A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.
É esquisito, mas sempre orientei minha vida nesse sentido – o de não ter laços, o da independência, de poder cair fora na hora que quisesse -, e agora ficou tão nítido, aos 34 anos, que realmente consegui isso, fico meio…, desamparado, acho que a palavra é essa. Devia ter inventado outra coisa? Teria sido possível? E que outra coisa seria? Não sei. Estou ouvindo Milton Nascimento que neste momento exato acabou de me dar a resposta: “Se quieres ser feliz como me dices/ no analices, ah, no, no analices…”
Andei escrevendo bastante. De repente, acho que está saindo um livro novo. Sabe que tenho MEDO de escrever? Evito sempre que posso. Dá uma grande exaustão, depois. Uma exaustão agradável, mas a cabeça fica excitada demais, é qualquer coisa muito próxima da loucura. Mas nos últimos tempos não tenho conseguido evitar. Vai saindo. É meio assustador. Passei os últimos meses envolvido com uma pequena novela, “O marinheiro”, tão desesperadamente solitária e tão alucinadamente onírica que eu tinha medo de não voltar cada vez que mergulhava nela. Acho que está pronta. Peguei pânico de máquina e, há poucos dias, voltei.
E você, como vai? Detesto perguntar “tem escrito?”. Soa sempre como cobrança, e quem faz esse tipo de cobrança geralmente não sabe que a cabeça de um escritor é louca demais para que se possa responder “sim” ou “não”. Mesmo que não se esteja escrevendo realmente, a gente está sempre escrevendo por dentro.
A definição de escritor é banal: escritor é quem escreve.
Hoje, Dia Nacional do Escritor, medito sobre ser escritor. Porque não se está escritor – ou se é ou não se é escritor. Não dá para ser mais ou menos escritor. Não é possível ser escritor apenas às vezes.
Escrever está no sangue. Corre nas veias, invade todos os sentidos, inunda nosso ser e somos praticamente obrigados a deixarmos qualquer outra atividade para escrevermos.
Cada escritor tem uma maneira toda peculiar de colocar no papel – ou na tela – suas palavras. São muitas as histórias dos hábitos – alguns bens esquisitos, como, por exemplo, escrever imerso em um barril de água ou uma banheira; só escrever completamente nu; escrever ouvindo trechos de óperas; escrever sentado no chão… – mas, em comum, todos têm a paixão que leva a escrever.
Inspiração. criatividade, fantasia, seja lá o nome que possa dar ao impulso que leva a transmitir, por escrito, algo que se traz na alma, sem esse ímpeto não existe escritor.
Complicado responder quando nos fazem a clássica pergunta: “de onde você tira inspiração?”, porque não “tiramos” inspiração de nenhum lugar.
Apenas, dentro de nós, surge uma ideia ou uma outra pessoa que pede para sair. Precisamos ajudá-la a ganhar a liberdade. Tornar-se um texto – poesia, crônica, conto, romance, qualquer forma de escrito – e lançar-se ao mundo.
Quando temos um romance começado, por vezes o deixamos de lado. Os personagens surgem em nossos pensamentos, ganham vida própria, reclamam que estão abandonados, e temos de voltar ao texto e dar novo impulso. Escrevemos o nascimento dos personagens, mas eles vivem a própria vida e muitas vezes tomam outro rumo totalmente diverso daquele que a princípio imaginávamos que teriam.
Não há dúvida que ler bastante ajuda a ser escritor, mas não faz o escritor. Ter um bom dicionário também é grande ajuda, mas não basta para ser escritor. Escrever é sair de dentro de si e assumir múltiplas personalidades, é mostrar ao mundo seus mais íntimos pensamentos e sentimentos. Desnudar sua alma.
Não é possível tornar-se um escritor. Já se nasce escritor, ainda que não se escreva ou que se demore a começar a escrever. Não há curso, faculdade, apostila, nada que possa levar uma pessoa a ser um escritor. Porque a escrita nasceu dentro das veias.
O impulso de escrever é irresistível. Há uma necessidade física de escrever, não é possível viver com todas as frases, todos os textos dentro do cérebro.
Não é preciso ritual nem preparação. Necessários uma superfície – qualquer uma – e um objeto que a marque. E 26 letras, alguns sinais e pontos. Está pronto o arsenal do escritor.
Porque a escrita, essa não se aprende em nenhum lugar, não tem para comprar, não tem como vender. Vem do ponto mais fundo das memórias, dos sentimentos acumulados, de algum lugar inacessível de dentro do ser. Quando tudo isso excede a capacidade de armazenamento, é preciso escrever.
Escritor é quem tem a sensibilidade de deixar outros viverem dentro de si.
Eu entrei na morada do passado Respirei fundo, vesti o casaco da ousadia Calcei as botas da coragem, e entrei. Demorei enxergar porque não era claro Algumas frestas do futuro, entretanto, permitiam A passagem de fachos de luz e claridade E fui adiante. Com medo. Trêmula. Hesitante. Mas fui. Tentando adivinhar no que pisava e o Que me esperava naqueles cômodos empoeirados Há tanto tempo abandonados, frios e tristonhos Quando meus olhos se acostumaram à luminosidade Comeceia enxergar o que deixara para trás Vi que pisava em sonhos desfeitos e esperanças vãs Tudo transformado em pó e cinzas, mistura de Lágrimas, decepções e dores suportadas Consegui avistar em um canto bastante alegria E toda a antiga felicidade que não sabia Onde a teria perdido Podia até mesmo ouvir as risadas - aquelas mesmas Risadas que nunca mais dei Encontrei, totalmente esquecido, encostado a uma Parede, meu cajado de arrojo E então reencontrei minha antiga intrepidez, Minha bravura, toda a coragem que sempre tive Com ele fui abrindo caminho entre os escombros E assim revi os velhos amores rompidos, As tantas e antigas paixões esmorecidas, Tão acabrunhados de tantas humilhações E ainda a sede do conhecimento, que se perdera Nas obrigações sem fim e correria de cada dia Vi minhas antigas moradias, os sofás onde a família Se reunia para trocar a impressões do dia A velha e imponente mesa de jantar, Com suas cadeiras, toalhas rendadas, E a linda louçaria, todas inesquecíveis E podia quase sentir o cheiro acolhedor da comida De minha casa de infância... De tanto remexer naquelas cinzas, achei até mesmo Uns poucos traços, agora arruinado, da menina leve E feliz - fragmentos do que um dia eu fui E, finalmente, entre tantos destroços, achei, Sob as mesmas cinzas, protegendo com todo cuidado, Uma brasa ainda ardente, sobrevivendo às ruínas, Que não deixara morrer, alimentando com seu calor Uma saudade sem fim, da lembrança que guardei de Você. Mantendo viva em mim a recordação que ficou De tudo aquilo que não pôde ficar.