Dia de poesia – Pablo Neruda – O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres, 
tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 
a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 

A minha luta é dura e regresso 
por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 

Meu amor, na hora 
mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 

Perto do mar no outono, 
o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 

Ri-te da noite, 
do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 

(Imagem: Banco de imagens Google)

Caio Fernando de Abreu – trecho de carta a Charles Kiefer, 1.983

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É esquisito, mas sempre orientei minha vida nesse sentido – o de não ter laços, o da independência, de poder cair fora na hora que quisesse -, e agora ficou tão nítido, aos 34 anos, que realmente consegui isso, fico meio…, desamparado, acho que a palavra é essa. Devia ter inventado outra coisa? Teria sido possível? E que outra coisa seria? Não sei. Estou ouvindo Milton Nascimento que neste momento exato acabou de me dar a resposta: “Se quieres ser feliz como me dices/ no analices, ah, no, no analices…”

                  Andei escrevendo bastante. De repente, acho que está saindo um livro novo. Sabe que tenho MEDO de escrever? Evito sempre que posso. Dá uma grande exaustão, depois. Uma exaustão agradável, mas a cabeça fica excitada demais, é qualquer coisa muito próxima da loucura. Mas nos últimos tempos não tenho conseguido evitar. Vai saindo. É meio assustador. Passei os últimos meses envolvido com uma pequena novela, “O marinheiro”, tão desesperadamente solitária e tão alucinadamente onírica que eu tinha medo de não voltar cada vez que mergulhava nela. Acho que está pronta. Peguei pânico de máquina e, há poucos dias, voltei.

E você, como vai? Detesto perguntar “tem escrito?”. Soa sempre como cobrança, e quem faz esse tipo de cobrança geralmente não sabe que a cabeça de um escritor é louca demais para que se possa responder “sim” ou “não”. Mesmo que não se esteja escrevendo realmente, a gente está sempre escrevendo por dentro.

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(Foto de Maria Alice)

Pelo “Dia do Escritor” – Memória

A definição de escritor é banal: escritor é quem escreve.

Hoje, Dia Nacional do Escritor, medito sobre ser escritor. Porque não se está escritor – ou se é ou não se é escritor. Não dá para ser mais ou menos escritor. Não é possível ser escritor apenas às vezes.

Escrever está no sangue. Corre nas veias, invade todos os sentidos, inunda nosso ser e somos praticamente obrigados a deixarmos qualquer outra atividade para escrevermos.

Cada escritor tem uma maneira toda peculiar de colocar no papel – ou na tela – suas palavras. São muitas as histórias dos hábitos – alguns bens esquisitos, como, por exemplo, escrever imerso em um barril de água ou uma banheira; só escrever completamente nu; escrever ouvindo trechos de óperas; escrever sentado no chão… – mas, em comum, todos têm a paixão que leva a escrever.

Inspiração. criatividade, fantasia, seja lá o nome que possa dar ao impulso que leva a transmitir, por escrito, algo que se traz na alma, sem esse ímpeto não existe escritor.

Complicado responder quando nos fazem a clássica pergunta: “de onde você tira inspiração?”, porque não “tiramos” inspiração de nenhum lugar.

Apenas, dentro de nós, surge uma ideia ou uma outra pessoa que pede para sair. Precisamos ajudá-la a ganhar a liberdade. Tornar-se um texto – poesia, crônica, conto, romance, qualquer forma de escrito – e lançar-se ao mundo.

Quando temos um romance começado, por vezes o deixamos de lado. Os personagens surgem em nossos pensamentos, ganham vida própria, reclamam que estão abandonados, e temos de voltar ao texto e dar novo impulso. Escrevemos o nascimento dos personagens, mas eles vivem a própria vida e muitas vezes tomam outro rumo totalmente diverso daquele que a princípio imaginávamos que teriam.

Não há dúvida que ler bastante ajuda a ser escritor, mas não faz o escritor. Ter um bom dicionário também é grande ajuda, mas não basta para ser escritor. Escrever é sair de dentro de si e assumir múltiplas personalidades, é mostrar ao mundo seus mais íntimos pensamentos e sentimentos. Desnudar sua alma.

Não é possível tornar-se um escritor. Já se nasce escritor, ainda que não se escreva ou que se demore a começar a escrever. Não há curso, faculdade, apostila, nada que possa levar uma pessoa a ser um escritor. Porque a escrita nasceu dentro das veias.

O impulso de escrever é irresistível. Há uma necessidade física de escrever, não é possível viver com todas as frases, todos os textos dentro do cérebro.

Não é preciso ritual nem preparação. Necessários uma superfície – qualquer uma – e um objeto que a marque. E 26 letras, alguns sinais e pontos. Está pronto o arsenal do escritor.

Porque a escrita, essa não se aprende em nenhum lugar, não tem para comprar, não tem como vender. Vem do ponto mais fundo das memórias, dos sentimentos acumulados, de algum lugar inacessível de dentro do ser. Quando tudo isso excede a capacidade de armazenamento, é preciso escrever.

Escritor é quem tem a sensibilidade de deixar outros viverem dentro de si.

Escrever é o transbordar das emoções.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Visita ao passado

Eu entrei na morada do passado
Respirei fundo, vesti o casaco da ousadia
Calcei as botas da coragem, e entrei.


Demorei enxergar porque não era claro
Algumas frestas do futuro, entretanto, permitiam
A passagem de fachos de luz e claridade
E fui adiante. Com medo. Trêmula. Hesitante.
Mas fui. Tentando adivinhar no que pisava e o
Que me esperava naqueles cômodos empoeirados
Há tanto tempo abandonados, frios e tristonhos


Quando meus olhos se acostumaram à luminosidade
Comeceia enxergar o que deixara para trás
Vi que pisava em sonhos desfeitos e esperanças vãs
Tudo transformado em pó e cinzas, mistura de
Lágrimas, decepções e dores suportadas


Consegui avistar em um canto bastante alegria
E toda a antiga felicidade que não sabia

Onde a teria perdido
Podia até mesmo ouvir as risadas - aquelas mesmas Risadas que nunca mais dei


Encontrei, totalmente esquecido, encostado a uma Parede, meu cajado de arrojo
E então reencontrei minha antiga intrepidez,

Minha bravura, toda a coragem que sempre tive
Com ele fui abrindo caminho entre os escombros


E assim revi os velhos amores rompidos,

As tantas e antigas paixões esmorecidas,
Tão acabrunhados de tantas humilhações
E ainda a sede do conhecimento, que se perdera
Nas obrigações sem fim e correria de cada dia


Vi minhas antigas moradias, os sofás onde a família
Se reunia para trocar a impressões do dia
A velha e imponente mesa de jantar,

Com suas cadeiras, toalhas rendadas,
E a linda louçaria, todas inesquecíveis
E podia quase sentir o cheiro acolhedor da comida
De minha casa de infância...


De tanto remexer naquelas cinzas, achei até mesmo
Uns poucos traços, agora arruinado, da menina leve
E feliz - fragmentos do que um dia eu fui


E, finalmente, entre tantos destroços, achei,

Sob as mesmas cinzas, protegendo com todo cuidado,
Uma brasa ainda ardente, sobrevivendo às ruínas,
Que não deixara morrer, alimentando com seu calor
Uma saudade sem fim, da lembrança que guardei de
Você. Mantendo viva em mim a recordação que ficou
De tudo aquilo que não pôde ficar.

(Imagem: banco de imagens Google)