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Neste triste sábado…
Foi por nós

Poesia da casa – Doce lembrança

Quando a ausência se materializa
Em forma de profundo silêncio
E a indiferença ocupa todos os espaços
Finalmente você entende.
Entende que paixão foi a fumaça
Que fez de conta que seria amor
Que a brisa a espalhou e apagou.
A brisa que vem de outra presença...
Seu mundo tão rico, tão colorido
Agora se apequena em tons cinzentos
E nada mais adianta nem vale a pena
Da intensa descrença inicial
Nasce a habitual tristeza
E tudo o que não cabe mais na alma
Jorra pelos olhos em lágrimas de sal
A dor, a angústia, o vazio, crescem
E tomam conta do seu ser, da sua vida
E, a cada lágrima que rola em seu rosto,
Uma cicatriz de lembrança surge no coração
Até o dia em que mesmo essa dor
Essa dor, tão cortante, que mora em você,
Tão doída, sofrida e esmagadora
Se torne, ela mesma, em sua existência,
Mais uma doce recordação...
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – Do que é feita a saudade

A saudade é feita de pequenos retalhos
De momentos felizes já passados e vividos
De beijos antigos ainda tão lembrados
De mãos que não nos tocaram, mas desejamos.
A saudade é feita de variados cacos
De recordações de olhos que nos viram
De tantas vozes que já não mais ouvimos
De muitos carinhos que agora já não temos
A saudade é feita de tantas lembranças
de pessoas que não ficaram em nossa vida
De algumas paixões ardentes que já esfriaram
A saudade é feita de todos esses pedaços
de nossa alma que ficaram pelos caminhos
e agora, recolhidos, estão guardados no coração.
(08.12.2019)
(Imagem: banco de imagens Google)
Analisando Alice *

Sempre escutei:– Alice? No país das maravilhas?
E eu ficava muda, muito sem graça, e nada respondia.
Detestei a vida toda essa pergunta. Mas a ouvi milhares de vezes.
E nunca fui muito entusiasta dessa obra. Narrativa chata. Passa do ponto do non sense e por isso logo perdemos o interesse em continuar a leitura.
De um par de anos para cá, resolvi inverter.
– Alice? No país das maravilhas?
E eu respondo: – Eu mesma. A própria. E que maravilhas! Você nem imagina!
E agora o bobo que pergunta fica mudo, sem graça e com cara de idiota.
Analiso Alice – realmente, não tem nada a ver comigo.
Eu nunca fui curiosa (não sou até hoje), nunca entrei em uma toca seguindo um coelho. Posso ter entrado em várias tocas e até tocaias na vida, mas nunca por curiosidade. Por ingenuidade e por vontade, mas não curiosidade.
Talvez me identifique um pouco com o White Rabbit, “Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!”
Mas não tenho o hábito de me atrasar. Sempre fui pontual. Algum atraso foi totalmente involuntário e inevitável. Apenas seria o Coelho Branco no item andar com o relógio – mas, no meu caso, para ter a certeza de NÃO estar atrasada. Embora quase nunca use relógio, afinal, sou uma sem hora.
O Chapeleiro Maluco? Nunca. Ele é meu avesso. Sigo regras, acho correto que tenhamos regras – especialmente as convenções à mesa e para possibilitar que mais de um ser humano permaneça no mesmo ambiente em que estou. Detesto quem tem por regra exatamente quebrar as regras.
A Lagarta? Pode ser em parte. Aceito toda a metamorfose que a vida nos impõe. Acredito que tenhamos de mudar continuamente para sermos sempre nós mesmos. Mas não seria inteiramente esse personagem.
A Rainha de Copas? Bem, não vou negar, tenho alguns pontos em comum com ela – todos sabem que meu pavio é bem curto e que, se pudesse, mandaria decapitar um par de existentes, seria muito bom ter o poder de livrar o mundo de algumas pessoas indesejáveis. Mas também essa Rainha é uma forma fora do meu número.
E nada a ver com os outros personagens.
Vivo num mundo real. Muito real. Tristemente real. Bem mais realidade do que eu gostaria. Minha alma poeta sonha com outro mundo, que crio e recrio para poder enfrentar esse aqui onde nos encontramos.
Mas não vivo no país das maravilhas. Nem vou falar em termos de país, porque atualmente o meu é péssimo.
E, decididamente, não sou a Alice que Lewis Carrol imaginou.
(*) memória
(Imagem: foto de Fabíola Masson)