria, a tua mão suave e os teus dedos de veludo irias querer secar uma lágrima marota que se soltou de dentro de mim.

Mas, não te preocupes, porque esta lágrima que se perdeu nas curvas das rugas feitas pelo tempo, mas não é uma lágrima triste é tão-somente uma lágrima colorida que espalha na minha memória as cores de tudo o que já vivemos e que eu faço questão de não esquecer. Em cada gota que cai lá fora eu sinto o sabor de cada um dos beijos que já me prometeste e ainda não tiveste tempo de me dar.

Sabes sentir saudades também pode ser bom.

Sentir saudades é recordar-me que tu existes e que me fazes feliz até quando não estás aqui à distância de um abraço.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Álvaro de Campos – Meu coração, bandeira içada (Fernando Pessoa)

Meu coração, bandeira içada
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono, cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração, a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno,
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinge...
Meu coração, algema partida...

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Karla Thayse – Quero te dar chuva de flores

Quero te dar chuva de flores pela manhã.

E quando quiseres podes vir colher sorrisos direto do quintal da minha alma.

Nunca há de te faltar afeto.

E se murchar tua alegria, podes vir buscar uma muda no meu jardim para que a tua floresça outra vez.

Se te faltar o vento, eu te sopro carinho.

E se te faltarem as cores do dia, a gente pinta tudinho com tons de felicidade.

Lá do alto, não te deixarei olhar para baixo e mesmo que escorregues de uma nuvem molhada, eu não te soltarei a mão, não te deixarei cair.

Amizade é isso, teto firme no temporal, água para a sede no deserto, riso para enxugar a lágrima que cai.

(Imagem: foto de Maria Alice)

A Casimiro de Abreu, no seu aniversário

Nasceu em Barra de São João, no Estado do Rio de Janeiro, no dia 4 de janeiro de 1839

Desejo
Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só’ por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria…
— A vida, o céu, a razão!

Dia de poesia – Martin Santos – Como podem?

Como pode alguém obter prazer
Sabendo que está destruindo
Quem deveria defender
E se divirta sorrindo?

Como podem pronunciar frases
Que contradizem suas atitudes
E cruelmente serem capazes
De ao horror chamar virtudes?

Como podem alguns senhores
Que até fingem morrer de amores
Por quem ajudam a matar;
Não se arrepender em algum momento
Nem imaginar que o sofrimento
Também o pode alcançar?!

(imagem: banco de imagem Google)