A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Quem me quiser há-de saber as conchas, a cantiga dos búzios e do mar. Quem me quiser há-de saber as ondas e a verde tentação de naufragar. Quem me quiser há-de saber as fontes, a laranjeira em flor, a cor do feno, a saudade lilás que há nos poentes, o cheiro de maçãs que há no inverno. Quem me quiser há-de saber a chuva que põe colares de pérolas nos ombros, há-de saber os beijos e as uvas, há-de saber as asas e os pombos. Quem me quiser há-de saber os medos que passam nos abismos infinitos a nudez clamorosa dos meus dedos, o salmo penitente dos meus gritos. Quem me quiser há-de saber a espuma em que sou turbilhão, subitamente. Ou então não saber coisa nenhuma e embalar-me ao peito, simplesmente.
Sempre errante, Mergulhada no oceano celeste, Na paz de uma vacuidade fluida, plasticidade líquida… Subitamente capturada Pela gravidade do teu sol. Refém de uma órbita cuja maldição é te perder todos os dias… Quem gira em torno de quem? Tu que nasces nas minhas auroras ou eu que me volto para tuas alvoradas? Não tenho o que me arde. Se escondo, atravessas minhas frestas . Torço para que não apagues. Rezo para que não queimes. Suplico para que me aqueças. Imploro para que me libertes. Pois do bailado orbital Flamejante e castigado A luz é sempre tua. O que me sobra é sombra. E da tua presença amarela O que me resta é cinza.
Qual a mais bela poesia já escrita? – pergunto-me neste dia 21 de março, em que se comemora o Dia Mundial da Poesia.
Quem foi o maior poeta de todos os tempos? Algum famoso, algum anônimo, alguém muito famoso ou um ilustre desconhecido?
Há poesias belíssimas. Poesias feinhas. Poesias emocionantes. Poesias chatinhas… e nem toda poesia é poética… e alguns textos não poéticos que são verdadeiras poesias.
Não existe poeta sem poesia. Mas existe poesia sem poeta.
Porque o poeta apenas transcreve a poesia que existe em algum lugar – dentro ou fora dele.
A poesia está na alma, no sangue, no querer, no sofrer. E está no ar. No mar. Na natureza. Nas relações humanas. Nos sons. Nos céus.
Em todo lugar há poesia. Até na dor.
A ideia de uma Beatriz descendo do Paraíso para pedir ao poeta Virgilio que guie seu amado Dante para fora do inferno já é, em si, uma poesia extrema.
E, depois da peregrinação pelos círculos do inferno, o ingresso e a passagem pelo Purgatório, com encontro de tantos conhecidos, finalmente o Poeta chega ao Paraíso, onde a alma de Beatriz o espera.
O amor de Beatriz o leva à redenção. O que de mais poético do que essa simples ideia?
Isso é poesia.
Exilado, para não ser queimado vivo em Florença, o poeta Dante se retirou para Ravena, onde faleceu e ali está seu túmulo. Entretanto, em Firenze, na lateral da nave da Basílica Santa Croce, foi construído um túmulo para ele, onde se encontra uma escultura que emociona: debruçada sobre a tumba, a Poesia chora a morte do Poeta, em um túmulo condenado a ser vazio…
Os sonetos de Camões. Por obra do fidalgo D. Gonçalo Coutinho, ocorreu a primeira homenagem ao grande poeta, agora já morto: em 1595 mandou preparar a primeira edição da lírica do poeta e ordenou que seus restos mortais fossem transladados para a nave central da Igreja de Sant’Anna, onde repousam sob a lápide com a inscrição “Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos poetas de seu tempo: viveu pobre e miseravelmente e assim morreu. Esta campa lhe mandou aqui pôr D; Gonçalo Coutinho, na qual se não enterrará pessoa alguma”. Depois do desmoronamento da referida Igreja, no terremoto de 1755, seus restos mortais acabaram sendo transferidos para Lisboa, onde repousa no Mosteiro dos Jerônimos, ao lado do túmulo de D. Sebastião. (Fonte: Até que o amor me mate, de Maria João Lopo de Carvalho).
E tantos os poetas, e tantas as poesias.
Neste dia mundial da poesia deixo aqui um soneto, poesia na mais pura forma, escrito pelo insuperável Luís Vaz de Camões, um dos maiores escritores de língua portuguesa e ainda, um dos maiores representantes da literatura mundial, mundialmente conhecido, escrito para usa amada prematuramente falecida:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Ah, esse estranho amor que não se mostra Não se assume, não demonstra Na paixão explícita ele se esconde Quer ser vivido sem compartilhar Recebe com alegria, mas não se dá Que não busca e não se aceita Faz chorar, mas não suporta o pranto Amor estranho como sol entre nuvens Quando surge brilha forte e muito aquece Depois se esquiva e simplesmente desaparece Tão estranho esse amor, como a chuva na praia Como estrelas na tarde ensolarada Tal qual um pôr-do-sol que não precede a noite Um triste rio de água parada Um pássaro com asas temendo voar Ou um barco sem leme que não pode atracar Esse arco-íris interminável de contradições Esse quero-não-quero do medo de querer Do medo de se entregar, esse amor assim inseguro Um amor estranho de tanto medo que tem de amar