A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Nem tudo é sobre você. Aliás, quase nada é. A vida acontece. As pessoas têm suas próprias dores, pressas e medos. O mundo gira por razões que não cabem na nossa lógica. Nem sempre o olhar atravessado foi pra você. Nem sempre o silêncio foi um recado. Nem sempre a ausência foi pessoal. Às vezes, a pessoa só está vivendo a própria tempestade. Solte o peso que não é seu. Respire. Você não precisa ser o centro da história. Aliás, que alívio não ser.
A mulher que se reconstruiu assusta, é óbvio, porque ela já comeu o pão que o diabo amassou, mas hoje ela escolhe a própria dieta emocional.
A mulher que já foi triturada emocionalmente, e que foi capaz de se refazer não está preocupada em ter alguém ao lado apenas para prestar contas a quem quer que seja. Não mais. Ela é livre, pois quebrou as amarras da busca pela aprovação alheia. Ela se pertence.
Aquela que encontrou o próprio caminho passou a ser guiada pela bússola da própria alma, abandonou os caminhos que não a seduzem. Ela carrega cicatrizes dos espinhos nos quais pisou ao andar fora do seu propósito, mas segue plena, percebendo essas marcas como símbolos de um aprendizado.
A mulher que saiu do fundo do poço entende de humilhação, mas optou pelo perdão aos outros e, principalmente, a si mesma.
Ela aprendeu a se abraçar, a se colocar no colo e a dizer para si mesma: “Não se culpe, você fez o que conseguiu fazer naquela época”. Foi subestimada, criticada e alimentada com migalhas, mas decidiu se levantar do chão, sacudir a poeira e iniciar um novo caminho. Ela experimentou a metamorfose, percebeu suas asas nascendo, deu-se conta de que o chão não é o seu lugar. Contudo, ela mantém os pés no chão, pois sabe que é fundamental saber onde está pisando.
Essa mulher aprendeu que nenhuma companhia compensa se tiver que deixar de ser ela mesma. A liberdade de ser quem é não caiu do céu, foi conquistada ao preço de sangue, e essa conquista não será negociada. Ela não quer guerra com ninguém, apenas sabe o que quer e o que merece.
Se há uma coisa que essa mulher tem de sobra é orgulho de si mesma, então ela não vai pensar duas vezes antes de abandonar situações e pessoas que ameacem o seu sagrado. Ela tem clareza do que pode negociar e daquilo que jamais vai abrir mão.
Uma mulher que se reconstruiu não negocia o seu Sagrado!
Fotos. Que antes eram fotografias. E, antes ainda, retratos.
Em músicas, filmes, romances, sempre há o recurso da foto para voltar ao passado. Seja de forma figurada ou literal dentro da ficção. E, na vida real, fotos são lembranças vivas, fazem o passado sempre presente.
Conseguimos nos desfazer de muitas coisas ao longo da vida, mas não temos coragem de rasgar fotos e jogar no lixo. A não ser algumas, que foram rasgadas com raiva e molhadas de lágrimas.
Assim, vamos acumulando fotos e mais fotos. Álbuns e mais álbuns. E, nos dias de hoje, com a facilidade da foto digital, as temos aos milhares.
Vejo antigas fotos (não as chamo velhas – ou seria eu também velha por as possuir…).
Elas me trazem de volta meus vinte anos. No milênio passado. Não poderei nunca mais ter vinte anos, mas me posso ver nessa idade. E outras pessoas com quem convivi naquela época.
Fico a lembrar de tantos acontecimentos, tanta leveza, uma vida livre e despreocupada.
Meus pais ainda jovens, fortes, nossa casa tão cheia de amigos, nossa vida tão cheia de festas e encontros.
Tudo se perdeu. Tudo ficou nessa caminhada árdua que a vida se tornou de repente.
A memória é algo fabuloso. Deus a deu aos homens para tornar mais leve a realidade. Basta fecharmos os olhos e relembrarmos o que já foi, deixar fluir o pensamento. Reviver os melhores momentos. E, para isso, as fotos são magníficas. Porque não mostram nossa decadência física. Elas nos guardam naquele momento, em que a juventude brilhava em nossos olhos e tonificava nosso corpo.
E Deus foi tão bom com os homens, que, para aqueles que a memória machuca no final da vida, ela se perde na bruma da velhice.
Olho para mim mesma em uma antiga foto. E confiro no espelho com a imagem que me tornei.
E entendo, sim, o que pensava Wilde com seu Dorian Gray…
Quando alguém que amamos deixa este mundo, não é a morte que nos despedaça.
É tudo o que se segue.
A cadeira vazia. As chamadas não atendidas.
Os aniversários que nunca vão comemorar, os sonhos que nunca vão perseguir.
São as memórias que nos aparecem, as músicas que de repente parecem pesadas demais para ouvir.
São as palavras que nunca dissemos e os momentos para os quais pensámos que tínhamos mais tempo.
É passar pelos seus lugares favoritos e perceber que eles não desapareceram apenas — eles não estão em lugar nenhum.
O riso deles desaparece, as esperanças desaparecem, e a vida deles — uma vida ainda inacabada — torna-se uma história que só podemos contar no passado.
Questionamos tudo.
Nós amámos o suficiente?
Poderíamos ter segurado um pouco mais forte?
Mas lá no fundo, nós sabemos: algumas despedidas são escritas muito antes de estarmos prontos.
Quando alguém que você ama vai embora, parte de você também vai embora.
Uma parte que nunca podes reconstruir, um capítulo que nunca podes reescrever.
O que resta é o espaço oco que um dia preencheram – um silêncio que se estende para sempre.
E às vezes, não é a despedida que dói mais…
É a vida que deveria ter continuado – mas não continuou.