A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.
Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
A chuva cai lá fora e eu fico aqui, parada a olhar as gotas de água que desenham corações na calçada fria da rua. Olho e sinto o teu perfume na brisa fria que vem de braço dado com a chuva.
Hoje estou saudosista, dirias tu se estivesses aqui ao meu lado. Nesta manhã fria, a tua mão suave e os teus dedos de veludo irias querer secar uma lágrima marota que se soltou de dentro de mim.
Mas, não te preocupes, porque esta lágrima que se perdeu nas curvas das rugas feitas pelo tempo, mas não é uma lágrima triste é tão-somente uma lágrima colorida que espalha na minha memória as cores de tudo o que já vivemos e que eu faço questão de não esquecer. Em cada gota que cai lá fora eu sinto o sabor de cada um dos beijos que já me prometeste e ainda não tiveste tempo de me dar.
Sabes sentir saudades também pode ser bom.
Sentir saudades é recordar-me que tu existes e que me fazes feliz até quando não estás aqui à distância de um abraço.
Meu coração, bandeira içada
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono, cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração, a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno,
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinge...
Meu coração, algema partida...
Nasceu em Barra de São João, no Estado do Rio de Janeiro, no dia 4 de janeiro de 1839
Desejo
Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só’ por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;
Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;
Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;
E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;
E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria…
— A vida, o céu, a razão!
Como pode alguém obter prazer
Sabendo que está destruindo
Quem deveria defender
E se divirta sorrindo?
Como podem pronunciar frases
Que contradizem suas atitudes
E cruelmente serem capazes
De ao horror chamar virtudes?
Como podem alguns senhores
Que até fingem morrer de amores
Por quem ajudam a matar;
Não se arrepender em algum momento
Nem imaginar que o sofrimento
Também o pode alcançar?!