
Para pensar 45

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –


Na manhã em que o jardim voltou a se colorir
E as flores, orgulhosas, exibiram suas cores,
Depois daquele longo, frio e cinzento inverno
Tanta solidão, tanta saudade, lágrimas de tristeza
Quando os abraços cessaram e os sorrisos sumiram
Quando as famílias se separaram e a música se calou
As paixões esmaeceram e os amores perderam o viço
O mundo todo se recolheu em angustiado retiro
E as almas, tristes, se amiseraram em desesperança
E além do silêncio, nada mais se ouviu.
Nem gritos de dor nem sussurros de amor
O silêncio, intenso, era concreto e perturbador
Que se confundiu com lágrimas, com amargores
Os jardins, entristecidos, desapareceram
E não havia mais a vibração dos sons nem a das cores
E a esperança desaparecia a cada dia que não nascia
De repente, as raízes da vida e do amor brotaram
E as flores anunciaram a nova estação que chegava
Nessa manhã quando vi tantas cores no jardim
Acreditei que a vida poderia, enfim, recomeçar

Enquanto houver um olhar fixo no ponto por onde chega alguém que tarda, e não vem…

Muitas vezes nos damos conta de que parte do nosso passado teima em ficar escondidinho atrás da cortina da sala da existência, e nos espreita, deixando-se flagrar em sua missão de nos mirar sempre, para incomodar mesmo, para que não a deixemos ir para as brumas do esquecimento, a névoa da confusão em que os fatos pretéritos se misturam em datas, locais, vozes, sabores…
Súbito vêm-nos à mente acontecimentos que há muito julgávamos esquecidos.
Como o cheiro e o sabor das comidas que comíamos aos domingos na casa da avó.
A cor dos papéis que envolveram os ovos de páscoa de nossa infância.
O toque gostoso das tímidas mãos do primeiro namorado.
O peso do material que levávamos à escola diariamente.
E podemos ver as fachadas das casas cuja frente automaticamente percorríamos diariamente e nem sequer as olhávamos. Agora, nítidas, vêm à nossa mente como se as tivéssemos visto ontem.
O cheiro da chuva ao molhar a terra do quintal…
Os sons das músicas que dançávamos – nossa geração dançou muito, novos ritmos, novos modismos, rompendo um sistema secular, e vieram as discotecas, as danceterias, e hoje nossa música, tão moderna, tão “nova” já se perdeu, já ficou para trás.
E tantos amigos que deixamos ao longo do caminho, por mudanças de cidade, por ingresso em faculdades distantes, e aqueles que nos deixaram para sempre…
Então mergulho em tantas lembranças, deixo a saudade inundar minha alma e trago o passado para dentro de minha sala.
Vejo então que muita coisa, na verdade, nunca passou. O passado não é passado. Apenas fatos que colocamos mais fundo nas gavetas da memória, que tantas vezes nos esquecemos de arrumar, mas, em qualquer distração, saltam e vêm nos assombrar, acendendo a luz da saudade…
(Imagem: do acervo pessoal da autora)

E poucas vezes disse “te amo”.
Acanhamo-nos em expressar
Nossas melhores emoções, e de repente
Não podemos mais fazê-lo.
Árvores da mesma floresta,
Nossos ramos se tocaram
Ao sabor dos sopros existenciais.
Flores produzimos, frutos,
Alguns chochos, amargos,
Outros, doces, esplendorosos,
Quando no tempo propício.
Tu sabes, nós sabemos,
Somos assim mesmo, humanos...
Resta um vazio, uma saudade,
Um riso carinhoso de tuas coisas...
Continuas docemente presente
Em meu paraíso emocional.
Beijo tua face, um beijo de energia,
Em minha face sinto teu beijo... de luz.
(Imagem: banco de imagens Google)