
Ama-me,
agora
antes que a palavra chegue.
Toca-me
antes que haja mundo,
Beija-me
antes que comece o beijo.
Despe-me
para que eu esqueça ter corpo.
Devolve-me
o reino onde fui deus.
Ama-me
até não sermos dois.
Ama-me.
E tudo será depois.
Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –

Ama-me,
agora
antes que a palavra chegue.
Toca-me
antes que haja mundo,
Beija-me
antes que comece o beijo.
Despe-me
para que eu esqueça ter corpo.
Devolve-me
o reino onde fui deus.
Ama-me
até não sermos dois.
Ama-me.
E tudo será depois.

A saudade paira no ar como paina depois da florada. Cada um carrega em si suas próprias saudades. Mas o caminho para as possuir é igual para todos – temos de construir as memórias para então surgir a saudade.
Plantamos uma árvore e dela cuidamos com dedicação. Um dia ela amanhecerá florida inundando nossos olhos com tanta beleza. As flores cairão, mas na nossa mente, para sempre, ficará a lembrança da explosão de beleza que nossa árvore nos proporcionou.
Assim é a saudade. Ela só surge depois que fomos felizes. Depois que uma paixão explodiu no peito. Que um amor ardente foi vivido. Não há saudade do triste, do luto, da infelicidade. A saudade fica do que nos tocou no campo das emoções, como cordas de violinos, tirando os sons mais celestiais.
E ainda tem de haver distância. Não temos saudade do que nem de quem está próximo. Precisamos que um tempo se passe desde que tudo aconteceu para que surja a saudade. Precisamos que as pessoas amadas se afastem e se distanciem para então sentirmos saudade.
Feliz de quem tem saudade. Feliz de quem tem do que ter saudade.
(Imagem: foto de Maria Alice)

Sou feita um pouco de tudo!
De pessoas! De lugares! De memórias!
Sou feita do que deixei para trás e sou feita do que vivo no agora!
Sou feita de gente que chegou sem avisar e me encantou!
Sou feita de gente que escolheu ir embora, quando eu precisei que ficasse!
Sou feita de atitudes, porque as palavras já não me convencem.
Sou feita de dores, que transformei em risos e sou feita de gargalhadas que escondem as cicatrizes...
Não esqueço por onde passei, com quem cruzei...
Não esqueço de quem era e de quem sou!
Não esqueço de quem me deu a mão...
E também não esqueço de quem a largou...
Não tenho a pretensão nem a presunção de que todos gostem de mim!
Só quero os meus... As minhas pessoas!
As que me fazem sorrir, as que me aquecem a alma e amaciam o meu coração...
O que deixas no passado, é sempre o que te transforma... É sempre o que te molda...
Não esqueço, mas já não vivo lá!
Passou! Mudou-me! Transformou-me!
Deixou-me mais alerta! Mais esperta!
Quando olho para trás... Agradeço! Pelo bom! Pelo mau! Pelos risos! Pelas lágrimas! Pelas lutas e pelas conquistas! Por quem gosto!
E, Principalmente... por mim!
(Imagem: do acervo pessoal da autora)
Enquanto houver um olhar fixo no ponto por onde chega alguém que tarda, e não vem… (LSS)

Muitas vezes nos damos conta de que parte do nosso passado teima em ficar escondidinho atrás da cortina da sala da existência, e nos espreita, deixando-se flagrar em sua missão de nos mirar sempre, para incomodar mesmo, para que não a deixemos ir para as brumas do esquecimento, a névoa da confusão em que os fatos pretéritos se misturam em datas, locais, vozes, sabores…
Súbito vêm-nos à mente acontecimentos que há muito julgávamos esquecidos.
Como o cheiro e o sabor das comidas que comíamos aos domingos na casa da avó.
A cor dos papéis que envolveram os ovos de páscoa de nossa infância.
O toque gostoso das tímidas mãos do primeiro namorado.
O peso do material que levávamos à escola diariamente.
E podemos ver as fachadas das casas cuja frente automaticamente percorríamos diariamente e nem sequer as olhávamos. Agora, nítidas, vêm à nossa mente como se as tivéssemos visto ontem.
O cheiro da chuva ao molhar a terra do quintal…
Os sons das músicas que dançávamos – nossa geração dançou muito, novos ritmos, novos modismos, rompendo um sistema secular, e vieram as discotecas, as danceterias, e hoje nossa música, tão moderna, tão “nova” já se perdeu, já ficou para trás.
E tantos amigos que deixamos ao longo do caminho, por mudanças de cidade e nunca mais voltaram, por ingresso em faculdades distantes, e aqueles que nos deixaram para sempre…
Então mergulho em tantas lembranças, deixo a saudade inundar minha alma e trago o passado para dentro de minha sala.
Vejo então que muita coisa, na verdade, nunca passou. O passado não é passado. Apenas fatos que colocamos mais fundo nas gavetas da memória, que tantas vezes nos esquecemos de arrumar, mas, em qualquer distração, saltam e vêm nos assombrar, acendendo a luz da saudade… (dezembro, 2010)
(Imagem: foto de Maria Alice)
para ver com tela cheia… (Alone, Together, from Dubrovnik)

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
(Imagem: do arquivo pessoal da autora)